Artigo: Navidorsos

O navidorso, 'Navis nereus', é um grande mamífero aquático, de vida extraordinariamente longa e uma couraça óssea poderosa recobrindo toda a parte superior de seu corpo. Em sua fase adulta, o navidorso pode atingir o tamanho de um barco pequeno. Eles habitam as profundezas do Oceano Alvo e as proximidades do Oceano Boreal e são quase invulneráveis em vida, não tendo nenhum predador natural. Em contrapartida, sua reprodução é lenta e difícil, e eles já beiraram a extinção várias vezes sem que houvesse sequer interferência huma.

A maior parte dos navidorsos não se importa se alguém agarrar em suas reentrâncias ósseas para viajar junto com ele, desde que esta pessoa tenha uma maneira de respirar embaixo d'água e aguentar a pressão do fundo do Boreal. Se o navidorso percebe que algum dos passageiros está se saindo mal, ele o leva (meio irritado) à superfície e tenta o fazer se soltar ali. Contam-se histórias de navidorsos que salvaram crianças nadando na superfície, mas provavelmente tratam-se de lendas. Parece-me que todos eles entendem titani.

Há quem veja lucro em caçar navidorsos. A única maneira de fazê-lo é rebocar a grande besta para um lugar seco. A carapaça óssea faz elmos e armaduras magníficas e relativamente leves, de aspecto extremamente maligno. A maioria das pessoas considera cruel ceifar a vida de um ser de vida tão longa e daquele tamanho; de fato, a visão de um navidorso morrendo arrastado para uma praia é difícil de suportar. Não há relatos desta atividade desde o quarto século da Fundação, quando várias couraças de navidorso foram postas em circulação.

O ciclo de vida de todos os navidorsos de Natal termina nas proximidades da ilha Blue Eye, ao norte de Faris, sob a estrela de Eochaid, regente sobre a eletricidade. Algo na água, uma estática elétrica segundo escolásticos, os faz procurar aquele lugar para morrer. As ossadas e couraças de centenas de navidorsos mortos formaram um labirinto amplo e macabro no fundo do Boreal. Não existe, até hoje, um templo de Eochaid - conta-se que, para invocá-lo à submissão, é necessário que recupere-se um fragmento precioso de si próprio que foi parar no fundo do oceano, o Coração de Eochaid. Justamente sob o labirinto de ossadas, infelizmente.

Claro que é assim. Imagina, se o Coração de Eochaid estivesse simplesmente no fundo do oceano, alguém já teria o encontrado, e já haveria um templo radiante em Blue Eye. Absurdo.

Artigo: Felpi

O felpus, Felpus granam, é um canino odeniano, de pelagem longa e branca. Assemelha-se muito ao 'lobo' descrito por viajantes vindos de outros mundos. A maioria vive nas tundras congeladas de Bialt em estado selvagem e tem olhos de cor verde profundo, onde ora se vêem pigmentos dourados e vermelhos. São surpreendentemente inteligentes: diz-se que eles se comunicam em titani, mas eles entendem quase todas as palavras de alvalli. Muitos trabalham para os odenianos, correndo enquanto puxam trenós em troca de caça, alimento e peças de armadura especiais. Organizam-se muitas vezes em caravanas para levar mensagens e mercadorias de uma cidade a outra durante as piores nevascas, quando as pessoas não podem viajar.

Os felpi são perigosos quando estão com fome ou ameaçados, e, excitados, não gostam de tentar dialogar. Como um todo, eles acham os humas preguiçosos e cruéis. Um conclave deles resultou na Grande Revolta do sexto século, quando as tundras odenianas começaram a ser desmatadas para a aquisição de madeira. Eles têm uma longa história de ódio e alianças com os humanos: já houveram muitas alianças, e muitas guerras de escala pequena. Felizmente, parece que quanto mais aprendemos sobre os felpi, e mais eles aprendem sobre nós, mais percebemos o quanto somos parecidos apesar de eles não conseguirem exprimir palavras, salvo entre eles próprios.

Felpi atacam agadanhando e mordendo, dando botes e conjurando geomancias de efeito distante. São perfeitamente adaptados à sua natureza e muito velozes: caçam pequenos animais e nínives que vivem nas tundras. A falta de manipuladores precisos como mãos não parece os afetar. Muitas vezes erguem barricadas quando têm de se defender, além de serem escavadores proficientes e terem pequenas noções de alquimia. Amam objetos de metal, principalmente artesanato chanteliano.

Uma segunda espécie, de felpi vermelhos, Felpus rudensis, têm pelagem alaranjada e mais curta. São menores e mais ágeis que os felpi odenianos, e vivem em ilhas de clima mais quente que separam Odenheim da costa nordeste de Faris. Séculos de separação do continente os fizeram plenamente adaptados ao ambiente mais abafado e sem neve. Como 'chacais' descritos por viajantes, são agressivos e estritamente carnívoros, alimentando-se de pássaros e atacando garudas em bandos.

Existe ainda uma terceira espécie de felpi maiores, os arquifelpi, Felpus rex. Eles parecem ter surgido a partir de genes recessivos entre os felpi odenianos comuns. Têm pelagem de cinza para prateada. Sua respiração cria uma espécie de aura bruxuleante e branca, e eles podem soprar relâmpagos geomânticos. Vivem entre os felpi odenianos como representantes e líderes; são mais violentos e menos ponderados que os felpi normais, mas também parecem ser mais inteligentes, principalmente no quesito táticas de batalha.

