Artigo: Irissarri Albirex o Bradador

O Eminente Irissarri Albirex sempre foi louco - e hoje ele governa a província deserta e sujeita a tauroclasmas do Belvedere, e é responsável por todos os seus templos. Um homem desesperado enquanto lutou e foi preso várias vezes pelos ivoreanos, ele continua desesperado erguendo seu cajado sobre seu novo mundo árido e quebradiço.

Em vida (enquanto não entregou-se ao Belvedere), Irissarri já foi derrubador, teve sua bandana vermelha, tornou-se um feiticeiro, e aprendeu com longinianos retirantes o verdadeiro significado da destruição de uma vida. Lutou contra os ivoreanos e fez tudo em sua vida como se fosse seu último dia. Hoje, Irissarri mal consegue andar sem ajuda e parece completamente incapaz das magias destruidoras que um dia o caracterizaram. Na época que o encontraram, Irissarri era um redemoinho de devastação ambulante que precisava de orientação. Hoje, os reis magos o procuram para evocar a sabedoria contida no sofrimento de seus olhos.

Irissarri passa boa parte de seus dias completamente sozinho num palacete árido no Belvedere. Um círculo de sacerdotes de Buriash vêm a cada lua promover grandes invocações de cálciferes, que vêm aos milhares no lugar amaldiçoado. Com um feitiço Irissarri é capaz de movê-los; como um brilhor difuso eles conseguem erguê-lo ou erguer o trono inteiro. Contam os adeptos de Fantasos que o palacete inteiro já foi movido.

Como um administrador, Irissarri é praticamente um anarquista. Sob seu jugo estão algumas centenas de adeptos e iniciados em vários templos do Belvedere, como a Torre Secreta e os domínios de Andarta e Valvalis. A maioria dos templos funciona em autogestão; mesmo assim, algumas ordens partem do palacete por meio dos coronéis que patrulham o lugar. A única área que se manteve independente foi o Castelo Sagrado da Cerração, ainda que Calcedona esteja sendo lentamente reconstruída por viajantes.

Artigo: Kirke-Jan de Undine

O Eminente Kirke-Jan de Undine teve uma longa carreira como um feiticeiro caçado pelo oeste farisi durante os primeiros quarenta anos de sua vida. Um controlador talentoso do elemento dos ventos áridos, Undine ficou conhecido por suas várias investidas contra os ivoreanos antes de ser recrutado por Sanfrecce.

Caracterizado pelo permanente olhar de espanto e pelas marcas semelhantes a erosão em seu rosto, Kirke-Jan parece muito jovem para sua idade. Afora as estranhezas, ninguém daria a ele mais de vinte e cinco anos sendo que ele tem mais de sessenta. Diferente da maioria dos feiticeiros, Kirke-Jan vibra com vitalidade e poder, e conhece quase todas as técnicas de luta dervixe. Possui duas cimitarras invejáveis com gumes azuis brilhantes, parcialmente feitas de vidro alquímico e com guardas de bronze polidas. Ele sempre as leva mas nunca foi visto lutando com elas.

Do ponto de vista da redenção, Kirke-Jan foi o mais ausente. Nunca afirmou ou confirmou nada acerca de ter sido um feiticeiro e parece não se envergonhar disso. Como um líder é apático, deixando basicamente Alagos inteira correr como está. Passa dias em meditação quando não está completamente desaparecido. Como qualquer um que some, diz-se que ele está procurando Meredith em Alagos; de fato, ao contrário do esperado, sua população é provavelmente a mais despreocupada de Sangaria. Muitos heróis e damdari vivem nesta região, mas passam boa parte do tempo fora cumprindo demandas ou objetivos pessoais. Suas famílias são em boa parte sustentadas por seus lucros e não têm quase dependência externa, mantendo férteis plantações aquáticas de hortaliças e ervas.

Por vezes, Ventforet vem a Alagos visitar Kirke e o cumprimenta pelo bom trabalho em Alagos. Ele não assume e nem nega que não faz absolutamente nada. Costuma ter palavras de paz e calma para Ventforet; nestas ocasiões são promovidas festividades ao ar livre perto das florestas refletidas nas águas, e os dois discutem abertamente para quem quiser ouvir. Uma espécie de democracia acontece nestas horas à medida que quem quiser gritar uma sugestão certamente será ouvido.

Artigo: Gray Rel Ventforet

O Eminente Gray Rel Ventforet chegou jovem a Orai depois te ter perdido quase toda a família num jogo de interesses entre nobres cedarianos. Frente à guerra, entregou sua alma à feitiçaria e descobriu um talento ávido e selvagem em suas veias, se tornando um herói.

De ascendência cahuilla e cedariana, ele tem cabelos cinzentos volumosos cacheados e pele escura, como se fosse a casca de uma árvore. É divinamente alto e sua fala é naturalmente empostada, ele não consegue dizer uma palavra sem fazer com que todos a ouçam; poderia conversar normalmente com uma pessoa a dez metros de distância. É um grande conhecedor de história, línguas e teologia, e dono de um carisma selvagem e fortíssimo. Consome informação esotérica diariamente e usa vários patoás cahuilla com as bênçãos dos altíssimos de Agustine, além de uma faixa trançada verde e gris por sobre o ombro, larga e completamente bordada em fios grossos, como símbolo de sua autoridade.

Há alguns anos admitiu publicamente ter praticado a feitiçaria mas colocou claro que sua prática pertencia ao passado e a tempos de necessidade.

É surpreendentemente amável com seus súditos e honrado em sua palavra, ainda que completamente inflexível. A competição, sobretudo com os outros Reis Magos, lhe desperta uma avidez de progresso que o faz o maior líder de Sangaria. Como o embaixador de seu Protetorado, Ventforet usa uma túnica trançada vermelha simples e botas ferradas de manufatura cahuilla, com plataformas que relçam seu tamanho gigantesco: seu rosto e cabelos pouco comuns o destacam da multidão.

Da primeira vez que voltou a Cédara desde sua infância, Ventforet foi o causador de um escândalo ao agarrar e ameaçar de morte Felippo de Agnesa, um grande mercador que se recusou a enviar soja para Sangaria temendo a ação de bandoleiros farisi. Ventforet pediu desculpas publicamente, mas quem presenciou sua cena poderia jurar que Ventforet, vermelho e de olhos lívidos, era um monstro em desespero, não um huma. Felippo acabou por mandar os carregamentos que chegaram intactos a Sangaria para suprir o país depois de uma péssima colheita e foram pagos rigorosamente na data marcada. Desde então, Ventforet adquiriu uma reputação de confiança, mas ninguém mais negocia com ele pessoalmente, um desastre do ponto de vista diplomático.

