Artigo: A Marcha da Ordem Pristina sobre Lodis

Eu não acredito que perdi isso. Então, Ivaness chega a Lodis e toma conhecimento de que a Ordem Pristina e aqueles vagabundos transgressores marcharam com avantesmas, fúria e glória sobre as ruas de Lodis. Mais incrível que isso, não houve retaliação armada, mas apoio e quebra-quebra, e chegaram às portas do Palácio Oceânico todos que entraram pelos portões que foram abertos por dentro. Nem um aríete. E os estandartes azuis da ordem desfraldados nas muralhas.

Lorde Gunther Quirian, Senhor dos Mares é parte do conselho agora. Não vão inventar uma cor de elmo para ele. A Quimera já não é mais - a Quimera já era.

Artigo: Instrumentos Percutidos da Antiga Rublo

Perdoem-me a inexatidão do título. Tudo que será tratado aqui diz respeito às tradições da antiga ilha-sul de Odenheim que, hoje, força do destino, chama-se Rublo.

Quando eu era mais jovem, uns 30 anos que os valham, eu estive com meu pai - meu pai viajava um bocado - de vila em vila no interior de Rublo. Eu me lembro de muita coisa dessas viajens. Meu pai era um terror no meio das meninas, parecia um garoto, não um setentão velho de guerra da coroa. Nós pudemos ver uma coisa rara e fantástica durante essas andanças. Essas palavras eu escrevi na época, poucos dias depois do acontecido.

Eu tenho um hábito de jogar fora todos os meus textos que encontro daquela época. Eu era diferente, quase arrogante, me considerava um ser especial e achava que todos deveriam ficar atônitos com minha grande sabedoria e minhas sacadas sobre a vida.

Esse texto eu não joguei fora, não. Eu estava maravilhado quando escrevi (o efeito durou sobre mim uns bons dias depois do que eu vi - eu tinha enchido a cara, também). Eu estava me sentindo tão bem e tão humilde, tão pequeno frente à maravilha que os homens inspirados poderiam fazer, tão diferente de mim mesmo. Peguei do papel e fiz pra mim mesmo o favor de registrar aquelas palavras que estavam brotando de mim.

"Esse ano foi difícil pra eles, foi um ano em que não estava vindo ajuda de lugar nenhum, nem os felpi e nem os cavaleiros do norte. E a neve estava impiedosa sobre a terra, a deixando esturricada, ruim para plantar. Mas ninguém chegou a passar fome. Aquele sol glorioso fez tudo encharcado, mas estavam dançando encharcados com aquela neve que havia sido banida, esconjurada.

Naquela noite houve tanto vinho, o vinho de dez casamentos, e houveram grandes tambores de água ribombando para fazer-nos tremer por dentro. Houve uma música divina, uma música de salvamento, uma música que viera para nos fazer perceber o quanto Maeve nos amava.

Aqueles tambores de água recém-degelada devem ter sido usados só daquela vez e nunca mais, e sorte de quem viu a dança sob o sol quase no fim da tarde, anunciando que todos estariam salvos. Eu e meu pai poderíamos pegar nossos trenós e partir dali o mais rápido possível, mas aquele povo em espera estava apertando nossos corações. A glória de Nila é um tambor de água, um tambor espontâneo, desritmado, reverberante, impreciso, e milagroso."

Artigo: A Música Folclórica Firrareana em Rublo

Um único instrumento inspirou quase toda a tradição de um país inteiro. A kitarra firrareana é uma espécie de violão de som metálico e reverberante, com graves possantes e três cordas. Os maiores tocadores têm agilidade incrível na mão esquerda. A kitarra só faz acordes simples, é um instrumento essencialmente gentio, dedicado ao folclore. Algumas peças chantelianas (sobretudo óperas) incluem kitarras, mas no momento que elas tocam a orquestra toda simplifica-se para adeqüar-se à natureza das três cordas.

O repertório folclórico de Rublo é vasto como os interiores do país. São canções sobre pastores, damas sussurrantes, noites de frio e amores impossíveis, o medo da guerra e da desolação, a esperança sempre num novo dia, e avantesmas dos rios e seus mistérios. Quando dois músicos se encontram é costume que troquem músicas. Ninguém respeita conceitos de autoria das músicas, todas são de todos, devem pensar que os músicos apenas alcançam coisas diferentes num único e imenso poço de idéias.

Na verdade, a simplicidade da música da kitarra faz com que todas fiquem muito parecidas. O repertório de idéias poéticas da vida interiorana de Rublo, apesar de lindo, é limitado. A maioria dos músicos repete as idéias que as pessoas querem ouvir: um sonho de simplicidade e fantasia, um sonho de pessoas impressionáveis, pessoas de fé e pessoas que apaixonam-se com inocência. Um ou outro músico persegue uma nova fronteira na poesia, ou conta um caso mais diferente. Muitos músicos ficam conhecidos por suas músicas características. Eles todos formam uma espécie de fraternidade onde uns ajudam os outros, já que não têm muito lugar em um país socialista onde não há tempo para ócio e diversão.

Por isto mesmo, a maioria dos caras que fazem essas músicas procuram agora uma maneira de levar seus passos a outros lugares que os recebam com dinheiro e agradecimentos. Enquanto, talvez, bom para o povo, o socialismo virá a matar quase tudo que um dia foi a face de Rublo para o mundo, inclusive a riquinha e pequena cidade portuária que deu o nome para o país. Seus ladrilhos já estão sendo invadidos pela grama. Pouco depois, as construções racham com as eras. A natureza gosta de morar onde nós deixamos. Será que Iamni esquecerá tanto assim do passado?

Artigo: O Flautim de Wilm

O flautim rublense é uma miniatura de flauta pequena e preta, feita de uma madeira especialíssima que cresce esparsamente no norte do país. Seu som é doce e agudo, mas um agudo cantante que não machuca os ouvidos nem se soprado com força. Como ninguém agüenta ouvir uma flauta monofônica por muito tempo sozinha, os flauteiros (não flautistas: quem toca flauta, aquela tranversa de orquestra chanteliana, é flautista. Quem toca flautim é flauteiro. Eu também acho feio) tocavam com os kitarristas. A proporção de flauteiros para acompanhadores sempre foi desleal. Qualquer criança com uma partitura poderia aprender rapidamente o flautim com sua mecânica simples. Assim, as professoras de Rublo aprendem a tocar a kitarra e acompanham a pequena orquestra de seus alunos, o som assemelhando-se a uma brisa doce vindo com todos aqueles flautins.

A necessidade de instrumentos de tessitura mais grave fez com que os artífices de tempos antigos viessem com um flautim aumentado e mais grosso, semelhante a uma clarineta, chamado briso. Além dos furos, o briso tem uma vareta abafada que regula a altura do som, conferindo uma extensão de graves e médios fantástica. O som do briso é soprado e doce, quase sem agudos. Um briso soprado sem propensões musicais soa como o vento, como a natureza, como um som que se ouve num eco ou qualquer coisa assim. Só ouvindo. Tem alguma coisa mística naquilo.