Artigo: Garudas

Diz-se que o garuda foi a primeira conjuração de Maeve, e a mais poderosa delas. Ambas as afirmações são falsas, mas arrisco afirmar que os garudas foram os grandes responsáveis pela queda dos djins como uma civilização. Além de ser quase invulnerável à feitiçaria, ele consegue canalizar geomancias poderosas através das plumas. É também quase irracional de tão estúpido, movido por instinto e algum desígnio superior.

Guias antigos de bestiário colocam que só existe uma espécie de garuda. Novamente, eu discordo - são todos realmente muito parecidos, mas cada região trouxe peculiaridades milenares para suas espécies.

Para quem não sabe e não ouviu as histórias, o garuda é uma grande ave atroz e de plumas azul-elétricas. Suas asas de grande envergadura podem chegar a dez metros de ponta a ponta; suas patas poderosas parecem ser recobertas de metal e em seus olhos fulgura geomancia e ódio. Cada garuda tem um desenho sutil próprio nas asas composto por plumas arroxeadas; quanto mais velho o garuda, mais suas plumas se tornam roxas e mais forte fica sua geomancia. Seu bico é relativamente curto para seu tamanho, mas tem uma perfuração mortal. Sua alimentação inclui ovos, grandes animais, alguns tipos de árvore (eles consomem a madeira), e, em certas épocas, ervas que crescem em rochas secas, mas, sobretudo, o maldito animal gosta de se divertir para alimentar-se. Aí começa o grande problema.

A primeira espécie que irei abordar será o dito 'garuda único', o 'Ruden primus', que é o mesmo nas estepes belvederianas e nas grandes savanas de Ivoire. Este é o famoso derrubador de trens das histórias de criança. Os garudas atiram-se contra qualquer coisa que lhes pareça um desafio, e um trem resfolegante parece exercer um fascínio e uma atração incontrolável para todos eles, que investem mergulhando e atingem, com precisão admirável, a quina superior do trem com as patas metálicas. Em todas as vezes que isso foi registrado, o garuda conseguiu derrubar o trem. Então ele começa um cruel jogo: ele mata quem consegue escapar do trem, e atinge-o seguidamente com chutes e golpes para contundir as pessoas lá dentro.

O poder geomântico principal do garuda, e o que parece ser possuído por todos eles, é a capacidade de provocar uma explosão metamágica arroxeada à distância que causa estragos proporcionais ao estado e tamanho físico do alvo. Pessoas feridas ou frágeis não parecem sofrer tanto do golpe, mas ele é cruel com os fortes e os saudáveis, enviando-os através de uma viagem rápida e dolorosa de dor enquanto trechos de sua vitalidade são arrancados. Quanto mais velho o garuda, mais dolorosa é sua explosão metamágica.

Outro poder incrível do Ruden primus é a capacidade de enrijecer e atirar uma única pluma que leva um foco geomântico absurdo. Quanto cai ao solo, a pluma explode seguidamente uma média de quarenta vezes com incrível velocidade: os estouros duram aproximadamente quatro segundos e erradicam qualquer coisa pega na área. Nem todos os garudas possuem esta capacidade, contudo; normalmente só os mais velhos e místicos podem fazê-lo.

Uma segunda espécie de garuda habita as montanhas do norte cedariano e algumas ilhas para o lado de Odenheim, principalmente as nevadas. Este garuda envelhece com algumas plumas esverdeadas em adição às suas roxas. Ele é relativamente menor e mais fraco que o garuda de regiões mais quentes, mas seu poder místico é proporcionalmente maior. Sua classificação é 'Ruden maevitus', sendo ele o maior canalizador de geomancia conhecido entre as conjurações.

O garuda geomante pode carregar suas asas com seu poder geomântico e imbuir o efeito em seus golpes físicos; muitos deles, mesmo os que não envelheceram, podem invocar a pluma destruidora, e em adição a estes poderes, a maioria consegue, através de uma concentração longa, invocar um único relâmpago poderoso. A maioria faz isso para alcançar um alvo distante; derrubadores destas áreas avisam que afastar-se do garuda geomante é mais perigoso do que manter-se perto dele, já que o garuda tende a se distrair com qualquer coisa e pode deixar a guarda aberta a ataques de proximidade vez ou outra.

Artigo: Sobre os Ditos 'Santos da Trangressão'

Uma entre, sabe-se lá, cem pessoas consegue conservar algum controle físico sob o efeito do lieser. Essa pessoa consegue uma percepção sobrenatural e desenvolve explosões de força geomântica incríveis. A Transgressão já conheceu três destes indivíduos, todos mortos durante suas Noites de Lanterna derradeiras; diz-se que este talento, de transformar lieser em poder bruto, sempre está nas pessoas mais insuspeitas e distantes, mas que têm um desejo interno forte de ir contra tudo que está sólido, de quebrar-se para arrebentar tudo.

Chamam-os de Santos. Em êxtase, são os líderes incontestáveis das passeatas transgressionistas; sua lenda alcançou os poetas e os fez como musas para inspirá-los. Seus seres cambaleantes e fulgurantes em poder surgiram logo em palavras e quadros ao redor do mundo.

Artigo: Sobre o 'Lieser'

O lieser é um elixir aquoso que vaporiza-se em contato com a atmosfera, composto principalmente de água alquímica. A água alquímica tem várias utilizações: tóxica e levíssima, ela contraria a gravidade mantendo um estado quase líquido enquanto flutua gasosamente. Respirada, ela induz a uma letargia fortíssima; combinada com uma porção mínima e perigosa de éter alquímico contido (entro nesse assunto depois) e compostos químicos de perfumes, ela induz alucinações fortes, em viagens de panorama mental aterrorizantes. O lieser se tornou famoso entre as fileiras da Trasngressão depois que um químico fracassado cedariano perdeu a vida sintetizando a segunda versão de sua 'fórmula dos sonhos', que o enviaria por uma viagem sem fim dentro de sua própria mente.