Gray de Ventforet passa a maior parte de seu tempo recebendo as pessoas na antiga abadia de Vestania e ouvindo seus problemas. Qualquer pessoa que enfrente a subida de cento e sessenta degraus para a sede será ouvida, queira falar de um ente morto ou de um problema da população, e ninguém vai embora sem ouvir palavras ponderadas de Ventforet. Não há uma pessoa na costa de Orel que não tenha ido pelo menos uma vez visitar o Rei Mago, e todos que voltam são tratados pelo nome por Ventforet. Muitas pessoas sobem em grupos, os excedentes somente para ouvir a sabedoria do meio-cahuilla e sua singela bênção de "Maeve sobre vós".

Artigo: A Iniciativa Branca e o Protetorado de Sangaria

A morte de Lemminkainen, o Imortal (672 D.F. - 701 D.F.) e o genocídio de Céus Partidos marcou o início de um movimento reacionário explosivo dos dervixes, a Iniciativa Branca, que hoje se sabe ter feito residência na Abadia de Vestania, um santuário que suportou intocado as Guerras de Iblis. Espelhando-se na revolta vitoriosa da Décima Quinta odeniana, a Iniciativa Branca foi o mais próximo que Faris teve de heróis de guerra.

Construída por povos andantes em aproximadamente 600 A.F., Vestania foi lar de uma civilização hoje perdida que se extinguiu poucos anos antes da chegada da Santa Comitiva a Nelbiand. À pequena costa de montes escarpados elevando-se à beira do mar foi dado o nome de Costa de Orai. Esta ainda conserva-se quase completamente tomada pelas pequenas casas de pedra daquele tempo, e também a torre da abadia de Vestania ainda olha altaneira por sobre o Alvo. Com várias aberturas para artilharia, pode-se supor que o povo de Orai teria tradições guerreiras e algum entendimento bélico; fósseis de armas Matra eram encontradas quase anualmente em escavações financiadas por intelectuais belgradianos.

Até hoje não se sabe o fim que tomou o povo de Orai. Nunca foram encontrados indícios de batalhas reais. Conta-se uma lenda sobre Buriash tê-los banido do mundo por serem parte de uma proto-raça que estava condenada a habitar o passado para sempre. Em 566 D.F., Vestania foi tomada pelos dervixes calcedonianos como um posto avançado e algumas exigências, sabotagens, e dois conselhos em Belgrade e Glenária tornaram a área da Costa de Orai e suas circunvizinhanças propriedade dos dervixes, onde eles teriam direito absoluto, respondendo apenas à totalidade do Conselho. Não que tivessem de fato usado estes direitos. Após a concessão, Vestania continuou sendo, como sempre, um lugar de passagem, até cento e vinte e um anos depois.

Em 687 D.F., os ivoreanos vieram sobre Faris como uma sombra comprida, e Vestania, subitamente erguida com uma população de dervixe e civis liderados por eles, os recebeu no limite de suas forças, após atravessarem e lutarem com Faris inteira. O braço de Iblis não os atingira, e os cruzadores hevelianos, os únicos navios capazes de atravessar por sobre as minas aquáticas despejadas por Dário Meredith nos seus primeiros anos, estavam ocupados com o ataque à Capela no Monte Vigílio. A independência negociada pelos dervixes serviu para manter aquele povo na defesa de Vestania e impediu que eles se juntassem à pífia resistência que avançou contra o Planalto de Lorena em 692 D.F. junto com as Brigadas Diplomáticas de Oden. Este avanço caracterizaram como uma traição potencial odeniana, mesmo tendo participado dela Investigadores Reais, na época cadetes, como Mikalis Musa.

A vitória arrasadora dos ivoreanos e a instituição da União do Mar Alvo tomaram a costa leste inteira somente em documentos oficiais. A batalha se tornou ainda mais violenta quando Sanfrecce de Orai, um dervixe bandana-branca, tomou a dianteira no comando da Iniciativa Branca, uma organização para-militar constituída primariamente de dervixes e civis farisienses. Nos seus quase quatro anos de duração, a Iniciativa Branca atormentou o ministério ivoreano com ataques suicidas, feitiçaria, táticas de guerrilha e espionagem.

De 705 D.F. ao armistício de Biblos promovido por Dário Meredith, Sanfrecce ampliou pouco a pouco os domínios dos dervixes e liderou um ataque desastroso à Frontauria, cujas baixas foram incontáveis para os dervixes. Enquanto todos pensavam que os dervixes haviam saído completamente de circulação com a queda de Calcedona, eles agiam secretamente e coletavam tesouros dos povos costeiros prometendo a devolução da vida antiga quando os ivoreanos finalmente fossem expulsos das terras farisi. Viajando por terra, negociaram armas com os cedarianos e militarizaram populações embaixo dos narizes dos ivoreanos. Centenas de pessoas trocaram a noite pelo dia no processo secreto mais extravagante da história de Natal.

Poucos dias depois do Armistício, Sanfrecce foi emboscado e linchado por soldados ivoreanos retirantes. Levaram adiante seu plano quatro de seus seguidores: Ventforet, Frontale, Undine e Albirex, que ele chamava "Reis Magos". Não obstante, eram mais feiticeiros do que dervixes, responsáveis por boa parte do terror nos olhos dos ivoreanos.

Em 748 D.F., foi fundado o Protetorado de Sangaria - inicialmente às escuras, mas tornado público nas primeiras luas de 752 D.F. como uma nova pátria independente de Faris. O estado lastimável em que se encontrava o resto do país fez com que o brado de uma nova nação promissora ecoasse e tivesse como resposta imediata o silêncio, mas alguns anos depois, grandes caravanas começaram a chegar ouvindo as promessas do leste. Para o desencanto dos farisi, Sangaria estava fechada, talvez para sempre. Os que não quiseram ouvir foram repelidos com violência por uma nova ordem dervixe dedicada à proteção de Sangaria, os Coronéis.

O território de Sangaria hoje compreende uma faixa estreita da costa leste de Faris, desde o início do Belvedere até Alagos, mantendo o que podem se chamar de postos avançados nas proximidades de Glenária, onde confrontam com as autoridades de Velha Faris, corrompidas e desgastadas pelos ivoreanos. Sua capital mudou de lugar três vezes por causa de conflitos entre os Reis Magos, mas voltou a ser Vestania reafirmando a soberania de Ventforet de Orai. Cabem aos outros Reis Magos as províncias de Alagos (Undine), Xios (Frontale) e Belvedere (Irissarri) num regime semi-ditatorial.

O povo de Sangaria lamenta profundamente não poder dividir o que tem com o resto de Faris. Para todos, as portas do paraíso estão fechadas.

Leitura: Sobre Frontauria

A desolação de todos os farisi que viveram a terrível Guerra de Iblis, se pôde encarnar fisicamente, engastou-se cravada nas muralhas de Frontauria. Esta terrível fortificação, hoje deserta, por tantos anos foi a residência dos insubordinados, dos resistentes e dos revoltosos contra a colônia e a União do Mar Alvo. Lá não era permitido sorrir. Todos que lá ficaram presos envelheceram rápido e perderam o viço de viver, ansiando por uma existência melhor após a morte. Muitos ficaram insanos e doentes, e quando as muralhas foram abertas a tiros de canhão odeniano, não houve quem saísse dali correndo de braços abertos para ganhar de volta a liberdade.

