Leitura: Escritos de Iariq, 3k A.F.

Iariq foi um dos Imaima, os quais chamamos altos-djins, que habitou o norte do continente em algum ponto do terceiro milênio A.F., uma rara testemunha que temos da vida e sociedade na Segunda Era, descritiva de djins muito diferentes de nossos arquétipos contemporâneos. Presto-me à transcrição de algumas de suas traduções mais famosas.

(...) Em glórias à Maɣv, a Sagrada Provedora ao Seu Magistrado e ao Altarcado em perfeita jurisdição de suas Armas, em glória do que a que virá no próximo Dia e para sempre, reúno meu conhecimento perante vós para escrever da natureza dos Imaima, de nossa era o povo mais glorioso e temente e puro - que o fogo nunca deixe de fluir por nossos dedos. Diferente dos povos de Dardanos e Ilus nosso sangue corre branco e puro, quanto mais puro clareando de vermelho à cor das Luas, a mais nobre de todas - que nosso sangue nunca deixe de ser viscoso e como mármore, e nunca deixará, sob a graça da Provedora e de Seu Magistrado. Que na guerra deixemos quem pousar os olhos em nós por terra, e que no Dia sejamos reconhecidos, com certeza, como as mais gentis das criaturas.

Cobrimos nossos olhos e rostos perante os sóis rutilantes, que despertam o mundo e nos põem à caça. Cobrimos nossos corpos, vulneráveis e frágeis perante suas luzes. Durante o Dia, chamado pelos Magistrados, é ímpio aquele que fere ou permite ser ferido por um semelhante, Imaima ou não. Se surge o sol, a mão que segura o galho apontado para o coração do mais odiado inimigo deve ser recuada. O Dia é o tempo da caça sagrada e do alimento sagrado. Finda o dia, torna-se à guerra, aos caprichos, à peleja, à vida vulgar à qual todo o Povo Escolhido tem amor.

Diz-se muito de um Imaima pelo que não se pode ver e ouvir dele; sua pele será sempre limpa e sua fragrância será única - seu próprio cheiro como Imaima, e os cheiros de seu ofício ou escolha. Os Imaima podem sentir o passado dos seus pelo olfato; o cheiro de lágrimas, ou suor, ou sangue, ou o cheiro das águas de tal ou tal lugar. Quando vem o Dia, espera-se uma expressão vigorosa no olfato, uma auto-afirmação de todos os Imaima verdadeiramente honrados, que, como o Destino e a Provedora previu, estará preparado para tal. Por isso, Imaima verdadeiramente honrados, como o Destino previu, mantém-se impecavelmente limpos tanto quanto puderem e prontos para a chegada do dia.

Imaimas da mesma família que nutram afinidade um pelo outro, ou Imaimas que encontrem-se pela vida, ou Imaimas muito parecidos ou irmãos ou primos estão em Paridade. Um é o outro para bens e males recebidos, para o agradecimento e a vingança. Terão confiança sacra e plena um no outro, e nunca poderão trair-se. Andarão lado a lado na fortuna e na tragédia. Os votos de Paridade são feitos perante um Magister, mas a promessa pode ser feita a qualquer momento e cabe ao Imaima julgar seu candidato a irmão. (...)

Artigo: Os Custódios

Eventualmente vê-se por Primaterra representantes da que pode ser uma das mais antigas das conjurações - os Custódios, ou "Závoles", como se falava antigamente. Estima-se que hajam civilizações de Custódios em partes distantes ou profundas do Rudra, já que parece inata a estes seres a capacidade de sobreviver em qualquer estágio das camadas astrais. Os pequenos seres, com rostos caninos semelhantes a pequeníssimas raposas completamente negras, de joelhos invertidos e compleição frágil, são capazes de operar com talento e prontidão toda sorte de mecanismos místicos - e dispõem de força prodigiosa para tanto se usarem os característicos bastões de ferro com argolas que costumam carregar. São quase sempre muito fluentes no titani e têm dificuldades imensas com o alvali.

São chamados assim os Custódios porque também lhes é inata uma qualidade de obediência fundamental que norteia suas vidas - histórias contam de grandes adeptos ou feiticeiros que utilizaram dos serviços dos Custódios para empreitadas de grande escala. Os poucos Custódios encontrados na superfície sofrem do mal da uranofobia - temem, incrivelmente, o próprio céu, aberto, infinito e instável. Eles geralmente não sabem muito mais sobre a própria raça do que nós mesmos, ou simplesmente não conseguem o explicar a humas em nenhuma língua.