Artigo: O Estilo Destrucionista

Eu mal considero uma coisa destas como arte, mas devo retirar meus conceitos dos meus escritos o máximo possível. O estilo pregado pelos poetas da revolução, montados na armurada da eternidade e prontos para atirar-se com fúria ao fim, é a arte na destruição. Latas de tinta, pixações, marretas e qualquer coisa que destrua e humilhe as glórias antigas são os santos salvadores dos destrucionistas. Este estilo vibra entre as camadas jovens de classe alta em Lodis, que muitas vezes arriscam o que não têm unindo-se a movimentos de destruição como a Noite da Lanterna (que é quase que uma celebração máxima destrucionista, apesar de seu propósito inicial não ter nada a ver com arte).

A obra destrucionista que não é feita propriamente destruindo algo encontra-se na poesia e na música. Esta última tem teor chanteliano, mas sempre converge pra grandes blocos de dissonância e envolvem virtuosismos demoníacos em escalas descendentes. No outro lado do compasso estão escultores que trabalham com detritos, pichadores de poesias, alquimistas cujas explosões libertam trovões maléficos e protestantes cujo prazer máximo é desafiar tudo que foi imposto para todos por séculos.

Leitura: A Transgressão e a Noite da Lanterna

O grito da Transgressão se tornou sinônimo de caos e perigo nas noites lodianas. Seus libertadores são ex-cavaleiros que desprezam a autoridade dos Elmos Escarlates e buscam libertação do mundo material, envolvidos com elixires alucinógenos e uma sinistra cultura das ruas. Eles têm laços próximos com os cavaleiros bandidos, órfãos da Ordem Pristina e das partes idealistas da Ordem de Astoreth, mas pode-se dizer que há pelo menos uma geração de idéias separando as duas facções. Enquanto os cavaleiros-bandidos estão perdidos há mais de 30 anos, só recentemente a Transgressão começou a ganhar espaço nas lendas negras dos cavaleiros que caem.

Quando um militar, cavaleiro ou soldado, torna-se desobediente ou revoltoso, ele é abandonado por Odenheim. Por "abandonado" entende-se que toda a vida, a família, os contatos e os recursos do militar são removidos e ele é forçado a deixar o país. Oficialmente, nenhuma parte do processo envolve violência, mas quando outros militares têm contas a acertar com o rebelde, é concedida uma espécie de 'carta branca' especial - muitos desses atos resultam na humilhação e na morte do exilado.

Os ex-militares que resistem ao exílio e voltam aos portões lodianos habitam os distritos fantasma construídos por Else. Estes formam o corpo de combate da Transgressão.

Quase semanalmente, a Transgressão, por meio de lideranças esparsas, se reúne na "Noite da Lanterna", em que unem suas armas em procissões destrutivas para aterrorizar a população. Eles preferencialmente vitimam bairros nobres, atirando para os ares, derrubando postes, quebrando coisas e não tendo piedade de pessoas que por acaso estejam na rua. Os poucos conflitos que já houveram entre a Transgressão e brigadas designadas para enfrentá-la foram sangrentos e não levaram a nada. O número de rebeldes só cresce com o tempo. Além do mais, a Quimera descobriu que muitos cavaleiros que ainda são leais têm amizades entre a Transgressão e penderiam para o lado inimigo com facilidade se houvesse tanta preocupação assim. Nas últimas seis luas, afora algumas perseguições quase encenadas, a Noite da Lanterna é quase uma festa livre para os rebeldes se sentirem à vontade em destruir Lodis.

O evento foi batizado por um cronista de um jornal pequeno da cidade, o 'Corrente'. O termo ganhou popularidade entre os universitários lodianos (muitos dos quais participaram da Noite da Lanterna - a primeira delas juntou muita gente que não tinha nada a ver com os militares, uma passeata de destruição só pela revolta, sem alvo, somente ondas de ódio se espalhando para lugar nenhum) e chegou rapidamente à própria Transgressão, que passou a chamar suas guerras dessa maneira.

Leitura: A Que o Fim se Assemelha

A maioria das pessoas prefere luz quando está para transpor o universo físico. Janelas abertas, lâmpadas acesas, lanternas, velas, luz. O instante em que a pessoa abandona seu corpo é certamente de glória, apesar de não mais estar disponível fisicamente para as pessoas amadas. Existem preces ditas desde Biblos até Veruna, preces e cantos universais que pedem a Maeve um futuro brilhante para a alma e um consolo para a tristeza do abandono dela. A que o fim se assemelha para quem está morrendo, ninguém pode dizer, mas todos poderão, um dia. Os rituais de morte são presididos por um adepto: todos os altíssimos têm suas liturgias para o encaminhamento dos mortos. Está nos tomos que uma pessoa que morra sem um ritual em sua honra pode ter sua alma extraviada no caminho para o encontro com Maeve, e permanecer por séculos procurando-a sem a encontrar, não tendo a guia firme de um altíssimo.

Estudos e revelações de sacerdotes eminentes revelam que as almas abandonam Natal como aves que migram para outra existência, se juntando a grandes fluxos eternos, caminhos cravados na eternidade. Sobre os Desencantados, ou Crianças da Noite, pouco se sabe, a não ser o fato que seus espíritos não sobrevivem, sem bênçãos e sem futuro. Acredita-se que no nascimento, o condão de um altíssimo faz uma blindagem para a alma para sempre, e uma alma sem esta divina proteção encerra-se quando perde sua única e última casa, o corpo.