Construída a 692 D.F., Frontauria foi levantada com pedras das cordilheiras Aesir. Suas muralhas inclinadas pareciam poder desabar a qualquer momento, e o solo todo foi consagrado a Marena, anjo da desgraça, desejo e cobiça de Ivoire. Sua imensidão labiríntica era proibida aos ivoreanos: os algozes, vestindo túnicas brancas e capuzes, içavam os prisioneiros de fora com um guindaste, e os atiravam ao lado de dentro aos berros para que eles nunca mais voltassem. Era permitido aos colonos assistir o espetáculo da condenação.

Uma vez à cada lua minguante, adeptos de Marena resguardados por milagres, os Doutrinadores, entravam em Frontauria por uma abertura nas muralhas. Acredita-se que eles o faziam com a intenção de matar, por piedade, os prisioneiros que já estivessem em estado avançado de mortificação. Isso é o que se conclui hoje em dia por relatos externos e documentos recuperados; na época, acreditava-se que os Doutrinadores marenitas torturavam os farisi internos de alguma forma. É claro que isto contribuía para o mito de Frontauria.

Outro mito é que o Bispo Maarten Lyon, grande compositor de música folclórica, tenha sido preso em Frontauria, e tenha escrito uma das suas mais complexas e belas peças, a "Alegoria da Seiva das Estrelas" ao ser liberto pelos odenianos, quase no final da guerra. A verdade é que foi seu irmão mais jovem o condenado, Tyre, e o Bispo Lyon tenha composto a peça em memória ao dia que acreditou que Tyre havia sido morto.

A crueldade assume muitas formas neste mundo.

Artigo: Celados

O celado ou "dragão-de-sela", Destrier trachea, é o principal animal de transporte de Natal, competindo apenas em Odenheim com os felpi. Trata-se de uma espécie dracontina bípede, com o corpo alongado e duas garras frontais, com uma crista curta e cor verde-pálida e caudas muito longas apontadas para o alto, que terminam numa abertura semelhante a uma arraia fina e escura, usada para equilíbrio. Como uma espécie, eles são relativamente recentes, provavelmente não tendo vivido a Segunda Era, ou pelo menos não tendo combatido os djins.

O Destrier trachea é inteligente, ainda que tímido. Servem aos humas com lealdade e disposição, e muitas vezes os compreendem melhor do que eles mesmos. Aprendem rapidamente muitas palavras em alvalli, mas mesmo em titani, a comunicação com é fácil apesar de eles nunca responderem com palavras, sempre com ações. Tendem-se a se sentir intimidados quando abordados desta maneira e são muito evasivos.

Os celados não são usados em Longinus porque têm uma espécie de pavor ancestral e estranho dos reptantes, entrando imediatamente em pânico à mera visão de um. Em Odenheim, precisam ser equipados com aquecedores dorsais, cobertores térmicos cheios de água que devem ser aquecidos periodicamente para manter o celado confortável. Eles começaram a ser trazidos para Ayanan no segundo século depois da fundação, mas não suportam naturalmente os climas mais frios por causa de sua natureza reptiliana.

Estes aquecedores são montados sobre as costas dos celados e têm uma sela encaixada. Prolongam-se para as costelas do animal e cobrem seu peito como um colete, tendo um espaço para um escudo relativamente pequeno de metal ser afixado. Seus tubos de água são aquecidos com fogo, mas modelos antigos Matra e aquecedores elétricos existem, apesar de não serem muito confiáveis.

A maioria dos celados que nascem hoje em dia são de famílas de celados citadinos, mas alguns ainda se criam soltos em áreas amplas. São preferencialmente ovíparos, mas adeqüam-se bem a rações nutritivas produzidas nas cidades. Muitas vezes, celados selvagens cansam-se de lutar pela sobrevivência e vêm às cidades procurar trabalho.

Entre os humas, não existe o conceito de posse para com um celado. Qualquer celado que seja encontrado no meio do caminho e não esteja esperando alguém em especial concordará em levar um huma para qualquer lugar enquanto for alimentado e bem-tratado. Eles entendem bem quando estão sob o serviço de alguém, e mantém-se prontos para encontrar seus empregadores em outros lugares se isto for necessário.

Para um celado, melhor do que ter sempre alguém para levar é ser afiliado a uma baia. Baias existem na maioria das grandes cidades e são grandes postos onde se paga para levar um celado. Lá eles são educados para trotar confortavelmente, são bem-alimentados, recebem tratamento especial e se preparam para enfrentar jornadas maiores do que os celados normais. Após concluir o trabalho, o celado retorna para sua baia. O senso de direção deles, principalmente para voltar para "casa", é ótimo, mas eles confiam em postos de meio-de-estrada e viajantes para apontá-los a direção de suas cidades caso se percam. Por isso, os celados, independente de quem estiver cavalgando, usam sobre o peito um escudo da cidade em que trabalham.

Uma pessoa que se afeiçoe a um celado o suficiente ou precise de uma montaria para sempre pode criar um vínculo permanente com ele. Para isso, o celado deve ser levado a um templo em dias específicos, e os dois juntos devem fazer, lado a lado (sem que o 'dono' o monte), uma pequena viagem ao longo da constelação nata do animal. Por fim, o celado é batizado com um nome dado pelo seu novo 'dono' numa pequena cerimônia folclórica. A partir daí, o celado o servirá sem relutar e lutará por ele se necessário; atravessará dificuldades e passará fome e frio sem abandoná-lo. Sabe-se que os celados têm profundo maravilhamento pelas coisas divinas. Os ritos dão trabalho, mas o celado se torna um companheiro para a vida toda.

Existe no sul de Cédara um ancestral vivo dos celados, o chamado celado cardeal ou Destrier cerulea, um quase-anfíbio de coloração mais escura e de cauda muito mais poderosa, adaptada para atingir grandes velocidades em lagos e pântanos, sua habitação natural. É possível que tenham vindo junto com os celados regulares. Às vezes, cedarianos aventureiros - principalmente cranequins em fase de testes - se põem a tentar domar esses animais, que são muito territoriais e agressivos. À medida que envelhecem, sua pele escurece e adquire um teor viscoso. Diz-se também que eles podem soprar saliva quente que, ao contato da pele desprotegida, provoca febre e um ardor terrível.

Híbridos de celados trachea e celados cardeais são chamados "bardotos", e crescem descontroladamente até seu rabo ser amputado, podendo atingir até três metros de comprimento com saúde. São rabugentos, mas utilíssimos como bestas de carga, e vivem quase sessenta anos apesar de serem completamente estéreis. Distinguem-se dos outros celados por vários fatores além do tamanho e da cauda amputada: têm a pele esbranquiçada e com manchas verdes, e a cabeça ornada por uma espécie de crista circular.