Compositores eruditos algumas vezes escrevem peças utilizando brisos e flautins, numa espécie de demonstração de simpatia pela tradição simples dos rublenses. Poucos conseguem um som legítimo: até os melhores sempre subvertem a simplicidade dos instrumentos a contextos complicados e harmonias difíceis, que um camponês nunca entenderia.

Eu deveria ser o último a falar mal da erudição, mas basta você soprar um briso para entender que nada do que se estuda vale mais do que o que se sente com o coração.

Sem piadinhas aí comigo.

Artigo: Os Distritos de Gradec

Um dos distritos mais famosos do condado de Gradec entre os aristocratas é o Alcarin, constituído por três ruas paralelas com galerias as interligando onde se faz o comércio de ervas ornamentais, sementes e flores. O bairro é dominado por uma miríade de bancadas com muitas sementes coloridas e flores exuberantes. O chão de ladrilhos é mantido sempre limpo, apesar de, no final do dia, haver alguma sujeira de flores pisoteadas. Buquês enormes podem ser adquiridos a preços bastante razoáveis com os floristas do Alcarin; no final da tarde, o bairro se enche de noivos e namorados atrás de presentes. Outro tipo que se vê com freqüência são os alquimistas atrás de flores raras e de sementes que possam cultivar. Os floristas não gostam de vender sementes para os alquimistas, já que isso significa perda de clientela permanente para eles. Cuidadas da maneira certa, a maioria das sementes vendidas no bairro Alcarin crescem de maneira extraordinária e dão belas flores e frutos. À noite, são comerciados todos os tipos de poções, sempre postas sobre tapetes de flores em belos frascos para impressionar os aventureiros de passagem pela cidade, que geralmente vão embora pela manhã.

Do outro lado da cidade fica uma área residencial feita de prédios estreitos construídos parede a parede uns com os outros. Muitos ficam de frente para herbários particulares dos moradores, de onde muitos tiram o sustento. O padrão de vida de Gradec é alto, possivelmente um dos maiores de Odenheim, perdendo, talvez, para Lodis e Vercel, cidades mais favorecidas politicamente. Gradec perde muito dinheiro com transporte de ervas para os portos - se fosse uma cidade portuária, ou com uma ligação direta com um porto, com certeza seria pelo menos duas vezes mais rica, já que quase setenta por cento da produção de Gradec é destinada à exportação.

Um dos maiores e mais misteriosos investimentos do conde Terrance o Alvo é a compra de grandes tanques de água cristalina quase-congelada das nascentes de Wolfram. Elas vêm pelos portos do leste, numa operação caríssima e pouco entendida pelas pessoas. O conde Terrance construiu uma espécie de represa subterrânea na cidade onde toda a água é mantida. Até agora, a única mudança que houve é que ficou ainda mais frio na cidade e houve uma ligeira queda na produção das flores delicadas; a maior parte do povo, contudo, confia no conde Terrance e imagina que alguma coisa boa virá desta empreitada.

Artigo: Aias

Aias, Odon heliptera, são uma espécie de inseto pequeno comum próximos de lagos e outros corpos parados de água. As aias têm grandes asas translúcidas, olhos multifacetados e corpos de coloração azul metálica. Alimentam-se de outros insetos pequenos, normalmente mantendo a população destes em um nível que não incomoda ninguém. Seu abdômen tem uma substância fosforecente que brilha à noite de uma maneira pálida, normalmente em épocas de acasalamento. São nativas dos lugares mais frios em Odenheim mas migram quando os lagos congelam, geralmente para a costa leste de Faris. À noite, quando voam em bandos sobre o Mar Alvo, causam pânico nos barcos muitas vezes por serem facilmente confundidas com cálciferes à distância.

Estima-se que as ancestrais das aias contemporâneas fossem capazes de concentrar geomancias dos outros, como se fossem receptáculos, e desta energia vem a luz que as aias emitem à noite. Existem damdarans que juram que ainda é possível fazê-lo com as aias de hoje em dia, apesar da dificuldade de manter a pequena criatura por perto.

Segundo os damdarans, as aias vivem de uma maneira hedonista, interessando-se em diversões como navegar entre galhos de árvores e provocar animais brilhando inconstantemente e fazendo-os se perderem de seus donos em perseguição. Elas são completamente incapazes de se comunicar, mas assustam-se quando são chamadas pelo nome em titani ("elas acham que o seu trabalho já foi feito e que nunca mais vão precisar preocupar-se com nada, e por isso fogem quando chamadas pelo mesmo nome que eram chamadas há tanto tempo"). Diz-se em áreas rurais de Rublo que uma aia pode acender um galho de árvore e criar um incêndio se irritada ou capturada. A maioria dos damdarans não gosta das aias e nem do comportamento delas.

Além da variedade azul mais comum, existem várias espécies de aia, como a asa-aberta esmeralda, Odon dryas, a asa-de-jóia ivoreana, Odon calopteryx, a dardo-negro ocidental, Odon hetaerin, e a cauda-anel azul, Odon lecarin. A asa-aberta esmeralda e a asa-de-jóia de Ivoire vivem em regiões Oeste de Natal e são adaptadas ao calor. A dardo-negro ocidental é uma aia munida de um ferrão que vive no norte de Faris, e emite uma misteriosa "luz negra", uma luminosidade púrpura misteriosa que faz coisas brancas brilharem. A cauda-anel azul é uma variedade maior da aia odeniana que vive na parte mais oriental da República.

Artigo: Mikasas

As capitânias da série Mikasa, nativa cedariana e largamente empregadas pelos Cranequin em suas operações, são leves e comportam uma tripulação de, no máximo, oito pessoas. Armadas com turbinas duplas, podem desenvolver velocidades superiores a 40 nós em mares internos e mais de 105 nós no éter. Sua blindagem é toda feita de aço e cromo (a isto chamam Armadura Crupe); elas têm um formato vagamente losangular e empregam três capotas para a transição. Possuem uma metralhadora pesada Matra montada em sua torre principal externa, e são adaptáveis para diversos armamentos, inclusive torpedos de alto alcance. Têm casários confortáveis, com corredores estreitos e beliches. O trabalho interno de madeira é impecável nas Mikasa industrializadas, com móveis adaptados que se encaixam nas paredes quando estão fora de uso. As Mikasa também têm cozinhas internas e uma área de lazer de razoável espaço, tudo em uma capitânia de pouco menos de vinte metros de comprimento total.