As poucas pessoas que tiveram oportunidade de estudar os Custódios ao longo da história tiveram sobre eles muitas conclusões contraditórias - a maioria concorda, no entanto, que eles não parecem envelhecer, têm capacidades físicas limitadas, não são capazes de processar misticamente nada mais complicado do que as mais simples das geomancias, são dotados de uma humildade profunda e ao mesmo tempo são fugidios, assustadiços e perigosamente inteligentes.

Artigo: Crenças sobre o Vento

Encontram-se em muitos textos do Profeta advertências contra o vento - a respiração de Maeve sobre a terra, que acidentalmente pode soprar fora a alma de uma pessoa - uma morte gentil que é fonte dos medos mais internos de tantos. Me surpreendeu saber que até em Ramona se pratica evitar os pés-de-vento que por vezes passam pelas praias. Em Faris, Odenheim e Cédara, as crianças são instruídas a não dormir com as janelas abertas - ainda que muitas a façam - e a entrar em casa rápido quando as árvores começassem a sacudir em advertência. O vento nas costas nuas é o maior sacrilégio possível, normalmente arrancando gritos desesperados das mães. Ignorar estes cuidados deve ter sido a maior fonte de alegria rebelde de muitas crianças.

Ainda que crescidas, subitamente a idéia de ter suas almas sopradas para fora quando menos se esperava tenha ganhado tons sinistros dificilmente ignorados - será que as pessoas só começam a importar consigo mesmas quando as outras dependem delas?

Lendas também falam de artes antiquíssimas ivoreanas - envolvidas quase sempre com as cabalas locais - que permitiriam o controle sobre o vento em baixas altitudes, diferente do controle sobre os ventos altos dos  pastores de nuvens de Buriash. Esses adeptos são os primeiros a desmentir estas histórias, mas faz parte do imaginário popular - principalmente em Odenheim - conferir aos mais poderosos ivoreanos o poder sinistro de invocar fortes ventos estalando suas capas ou mesmo batendo palmas.

Lodis caiu!

Escrevo de Ramona, num posto avançado cedariano - desta terra cinza de onde vê-se o Infra por todos os lados, e gelo, seis anos depois do início da minha viagem e de trabalhar e conviver com os locais. Ouço de viajantes que Lodis caiu para os caliburanos liderados pelos Pristinos. Não se sabe há muito de Else - foi Aeolus quem realmente perdeu a cidade para seus trabalhadores.


Não faço idéia de como isso aconteceu. Muitos devem ter morrido. Maeve nos ajude.

Artigo: Carchares

Nativo do Gâm Flutuante, o carchar, Karshar licursi, é uma espécie de serpente marinha de inteligência, ferocidade e crueldade violentas, meio peixe meio réptil, com a capacidade de manter a cabeça fora d'água e até de arremessar-se nas costas contra viajantes desprevenidos. Sabe-se hoje em dia que ele tem plena capacidade de sobreviver no éter externo, também, por períodos prolongados de tempo, através de um estado de hibernação naturalmente induzido. Eles foram trazidos para Primaterra pelos primeiros exploradores em retorno do Gâm; nas grandes capitânias, bandos de carchares exilados ou rejeitados pelos seus fincavam os dentes nos cascos e soltavam já em mares primaterranos.

Um carchar pode medir até um rod quando adulto; sua coloração varia de azul escuro para cinzento e pode-se dizer que sob a água e quando não querem ser vistos, sobretudo em lugares de vegetação densa e grande presença de algas, eles ficam praticamente invisíveis.

Artigo: Faris, Antes e Agora

Faris nunca foi uma. Existe uma pluralidade em seus vastos contornos que não há em lugar algum dentro de Primaterra. Foi por isso que Cédara e Sangária se destacaram; foi por isso que fora atacada, devastada, pisoteada pelos ivoreanos. A mente da ortodoxia maevita sediada em Céus Partidos não tinha alcance sobre os distantes membros em Alagos, Altarian, Hevelius e a cidade secular de Glenária - por isso tudo foi perdido. Para piorar, perdido sob o fogo argênteo de Iblis, amaldiçoando as terras e pondo todos a vaguear atrás de um lugar fértil para viver.