Existe ainda o chamado celado voador, o Destrier micrathene, que tem agilidade surpreendente nas encostas rochosas que habitam em Faris. Eles são menores e carnívoros, de coloração terrosa e ruins para montar. São, também, muito estúpidos, e andam em bandos liderados por alfas ainda mais ágeis. Sua cauda é apontada para baixo e tem a metade do comprimento da cauda dos outros. Eu imagino que eu não precise dizer isso, mas eles não voam de verdade, é só como os montanheses o chamam pelo fato de saltarem com agilidade entre fendas e pedras.

Artigo: Pushani

O pushani do sul, Minerva otus, é uma ave de corpo emplumado, cabeça redonda, orelhas longas e eriçadas, bico curto e curvado pra baixo, e grandes olhos de inteligência sublime. São reverenciados como representantes de Muut para o povo cahuilla e sua existência é rara fora das ilhas-colônia de Agustine e Ramona. Assemelham-se a 'corujas' descritas por viajantes, e têm cor e tamanho variável dependendo da sub-espécie.

Pushani continentais às vezes são vistas no sul de Cédara, sendo pertencentes a uma sub-espécie chamada Minerva sanfordi, mais clara e menor. De vôo lento e belas penas, elas foram caçadas até a quase extinção no decorrer dos últimos séculos pelos cedarianos e por odenianos esportistas atrás de presas raras.

Outra espécie de pushani quase perdida é a Minerva nesasio ivoreana, chamada de 'ave-de-Cédara gargalhante' pelos nativos. A nesasio voa muito mais alto do que as outras, tem asas mais poderosas e é mais forte; faz seus ninhos cavando buracos em árvores. Por fim, seu canto poderoso lembra uma gargalhada estranha, daí seu nome.

Elemento: Delta

O elemento Delta tem duas propriedades fantásticas: uma, ele ignora boa parte da gravidade natural dos mundos, sempre caindo com muita lentidão. Duas, ele absorve outros elementos e tem uma natureza extremamente neutra. Estas duas propriedades, combinadas ao fato de ele só ser achado em uma forma de poeira finíssima entre o sólido e o gasoso, permitem aos alquimistas fazerem misturas de elementos e compostos no ar, simplesmente libertando Delta à frente e atirando os elementos ou compostos a serem somados na poeira.

Em natureza e por si só, o Delta assemelha-se à Arquirrocha odeniana (em Odenheim, ele é chamado Lança Alada). A propriedade de levitação e absorção do Delta já foi usada várias vezes em compostos com a intenção de desviá-la para outros objetos, com graus limitados de sucesso. É comum acordo entre os alquimistas que não seria possível usar Delta pra manter uma construção no ar. O máximo que já foi conseguido foi uma espécie de concoção de Queda Lenta que faria o usuário descer lentamente no ar quando a ingerisse, e ainda assim arriscando-se a passar por sérios problemas biológicos.

Sua cor varia entre um azul muito claro e um cinza pungente, sendo que o Delta mais azul é sempre o que cai mais devagar. Na natureza, ele é encontrado como componente de nuvens carregadas de eletricidade pouco antes dos relâmpagos se formarem. Como é um procedimento arriscado consegui-lo e ele não é aproveitável depois de misturado ou ingerido, o Delta muitas vezes atinge preços exorbitantes no mercado. Outras vezes, sua disponibilidade é alta quando existem sucessos em grandes expedições às alturas de Eiselc e outras grandes montanhas para capturá-lo.

Elemento: Mjolnir

O Mjolnir é um dos elementos mais famosos entre os aventureiros, que o carregam em estado líquido, dentro de orbes. Seu principal poder é explodir com força quando em contato com o ar acima de zero graus; quanto mais concentrado estiver o Mjolnir, mais fria é sua cor e mais poderoso é seu estouro. Em estado natural, o Mjolnir brilha numa cor verde nuclear; progressivamente, ele fica amarelo, depois laranja, depois vermelho, azul, e finalmente púrpura (a famosa Orbe Hexadetonadora ou "6D" é feita com este composto), onde alcança limites de estabilidade. Quando é concentrado além deste ponto, ele vai esbranquiçando, mas este é um procedimento perigoso.

Este elemento perigoso é retirado de dentro de pedras milenares em escavações cada vez mais profundas, e utilizam-se reatores para colocar os complexos de cavernas muito abaixo de zero graus. A força de uma picaretada ou uma fagulha pode ser o fim de um grupo de exploradores se a margem de segurança da temperatura não estiver bem calculada.

As rochas que contém Mjolnir são vendidas ao alquimista pela quantidade estimada de Mjolnir que haja lá dentro. São chamadas "conchas". O Mjolnir muitas vezes deve ser purificado a vácuo antes de usado, a não ser quando são compradas Conchas de grande qualidade.

Artigo: Os Lunomantes, ou Druidas

Há milênios, nascem em Natal pessoas em ressonância com a natureza e a realidade tecida por Maeve. Elas são o antônimo dos feiticeiros em personagem e em fé, que é profunda. Muitas delas vivem seus anos como gente comum, perseguindo suas próprias motivações, mas umas poucas descobrem que, se reverterem componentes da realidade a um estado que se assemelhe ao da criação original, podem evocar grandes poderes presos na natureza. Os longinanos chamam-os Lunomantes, e os farisienses os chamam Druidas.

Esta arte é um misto de inspiração, presságio e acidentes, realizada por todos que descobrem sua característica especial. O ato é chamado Desprendimento: idéias originais, o praticante altera o cenário (por exemplo, movendo uma rocha) e tenta o fazer se assemelhar à um Estado Original. O Desprendimento torna o lugar uma espécie de santuário, que é terra santa e impede qualquer feiticeiro de libertar seus poderes. Ao mesmo tempo, o santuário cria um influxo de energia sagrada que começa a restaurar a Redoma acima dele tão logo é criado. Por fim, o Desprendimento canaliza para o seu praticante uma reserva de poder pessoal semelhante à geomancia chamada Druidismo, que esconde grandes poderes de natureza divina.

Com a experiência, os Lunomantes descobrem que o estado original pode ser invocado enquanto for apenas visto, e aprendem a domar seus olhos e imaginação. Descobrem que espelhos, desenhos, ilusões e o clima influem no quanto o santuário pode se tornar poderoso, e passam a carregar todo tipo de aparato luminoso e espelhado. Tornam-se proficientes com luzes, fogos e efeitos especiais.

Os Lunomantes ou Druidas sempre existiram em número muito pequeno e sua fé indomável muitas vezes contrariam os altíssimos, tornando-os quase hereges. Quase todos acreditam seguir os desígnios da própria Deusa por mais ausente que ela possa parecer, 0 que o clero ortodoxo maevita considera uma pretensão e um sinal claro de desrespeito às palavras de St. Sharini. Houveram ao longo da história rebeliões de Druidas no coração de Faris que tiveram de ser enfrentadas pelos sacerdotes de Buriash eles mesmos, na tentativa de fundar um nova religião que prega um retorno à criação e uma extinção voluntária da raça huma, mas a maioria dos druidas não é radical.