As Mikasa revolucionaram toda uma classe de capitânia leve híbrida em seu tempo por possuirem um par de asas largas e triangulares, retráteis, que fazem a função de planadores no éter. Em mares revoltos, as primeiras ondas impulsionam a Mikasa para o alto e lá ela permanece, usando esporadicamente as turbinas para ganhar altura e mantendo-se em segurança. Os planinautas chamam esta manobra de "eteroplanar" ou "fazer o vôo de Uraeus".

Feitas a partir de projetos originais ivoreanos, as série-Mikasa geralmente carregam vários traços de seus donos. Portam muitas vezes aerografias arrogantes e grandes bandeiras (grandes mesmo) em mastros inclinados, portando motivos guerreiros, logotipos de marcas de vinho, escudos de clubes, e brasões de família. A maioria das capitânias de esquadra têm ordem de se afastar à detecção de uma Mikasa, porque o comportamento dos Cranequin é muitas vezes imprevisível e eles não perdem muitas oportunidades de assaltos em alto-éter.

Artigo: A Cranequin

Centenas de burgueses cedarianos todo ano lunar se encalacram em dinheiro com a Cranequin, a maior e mais desorganizada máfia cedariana, composta de, basicamente, investidores e agentes, ou seja, planinautas loucos o bastante. Travessia para outros mundos é quase uma brincadeira para eles. Habilidosos, metódicos e desleais, são especializados em táticas de combate no éter, assaltos invisíveis, exploração ilegal, artilharia, serviços de escolta mercenária fora de mundos e navegação distante, ou seja, chegar a lugares inéditos pra planinautas pertencentes a ordens reais. Os Cranequin têm catálogos de segredos sobre mundos distantes e estes são vendidos às pessoas certas a preços exorbitantes. E, mais freqüentemente, burgueses cedarianos cedem somas incríveis de dinheiro como investimento aos Cranequin, que sabem pagar este tipo de coisa com muito bom grado.

A família Rampost Cranequin já não existe há muito tempo. Foram exterminados ao longo do último século em uma longa vendeta com várias outras famílias. Conhecidos por sua união e devoção incontestável aos interesses da família e por seus atos extravagantes (como membros que assumiram assassinatos publicamente, fizeram assaltos grandiosos à luz do dia e, principalmente, levaram as velhas capitânias do século passado ao seu limite), eles ganharam ao longo de sua existência inimigos terríveis. Todos os Rampost Cranequin sobreviventes hoje têm outros nomes ou vivem longe de Cédara, mantendo uma suposta segurança.

Envoltos em muitos mistérios e rivalidades, os Cranequin não têm medo de se mostrar em público. Eu poderia dizer que a estrutura política de Cédara é podre o suficiente para eles poderem não se preocupar, contanto que não sejam pegos em flagrante. Mesmo assim há uma grande chance de serem ignorados ou liberados. Todos sabem que a Cranequin não perdoa autoridades que acham que podem exercer qualquer poder, ainda mais sobre eles. E todos sabem, principalmente, que a Cranequin recompensa certos tipos de discrição.

Todos os Cranequin carregam uma arma chamada gastrafetes que é uma espécie de besta-pistola de metal rápida usada com uma só mão, que normalmente também compreende um revólver de impacto e utiliza vários tipos de encantamentos. É adaptada para funcionar ainda melhor no éter, produzindo faíscas que transformam-na numa espécie de arma de contato que descarrega choques poderosos. Todos também usam uma manopla (na mão esquerda) concedida pelo patrono ou empregador atual; enquanto usarem-a, estarão moralmente obrigados a manter a lealdade. Entretanto, podem recusar ou retirar seus votos (normalmente junto com o dinheiro do pobre homem) atirando a manopla aos pés do patrono.

Atualmente existe uma quantidade relativamente de farisienses e odenianos carregando estas gastrafetes e apavorando os guardas de portal. A liderança da organização parte de altos escalões políticos de Cédara mas a maioria dos Cranequin responde a outros Cranequin mais antigos, que "adotam" o novato até que ele possa ter o respeito que é necessário para conhecer os "grandes". Aliás, muitos dos "títulos" da organização são adjetivos de grandeza como estes.

Respaldados por autoridades compradas e donos de, talvez, as melhores capitânias de pequeno porte, os Cranequin providenciam histórias quase diariamente para que (principalmente) os aristocratas odenianos se aborreçam. Para piorar as coisas, todos os Cranequin têm uma espécie de status diplomático que impede que eles sejam julgados fora de Cédara, porque "a imagem errada que a digna organização mercante tem em outros países muitas vezes leva as autoridades a cometerem deslizes em seus julgamentos."

Artigo: A Magna Ordem dos Números

A Magna Ordem dos Números, ou “Ordem dos Numerólogos” foi fundada secretamente por Ld. Galen Melville Roch, que a liderou por seus quinze últimos anos de vida. Com uma tardia infusão, sendo um adepto fraco e um astrônomo ignorado, apesar de grande estudioso e respeitadíssimo nos círculos acadêmicos, ele descobriu sozinho o princípio da Equivalência, uma teoria sólida e manipulável com pequenos sortilégios, que poderia alcançar grande efetividade. Lorde Roch propriamente obteve pequenos sucessos em sua experiência pessoal com a Teoria da Equivalência, mas seus discípulos desenvolveram a ordem astronômica muito além do que ele sonharia.

Em 727 D.F., por divergências políticas internas, a Magna Ordem Odeniana foi excluída da Real União e sanções pesadas lhe foram impostas, levando-a rapidamente à bancarrota. Os astrônomos membros da M.O.O.N. a reergueram com seus próprios recursos e este sistema está mantido até hoje: para receber alguns livros e ensinamentos eles pagam taxas, bem como para cada uso individual de seus sortilégios. Os astrônomos da Magna Ordem têm status apenas em Odenheim; em outros lugares, a partir do momento que souberem que pertencem a uma ordem banida, devem assumir Status -1; todos devem jurar lealdade à M.O.O.N. e nunca fraudar o imposto, que é a única coisa que mantém a ordem viva.

Artigo: A Escolta Patriótica de Rublo

Em Rublo, aos adeptos representantes do Ministro Maynard dá-se o nome de "emires", que entre muitas outras funções, devem, em suas caminhadas diárias por todo o solo de Rublo, escolher dentre os aldeões os melhores, mais inteligentes e fortes, para compor a Digna Escolta Patriótica de Rublo, um pequeno exército de vigiadores solitários munidos com rádios de altíssima freqüência, sinalizadores e boas armas trazidas de Cédara. Como Rublo não tem condição de munir muita gente, os emires são seletivos e determinados em encontrar os mais aptos. A vida de um vigiador da E.P.R. é muito mais difícil e até menos recompensadora do que a vida de um aldeão, então a maioria das pessoas mais teme do que deseja ser escolhida.