A necessidade teria feito os farisi donos da república mais poderosa de Primaterra - mas eles nunca necessitaram de nada. A falta de organização central os fizera não prever riscos e não contar com uma preparação para casos como o que houve. A fertilidade e tranqüilidade de seu clima os fez relapsos e vulneráveis aos países que precisaram de mais e se desenvolveram mais. E quando a profecia estourou sobre suas cabeças não houve tempo senão para os Dragões da República interpomrem-se entre as pessoas e os tiros e morrerem inutilmente no meio do fogo.

Tenho para mim que casos como Gartcross não tardarão a se repetir, e nem sempre fracassarão. A Iniciativa Branca legou a Primaterra mais um reino, e Faris pode se partir uma terceira vez a qualquer momento. Não faltam sonhadores.

Enquanto os céus forem inclementes, no entanto, todos os outros reinos estão ocupados demais em esfriar de tudo que aconteceu nas guerras deste século. Ivoire que precisa se reconstruir, Longinus que finalmente livrou-se das espadas, Cédara que as usou pela primeira vez, Sangária que se formou das cinzas, Odenheim que devorou seus inimigos e Rublo que jaz abandonada e morrendo tão pouco após se tornar independente.

Esta época de caravanas vai legar esta noção aos farisi. Faris corre como um trem em meio a muitos garudas.

Artigo: Odenheim, Antes e Agora

Procurando um ponto de partida para uma pequena história de nosso reino, eu encontro uma eternidade constante e brilhante onde acredito que os odenianos viveram um sonho virtuoso de uma pátria que não agredia e não era agredida, inocente e fechada, de realizações, heróis e contos, folclórico ouro da antiga Odenheim.

A pátria-mãe nunca esteve melhor. O coração da cidade se perde em meio a uma vertigem cinza e negra, existem estátuas de Altíssimos cobertas de fuligem e sombras de treliça metálica até aonde a vista alcança, talvez além das escuras nuvens, montanhas de trilhos, o Palácio Oceânico repousando ao meio do caos em um lugar onde a nobreza se deve apenas ao céu livre e à liberdade dos pássaros de subir eternamente sem nada atingir. Opulência tirada da agora vida melhor de ao menos vinte mil caliburanos aos quais foi oferecida uma oportunidade de abandonar o paraíso branco e selvagem onde viviam para uma vida curta, segura e trabalhosa em um lugar artificialmente frio.

Ifalna Palas morreria. Exilaria-se, faria algo covarde, entenderia que chegou a um ponto sem retorno, além de suas mãos, além de sua fuga. No meio dos gigantes de aço circulam os restituídos Elmos Escarlates e suas espadas de cerâmica, feitos pequenos, poderiam ser vistos de longe como pequenas lâminas brilhantes aos pés das construções prontas a intimidar, matar, retalhar dissindências.

Meredith deve ter desaparecido em favor de se tornar onipresente nestas paredes, neste metal, nestas nuvens, na eletricidade, todos sentem a sua presença, a presença de sua voz que calmamente poderia ditar morte ou vitória com a mesma exaltação. A presença do fruto do conflito e da vitória e do remorso e de tudo que se ganha com uma guerra suja e desleal.

Odenianos feitos mais ricos, solares no centro do país, comprando novas terras, Lodis está se tornando uma terra de lordes e grandes empresários e suas turbas, caliburanos e odenianos pobres, os que ficam para conduzir os negócios. Os outros podem viajar, para lugares mais verdes e calmos, desde que o coração negro continue batendo. Mesmo os homens mais simples podem ter vários celados e felpi a seu serviço, comprar armas, revólveres, escudos de armas de metal, colecionar espadas, investir.

Chamam-na Era Meridiana de Odenheim. Este nome me aperta o coração. Tem vários significados - aponta o Duque Negro e o ponto de ruptura do antigo espírito e do novo espírito.

Para o povo odeniano... eu espero que sintam muita culpa. Que estejam sendo prazeres caros a seus espíritos. Que esperem sinceramente que um dia a grande festa termine e todos voltem a pensar como era antes. Que deixem de se permitir.

Artigo: Longinus, Antes e Agora

Estas coisas vão mudar, então é bom falar delas agora antes que percamos os parâmetros. Séculos de guerras internas com os clãs feiticeiros tornaram o povo de Longinus experiente na conservação da própria vida no ambiente. Isto sempre foi reforçado pela proverbial fertilidade das terras longinianas; não fossem as guerras, é possível que Longinus superasse Faris e Cédara em produtividade, e agora que tudo acabou, parece que o futuro reserva esta posição ao reino das flores.