Leitura: A Tragédia de Belruna

"Aconteceu conosco ao que víamos a ameaça se aproximar. Nossos irmãos mais velhos se foram, junto aos Dragões da República. Eles não podiam saber daquilo tudo e ficar ali esperando. Estavam prontos para deixar de ouvir-nos e seguir seus caminhos em direção à Face de Iblis.

As palavras de nossos pais não mais tocavam suas almas. Em um mundo em que tudo que aprendíamos ia ruindo sob a marcha ivoreana, tudo que era ensinado perdia o valor. E nós não os reconhecíamos - iam nossos irmãos com outros olhos, os olhos que não relutavam ou choravam. É pouco dizer que não voltaram. Eles desapareceram da história e de nossas vidas sem piedade, sem pensar que nos fariam tanta falta, como nos dias de hoje.

Antes de chegarem os ivoreanos, vieram pessoas do nosso povo mesmo pedindo abrigo, muitas delas. Oestrinos, montanheses, gente das fronteiras, não sabendo se queriam ficar ou continuar fugindo até os confins do mundo. Todos tinham as almas exaustas. Queriam parar, talvez para olhar Faris por uma última vez como era para ser. E nós continuamos ali, ajudando essas pessoas, muitas vezes as reabastecendo para que continuassem, Maeve sabe até aonde.

É até engraçado pensar assim. Essas histórias terríveis de guerras, nos contavam desde pequenos. Parecia uma coisa distante e inatingível no mundo como era, quem iria dizer que de repente um país ia começar a engolir o outro? Belruna, o lugar onde nascemos e morreríamos, ficava a norte do Poço das Botas, o velho Poço das Botas, perto dos rios que descem das montanhas que dividem Faris ao meio.

Belruna parecia eterna para nós. Aquelas árvores escuras sussurravam o frio à noite, quase uma bênção no meio de Faris onde tudo quase que sofre debaixo de Nila lá no alto. E se Ivoire é tão quente como dizem, talvez eles tivessem um motivo pra vir em cima da gente.

Engano meu.

NADA é motivo para o que aconteceu conosco.

Todo mundo lembra, mas ninguém gosta sequer de comentar. As crianças viram primeiro aquilo acontecendo. Era uma espécie de nuvem, mas não era branca nem estava no céu. Era uma nuvem da cor da terra tapando o horizonte, a vista das montanhas. Antes de ela chegar uma tempestade rasgou o céu destruindo nossos corações. Os raios cantaram para a areia chegar arrebentando as árvores e tudo que havíamos construído. Os ventos levaram embora as pedras e fizeram delas bordunas sobre nós.

Não podíamos gritar. A terra estava se revirando. O mundo estava saindo de baixo de nossos pés e ganhando os céus na maior tempestade de areia que os piores desertos do sul já teriam visto, em arrancos de vento vindos em nossa direção. E a floresta gritaria por nós, todas aquelas árvores arrancadas do chão e empapadas de areia, toda nossa sombra, todo nosso frio se esvaiu pelos ares naquele monstro terroso.

Não havia o que abandonar, não havia como contar os mortos. Os que não foram jogados longe se reuniram perto do que sobrou do poço e foram embora. Eu estava entre eles. Eu vi os olhos das mães e irmãos pousados no horizonte procurando uma silhueta. Eu vi elas olhando para trás, a alma aterrorizada mas o coração querendo morrer junto com aqueles que se perderam nos ventos.

Nunca esqueceríamos. Nunca seríamos os mesmos. Mas somos farisi. Nossa alma suporta e canta por fim. A caravana partiu com talvez trinta pessoas, para o leste sem-fim. Procuraríamos ajuda e algo que nos levasse a sorrir, ainda que sempre olhássemos na direção que achamos que deita-se nossa cidade perdida sob as areias.

Pouco se passou antes que percebêssemos que fomos muitos dentre os que perderam tudo para os ivoreanos, ainda que poucos tenham sucumbido sob areias como nós. Cruzamos com outras pessoas, com outras idéias, muitas queriam ganhar o oeste de volta, lutar. Nós queríamos viver, viver para poder esquecer aquela desgraça. Restavam-nos poucos de nós e éramos todos estranhos depois de tudo que aconteceu. Toda noite rezávamos pelo fim daquilo tudo e para reencontrar nossos entes. E Maeve cobriu os ouvidos - até hoje."

Artigo: Ravanas

A ravana longiniana, Ravian sidera, é uma grande ave aparentada com os garudas, mas de tamanho menor e cor que vai de vermelho claro a um escarlate encarnado e brilhante. As ravanas também dão origem a plumas completamente brancas, mas as arrancam tão logo nascem. São aves orgulhosas que se alimentam de cerejas e maçãs (que supostamente teriam dado a elas sua coloração). Contam os longinianos que o sangue da ravana, derramado por sua própria vontade, pode salvar um homem ou fazer a forja de uma espada ficar indestrutível.

Sua visão é comum em épocas de guerra. Os guerreiros longinianos chamam os ravanas de 'grandes condenadores' porque eles sempre são vistos em lugares onde gente morre. Nunca se aproximam, mas é certa a presença deles nos céus. Os com fé mais otimista tomam-os por guardiões dos campos de batalha. Outros pensam neles como arautos do sofrimento.

Os ravanas por si parecem não se importar com nenhuma das designações. Não gostam de serem chamados em titani e se misturam pouco, mesmo com damdarans. Dificilmente se arranca palavras deles; arranjos florais de algum tamanho feitos no solo os atraem, principalmente se contiverem cerejas e maçãs, e eles podem vir a estacionarem-se num lugar onde hajam oferendas freqüentes. Contudo, não oferecerão nada mais do que sua presença.

Muitos longinianos nascidos no pós-guerra os consideram arautos de Maeve e sinal de boa sorte. Diz-se que a Imperatriz Neman tem um amor incontestável pelos ravanas.

Artigo: A Cidade Tumular

Dentro da religião ortodoxa maevita existem muitos ritos fúnebres canonizados e reconhecidos pelos hierofantes. De fato, a maioria dos Altíssimos tem pelo menos um rito especial de dedicação, reservado aos seus seguidores mais fiéis. Alguns, como os ritos de Buriash, Idun e Lodis, são de grandes glórias e esplendores, mas os rituais mais praticados são os ecumênicos que suplicam "à Maeve e a todos os Maiores" que guie a alma do morto a lugares melhores.

Um dos rituais mais praticados por aristocratas em grandes cidades é a Procissão, quando objetos queridos do falecido são levados por seus familiares ou amigos até seu túmulo. A maioria destes túmulos são pequenas capelas dedicadas à alguns Altíssimos que tenham ajudado o falecido em vida, e com inscrições relativas à pessoa. Na capela ficam depositadas estas lembranças - pessoas muito virtuosas ou de vontade transcedental podem fazer com que estas ganhem propriedades geomânticas ou divinas, que podem ser recolhidas mais tarde por descendentes.