Com boa parte dos portos abandonada, a costa de Rublo tornou-se um lugar quieto e vazio. O propósito da existência dos vigiadores é solitariamente cruzar estes limites, sempre com os olhos no mar, reportando qualquer movimento para Veruna. Desde a instituição da E.P.R. há quase vinte anos, o único caso de relevância foi quando uma pequena frota de guerra ivoreana estacionou ao sul da Cidade Nova e lá permaneceu por duas luas, aparentemente sem comunicação com a capital. A arrogância e prepotência dos rublenses neste caso quase rendeu um bombardeio pardo, e os ivoreanos aparentemente nunca tomaram conhecimento do motivo daquela armada estacionada ali.

Artigo: O Diamante de Wilm

A Cordilheira de Wilm é o nome que se dá para a região montanhosa que divide o final do estreito com Ayanan, ou, para vocês, jovens, a República de Rublo. Em Wilm repousam quatro torres-fortalezas construídas sob os altíssimos poderosos da Constelação de Hélice, pelos dois Imperadores Remus durante seus longos reinados. Todas elas, bem como suas terras e armas, ficaram para o comunismo: as quatro hoje formam o baluarte que, talvez, tenha desencorajado Meredith a atacar Rublo por terra.

A primeira delas foi Labrys, sob Terminus. Como Labrys veio a se tornar, além de uma fortaleza, uma cidade de trocas e de passagem, encarregada da taxação e do controle de todo tráfego entre Rublo e Oden, e, sobretudo pela vontade dos novos donos da terra, Labrys tornou-se Primeira Fortaleza Terminus, uma grande cidade murada, hoje dominada por peões, adeptos, estudiosos e muita gente, transformando uma cidade da guerra numa espécie de cortiço imenso, onde escudos funcionam como janelas e lanças espetadas no chão viram varais. Um odeniano provavelmente ficaria horrorizado com as armorarias cheias de mato e as muralhas dominadas pela hera, mas arrisco dizer que o povo lá vive bem contente.

A segunda fortaleza foi Vervain, sob Voltumna, o Cúmulo Recorrente. Esta fortaleza e templo das chuvas está atualmente abandonada: construída em um pináculo rochoso, tem pouca utilidade para a agricultura. Quando os salteadores e proscritos criarem coragem para empurrar aquelas grandes portas duplas de aur e arquirrocha (arquirrocha ou "rocha celeste" é uma espécie de pedra azul-escura profunda, quase preta, fácil de trabalhar e bastante sólida, muito usada em grandes portões), como eu dizia, quando os salteadores e proscritos criarem coragem para empurrar aquelas portas, encontrarão tesouros incríveis e cajados chamadores de raios, além de pelo menos uns cinco satélites muito entediados e enfurecidos...

A terceira foi Bethlehem, um grande castelo com três grandes planos para artilharia, sob Avelt, o Brilhor Noturno. Lá se faziam lâmpadas incandescentes, como as longinianas, mas com centelhas loucas que dançavam em tons de laranja e púrpura. Tinham até um grande farol de batalha cuja luz nunca foi acesa. É dito que seu lampejo poderia cegar um homem para sempre. Suas barricadas também eram as maiores. Se Iblis chegasse lá ele ia ver o que chamamos "resistência secular".

A última foi Impatiens, sob Cebalrai, Dominador dos Véus, a "Morada dos Invencíveis", uma fortaleza localmente famosa pelos seus caçadores de avantesma, aparentemente imortais graças às armas encantadas com o Bracelete da Concha Mística que transformava ferimentos em simples cansaço. Era um espetáculo tão certo vê-los lutar que lembro de cortejos os seguindo, com faixas e bandeirolas. Derrubavam avantesmas no mar, avantesmas costeiros, subjugavam satélites rebelados com grandes alabardas e bestas que disparavam munição mística.

Era bom... bons tempos... glória, capitalismo... adeus, Rublo! Pra mim chega.

Artigo: Da Construção de Nova Eiselc

Contou-me um escrivão do Palácio Oceânico que em seus tempos de juventude, Meredith tinha seis cadernos de capa preta e espiral, de folhas largas e grossas, onde desenhava seus sonhos e devaneios. Eles foram selados por ele mesmo em uma arca, pedindo que Else abrisse-lhes passando-se um número de anos após sua morte. Isso aconteceu alguns anos antes que desaparecesse, mas depois da morte de Pluma Isabelle.

Imagino que poucos saibam se e qual evidência a Hierofante teve da morte de Meredith: fato é que há alguns anos a arca foi violada por ela, que tomou os cadernos. E Nova Eiselc talvez fosse a primeira das páginas: um distrito aéreo, suspenso por grades de ferro e acima das nuvens, o lugar mais frio do mundo. O sonho de Meredith virou realidade há alguns meses atrás com a construção do Primeiro Distrito Aéreo e da linha de bonde que pode levar as pessoas para lá.

Tenho certeza que o pragmatismo de Else não a permitiu construir aquela primeira página apenas para realizar um desejo póstumo do imperador caído. Mas a intenção da Quimera por trás daquelas barras de metal é a que eu daria meu mundo para descobrir.

Leitura: O Grande Anfiteatro Real "Vislada"

Sua fundação data de 404 D.F., e sua construção foi feita com o apoio de aristocratas cedarianos como um símbolo da amizade e dos acordos vitalícios de comércio entre os dois países. A Vislada já foi palco de muitas apresentações e eventos históricos, como a declaração de guerra de 701 D.F. e a última apresentação da banda que veio a se tornar o maior fenômeno musical do século entre os jovens, a Pedras Esmagadoras (na ocasião, segundo testemunhas, houve quem tivesse invadido o anfiteatro pelo telhado e tivesse assistido a apresentação pendurado no lustre).

Hoje em dia, a Vislada recupera-se do fechamento e posterior depredação causados pela política de guerra mereditiana, em sua maior parte com investimento de particulares, como o digníssimo sr. Gen. Firdaus Durante, distinto gênio da balística e criador de muitas armas e orbes que levaram Odenheim a uma vitória com menos fatalidades nas guerras de fronteira. Com a freqüência aproximada de quinze dias, atores e atrizes trabalham de graça produzindo espetáculos patrocinados pela casa, somente para angariar fundos para sua restauração. Estima-se que somente o conserto dos três grandes lustres de cristal requeira um trabalho de muitos especialistas, avaliado em, pelo menos, duzentas e cinqüenta mil rúpias.

Infelizmente, enquanto um pequeno movimento da Quimera poderia devolver à Vislada a glória de dias antigos, esta parece ignorar o teatro que moveu tantos corações em tempos passados.