Afora os centros populacionais e as fortificações, grande parte da população de Longinus sempre esteve bandeando pelas terras do Império Sagrado em grupos de até dez pessoas liderados por kishis, lutando em táticas de guerrilha ao invés de reunir grandes exércitos. Esta singela sabedoria pode ter sido a chave da sobrevivência do Império após tanto tempo de ataques - afinal, como chegaram à conclusão muitos estrategistas estrangeiros, com um feitiço se matam cem homens tão bem quanto se matam dez se eles estiverem espalhados no mesmo espaço.

Estes destacamentos sempre sobreviveram da terra e mediavam seu consumo para que ela pudesse servir aos que viessem depois. Alimentavam-se do mínimo necessário para manterem-se vivos e seguiam em frente.

Há trinta e poucos anos as coisas têm mudado bastante. As armas foram largadas em favor de ferramentas e foices e o reino está começando a edificar-se lentamente; templos que não passavam de barracas estão ganhando suas primeiras pedras e já existe gente nascendo sem nunca ter visto o clarão profano de um feitiço.

Os longinianos têm um problema para se preocupar que talvez os afetasse menos antes; o legado dos Fafnires, diversos Olhos espalhados pelos céus, continuará trazendo tauroclasmas para dentro da redoma, e talvez os novos longinianos não aprendam também a perderem-se no mundo quando for necessário abandonar tudo que construíram. Talvez a guerra tenha apenas mudado de feições, mas prefiro pensar que os novos dias de Longinus serão mais brilhantes.

Artigo: A História do Vento Nótus

Primeiramente peço que perdoem o assombro deste mal-finalizado Investigador Real. Acontece que eu nunca tinha saído de Odenheim para contemplar as coisas do mundo. Apesar do enjôo, da alimentação um pouco pior do que razoável, do frio que enregela meus olhos, por Maeve, o que é a Faixa dos Mares! Esta faixa invisível separa o Alvo do Infra e tiveram razão em separá-los aqui. O vento a qual estamos a favor e que nos leva em direção ocidental é o vento mais inacreditável e fabuloso de todos. Este alísio que sopra o ano todo contra o Cinturão externo é gelado a ponto de penetrar as entranhas e forte de nos colocar em uma corrida triunfante rumo ao nosso destino. Chamam-no Nótus.

O Nótus é um vento alísio primordial - que sopra sempre e sempre soprou -, dito invocado pelo próprio Buriash durante as eras iluminadas. Navegadores experientes sabem que ele sopra em todas as direções a partir de um ponto específico no oceano, fazendo uma terna brisa que vem do sudoeste em Rublo, lufadas constantes vindas do sudeste na costa de Cédara, e este vento furioso vindo do leste no qual estamos embarcando.

Ao verem meu maravilhamento, fui brindado com esta história: enquanto sua máscara tinha corpo e era anjo, Buriash havia parado, maravilhado, diante da barreira que se criara no fim deste oceano com a Redoma, mas Muirean saíra da alva fumaça para defender a visão que seria só sua. Os dois haveriam duelado com espadas de gelo, cristal e raios por cima das águas do Infra, flutuando sobre as águas, e o estrondo do riso de Buriash fazia as ondas quebrarem sob Muirean. Insana de fúria, Muirean ergueu sua espada para um golpe mortal como um Dragão da República, desprotegendo seu ventre, e Buriash poderia ter a destruído para sempre com um relâmpago que a trespassasse, mas assustou-se com sua temeridade e não se defendeu.

O golpe atirou Buriash léguas para dentro do oceano e partiu o escudo que protegia seu peito. Do escudo quebrado nasceram milhares de arraias e um pouco de seu sangue tornou a água escarlate para sempre. Buriash ergueu-se humilhado e convocou um vento tão forte que não permitiria a ninguém venturar-se no lugar onde fora derrotado por Muirean e encontrar seu escudo partido.

Um marinheiro procurou acrescentar que Buriash levou mil anos para conseguir enxugar sua longa barba branca de seu próprio sangue, mas preferi acreditar que ele tivera inventado aquilo na empolgação do momento.

Parece fácil, mas é difícil

Eu não tinha a intenção de dar depoimentos sobre o que está acontecendo comigo aqui a exemplo do que Barlaam fez, em respeito à seu projeto autoral e a uma possível grande pessoalidade que ele procurava transmitir à Arca mas achei que coubesse aqui um comentário.