Quase trezentos anos desta tradição criaram uma espécie de cidade dos mortos a sul de Lodis. Ela tem vários nomes entre a aristocracia e outros muitos entre os tealeanos, que têm todo tipo de história estranha sobre o lugar. Chamam "Cidade Tumular", "Vila dos Pálidos" e "Baixo Distrito" o gigantesco cemitério com alas que separam umas famílias das outras. Lá não circulam guardas, somente adeptos e jardineiros. As relíquias ficam à plena vista e a maioria dos túmulos é aberta (com os caixões enterrados, obviamente). Houveram poucos casos de hereges e feiticeiros que assaltaram as capelas atrás de objetos divinos; hoje em dia, a circulação diurna e noturna lá é grande a ponto de impedir estes atos.

A única regra quando se entra na Cidade Tumular é manter-se em silêncio. Não existem grandes preocupações com decoro lá: muitas vezes, namorados vêm a este lugar calmo para passear, e artistas, em busca de inspiração. Nenhum dos atos é visto com maus olhos: muitas pessoas que passam por lá homenageiam seus queridos e, como se diz, 'fazem companhia às almas', mesmo que sem querer. Também se recomenda um mínimo de elegância no trajar.

A Cidade Tumular localiza-se do lado de fora das muralhas de Lodis, a mais ou menos uns vinte minutos de caminhada ou bem menos num celado bem-disposto. Todos os celados lodianos já se acostumaram à idéia de trotar silenciosamente perto do grande cemitério, mas se você trouxer um celado de fora, é bom alugar um na cidade. Eles são gentis por lá.

Artigo: O Sacrário Imerso de Wolfram

O sacrário do altíssimo da nevasca Wolfram é diferente do esperado. Construído abaixo do nível do mar (assim como o Palácio Oceânico e outras obras da primeira civilização), ele é composto de inúmeros níveis até seu último solo onde supostamente estaria guardada uma relíquia sagrada. Diferente de muitos outros sacrários, o de Wolfram não tem satélites ativos ou outras formas de defesa senão os cavaleiros capelitas ocasionais que estiverem passando por lá. No entanto, as águas que o permeiam muitas vezes inundam a desabitada construção por dias, a enchendo de criaturas marinhas e cálciferes ocasionais inchados com a força das torrentes de fora. Somente os cardeais do protetorado permitem-se descer ao sacrário, ainda assim somente quando a maré está baixa. Falhas nos sistemas de drenos do sacrário causam inundações repentinas e muito perigosas, necessitando de ação rápida nos canais abaixo do sacrário para que a construção não venha a colapsar.

Uma vez sede diplomática de Odenheim, Wolfram recebeu presentes de vários outros países, sendo a maioria de Ivoire e Longinus em tempos de paz. Durante a infestação de feiticeiros de tempos passados, todas as relíquias foram guardadas (ou melhor dizendo, isoladas) neste sacrário em salas guardadas por imagens dos muitos já falecidos satélites de Wolfram.

Artigo: A Civilização Cahuilla

Entre uma etnia huma e uma conjuração, os cahuilla vivem nas friorentas ilhas de Agustine e Ramona, do oceano Infra. De pele avermelhada, feições sinceras e cabelos muito longos de cor negra ou cinzenta, são tementes a Maeve na forma de uma cahuilla terna de cabelos negros e manto que formam todos os mundos e se desfazem em efêmera. Existem em número de poucas centenas e são resguardados como uma espécie de pequena nação independente apesar de estarem em território oficialmente cedariano.

Sua organização social é tribal, mas têm fortes ascendentes culturais e uma mitologia riquíssima que inclui quase tudo de Natal. Existem sacerdotes entre eles, seguidores dos altíssimos que olham por suas ilhas: Sungrey e Muut. São atiradores incríveis e dominam plenamente o uso da pólvora; mandam barcos com os produtos raros de sua terra em troca de armas de fogo cedarianas, que usam para defender suas ilhas de piratas farisienses e de conjurações agressivas.
Os cahuilla, como um povo, têm grande afinidade com uma espécie de conjuração nativa de Agustine chamada 'pushani', pássaros que variam de cor branca até castanha, passando por um cinzenta malhado. Os pushani são, segundo os cahuilla, representantes de Muut no mundo físico; têm olhos grandes e sábios, cabeça redonda, corpo grande e achatado, e bicos curtos, afiados e virados para baixo. Os pushani são para os cahuilla o que os felpi são para os odenianos; segundo eles, os pushani os guiam depois de mortos para o encontro derradeiro com Maeve.

Tratando de personalidade, para alguém que venha do continente, o cahuilla sempre parecerá distante, sonhador. Os cahuilla sempre procuram respostas filosóficas para as coisas e tendem a pensar devagar. Uns poucos vão com os navios que levam as coisas de sua terra para Cédara e não voltam mais, abandonando o seio de suas famílias para viver do lado de fora uma existência real. Tendem ao altruísmo e à honra, que são as virtudes ensinadas por seu deus da morte Muut. Muitos vieram em auxílio dos farisienses que caíram assim que souberam que haviam tantos necessitados em terras do norte.

Assim como boa parte dos farisienses, os cahuilla não se impressionam com tecnologia e sempre acham maneiras de fazer as mesmas coisas de maneira mais natural. Não são amantes da natureza como um povo, mas nutrem profundo respeito por tudo que é vivo. Sua mitologia volta em tempos imemoriais e se confunde em vários aspectos: nem eles sabem dizer há quanto tempo vivem naquele lugar. Não dominam ciências náuticas mas sempre estão curiosos para aprendê-las; muito poucos sabem nadar, escalar ou lutar com proficiência. O domínio deles se restringe a tiros perfeitos com armas de fogo e, se elas não estiverem disponíveis, a arremessos de objetos, lanças, pedras, o que estiver a mão.

A filosofia dos cahuilla está centrada no fim da existência terrena. Eles acreditam que precisam de discernimento e iluminação para que possam encontrar os caminhos certos em outros mundos, e passam a vida adestrando seus espíritos. Muitos deles acabam por dominar plenamente ciências naturais e meditação; são completamente alheios à geomancias e feitiços. Muitos não vêem diferença entre um e outro.

Os cahuilla falam quase sempre empregando metáforas difíceis e arcanas. Adoram aprender novas palavras e seus significados, principalmente palavras em titani. Tendem a pensar em qualquer conjuração como caça afora seus adorados pushani, e acham que os felpi parecem monstros. São fascinados por pesadelos e seus significados ocultos, e vivem encontrando presságios em acontecimentos suspeitos do dia-a-dia. Conviver com um cahuilla é mergulhar em uma existência mística sem volta.

O povo cahuilla tem uma amizade inocente e forte pelos cedarianos, e tende a pensar neles como verdadeiros suportes neste mundo. Eles já desistiram de educá-los nas verdades segundo Muut e na verdadeira natureza de Maeve, apesar de sempre haverem tentativas. Existe, sobretudo, um respeito mútuo forte entre os dois povos. Se Cédara viesse a entrar em guerra contra forasteiros desconhecidos, os cahuilla os apoiariam incondicionalmente e seriam os melhores dentre os atiradores em suas fileiras.