Transcrição do Tomo dos Regentes, III


Trouxe
Do inominado nada - que não era nada
Os olhos que lhe serviriam
E neles fez brilhar uma luz que seguiriam
Como mariposas ao fogo
(portanto já Eram as mariposas)


Artigo: O Santuário de Asperi

Ao sul do grande planalto que circunda Lodis, guardado por névoas permanentes em sua condição de baixio, o pequeno Bosque Gris guarda uma antiga igreja, o Templo Sagrado de Asperi, o já caído Altíssimo do pó e das cinzas. Esta igreja de estilo chanteliano antigo, depois de anos de abandono e chuvas e depois de todas as linhagens de oradores de Asperi terem se esvaído, tornou-se uma figura melancólica, quase desaparecida no bosque. Até este ponto, o Templo Sagrado de Asperi teve o mesmo destino de tantos outros templos de estrelas apagadas, como Calícrates e tantos outros longinianos. Suas torres compridas e negras por lá ficaram por, talvez, um século, e teriam sido esquecidas e dominadas pela vegetação.

As disputas pela coroa odeniana, porém, fizeram com que o lugar tornasse-se uma espécie de refúgio de cavaleiros bandidos, primeiramente Ld. Marin Karkaroff e seus asseclas, e, ao que tudo indica, hoje em dia, a resistência do que sobrou da Ordem Pristina liderada por Ld. Gunther Quirian, Senhor dos Mares.

Já houveram várias ordens para que demolissem a pequena igreja nos intervalos entre essas ocupações - foi erguido, inclusive, um pequeno santuário em honra do Altíssimo Asperi em Lodis, capital. Entretanto, todas as tentativas de encontrar o templo destas vezes falharam, e uma resultou em uma pequena chacina promovida por, segundo testemunhas, cálciferes enlouquecidos. Uma espécie de vontade superior parece proteger o local, permitindo que entre somente quem não tiver intenções que vão de encontro à permanência do pequeno templo. Diz-se que a Quimera cogitou bombardear o lugar, mas a ordem foi retirada de maneira abrupta e suspeita por um alto oficial odeniano. Parece-me que a capital prefere dar aos meliantes um lugar para se esconder, e saber que eles estão ali.

Leitura: A História de Hepzibah, parte 5

A última parte da história de Hepzibah escapou às trovas e parece ser de conhecimento de poucas pessoas apenas, então falo nos poucos detalhes que pude confirmar. O meio-djin repetiu o trajeto de Keshal partindo do norte ocidental de Faris atravessando as terras de contestação e cruzando com muitas caravanas, então aprendendo sobre o que estava acontecendo. Ele não precisava de uma chance, só de um lugar para apertar as espadas contra os pardos, e escolheu Oden para isso. Sabia, também, que era pouco mais que um animal pelo que a maioria das pessoas entendia, um animal perigoso e astuto.

Por isso, Hepzibah decidiu agir exatamente como o animal perigoso e astuto que pensavam que era. E foi um instante até que encontrou um cavaleiro-de-regimento nortista, usando uma bela armadura completa da Armurada e - o que mais importava, um distinto brasão pessoal.

Hepzibah deve ter acabado com ele, ou, no mínimo, o deixado estraçalhado. Mas o meio-djin, sabe-se lá com que palavras, assumiu sua armadura e partiu em um barco que retornava a Oden para a guerra. E nunca mais ouviu falar-se de Aulus, o Irresponsável, que era o nome do pobre-coitado; na verdade nunca mais ouviu falar-se do verdadeiro Aulus o Irresponsável, porque Hepzibah estava construindo uma sólida reputação com seu 'novo estilo' duas-espadas-muitas-mortes.

Qualquer um apostaria que não ia durar muito tempo. Atingido por uma lança, o falso Aulus jorrou fogo do ferimento, entrando em colapso no meio do campo de batalha. Seus companheiros não estavam entendendo o que estava acontecendo - provavelmente acharam que era mais uma invenção da mente maquiavélica ivoreana, lanças abençoadas por Iblis ou carregadas de alquimia, e que o pobre Aulus havia sido vitimado por uma delas.

Qual foi a surpresa deles quando onde deveria haver Aulus houve Hepzibah? Mas o prestígio do pequeno meio-djin entre os soldados era grande e ele acabou ficando nas fileiras dos Elmos Escarlates. "Rachamarfim", como ficou conhecido, o grande derrubador de ivoreanos, grande estoporador de avantesmas, grande, grande. E foi quase engraçado quando começaram a obedecê-lo, e novamente quase engraçado quando começaram a ignorar solenemente o Ld. Fabian Tertius, último comandante de um dos destacamentos lá.

Assim surgiu a ordem dos Rebentos de Rachamarfim.

Artigo: Os Vestra

Os vestra, seres agraciados com um contato quase físico com os Altíssimos, existem discretamente entre o alto clero maevita. Poucas pessoas sequer sabem de sua existência. Em seu estado puro e mais poderoso, eles formaram uma espécie de ordem de elite nas guerras lúmicas que findaram a segunda civilização. Hoje, passadas muitas gerações, eles são uma espécie de representantes físicos de deidade, entesourados pelos hierofantes e cardeais como relíquias sagradas de um tempo em que Maeve não era tão ausente.

O grande poder dos vestra é a capacidade de realizar milagres que eles mesmo desconhecem, e a capacidade de criar mandalas originais, fazendo a energia divina que permeia tudo materializar-se e colapsar, causando grandes estragos. Eles também são muito resistentes à feitiçaria e boa parte deles é completamente fanática em suas crenças, apontem elas para o lado que for.

Até a puberdade (que acontece ao redor de 12 anos), o vestra é bastante parecido com um huma; diferenças são cabelos muito finos e frágeis, pele mais clara que o normal, unhas de aspecto levemente metálico e veias aparentes de cor prateada. Eles, muitas vezes, são marcados no nascimento com símbolos de proteção que, muitas vezes, são permanentes.

Quando atinge uma certa idade, o vestra passa por uma mutação dolorosa em que seu rosto ganha aparência vítrea e consistência quase metálica, ou cristalina. Ele não brilha absolutamente nada, mas é opaco somente porque reflete-se muitas vezes dentro de si mesmo. A face torna-se uma máscara que lhes inflinge certa dor quando movem os olhos e expressam-se: por isso, os vestra costumam ter poeira reluzente de si mesmos nos cantos dos olhos, como vidro esmagado. Todos os vestra crianças temem e anseiam ao mesmo tempo por sua transfiguração, que é uma manifestação de poder puramente divino. Muitas vezes o 'raio de vidro' desce em direção às costelas e transfigura um braço, ou uma parte do tronco; em outras, a mutação agonizante faz o vetra ter a cabeça de um 'elefante', ou faz seu rosto tornar-se uma máscara surreal e disforme, sem expressão ou com formas bizarras. Uma comitiva de adeptos de alto escalão sempre vela pelo vestra quando ele está se transformando - geralmente aos berros. Muitos vestra pedem para serem mortos se vierem a adquirir aspectos bestiais.