Ivaness foi certamente um grande homem em submeter-se a uma viagem aos confins de Rublo com propósitos de escudo. Nós, letrados, historiadores, pensamos muitas vezes que não há trabalho que seja difícil demais para nossa determinação e que podemos, ainda que possivelmente com mais esforço, fazer qualquer coisa que outro homem faça. Não é verdade. Todos os anos que passamos recostados nas estantes das bibliotecas nos deixaram lentos para as coisas da vida, para mim, agora, leia-se, cordas e nós, cuja ciência requer uma intuição e senso de força que particularmente não tenho, principalmente quando o mundo está sacolejando sob meus pés.

A tripulação ainda não começou a ficar ofensiva para comigo, mas espero qualquer dia desses ouvir um epíteto indesejado seguido ao nome com o qual me apresentei. Zelus, o Desbravador; Zelus, o Proficiente; Zelus Pés-Firmes...

Foram suas últimas linhas.

751 D.F.: Terceiro dia de Regentes, sétimo dia.

"Chove incessantemente do lado de fora. Ainda não vi o que aconteceu à capital nos anos de minha ausência. Discordo da posição do Império em que minha integridade está ameaçada. Nesta altura da história, nada do que acontece lá pode ser entendido por um segredo. De uma prisão à outra, pouco mudou, mas ao menos agora tenho como conseguir informações dos soldados. Tenho uma audiência marcada com Aeolus daqui a dois dias para reportar minhas atividades."


Hoje, aos sete dias de Regentes do ano de setecentos e cinqüenta e um Desde a Fundação, faço destas palavras oficialmente as últimas de Ivaness Rel Barlaam, historiador da coroa. Esta arca foi iniciada há dezessete anos e a encontrei resistida a um grande incêndio num abrigo político em Tércia onde seu dono teria falecido. Entendo que ao pousar meus olhos sobre suas páginas eu estava imediatamente me expatriando.

Meu nome é Karkadann Alkyon, nasci nos novos dias de Odenheim em Capela, e estaria concluindo minha formação como um Investigador Real, o que indica que sou muito pouco mais capaz do que qualquer pessoa. Este nome está morto e será meu segredo. Apresentei-me aos marinheiros deste navio como Zelus, uma palavra de titani antigo para um guardião ou perpetrador. É o que serei, junto com um marinheiro, um carpinteiro, um trabalhador rural ou qualquer coisa que possa manter meu corpo vivo enquanto eu puder escrever.

Vamos para Ramona. Longe do continente e longe de Nelbiand eu irei levar o intuito de Barlaam adiante.

Barlaam, o prisioneiro político

Esta é a primeira entrada nesta arca após minha desventura em Rublo. Fui delatado como um homem de má-fé e um espia; minha fuga foi barrada pela Escolta Patriótica e passei cinco luas como prisioneiro político. Minha ausência foi notada pela Metrópole e a Magna Ordem dos Investigadores Reais descobriu meu paradeiro por seus próprios meios. Fui liberto, junto com alguns longinianos e um meio-djin nortista, numa ação rápida e destrutiva dos Elmos Escarlates, sem diplomacia ou ameaças. Vieram como o vento baixo antes da chuva e tomaram a cidadela-prisão de Foliot num único assalto.

Escrevo de Tércia, num abrigo protegido dentro de um prédio militar. Meus aposentos são confortáveis e frios; todos os meus escritos anteriores foram trazidos de Nova Belgrade com algum cuidado. As cartas que recebi em ambos os meus endereços estão acumuladas há anos em dois baús perto do capacho da entrada. Iria lê-las, mas a caligrafia de Bia no primeiro envelope que vi trouxe à tona memórias dolorosas e desisti de minha intenção.

Chove incessantemente do lado de fora. Ainda não vi o que aconteceu à capital nos anos de minha ausência. Discordo da posição do Império em que minha integridade está ameaçada. Nesta altura da história, nada do que acontece lá pode ser entendido por um segredo. De uma prisão à outra, pouco mudou, mas ao menos agora tenho como conseguir informações dos soldados. Tenho uma audiência marcada com Aeolus daqui a dois dias para reportar minhas atividades.

Artigo: Scheltopusik

Scheltopusik, Ophius apodos, são lagartos farisi alongados e sem pernas e constituídos de 70% de matéria geomântica, manifestando-se como se fosse vidro orgânico. Chamados Chinee em Cédara, são guardiões silenciosos dos desertos e cânions, seres reverentes que se alimentam de Latência e anseiam pela hora em que não poderão mais sobreviver, no momento em que o mundo estiver inteiramente puro. Eles podem levitar e voar livremente, e muitas vezes alcançam até 300 centímetros de comprimento.