Eu procuro um porto...

Agora ando solitário, tendo o pensamento de Viola por companhia, mas um infinito em ressaca marítima. Estas estradas não têm fim e parecem ter sido feitas por gente que viaja pelo prazer de viajar, são voltas e mais voltas em torno dessas árvores gigantescas. Começa a nevar e eu não encontro uma única estalagem onde possa repousar meus ossos. Estou sem provisões, sem montaria, sem barracas, sem direção e sem perspectiva. Caberá a mim cair desfalecido no meio da estrada?

Artigo: Vindo ao Mundo

Um dos segredos mais universais e bem-guardados do mundo é referente às condições que as crianças nascem. Só suas próprias mães e seletos adeptos sabem o procedimento exato. Eu obviamente sei como a mulher huma dá a luz, mas o mistério está no seguinte. Quando a criança está para nascer (a mãe sente isso), os pais viajam para um templo e os adeptos recebem a mulher e a levam para uma área interna onde o trabalho é feito. O pai não pode assistir o parto, nem ninguém mais. Cabe a ele ficar do lado de fora do templo, esperando (em Cédara, tradicionalmente, bebendo vinho). Muitos templos têm berçários para tratar dos nenéns que precisem de alguma coisa mais após nascerem. Existe alguma bênção especial concedida à criança, cujas palavras eu também desconheço. É incrível que um segredo executado tantas vezes há tanto tempo ainda não seja de conhecimento de todos. Acredito que haja algum efeito milagroso sobre a mãe que a impede de lembrar e falar do que aconteceu.

Nem os próprios adeptos, internos do templo, sabem exatamente o que se passa. Muitas vezes sobra para eles cuidar de uma criança ou outra, mas universalmente, o processo de nascimento é secretíssimo, ponto.

Pois são doces mistérios da vida.

Artigo: A Permissão para Amar

Muitos adeptos são celibatários por escolha, negando o amor para não deixarem-se ocupar de sentimentos terrenos, mas nos dogmas da maioria dos altíssimos, não existe qualquer afirmação contra o romance. Entretanto, a segunda máxima deífica de Maeve, onde lê-se "Leva os teus para as terras do sol, e volta", pede a separação do adepto daqueles que ama. Faz sentido. Eu acredito que o amor desvia o homem. E se o homem acredita ter um propósito (como todos os adeptos de fé devem acreditar), ele não deve deixar-se guiar pelo amor. Enquanto pode ser uma motivação para voltar para casa vivo, para manter-se, para lutar, é uma vida onde deve-se dedicar a uma coisa a mais.

Por outro lado, a maioria dos adeptos estudiosos que mergulham fundo nos mistérios de um altíssimo costumam-se casar, normalmente com outros membros do clero. O casamento entre dois adeptos apaixonados perante Maeve é uma cerimônia que normalmente é aberta apenas para o sacerdócio.

Vale falar do casamento neste momento. Não era o assunto inicial, mas que valha. Os costumes quanto a isso variam de lugar para lugar, então comecemos com minha pátria. Odenheim.

Em Odenheim o homem faz um cortejo público à mulher quando ele quer desposá-la. Como a maioria dos namoros é feita discretamente, os casais combinam a melhor maneira do homem revelar às pessoas sua disposição em casar com a mulher; muitas vezes, a moça escreve cada palavra do homem. Os bons cortejos viram histórias para muitos anos, e o povo odeniano percebe rápido quando é natural e quando é fingido. Depois do cortejo, assim que espalham-se os rumores sobre o novo casal, este marca a data do casamento e a anuncia. A maioria dos casais viajam para Veruna, Lodis, Vercel ou Gradec para a cerimônia, que sempre envolve uma longa caminhada sob flores atiradas pelos convidados. Em Rublo é bem parecido.

Em Cédara as porcarias dos casais são escolhidos pelos pais das pessoas. Muitas vezes os pais das meninas são muito atenciosos quanto às seus gostos e escolhem favorecendo suas filhas (se o rapaz tiver mínimas condições). Por outro lado, os divórcios são a coisa mais corriqueira do mundo em Cédara. Existe uma quantidade descomunal de pais e mães solteiras na República. As mulheres cedarianas tradicionalmente valorizam posses e realizações. Homens bem-sucedidos e honrados são tidos como ótimos partidos. A última tendência da burguesia cedariana é que as meninas escolham seus namorados independente da posição social desse, o que não é considerado muito virtuoso. A sociedade acredita que as meninas que escolhem esposos sem bons negócios e sem bons antecedentes não se preocupam com sua família, seus pais e seu futuro.

Faris tem uma tradição muito romântica para os casamentos. Nas festas de quinze anos das meninas (que geralmente são grandes celebrações), os rapazes lhes oferecem presentes e prendas. A garota, então, escolhe um deles para levar, em peregrinação noturna em honra à Deusa e aos Altíssimos, uma guirlanda a uma pequena capelinha construída fora dos limites da cidade. É esperado que o casal então namore sem preocupações e venha a casar quando a menina ficar grávida, algumas décadas mais tarde. Acredita-se que divórcios prenunciam tristeza eterna e que as pessoas devem acreditar na escolha da guirlanda.