O resto de seus corpos segue de perto sua ascendência huma. Hoje em dia, é possível que só existam vestra homens, já que o nascimento de uma menina vestra é uma ocasião raríssima. É também significante o número de vestra que nascem com deficiências, não podendo andar ou mover os braços. O filho de dois vestra de geração fraca nasce com a fronte de prata, mas morre nos seus primeiros dias, incapaz de respirar por si próprio. Por outro lado, o vestra saudável, filho de um outro vestra com uma huma, pode alcançar três séculos de vida se não contrair nenhuma doença.

Movidos por uma espécie de luxúria ancestral depois que amadurecem, muitos deles são indisciplinados e selvagens; mesmo os mais meditativos têm rompantes de instinto. O sangue vestra é forte; um filho de um vestra com uma huma normalmente é vestra, mas é difícil que a huma engravide.

Aparentam pesar bem menos que humas de seu tamanho. São frágeis de compleeição, e dizem que seus ossos são ocos. Por outro lado, quando pisam o chão, pesam um exército, muitas vezes mais do que deveriam, numa mostra clara de misticismo. Eles podem controlar este efeito (eles o chamam 'Manifestar') de maneira limitada, mas para eles natural como andar. Eles também manifestam um segundo efeito mais incrível ainda: eles conseguem tangibilizar suas almas para fora de seus corpos, principalmente próximo aos dedos das mãos, formando manipuladores como garras, cordões e ganchos feitos de bolas de luz efêmera. Este efeito, para a maioria dos vestra, é frágil e lento, além de perigoso. Eles também têm o controle de suas almas para abri-las à influência das luas quando quiserem, bem como fecharem-nas. Eles não podem, contudo, evitar ficarem enluados depois que sofrerem suas Maldições Ancestrais simplesmente fechando suas almas.

Suponho que os vestra tenham ainda um terceiro poder: tocando seus dedos na testa de uma pessoa, eles seriam capazes de enevoar sua mente e fazê-la esquecer de eventos recentes. Esta afirmação, faço baseado em histórias que ouvi, e pode não corresponder à realidade.

Os vestra têm uma mentalidade que lhes capacita a deduzir uma Mandala Prima sem sequer conhecer seu Altíssimo. Eles conhecem as Mandalas como uma linguagem, não como desenhos. Muitas vezes o vestra fica surpreso ao conhecer o patrono dos milagres que invocava há décadas. Eles são paladinos naturais sem nunca terem sido feiticeiros, e muitos são obsessivos em suas crenças, repetindo orações e poesias incessantemente. Em Ivoire, os vestra têm a mentalidade que são criaturas místicas e privilegiadas, e que têm o dever de manter as rédeas da história sob controle. Eles são os mais terríveis e assustadores, fanáticos que se consideram perfeitos sob os olhos da Deusa.

Os vestra batizam-se como Oradores de um substantivo inspirador (Orador da Clareza, Orador do Silêncio, Orador da Areia), e normalmente incorporam o nome da lua sob a qual nasceram (como "Orador do Silêncio, Onfalian"). Os adeptos usam o pronome 'Venerável' para referirem-se a eles. Vestra rebeldes ou fugitivos escolhem nomes humanos, mas eles geralmente são péssimos para fazê-los sem despertar suspeitas: muitas vezes são incapazes de aceitar nomes que julguem comuns, e escolhem nomes aristocráticos ou nomes de santos reconhecidos. Vestra que se tornam adeptos geralmente criam derivações de seus cargos para tornarem-se seus nomes, como 'Marcard" para Cardeal, "Ispolis" para Bispo e semelhantes.

Vestra são naturalmente vaidosos e ofensivos romanticamente, muitas vezes quase violentos. Os mais fanáticos tendem a ter uma preocupação neurótica com os outros, que sempre acontece em níveis extremos mas nunca ameaça a vida do vestra: eles têm um instinto de sobrevivência tão grande quanto seu instinto de reprodução. Ouvi uma vez uma história em que um vestra inconsciente teve seus poderes disparados em defesa de sua vida, como se o controle destes viesse de outro lugar, de outra mente.

As armas de suas grandes guerras do passado, espécies de adagas deíficas de gume duplo, acompanharam gerações e chegaram até os vestra de hoje conservando seus poderes quase épicos, quase sempre abençoadas por mais de seis Altíssimos. Os vestra nascem com uma noção interna de duelos com estas adagas, muito diferente de qualquer luta vista de outra forma em Natal, uma forma de combate baseada em uma postura ereta com a adaga segura entre dois dedos, que salta para golpes rápidos e embrutecidos antecedidos por orações. Imagino que este seja uma espécie de presente oferecido pela Deusa que não lhes foi tomado com todo o tempo que se passou.

Existem registros que indicam que a existência dos vestra foi revelada ao povo uma vez na história de Ivoire, e outra na história de Odenheim. Houve caos enquanto todos quiseram as bênçãos do ser divino, e após o tumulto e o desaparecimento do vestra, todos aparentemente os esqueceram. Talvez tenham sido vítimas de uma versão maior do poder que eu suponho que tenham.

De qualquer forma, pouca gente sabe mais do que isso sobre os vestras. É possível que mesmo eles saibam pouco sobre eles mesmos, ou saibam somente o que lhes foi ensinado. Lendas antigas e quase desconhecidas falam que, onde hoje é Veruna, um dia existiu um grande estado vestra, uma regência independente com castas de guerreiros divinos, e que antes deste estado vestra lá existira uma habitação de anjos, e que aquelas terras seriam as mais sagradas deste mundo. Em Longinus, hoje, muitos vivem enclausurados em um palacete em Margrave, fechado ao sol e ao povo, chamado 'Ondécima Casa' ou 'Casa Onfalian'. Não se sabe de seus atos ou passado em Faris, Odenheim e Cédara.

Artigo: A Civilização Damdaran

Talvez um dia, nós tenhamos que dividir todo nosso espaço com a civilização damdaran, que, apesar de tímida e reclusa, cresce cada vez mais em seus recantos nas terras baixas de Cédara e na costa oriental de Faris; são quase desconhecidos em outros cantos do mundo.

Damdari são semelhantes a nós, mas são menores, mais esguios, e têm a pele mais escura, geralmente em tons de castanho. Seus cabelos são lisos, geralmente castanho-claros ou cor-de-terra: eles geralmente os usam soltos. Seus rostos são infantis e finos; muitos ostentam narizes um pouco compridos. As orelhas dos machos, bem como as partes laterais de seus rostos, muitas vezes assemelham-se à de uma outra conjuração. Quase todos os damdari machos morrem de vergonha de suas orelhas e usam os cabelos por cima delas quando em meio aos humas. As fêmeas têm orelhas humiformes pequenas e usam cabelos curtos bagunçados.