Naturalmente solitários, os scheltopusik são extremamente inteligentes. A única coisa que pode fazê-los tornarem-se agressivos é a própria agressividade - um scheltopusik atacará e matará qualquer criatura que cometa atos de violência dentro de seu território numa fúria quase inconsciente. Ele sempre sabe quem atacou primeiro e quem iniciou o conflito. O scheltopusik mata atingindo o alvo com grande velocidade e o levantando aos ares ou o perfurando com o corpo. É capaz de invocar geomancias com potência absurda.

Alguns scheltopusik têm grandes asas musculares; outros têm barbatanas. Outros podem ter ainda outros adendos; não existe um scheltopusik igual ao outro, mas na velocidade em que se movem podem se tornar bastante parecidos para um observador casual. É comum vê-los em travessias grandes em Faris, mas a maioria das pessoas que acha que os vê está apenas olhando para alguma coisa se refletindo à luz de Nila.

Artigo: Merles

Merles, Hiero lennonsi, são pássaros das alturas que só existem em Cédara. Acostumados a grandes altitudes, preferem as áreas ao redor de Axúria e fazem seus ninhos em torres altas e nos campanários dos templos. Quando jovens, os merles variam em cor de cinza-chumbo a azul-claro, mas maduros, invariavelmente são negros, sendo muito raro o pássaro que conserve as cores da juventude.

Têm um conceito de família incomum entre os pássaros: quando os ovos racham, os irmãos voam para sempre juntos até atingirem a idade de acasalar. O irmão mais velho desenvolve um trinar grave sobre o qual os outros pássaros cantam em relações harmônicas. O resultado é uma música sutil e dissonante que é, para muitas pessoas, o espírito de Axúria. Os merles não gostam de Nila em seu pico, mas também não enxergam bem no escuro. Costumam sair de suas tocas nas horas que antecedem o crepúsculo e nas primeiras horas da noite. Nesta hora, a cidade toda se enche de sua música estranha e convidativa junto com a baixa-luz.

Artigo: Zaedi

Zaedi, Prio zaedi, são mamíferos pequeninos recobertos por conchas ósseas protetoras do tamanho aproximado de uma mão humana aberta. Grandes escavadores, têm o corpo inteiramente negro ou cor-de-terra com manchas negras; suas conchas normalmente têm cor de âmbar e mostram desenhos geométricos sempre simétricos, na maioria das vezes redondas, existem zaedi de concha em formato de delta e em formato aproximado de pentágono. Eles existem em números relativamente grandes em subterrâneos úmidos o suficiente. A maioria têm fugido de Faris nos últimos anos à medida que o reino torna-se demasiado seco para eles.

Os zaedi formam sociedades organizadas e alimentam-se de pequenos lagartos e insetos. Viajam sempre por baixo da terra fazendo uso de túneis, mas não têm problema em escalar paredes ou pendurar-se de cabeça para baixo nos tetos.

Sendo conjurações posteriores à Era, entendem pouco titani e têm muito medo dos humanos, quase nunca sendo abertos à conversação. Quando amedrontados, ameaçados ou encurralados, eles soltam gemidos e guinchos tristonhos e choram convulsivamente; quando estão em perigo de vida, podem morder ou pior - invocar geomancias presas em rochas que tenham eventualmente consumido, normalmente na forma de sopros de areia ou fogo.

Artigo: Manalis

O manali, Bos shan, é um mamífero de grande porte, curvado e com a cabeça ornada de chifres que habita as montanhas do Oeste de Faris. De cor branca e pêlo curto, é criado por caravanas e povos errantes como fonte de leite; ele também pode ser usado como apoio em expedições montanha acima e em travessias de regiões acidentadas, onde seu ritmo naturalmente lento consegue acompanhar celados e gente.

Naturalmente servis, os manalis são respeitados pelas civilizações humas desde o começo dos tempos. O costume de enfeitá-los com sinos, faixas e selas ornamentais sobrevive até os tempos difíceis de hoje, e eles são enterrados com respeito quando perecem, normalmente de causas naturais, ao alcançar aproximadamente 40 anos. O mugido do manali é um som quase musical e grave, semelhante a uma tuba, normalmente soltado em longos salvos contemplatórios.