As funções sociais dos cahuilla são poucas e bem-definidas. Vivem numa sociedade onde o mérito é recompensado com hierarquia, e não há nenhuma virtude em ser descendente de um herói a não ser que o descendente tenha alguma fração de seu poder e sabedoria. Os sacerdotes formam a casta comandante numa espécie de teocracia que migra de lugar em lugar usando os recursos da áreas que passam. Os que seguem Muut são conselheiros espirituais, parteiros e pais para todos, em oposição a estruturas fixas de família. Os que seguem Sungrey estudam as artes das curas e a natureza. Seguindo os sacerdotes, vêm os atiradores, detentores de armas cedarianas e mortíferos para as conjurações que cruzem seu caminho. As mulheres são mais respeitadas do que os homens por viverem mais, e suas vidas são guardadas com zelo, apesar de com freqüência a maior parte das atiradoras serem mulheres. Os outros erguem barracas, escavam armadilhas e trabalham com as plantas que houverem no local. Organizam-se em estruturas de vinte a trinta pessoas, nunca passando muito disso. A civilização vem caindo em número a medida que cada vez mais cahuilla abandonam suas terras para aventurar-se do lado de fora e acabam não deixando descendentes.

Existe uma espécie de ritual de união entre os cahuilla que é quase um casamento entre um homem e uma mulher. Dentre seus costumes, o linweha é permitir que as luas encontrem o casal desnudo em locais sagrados da tradição, e a união é permanente. Antecedem este ritual anos de provação: o homem deve saber que a mulher o ama verdadeiramente e vice-versa, muitas vezes por meio da imposição de testes cruéis. Eles são psicologicamente incapazes de atrair-se pelo sexo oposto sem esta preparação toda, por isso sendo complicada ou impossível a reprodução com outras raças.

Outro ritual da tradição é o takic onde uma vestimenta (na maioria das vezes mantos de frio confeccionados de couro) é sacramentada em seu dono e se torna parte espiritual dele. Vestimentas simples e sem enfeites (normalmente tiras coloridas, penas) indicam um cahuilla humilde, ou sem orgulho. Vestes negras tingidas com extratos de árvores setentrionais são as de cahuillas criminosos e exilados do convívio com os outros. Só por meio de uma virtude filosófica muito grande a memória de um exilado pode ser limpa, e normalmente isso só acontece após sua morte ou se ele for inocentado do que fez de alguma maneira. Na maioria das vezes, uma suspeita é suficiente para um cahuilla acusar. Eles não têm rodeios quando assuntos de honra estão em jogo.

Como muitas outras coisas, os cedarianos ocultaram por séculos a existência dos cahuilla, mas eles (apesar de tentarem) não podem evitar que eles ganhem o continente e se mostrem ao mundo. Nenhum mentirá sobre o lugar de onde veio de bom-grado, pois têm orgulho de serem o que são no mundo.

Artigo: Os Montanheses de Faris

... farisienses do oeste, os montanheses, sempre foram muito mais ligados à religião e à tradição do que seus conterrâneos do litoral alvo. Viviam das cordilheiras em inocência, vilas pequenas, muitas sem estrelas, muitos deles só viam outros lugares quando nasciam ou quando escoltavam suas esposas para que dessem à luz. Talvez por esses e outros fatos, os farisienses da costa leste teimassem tanto em chamá-los 'caipiras' e outros apelidos pejorativos.

A maioria dos montanheses tem a fala vagarosa e suave, carregada com um sotaque característico da região. Eles têm uma inteligência simples e são donos de um bom-senso continental, apesar de alguns serem simples o bastante para não terem aprendido a ler. Impressionam-se muito menos do que o esperado com coisas tecnológicas, mas acabam aprendendo a operá-las bem. São fortes, inocentes, arredios e bondosos, talvez como Maeve quisesse que fossem todos os humas, e como se o plano só tivesse dado certo com eles.

Entre os montanheses há os que acham que são ótimos, e os que são muito humildes. Há quem pense que os longinianos são estranhos, e que os cedarianos só querem o bem para si próprios – e talvez não estejam errados. Existem montanheses responsáveis, existem os que sonham em viajar, existem os que tiveram seus sonhos destruídos por uma guerra que eles não iniciaram. O que une todos eles no final das contas é um respeito muito grande pela terra e por tudo que foi lhes concedido como um presente, e, talvez, uma raiva incontida dos ivoreanos e talvez até dos outros farisienses, que fizeram ou deixaram tudo de ruim acontecer com as boas terras em que viviam.

Hoje em dia eles estão na pior das piores. Separados de suas famílias, suas casas perdidas, sem amigos e sem horizontes, eles vagam junto a caravanas ou solitariamente por Faris em busca de almas que lhes façam companhia. Os que defenderam os seus dos feiticeiros do clã Grendel ou os fafnires que ora reclamavam as terras ainda têm seus machados de lâminas únicas e retas por companhia para derrubar qualquer um que se meta entre eles e qualquer espécie de felicidade. Os que porventura tiveram sangue longiniano entre seus ancestrais podem ter aquele olhar noturno e místico que só eles dominam, e talvez algum talento a mais para se mover com graça e falar com a cabeça erguida. E os que pela guerra vieram a nascer sem a luz sabem que terão pouco tempo para achar algo que valha a pena nesta vida.

Fisicamente, eles estão distantes da pele mais alva da costa leste. Queimados de sol e com os olhos mais claros, são vigorosos e aprenderam a suportar muitas coisas frente às quais seus primos costeiros desistiriam. Metidos no meio das caravanas de hoje em dia, muitas vezes as pessoas precisam vir a eles perguntar sobre coisas simples da natureza que eles sabem melhor do que quase todo mundo. É difícil um montanhês não saber o caminho a tomar ou se vai chover ou fazer sol no dia seguinte. As nuvens são palavras muito bem escritas para eles, e os pastores de nuvens de Buriash são alvo de admiração e respeito instantâneo.

Nascidos antes ou depois de tudo acontecer, todos têm saudade do tempo em que tinham certeza que tudo estaria no mesmo lugar no dia seguinte e as plantas estariam maiores um pouco, quase boas para colher. Os dias que eles podiam buscar água nas nascentes das montanhas e beber com abundância, sem pensar que logo depois pode faltar para outra pessoa. Mais do que todos, eles lutarão para colocar Faris de pé.

Artigo: A Marcha da Ordem Pristina sobre Lodis

Eu não acredito que perdi isso. Então, Ivaness chega a Lodis e toma conhecimento de que a Ordem Pristina e aqueles vagabundos transgressores marcharam com avantesmas, fúria e glória sobre as ruas de Lodis. Mais incrível que isso, não houve retaliação armada, mas apoio e quebra-quebra, e chegaram às portas do Palácio Oceânico todos que entraram pelos portões que foram abertos por dentro. Nem um aríete. E os estandartes azuis da ordem desfraldados nas muralhas.