Gostam de grandes áreas abertas e planícies; são estritamente vegetarianos e podem viver mais de duzentos anos. Eles tiveram participação ativa no conflito contra os djins e existem em Natal há muito mais tempo que nós. Na época, serviram como mensageiros, cavalariços e espadachins. Eles afirmam que aprenderam o titani de um santo de armadura de ferro assim que seus primeiros chegaram a Natal; eles os ensinara enchendo suas bocas de pólen. A maioria fala ambas as línguas, o titani e o alvalli, e alguns, principalmente os descendentes de suas castas mais guerreiras, têm noções de daoi, a língua proibida dos djins.

Sabendo o titani, os damdari comunicam-se com eficiência com boa parte das conjurações. Eles nunca admitirão isso, mas comunicarão-se com mais eficiência ainda com a conjuração à qual correspondem suas orelhas. A ligação dos damdari com Natal os faz geomantes maravilhosos; por outro lado, eles sentem-se péssimos fora do mundo, deprimidos e sem vontade de fazer coisa alguma. São, também, ótimos espadachins, e têm grande acuidade de reflexos, bem como um olfato privilegiado.

Por outro lado, suas aparências enganam muito no que diz respeito à maneira como pensam. A maioria é bastante sisuda e séria, e anda de péssimo humor. Eles odeiam música huma e não perdem uma oportunidade de ofender qualquer coisa feita por eles. Não são capazes de dizer frases curtas em alvalli (reflexo de sua intimidade com o titani) e poucas vezes ficam dispostos a colocar sua habilidade em comunicar-se com conjurações em prática. Gostam de viajar sozinhos. É difícil, inclusive, que um damdaran se dê bem com seu próprio bando e família. A maioria parte para procurar seu sustento e vida como caixeiros-viajantes ou mensageiros, sua ocupação desde milênios atrás. São ótimos cavalgadores de celados, bem como todas as coisas que aguentam seu peso. Eu já vi um damdaran montar um felpus e, pouco depois, um azdar.

As fêmeas são mais raras e um pouco diferentes dos machos. São curiosas e têm a mente mais aberta; gostam de trabalhar com comércio junto aos humas, particularmente de integrar linhas de produção simples como padarias e confecções. São boas com artesanato e trabalhos manuais; vivem de maneira plácida e pacífica. Quando atingem uma certa idade, muitas têm que abandonar seus afazeres para procurarem um 'namorido', um parceiro com quem possam gerar um único filho. A gravidez da damdaran dura de quatro a cinco meses, durante os quais o macho têm que lhe fazer mordomias (de péssimo humor). A ocasião do parto é misteriosa, e não se conhece a Alma Mater dos damdari; a criança é, daí em diante, criada pelo pai, que lhe ensina tudo que ela tem de saber antes de soltá-la no mundo. É raro que o casal fique junto depois disso. As fêmeas costumam ter o impulso de se reproduzir umas quatro vezes durante a vida.

Os damdari não batizam seus filhos. Eles são chamados de 'coisa' ou 'isso' até terem idade suficiente para escolher um nome para si próprio, geralmente muito longo, e em titani. Eles odeiam fama e reconhecimento, e trocam prontamente de nome quando dão na telha ou tornam-se conhecidos. O pior de tudo é que eles tendem a esquecer seus nomes antigos de verdade, e deixar de responder por eles.

A civilização damdaran é temente a Maeve de uma maneira silenciosa e estranha. Eles não oram e dificilmente se tornarão adeptos de qualquer altíssimo. Se você me perguntasse e eu respondesse com sinceridade, eu diria que eles sabem de alguma coisa que ninguém mais sabe, e não falam de jeito nenhum. Não gostam de falar sobre fé e crença e ficam subitamente sérios quando trata-se deste assunto.

À medida que envelhecem, os damdari vão piorando de humor e tendem a ficar cada vez mais reclusos. Seus cabelos escurecem ao invés de clarear, e eles vão andando cada vez mais curvados, como pequenos anciões. Diz-se que Maeve os leva de volta para casa antes que morram, e eles rejuvenescem para viver mais uma vez em seus mundos natais.

A maioria dos damdari sabe se defender, e bem, com geomancias. Quase todos carregam cetros de madeira com os quais invocam poderes naturais; são péssimos com armas de distância. Em Cédara, chamam de filho-de-damdaran as pessoas que pecam na pontaria. Gostam de brigar de perto, se precisarem brigar; não são particularmente fortes, mas sabem bater onde machuca e esquivam infernalmente bem. Alguns herdaram de suas castas a disciplina do Galho Djin, aprendida nos tempos da guerra. Os que o fazem lutam com galhos verdadeiros, nunca com espadas galhiformes, a não ser que seu galho tenha se perdido ou extraviado. São muito desajeitados com armas maiores que cetros e espadas; odeiam carregar peso.

Damdari viajantes muitas vezes são seguidos por um pequeno séquito de celados, que carregam suas tralhas. É raro que um damdaran se desfaça de algo se puder guardá-lo, mas por nada neste mundo o damdaran carregará coisas pesadas nas costas. Eles gostam de fazer comércio e de estar sempre na estrada; muitas vezes, gastam boa parte de seu dinheiro com mordomias nas cidades. São fracos para bebida; o álcool os deixa sonolentos e bobos. Preferem manter suas palavras, mas consideram um 'retiro o que disse' suficiente para quebrar os juramentos mais sérios.

Outra característica interessante da personalidade damdaran é a tradição do Quite. O Quite rege a vida de muitos damdari que vivem entre os humas. Eles odeiam ser ajudados, mas, uma vez que precisem e forem, farão de tudo para pagar o favor. Da mesma maneira, se ajudarem alguém, eles não desgrudam da pessoa até que ela lhe retribua. Por isso, o damdaran que quer sua independência faz de tudo para não receber ajuda. Amizades verdadeiras entre humas e damdari surgiram de contas sem-fim de favores pagos e favores a pagar. É lógico para eles que seja assim, e eles não conseguem viver de outra maneira. O Quite também funciona para o inverso, e eles são vingativos com aqueles que os prejudicam pessoalmente. É possível que eles fossem muito mais desligados dos humas se não tivessem esta mentalidade: normalmente, o damdaran só se importa consigo mesmo.

Uma pergunta que eu nunca quis responder foi acerca da existência de meio-damdari. Mas vou: nunca vi. Eu nunca vi gente menos romântica que os damdari, a maior parte dos machos têm aversão à intimidades físicas, ainda mais com mulheres humas; da mesma maneira, as fêmeas damdari, apesar de, talvez, ligeiramente mais dispostas a experimentar coisas novas, devem parecer meio magrelas e pouco interessantes para os homens humas. Os cedarianos é que vivem querendo estudar esta possibilidade, mas duvido muito que um huma, ainda mais um frouxo de um cedariano, consiga levar uma damdaran no papo para isso. Talvez um odeniano conseguisse, um farisiense fortinho quiçá, mas um cedariano, definitivamente, não.