Em Longinus não se casa! Os citadinos arrumam-se com suas próprias tradições locais, mas a maioria das pessoas está acostumada a atrações intempestivas, casos passageiros e, de resto, a uma vida solitária. A única desculpa para que uma pessoa aceite que teve um romance é admitir para si mesma que o desejo carnal sobrepujou a mente. Quase todas as mães criam seus filhos sozinhas. Pessoas que preferem viver juntas devem abandonar as cidades e estabelecerem-se em algum outro lugar, para não ofender o decoro. É possível que os adeptos tenham que fazer alguma coisa a respeito, porque lentamente a população de Longinus vem caindo.

No país dos pardos, Ivoire, a maioria dos casamentos é feito dentro das próprias famílias, normalmente com primos distantes, de segundo ou terceiro grau. Geração após geração, ancestrais não se misturam e as famílias cujos membros tinham um tipo de feição há duzentos anos ainda conservam os mesmos traços hoje em dia. A beleza física é muito prezada para casar; a maioria das famílias vive junta em grandes casas que vivem sendo ampliadas.

O amor... desvia o homem. Tenho que pensar mais nisso.

Transcrição do Tomo das Eras, LVIII

Virá em conclusão o crepúsculo
Da entrada do poder maldito
E junto com o fim da armurada
Acertarão os oceanos contra tudo
Contra tudo, contra tudo
Pois serão
Sete oceanos de luz
E sete raios de poder
Antes que venha a nós todos
Alatus.

Leitura: Uma História de Pluma Isabelle

Essa é a primeira parte de três capítulos escritos por um auramante que contam de aventuras de Pluma Isabelle antes que ela voltasse à Lodis. Se eu puder encontrar os outros capítulos, transcreverei-os para cá.

"Nossa improvável reunião fora feita com precisão histórica naquela noite de Belvedere. Muitos anos antes de que qualquer coisa terrível tivesse acontecido, as idéias eram mais difusas e impressionistas, e até os poetas mais trágicos não nos convenciam tanto. Espiritualmente aceitávamos toda felicidade de maneira natural, fluída. Pluma, de gatinhas, tentava entender algo estranho num papel, e Hani Leão-Vermelho repetia a passagem com vários sotaques, rindo de si próprio. Todos levemente tristonhos porque as duas garrafas de vinho que se permitiam toda noite tinham se acabado prematuramente.

Amaterasu, a dragoa, me parecia uma estátua de bronze. O nome guerreiro fazia lhe faltar mais uns dois braços, mas a velocidade dos outros a servia bem. Naquele tempo, era jovem, violenta e seus reflexos ainda não tinham manchas de dor. Eu me lembro do brilho nos seus cabelos e no seu olhar, e me lembro da sua voz potente nos guiando sempre em frente. Quantas vezes não me carregaram aqueles braços que não vestiam braceletes ou adornos de mulher, e quantas vezes não me surpreendi perdido no seu vigor sempre pronto e contundente.

E Kainen, ninguém costumava perdoar sua sorte, pois as estrelas pareciam ter lhe tecido um manto indestrutível. Os tiros e flechas pareciam resvalar na sua pele, e também naquela cota de malha tão velha que ele usava. Já lhe vimos ferido algumas vezes, e de coisas tão singelas quanto espinhos de rosas. Mas em batalha era um leão, muito mais do que Hani que carregava a fera no nome. Lemminkainen o Imortal, era como costumávamos chamá-lo, e ele fingia estar aborrecido quando regojizava-se com os elogios, por dentro e tão secreto quanto um balde de tinta.

Pluma lutava tão mal naquela época que chegamos a pensar, mais de uma vez e por sua própria segurança, que devíamos lhe assegurar uma posição na retaguarda com uma escopeta ou umas flechas, mas a teimosia da garota sempre nos vencia. Hoje imagino que ela consiga derrubar vinte serretes a caneladas, mas naquela época era menina demais. Devia ter não mais do que dezessete anos, mas ela sempre nos mentia a idade.

“Vinte e dois! E eu já tinha dito isso pra vocês” – emburrou, recuando defensivamente. Levantou, deu duas voltas em torno da roda, e sentou de pernas cruzadas no chão.

“Com o teu perdão, Pluma, você disse vinte e um no mês passado, e se não acredita, olha aqui, eu anotei no meu diário” – disse uma vez Lucas, o auramante, a deixando corada.

Pluma xingou um ou dois palavrões e abraçou os joelhos. “Eu não tenho culpa, eu fui raptada, não me lembro o dia do meu aniversário, mas aquele senhor tinha dito que eu parecia que tinha vinte, e... e eu acreditei nele, então eu tenho vinte e dois anos. E posso andar com vocês, e se vocês me acham ruim, depois tinham que ver o Hani atirando com a besta”.

Hani fez cara de mau. “E você com essa história de rapto denovo.”

“É verdade...”

“Toda vez que você conta, muda os detalhes”, disse Lemminkainen, bocejando e deitando no colo de Pluma. “E ninguém aqui engole essa de você ser a nobilíssima herdeira da coroa de Odenheim. Não tem ninguém te procurando, você é ralé que nem eu. Além do mais, os únicos aristocratas aqui são o Luc e o Hani, e o Hani parece mais um babãozinho!”, grasnou rindo.

“Conta essa história denovo”, disse Luc. “Exagera nos detalhes acrobáticos que nem da última vez, pro Hani desemburrar. Só não inclui aquele golpe fenomenal de espada que você deu aos cinco anos de idade”.

“Mas eu juro que eu acertei aquele homem com a espada! Por todos os altíssimos! Era uma noite como outra...”, fez-se reticente e deu um arzinho de mistério. Sorriu. “... eu me lembro de me olhar no espelho o tempo todo. Tinha um cabelão vermelho que eu não deixava ninguém mexer, e usava as roupas mais bonitas. Odiava quando aquelas criadinhas vinham me pentear, eu batia nelas com a bengala de meu pai.”