Lorde Gunther Quirian, Senhor dos Mares é parte do conselho agora. Não vão inventar uma cor de elmo para ele. A Quimera já não é mais - a Quimera já era.

Artigo: Instrumentos Percutidos da Antiga Rublo

Perdoem-me a inexatidão do título. Tudo que será tratado aqui diz respeito às tradições da antiga ilha-sul de Odenheim que, hoje, força do destino, chama-se Rublo.

Quando eu era mais jovem, uns 30 anos que os valham, eu estive com meu pai - meu pai viajava um bocado - de vila em vila no interior de Rublo. Eu me lembro de muita coisa dessas viajens. Meu pai era um terror no meio das meninas, parecia um garoto, não um setentão velho de guerra da coroa. Nós pudemos ver uma coisa rara e fantástica durante essas andanças. Essas palavras eu escrevi na época, poucos dias depois do acontecido.

Eu tenho um hábito de jogar fora todos os meus textos que encontro daquela época. Eu era diferente, quase arrogante, me considerava um ser especial e achava que todos deveriam ficar atônitos com minha grande sabedoria e minhas sacadas sobre a vida.

Esse texto eu não joguei fora, não. Eu estava maravilhado quando escrevi (o efeito durou sobre mim uns bons dias depois do que eu vi - eu tinha enchido a cara, também). Eu estava me sentindo tão bem e tão humilde, tão pequeno frente à maravilha que os homens inspirados poderiam fazer, tão diferente de mim mesmo. Peguei do papel e fiz pra mim mesmo o favor de registrar aquelas palavras que estavam brotando de mim.

"Esse ano foi difícil pra eles, foi um ano em que não estava vindo ajuda de lugar nenhum, nem os felpi e nem os cavaleiros do norte. E a neve estava impiedosa sobre a terra, a deixando esturricada, ruim para plantar. Mas ninguém chegou a passar fome. Aquele sol glorioso fez tudo encharcado, mas estavam dançando encharcados com aquela neve que havia sido banida, esconjurada.

Naquela noite houve tanto vinho, o vinho de dez casamentos, e houveram grandes tambores de água ribombando para fazer-nos tremer por dentro. Houve uma música divina, uma música de salvamento, uma música que viera para nos fazer perceber o quanto Maeve nos amava.

Aqueles tambores de água recém-degelada devem ter sido usados só daquela vez e nunca mais, e sorte de quem viu a dança sob o sol quase no fim da tarde, anunciando que todos estariam salvos. Eu e meu pai poderíamos pegar nossos trenós e partir dali o mais rápido possível, mas aquele povo em espera estava apertando nossos corações. A glória de Nila é um tambor de água, um tambor espontâneo, desritmado, reverberante, impreciso, e milagroso."

Artigo: A Música Folclórica Firrareana em Rublo

Um único instrumento inspirou quase toda a tradição de um país inteiro. A kitarra firrareana é uma espécie de violão de som metálico e reverberante, com graves possantes e três cordas. Os maiores tocadores têm agilidade incrível na mão esquerda. A kitarra só faz acordes simples, é um instrumento essencialmente gentio, dedicado ao folclore. Algumas peças chantelianas (sobretudo óperas) incluem kitarras, mas no momento que elas tocam a orquestra toda simplifica-se para adeqüar-se à natureza das três cordas.

O repertório folclórico de Rublo é vasto como os interiores do país. São canções sobre pastores, damas sussurrantes, noites de frio e amores impossíveis, o medo da guerra e da desolação, a esperança sempre num novo dia, e avantesmas dos rios e seus mistérios. Quando dois músicos se encontram é costume que troquem músicas. Ninguém respeita conceitos de autoria das músicas, todas são de todos, devem pensar que os músicos apenas alcançam coisas diferentes num único e imenso poço de idéias.

Na verdade, a simplicidade da música da kitarra faz com que todas fiquem muito parecidas. O repertório de idéias poéticas da vida interiorana de Rublo, apesar de lindo, é limitado. A maioria dos músicos repete as idéias que as pessoas querem ouvir: um sonho de simplicidade e fantasia, um sonho de pessoas impressionáveis, pessoas de fé e pessoas que apaixonam-se com inocência. Um ou outro músico persegue uma nova fronteira na poesia, ou conta um caso mais diferente. Muitos músicos ficam conhecidos por suas músicas características. Eles todos formam uma espécie de fraternidade onde uns ajudam os outros, já que não têm muito lugar em um país socialista onde não há tempo para ócio e diversão.

Por isto mesmo, a maioria dos caras que fazem essas músicas procuram agora uma maneira de levar seus passos a outros lugares que os recebam com dinheiro e agradecimentos. Enquanto, talvez, bom para o povo, o socialismo virá a matar quase tudo que um dia foi a face de Rublo para o mundo, inclusive a riquinha e pequena cidade portuária que deu o nome para o país. Seus ladrilhos já estão sendo invadidos pela grama. Pouco depois, as construções racham com as eras. A natureza gosta de morar onde nós deixamos. Será que Iamni esquecerá tanto assim do passado?

Artigo: O Flautim de Wilm

O flautim rublense é uma miniatura de flauta pequena e preta, feita de uma madeira especialíssima que cresce esparsamente no norte do país. Seu som é doce e agudo, mas um agudo cantante que não machuca os ouvidos nem se soprado com força. Como ninguém agüenta ouvir uma flauta monofônica por muito tempo sozinha, os flauteiros (não flautistas: quem toca flauta, aquela tranversa de orquestra chanteliana, é flautista. Quem toca flautim é flauteiro. Eu também acho feio) tocavam com os kitarristas. A proporção de flauteiros para acompanhadores sempre foi desleal. Qualquer criança com uma partitura poderia aprender rapidamente o flautim com sua mecânica simples. Assim, as professoras de Rublo aprendem a tocar a kitarra e acompanham a pequena orquestra de seus alunos, o som assemelhando-se a uma brisa doce vindo com todos aqueles flautins.

A necessidade de instrumentos de tessitura mais grave fez com que os artífices de tempos antigos viessem com um flautim aumentado e mais grosso, semelhante a uma clarineta, chamado briso. Além dos furos, o briso tem uma vareta abafada que regula a altura do som, conferindo uma extensão de graves e médios fantástica. O som do briso é soprado e doce, quase sem agudos. Um briso soprado sem propensões musicais soa como o vento, como a natureza, como um som que se ouve num eco ou qualquer coisa assim. Só ouvindo. Tem alguma coisa mística naquilo.

Compositores eruditos algumas vezes escrevem peças utilizando brisos e flautins, numa espécie de demonstração de simpatia pela tradição simples dos rublenses. Poucos conseguem um som legítimo: até os melhores sempre subvertem a simplicidade dos instrumentos a contextos complicados e harmonias difíceis, que um camponês nunca entenderia.

Eu deveria ser o último a falar mal da erudição, mas basta você soprar um briso para entender que nada do que se estuda vale mais do que o que se sente com o coração.

Sem piadinhas aí comigo.