Dizem que, próximos de lugares onde houveram grandes guerras djin no passado (principalmente em Longinus e em Cédara), existem santuários Damdara, refúgios escondidos no meio de áreas selvagens onde os damdari poderiam parar para descansar em meio a grandes jornadas. Estes refúgios, segundo ilustrações de velhos livros, eram construídos sob a terra com azulejos, boas lareiras e várias pequenas mordomias; suas entradas eram submetidas a encantamentos que permitiam apenas aos próprios damdari os encontrarem. De fato, um destes foi encontrado próximo à Velha Alagos, mas não se sabe se é o único. Eu visitei o lugar, e ele parece datar de muito tempo, mas muito tempo mesmo. Parece que o gosto dos damdari por mordomias data de muito antes de seu convívio com os humas.

Hoje em dia, estimo que existam, talvez, uns quinhentos damdari sobre Natal, mas seus hábitos peregrinos e irresponsáveis não nos permitem fazer uma estimativa perfeita. Ao menos trezentos deles fizeram comércio conosco no último século, mas, novamente, esta estimativa pode estar errada dado o gosto deles por trocar de nome.

Artigo: Navidorsos

O navidorso, 'Navis nereus', é um grande mamífero aquático, de vida extraordinariamente longa e uma couraça óssea poderosa recobrindo toda a parte superior de seu corpo. Em sua fase adulta, o navidorso pode atingir o tamanho de um barco pequeno. Eles habitam as profundezas do Oceano Alvo e as proximidades do Oceano Boreal e são quase invulneráveis em vida, não tendo nenhum predador natural. Em contrapartida, sua reprodução é lenta e difícil, e eles já beiraram a extinção várias vezes sem que houvesse sequer interferência huma.

A maior parte dos navidorsos não se importa se alguém agarrar em suas reentrâncias ósseas para viajar junto com ele, desde que esta pessoa tenha uma maneira de respirar embaixo d'água e aguentar a pressão do fundo do Boreal. Se o navidorso percebe que algum dos passageiros está se saindo mal, ele o leva (meio irritado) à superfície e tenta o fazer se soltar ali. Contam-se histórias de navidorsos que salvaram crianças nadando na superfície, mas provavelmente tratam-se de lendas. Parece-me que todos eles entendem titani.

Há quem veja lucro em caçar navidorsos. A única maneira de fazê-lo é rebocar a grande besta para um lugar seco. A carapaça óssea faz elmos e armaduras magníficas e relativamente leves, de aspecto extremamente maligno. A maioria das pessoas considera cruel ceifar a vida de um ser de vida tão longa e daquele tamanho; de fato, a visão de um navidorso morrendo arrastado para uma praia é difícil de suportar. Não há relatos desta atividade desde o quarto século da Fundação, quando várias couraças de navidorso foram postas em circulação.

O ciclo de vida de todos os navidorsos de Natal termina nas proximidades da ilha Blue Eye, ao norte de Faris, sob a estrela de Eochaid, regente sobre a eletricidade. Algo na água, uma estática elétrica segundo escolásticos, os faz procurar aquele lugar para morrer. As ossadas e couraças de centenas de navidorsos mortos formaram um labirinto amplo e macabro no fundo do Boreal. Não existe, até hoje, um templo de Eochaid - conta-se que, para invocá-lo à submissão, é necessário que recupere-se um fragmento precioso de si próprio que foi parar no fundo do oceano, o Coração de Eochaid. Justamente sob o labirinto de ossadas, infelizmente.

Claro que é assim. Imagina, se o Coração de Eochaid estivesse simplesmente no fundo do oceano, alguém já teria o encontrado, e já haveria um templo radiante em Blue Eye. Absurdo.

Artigo: Felpi

O felpus, Felpus granam, é um canino odeniano, de pelagem longa e branca. Assemelha-se muito ao 'lobo' descrito por viajantes vindos de outros mundos. A maioria vive nas tundras congeladas de Bialt em estado selvagem e tem olhos de cor verde profundo, onde ora se vêem pigmentos dourados e vermelhos. São surpreendentemente inteligentes: diz-se que eles se comunicam em titani, mas eles entendem quase todas as palavras de alvalli. Muitos trabalham para os odenianos, correndo enquanto puxam trenós em troca de caça, alimento e peças de armadura especiais. Organizam-se muitas vezes em caravanas para levar mensagens e mercadorias de uma cidade a outra durante as piores nevascas, quando as pessoas não podem viajar.

Os felpi são perigosos quando estão com fome ou ameaçados, e, excitados, não gostam de tentar dialogar. Como um todo, eles acham os humas preguiçosos e cruéis. Um conclave deles resultou na Grande Revolta do sexto século, quando as tundras odenianas começaram a ser desmatadas para a aquisição de madeira. Eles têm uma longa história de ódio e alianças com os humanos: já houveram muitas alianças, e muitas guerras de escala pequena. Felizmente, parece que quanto mais aprendemos sobre os felpi, e mais eles aprendem sobre nós, mais percebemos o quanto somos parecidos apesar de eles não conseguirem exprimir palavras, salvo entre eles próprios.

Felpi atacam agadanhando e mordendo, dando botes e conjurando geomancias de efeito distante. São perfeitamente adaptados à sua natureza e muito velozes: caçam pequenos animais e nínives que vivem nas tundras. A falta de manipuladores precisos como mãos não parece os afetar. Muitas vezes erguem barricadas quando têm de se defender, além de serem escavadores proficientes e terem pequenas noções de alquimia. Amam objetos de metal, principalmente artesanato chanteliano.

Uma segunda espécie, de felpi vermelhos, Felpus rudensis, têm pelagem alaranjada e mais curta. São menores e mais ágeis que os felpi odenianos, e vivem em ilhas de clima mais quente que separam Odenheim da costa nordeste de Faris. Séculos de separação do continente os fizeram plenamente adaptados ao ambiente mais abafado e sem neve. Como 'chacais' descritos por viajantes, são agressivos e estritamente carnívoros, alimentando-se de pássaros e atacando garudas em bandos.

Existe ainda uma terceira espécie de felpi maiores, os arquifelpi, Felpus rex. Eles parecem ter surgido a partir de genes recessivos entre os felpi odenianos comuns. Têm pelagem de cinza para prateada. Sua respiração cria uma espécie de aura bruxuleante e branca, e eles podem soprar relâmpagos geomânticos. Vivem entre os felpi odenianos como representantes e líderes; são mais violentos e menos ponderados que os felpi normais, mas também parecem ser mais inteligentes, principalmente no quesito táticas de batalha.