“Muito convincente,”, disse Lucas. “mas vá para a parte do seqüestro.” "

Transcrição do Tomo das Eras, LII


E não falhará o árbitro
Em entregar seu julgamento
Pois nada neste mundo, nada, nada
Escapará ao grande Desígnio.


Leitura: O Impasse de Margrave

Em tempos recentes, um evento realmente assustador abalou a crença do clericato longiniano, e, de certa forma, do mundo inteiro. A sexta máxima deífica da fé de Maeve instiga os adeptos a não permitirem que vivam e prosperem os djins e seus descendentes. O que atravessou suas mentes quando um meio-djin, Shadrach de Chi, sob disfarce conseguiu uma Infusão do Fogo, tornando-se um adepto e desenvolvendo, em pouco tempo, pleno domínio sobre uma grande quantidade de milagres restaurativos.

A maioria dos adeptos que não viram o meio-djin cantando milagres acreditam tratar-se de uma farsa, mas até mesmo Ludgast reconheceu a veracidade do adepto e declarou que sua vida estava guardada pelo Império dali em diante. O resultado disso é que em nenhum lugar do mundo os meio-djins são considerados 'pessoas', salvo em Longinus. A lei foi escrita pelo punho do próprio Ludgast esperando que todos os outros países seguissem seus exemplo.

Shadrach está vivo até hoje, residente em Chi, em um alto cargo em meio aos cardeais da cidade. É respeitado e temido entre os adeptos mas seu semblante, assim como seus atos, são pacíficos.

Artigo: As Seis Máximas

O propósito de vida dos adeptos se resume nos mandamentos contidos nos vários livros deixados por Sharini. Existem seis máximas que resumem os mandamentos e o modo de vida que os adeptos (e todos os líderes de boa-fé) devem seguir. Estas máximas são universalmente reconhecidas em Natal, e estão sendo lentamente levadas a Calibur e ao Gâm Flutuante pelos colonizadores. Todas elas têm vários sentidos e são muito metafóricas; pessoas de lugares diferentes interpretam as mesmas palavras de maneiras radicalmente diferentes.

A primeira máxima: “Proteja o coração dos teus, e o teu coração.”
O “coração” é tomado por muitos como a alma e a bondade, e por outros como integridade física. O fato de Sharini ter dito para protejer o coração “dos teus” antes do próprio gera debates. Existe uma corrente filosófica ivoreana que acredita que a bondade dos outros deve ser protegida à custa da própria bondade, que deve-se pagar qualquer preço pela pureza do povo, mas não se deve ter medo de sacrificar a própria. Talvez isso justifique alguns atos macabros de guerra que alguns ministros ivoreanos têm tomado.

A segunda máxima: “Leva os teus para as terras do sol, e volta.”
O sentido universal desta máxima é que deve-se procurar os lugares abençoados, deixar lá as pessoas amadas, e voltar para aonde é precisa a ajuda. A parte dolorosa deste mandamento é “deixar” os amados: Sharini ordena uma separação, não a perpetuação do amor. Reptantes feiticeiros longinianos, em busca de alguma religião, abraçam este mandamento para guerrear pelas terras ancestrais de seus clãs. Líderes da guerra em Ivoire encontram paz nestas palavras, acreditando que estão seguindo desígnios divinos.

A terceira máxima: “Seja luz quando os oceanos lhe vierem escuros.”
Os adeptos acreditam que estas ordens dizem que, mesmo quando se está envolto em inimigos, não se deve ceder ou trair, nem juntar-se a eles; pelo contrário, brilhar ainda mais com a chama da paz e da bondade.

A quarta máxima: “Cante pelos caídos e ampare os que perderem o equilíbrio.”
Os “caídos” podem ser os mortos. Os adeptos nunca permitem que ninguém morra sem homenagens e ritos pela passagem e pelo fim da odisséia da vida. Acreditam que “sem equilíbrio” sejam os enfermos e os feridos, e não permitem que a jornada deles termine prematuramente. Há quem acredite que os caídos sejam os corrompidos, e que se deve orar por eles.

A quinta máxima: “Reconheça a si próprio nas águas calmas e inspire o ar.”
Esta frase foi traduzida de diversas maneiras ao longo dos séculos. Para os longinianos, deve-se tornar-se semelhante às águas calmas. Para muitos outros adeptos, deve-se reconhecer seu reflexo nas águas e conhecer a si mesmo, e regojizar-se com isso, buscando sempre maior poder pessoal e admirando a própria transformação.

A sexta máxima: “Não permita que prospere o fogo ou as garras.”
Todos entendem esta máxima precisamente da mesma maneira: os djins devem ser contidos e mortos, junto com o flagelo da conjuração. Em alguns países, mesmo meio-djins são vitimados por adeptos guerreiros, independente de sua disposição. Um grande golpe contra os adeptos aconteceu quando um meio-djin, sob disfarce, conseguiu submeter-se ao Ritual de Infusão e tornar-se, por pouco tempo, um adepto plenamente poderoso.