O queijo feito do leite processado de manali se chama 'crupe' e tem um sabor adociado muito característico, muitas vezes servido com frutas e geléia. O leite em si é bastante nutritivo e era servido com chocolate nos tempos da Velha Faris, principalmente nas alturas das montanhas. Os manalis se alimentam de várias plantas, principalmente capim e alguns tipos de líquens que crescem na umidade. Criadores experientes de manalis sabem alimentá-los de maneira a otimizar as propriedades nutritivas e o sabor do seu leite.

Existe uma variedade de manali no sul de Odenheim chamada 'nepal', Bos grunniens, de cor escura e longos pêlos que alcançam o chão. Extremamente adaptados ao frio, estes manalis árticos fornecem, além do leite, todo o pêlo macio e denso que possuem em seus dorsos.

Artigo: Os Ventos Belvederinos

A imersão do Castelo Sagrado da Cerração no início do século ocasionou um choque de retorno grande o suficiente para definir uma degeneração terciária na redoma sobre o Belvedere. O esforço da ordem de Buriash com invocações de Cálciferes restaurou parte do olho, mas os tauroclasmas constantes trouxeram ventos áridos pela costa de Faris, mudando quase todo o seu cenário a olhos vistos. Ironia do destino, o maior estrago não fora feito por Ivoire, mas pela maldição do Cardeal Bram, um odeniano, tomado por Câncer.

Os ventos do norte, trazidos do Belvedere, são vermelhos e trazem suas areias; estes ventos são chamados pelo farisi, há mais de cinqüenta anos, de 'jugos', e pelos cedarianos do norte, de 'leveches'. Eles normalmente antecedem tempestades das mais terríveis, quando não tauroclasmas. Ambos os eventos estão completamente fora do controle dos adeptos de Buriash. Parte deles atinge as fronteiras internas de Faris de maneira surpreendente; a única área salva é a província de Alagos que recebe partes mínimas dos ventos vermelhos por cima do Alvo.

Os jugos alteraram completamente outrora ensolarada costa do continente, tornando-a um lugar rochoso e seco, principalmente nas maiores altitudes. Sangaria não tem florestas salvo as de Alagos; bosques secos em beiras de estrada são visões comuns, árvores que já receberam vários raios, carbonizadas como se tivessem esquecido de cair, cadáveres ocos olhando por sobre as terras secas com desdém.

As areias quentes trazidas pelos jugos calcinam o solo onde caem. Durante sua estada, os ivoreanos instalaram máquinas Centurion, construções subterrâneas com grades imensas na superfície da terra que projetam colunas de vento frio para cima afim de bloquear os jugos. Como tudo antigo e ivoreano, trata-se de tecnologia Matra. Enquanto bloqueam as areias, as enormes máquinas desprendem redoma com grande aceleração, contribuindo para o alargamento do olho monstruoso do Belvedere.

Artigo: Friar Frontale

O Eminente Friar Frontale, dos Reis Magos, é o maior administrador. Trabalha praticamente sozinho na Província de Xios, um conjunto de vilas a sul de Orai; independente de seus irmãos ele tem tido os melhores resultados tornando toda a população sob seu mando excepcionalmente educada e treinada. Iniciou seu mandado trazendo escolásticos expatriados de vários lugares e os pôs em posições de poder; trouxe professores e construiu centros de cultura. Hoje, mais da metade de sua população viaja para Cédara a trabalho e volta trazendo encomendas para o governo, em sua maioria carregamentos de produtos agrícolas.

Frontale teve uma curta carreira como dervixe e se tornou um feiticeiro ávido pouco depois do início das Guerras de Iblis, mas foi capturado pelos ivoreanos e mantido cativo por quase quinze anos. Foi o responsável por uma rebelião e fuga em massa de uma das masmorras mais profundas de Biblos num plano perfeito que levou mais de um ano para ser executado, e saiu de lá como um dos prisioneiros de guerra mais procurados em Ivoire.

Com um séquito de arruaceiros, intelectuais e pensadores, Frontale voltou a Faris e abrigou-se em Orai até o fim da guerra sob a proteção de Sanfrecce. Em troca, gerenciou números e administrou patrimônios com precisão, fazendo barganhas milionárias com mercantes cedarianos e salvando várias vezes o projeto de revolução da falência imediata.

Dos Reis Magos, Frontale é o mais educado, sendo um cavalgador hábil e vestindo-se impecavelmente, normalmente com cores escuras e uma peça qualquer de cor azul marinha, combinando com seus olhos. Atualmente, seu cabelo está ficando cada vez mais grisalho; ele lhe cai pelos ombros em grandes cachos e é unido em um rabo de cavalo. Apesar da relativa idade, ele tem invejável forma física e diz-se que é um combatente hábil com um bastão.