Leitura: Grande Lorde Aeolus, Plácido e Infalível, Líder Sobre Todos os Elmos Escarlates

Apesar de ter ingressado no meio militar odeniano sob Dálfon Palas, Aeolus Manlynx sempre teve em seu coração a lealdade à linhagem dos Meredith, herança de família. Durante séculos, os Meredith tiveram em suas primeiras fileiras os sires Manlynx, que eram conhecidos somente pelo primeiro nome dada sua quantidade. Sem senso de identidade ou amizade, o jovem Aeolus foi um dos primeiros a executar vários de seus amigos na inssureição de Soren Meredith contra o rei impuro, e ele carrega até hoje um corte longitudinal no peito feito pela espada decidida de Kachaturian quando este tomou o trono de volta para Ifalna Palas, filha de Dálfon.

Aeolus conheceu o então duque Dário Meredith enquanto este falava a muitos jovens na Universidade de Semíramis, buscando angariar aliados para derrubar a coroa de Ifalna. Ele não acreditava no jovem duque, mas rapidamente viu que ele herdou, além dos olhos, a vontade dominadora de seu pai. Foi mortalmente leal a ele até que ele, finalmente, desapareceu.

Dário o fez líder de seus esquadrões por dois motivos. O cavaleiro da armadura férrea nunca havia lhe falhado, primeiramente. Depois, porque ele tinha certeza que nada inesperado partiria do homem que nunca vacilou em cumprir ordens em sua vida. Dário tinha certeza que com uma ordem, Aeolus enterraria sua espada em seu próprio coração.

Hoje, com setenta e poucos anos, Aeolus espera a volta de seu mestre com serenidade. Ele cuidará para que nenhum impuro suba novamente no trono. Ele já viu seu país sofrer com isso mais de uma vez, em sua própria concepção, e sua espada está mais pronta do que nunca. A idade desgastou seus ossos mas parece ter feito eclodir nele uma força demoníaca oriunda da sabedoria da vitória. Quem um dia enfrentou Aeolus e por acaso sobreviveu viu-se morto antes que Aeolus desferisse o primeiro golpe.

Aeolus, o Elmo Escarlate, é uma parte ativa da Quimera. Ele acredita que Else cuidará bem de Odenheim enquanto souber seu lugar, e não permitirá que ela assuma liberdades enquanto viver. Sobretudo, ele tem uma fé firme no retorno do Imperador e seu único temor é morrer sem ter tido a possibilidade de concluir seus serviços à mando de Meredith.

A idade tornou seus cabelos castanhos platinados, assim como seus olhos. Quando não precisa cumprir funções cerimoniais, Aeolus anda fardado com os punhos cerrados. Em guerra, veste uma armadura pesadíssima de placas de ferro e usa sua própria espada de cerâmica, um presente de Soren há muito tempo. Ele fala pelos olhos e detém uma inteligência severa e pungente, que não envelheceu com o tempo.

Então representamos perigo.

"Então quer dizer que o povo farisiense que trabalha em vossos orquidários lhes representa perigo."

"Representam perigo enquanto possuírem movimento e mentes. Perigo enquanto vivos, perigo ao sistema e aos outros. O que faz aqui?"

"Quero autorização para abandonar Rublo."

Ele me examinou longamente. Seus olhos transcorreram através de minha alma. Quando dei por mim estava sob um milagre, ele segurava o grande chapéu contra o vento místico que me perpetrava.

"Ivaness Rel Barlaam, Investigador Real. Precisava vir tão longe?"

"Saga", eu disse. Maldição!

Ele assertiu com a cabeça, divertindo-se. "Você tem sua autorização. Saia imediatamente. Não queremos gente como você aqui. Sua ventura está acabada."

Leitura: Nossa Dama Hierofante Else Gwen de Estelle, a Elmo Dourado

O conselho se tornou soberano mais uma vez sob o mando da Hierofante Else. Consta oficialmente que o imperador é Meredith, e acredito eu que continuará constando até que descubram que ele está morto, o que dificilmente acontecerá. É uma lei que existe desde a fundação e que prenuncia uma era teocrática em Odenheim. Meredith não teve filhos e a família real, em todas as suas dissindências, estava morrendo. Nada restavam senão filhos de impuros e barões distantes com um nada do dito 'sangue de santo'. Os aristocratas não estavam dispostos a coroar um ilegítimo novamente e possivelmente manifestariam repulsa se isso viesse a acontecer.

A Hierofante reduziu o Conselho do Palácio Oceânico a três pessoas: ela mesma, Aeolus dos Cães de Ferro, e Hepzibah dos Rebentos de Rachamarfim: os dois são até hoje líderes das duas maiores ordens militares de cavalaria odeniana. O povo chamava o conselho de Quimera de Três Elmos, ou simplesmente a Quimera. Else era um Elmo Dourado, Aeolus era o Elmo Escarlate e Hepzibah era o Elmo Cerúleo - as cores combinavam com os brasões de suas ordens.

A sala original do Conselho foi tombada como uma espécie de museu particular de Else, e ninguém mais entra lá a não ser os encarregados da limpeza do lugar. Nem os habitantes do Palácio Oceânico sabem, hoje em dia, se há um lugar oficial para a reunião do Conselho. Dizem que os três discutem o destino de milhões de pessoas enquanto andam pelos vastos corredores do palácio. Aliás, nada equipara-se à quantidade de histórias que as pessoas têm a contar sobre Else.

Nossa Dama Hierofante Else Gwen de Estelle, a Elmo Dourado, adepta prodigiosa, formou-se Mestra Celestial aos 22 anos, em História Maior aos 25, e tornou-se hierofante mostrando um controle absoluto e estranho sobre o avantesma de Lodis, superior aos mais antigos e experientes membros do clericato. Hoje, com vinte e nove anos, toma lições com um mestre-de-armas longiniano e já é reconhecida em torneios marciais como tendo um manejo poderoso das armas dos kishi. Sua espada Vergessenheit, uma daikatana pétrea esculpida em relevo chanteliano, é pesada e rápida como uma foice, mas nunca foi usada, somente em demonstrações, e em sua onipresença guardada na bainha às costas da Hierofante.

As pessoas que tratam com ela conhecem sua face atormentada pela insônia e por uma enxaqueca que a assola. O que ela sente muitas vezes parece se espalhar pelo ar e causar arrancos lancinantes de dor de cabeça nas pessoas ao redor, como uma maldição perpétua e maligna. Quando ela consegue dormir, é extremamente calma e amável, mas após três dias de insucesso na cama ninguém a procura. A ajuda de uma pequena comitiva de adeptos e médicos ocupa boa parte de seu tempo.

Não se sabe sob quais circunstâncias Else se tornou tão estimada por Meredith a ponto de ela se tornar sua braço-direito. Aristocratas contam que Else esteve com Meredith todo o tempo em sua saga trágica tentando obter um herdeiro, o apoiando e consolando em seus insucessos frequentes. Más-línguas dizem que os dois foram amantes, mas isso dificilmente foi verdade dado o tipo físico de Else comparado ao de Pluma e Ifalna, as duas mulheres que supostamente o duque teria amado: enquanto Else é loira, alta e austera, Pluma e Ifalna, ambas, tinham cabelos vermelhos, estatura média para baixa, e portavam a beleza e fragilidade clássica da aristocracia odeniana.

Por outro lado, Else não manifestou surpresa (nem outra qualquer reação aparente) quando Meredith foi dado como desaparecido pela primeira vez. Talvez ela seja a única pessoa no mundo que conheça seu paradeiro e suas intenções verdadeiras com sua migração repentina. A verdade é que o Duque se tornou uma espécie de figura mitológica, um rei-fantasma vagante que vigia as crianças brincando e que ninguém sabe se é bom ou mau. Poderiam compilar-se um livro dos grossos se todas as histórias contadas sobre ele, das reais às absurdas, fossem reunidas.

A única pessoa da aristocracia que, até hoje, tem como missão pessoal encontrar Meredith é Lorde Fabian de Tércia, ex-líder dos Leões Brancos (hoje Rebentos de Rachamarfim). Ele move diariamente uma pequena comitiva de Investigadores Reais atrás de todas as histórias e pistas sobre o Rei-Fantasma.

Enquanto isso, Else conduz Odenheim na maior revolução industrial já vista no mundo, ampliando a capital Lodis a níveis absurdos, construindo habitações para fantasmas e levando as linhas férreas a elas, sem que haja sequer alguém para subir e descer salvo as pessoas encarregadas das construções. Quando ela ordenou a construção de Nova Eiselc o Primeiro Distrito Aéreo, os aristocratas acreditaram que ela estava completamente insana, por estar construindo sobre andaimes um bairro inteiro e por ter batizado-o Primeiro Distrito Aéreo, o que indica que haverão outros.

Não há gente para morar nesses lugares. Na verdade, há muita gente se empilhando de qualquer jeito nos distritos favelizados de Teale, mas obviamente não é a eles que Nova Eiselc se destina. Os intelectuais odenianos imaginam que a ampliação de Lodis tenha a ver com a exploração de Calibur por grandes navios e a recente missão cartográfica enviada pela Quimera contando com uma tripulação pequena, porém muito capaz, inclusive o bem-aventurado capitão Klaas e o marinheiro lendário Braden de Gratien y Lake, que, entre outras coisas, foi o primeiro a chegar na costa do Gâm Flutuante, mapeou, com uma comitiva, todo o lado norte de Velha Iorque e, foi o que mais penetrou no Cinturão de Fogo, recuando estritamente para voltar com informações que, talvez, ajudem os próximos planinautas a investir contra o Mundo Difícil (ou nunca mais voltar lá).

Supõe-se que uma grande população será trazida para trabalhar, ou fazer alguma outra coisa, por Else. Por isso a capital está estendendo-se sem parar em detrimento do crescimento da indústria de outros setores, considerada de importância primordial pelos lodianos.

Sobretudo, a administração de Else não fica devendo à do 'Eterno e Justo' Dálfon Palas (que fez Odenheim crescer a quase duas vezes sua economia original do começo ao fim de seu período de regência) e à de Meredith, da qual ela parece ter se inspirado para seu próprio mandato quase megalomaníaco.

De quê você nos protege?

Minha marcha maldita encontrou a estrada e as profundezas do céu quando não havia luz senão a das montanhas. Eu tinha comigo apenas uma sacola de couro (que eu carregava a tiracolo), que tinha uma boa quantia em dinheiro, algumas mudas de roupa, uma túnica, um agasalho grande e um revólver de fecho de roda, dos bons. Todas as vezes que eu rezei para não ter de usá-lo, acabei usando.

Dei de cara com o adepto. Não vi sua silhueta ao longe: quando dei por mim, ele estava na minha frente. Não era mais do que um rapazola. O archote que carregava fulgurava em seus mantos verde-claros e lançava luz em seu rosto sob o grande chapéu. Tinha uma bainha às costas para um cajado com a parte de cima ornada com um símbolo heráldico e folhas de cobre, andava com grandes botas de cano alto, próprias para a neve, lama ou qualquer coisa que ele visse pela frente naquelas terras.

Seus olhos pousaram em mim esperando uma explicação.

"Se me permite uma pergunta", disse, a que ele assertiu, "de quê você nos protege?"

"Eu não protejo vocês. Eu protejo os outros, de vocês."