Artigo: Irissarri Albirex o Bradador

O Eminente Irissarri Albirex sempre foi louco - e hoje ele governa a província deserta e sujeita a tauroclasmas do Belvedere, e é responsável por todos os seus templos. Um homem desesperado enquanto lutou e foi preso várias vezes pelos ivoreanos, ele continua desesperado erguendo seu cajado sobre seu novo mundo árido e quebradiço.

Em vida (enquanto não entregou-se ao Belvedere), Irissarri já foi derrubador, teve sua bandana vermelha, tornou-se um feiticeiro, e aprendeu com longinianos retirantes o verdadeiro significado da destruição de uma vida. Lutou contra os ivoreanos e fez tudo em sua vida como se fosse seu último dia. Hoje, Irissarri mal consegue andar sem ajuda e parece completamente incapaz das magias destruidoras que um dia o caracterizaram. Na época que o encontraram, Irissarri era um redemoinho de devastação ambulante que precisava de orientação. Hoje, os reis magos o procuram para evocar a sabedoria contida no sofrimento de seus olhos.

Irissarri passa boa parte de seus dias completamente sozinho num palacete árido no Belvedere. Um círculo de sacerdotes de Buriash vêm a cada lua promover grandes invocações de cálciferes, que vêm aos milhares no lugar amaldiçoado. Com um feitiço Irissarri é capaz de movê-los; como um brilhor difuso eles conseguem erguê-lo ou erguer o trono inteiro. Contam os adeptos de Fantasos que o palacete inteiro já foi movido.

Como um administrador, Irissarri é praticamente um anarquista. Sob seu jugo estão algumas centenas de adeptos e iniciados em vários templos do Belvedere, como a Torre Secreta e os domínios de Andarta e Valvalis. A maioria dos templos funciona em autogestão; mesmo assim, algumas ordens partem do palacete por meio dos coronéis que patrulham o lugar. A única área que se manteve independente foi o Castelo Sagrado da Cerração, ainda que Calcedona esteja sendo lentamente reconstruída por viajantes.

Artigo: Kirke-Jan de Undine

O Eminente Kirke-Jan de Undine teve uma longa carreira como um feiticeiro caçado pelo oeste farisi durante os primeiros quarenta anos de sua vida. Um controlador talentoso do elemento dos ventos áridos, Undine ficou conhecido por suas várias investidas contra os ivoreanos antes de ser recrutado por Sanfrecce.

Caracterizado pelo permanente olhar de espanto e pelas marcas semelhantes a erosão em seu rosto, Kirke-Jan parece muito jovem para sua idade. Afora as estranhezas, ninguém daria a ele mais de vinte e cinco anos sendo que ele tem mais de sessenta. Diferente da maioria dos feiticeiros, Kirke-Jan vibra com vitalidade e poder, e conhece quase todas as técnicas de luta dervixe. Possui duas cimitarras invejáveis com gumes azuis brilhantes, parcialmente feitas de vidro alquímico e com guardas de bronze polidas. Ele sempre as leva mas nunca foi visto lutando com elas.

Do ponto de vista da redenção, Kirke-Jan foi o mais ausente. Nunca afirmou ou confirmou nada acerca de ter sido um feiticeiro e parece não se envergonhar disso. Como um líder é apático, deixando basicamente Alagos inteira correr como está. Passa dias em meditação quando não está completamente desaparecido. Como qualquer um que some, diz-se que ele está procurando Meredith em Alagos; de fato, ao contrário do esperado, sua população é provavelmente a mais despreocupada de Sangaria. Muitos heróis e damdari vivem nesta região, mas passam boa parte do tempo fora cumprindo demandas ou objetivos pessoais. Suas famílias são em boa parte sustentadas por seus lucros e não têm quase dependência externa, mantendo férteis plantações aquáticas de hortaliças e ervas.

Por vezes, Ventforet vem a Alagos visitar Kirke e o cumprimenta pelo bom trabalho em Alagos. Ele não assume e nem nega que não faz absolutamente nada. Costuma ter palavras de paz e calma para Ventforet; nestas ocasiões são promovidas festividades ao ar livre perto das florestas refletidas nas águas, e os dois discutem abertamente para quem quiser ouvir. Uma espécie de democracia acontece nestas horas à medida que quem quiser gritar uma sugestão certamente será ouvido.