Transcrição do Tomo das Eras, LII


E não falhará o árbitro
Em entregar seu julgamento
Pois nada neste mundo, nada, nada
Escapará ao grande Desígnio.


Leitura: O Impasse de Margrave

Em tempos recentes, um evento realmente assustador abalou a crença do clericato longiniano, e, de certa forma, do mundo inteiro. A sexta máxima deífica da fé de Maeve instiga os adeptos a não permitirem que vivam e prosperem os djins e seus descendentes. O que atravessou suas mentes quando um meio-djin, Shadrach de Chi, sob disfarce conseguiu uma Infusão do Fogo, tornando-se um adepto e desenvolvendo, em pouco tempo, pleno domínio sobre uma grande quantidade de milagres restaurativos.

A maioria dos adeptos que não viram o meio-djin cantando milagres acreditam tratar-se de uma farsa, mas até mesmo Ludgast reconheceu a veracidade do adepto e declarou que sua vida estava guardada pelo Império dali em diante. O resultado disso é que em nenhum lugar do mundo os meio-djins são considerados 'pessoas', salvo em Longinus. A lei foi escrita pelo punho do próprio Ludgast esperando que todos os outros países seguissem seus exemplo.

Shadrach está vivo até hoje, residente em Chi, em um alto cargo em meio aos cardeais da cidade. É respeitado e temido entre os adeptos mas seu semblante, assim como seus atos, são pacíficos.

Artigo: As Seis Máximas

O propósito de vida dos adeptos se resume nos mandamentos contidos nos vários livros deixados por Sharini. Existem seis máximas que resumem os mandamentos e o modo de vida que os adeptos (e todos os líderes de boa-fé) devem seguir. Estas máximas são universalmente reconhecidas em Natal, e estão sendo lentamente levadas a Calibur e ao Gâm Flutuante pelos colonizadores. Todas elas têm vários sentidos e são muito metafóricas; pessoas de lugares diferentes interpretam as mesmas palavras de maneiras radicalmente diferentes.

A primeira máxima: “Proteja o coração dos teus, e o teu coração.”
O “coração” é tomado por muitos como a alma e a bondade, e por outros como integridade física. O fato de Sharini ter dito para protejer o coração “dos teus” antes do próprio gera debates. Existe uma corrente filosófica ivoreana que acredita que a bondade dos outros deve ser protegida à custa da própria bondade, que deve-se pagar qualquer preço pela pureza do povo, mas não se deve ter medo de sacrificar a própria. Talvez isso justifique alguns atos macabros de guerra que alguns ministros ivoreanos têm tomado.

A segunda máxima: “Leva os teus para as terras do sol, e volta.”
O sentido universal desta máxima é que deve-se procurar os lugares abençoados, deixar lá as pessoas amadas, e voltar para aonde é precisa a ajuda. A parte dolorosa deste mandamento é “deixar” os amados: Sharini ordena uma separação, não a perpetuação do amor. Reptantes feiticeiros longinianos, em busca de alguma religião, abraçam este mandamento para guerrear pelas terras ancestrais de seus clãs. Líderes da guerra em Ivoire encontram paz nestas palavras, acreditando que estão seguindo desígnios divinos.

A terceira máxima: “Seja luz quando os oceanos lhe vierem escuros.”
Os adeptos acreditam que estas ordens dizem que, mesmo quando se está envolto em inimigos, não se deve ceder ou trair, nem juntar-se a eles; pelo contrário, brilhar ainda mais com a chama da paz e da bondade.

A quarta máxima: “Cante pelos caídos e ampare os que perderem o equilíbrio.”
Os “caídos” podem ser os mortos. Os adeptos nunca permitem que ninguém morra sem homenagens e ritos pela passagem e pelo fim da odisséia da vida. Acreditam que “sem equilíbrio” sejam os enfermos e os feridos, e não permitem que a jornada deles termine prematuramente. Há quem acredite que os caídos sejam os corrompidos, e que se deve orar por eles.

A quinta máxima: “Reconheça a si próprio nas águas calmas e inspire o ar.”
Esta frase foi traduzida de diversas maneiras ao longo dos séculos. Para os longinianos, deve-se tornar-se semelhante às águas calmas. Para muitos outros adeptos, deve-se reconhecer seu reflexo nas águas e conhecer a si mesmo, e regojizar-se com isso, buscando sempre maior poder pessoal e admirando a própria transformação.

A sexta máxima: “Não permita que prospere o fogo ou as garras.”
Todos entendem esta máxima precisamente da mesma maneira: os djins devem ser contidos e mortos, junto com o flagelo da conjuração. Em alguns países, mesmo meio-djins são vitimados por adeptos guerreiros, independente de sua disposição. Um grande golpe contra os adeptos aconteceu quando um meio-djin, sob disfarce, conseguiu submeter-se ao Ritual de Infusão e tornar-se, por pouco tempo, um adepto plenamente poderoso.

Leitura: Grande Lorde Aeolus, Plácido e Infalível, Líder Sobre Todos os Elmos Escarlates

Apesar de ter ingressado no meio militar odeniano sob Dálfon Palas, Aeolus Manlynx sempre teve em seu coração a lealdade à linhagem dos Meredith, herança de família. Durante séculos, os Meredith tiveram em suas primeiras fileiras os sires Manlynx, que eram conhecidos somente pelo primeiro nome dada sua quantidade. Sem senso de identidade ou amizade, o jovem Aeolus foi um dos primeiros a executar vários de seus amigos na inssureição de Soren Meredith contra o rei impuro, e ele carrega até hoje um corte longitudinal no peito feito pela espada decidida de Kachaturian quando este tomou o trono de volta para Ifalna Palas, filha de Dálfon.

Aeolus conheceu o então duque Dário Meredith enquanto este falava a muitos jovens na Universidade de Semíramis, buscando angariar aliados para derrubar a coroa de Ifalna. Ele não acreditava no jovem duque, mas rapidamente viu que ele herdou, além dos olhos, a vontade dominadora de seu pai. Foi mortalmente leal a ele até que ele, finalmente, desapareceu.

Dário o fez líder de seus esquadrões por dois motivos. O cavaleiro da armadura férrea nunca havia lhe falhado, primeiramente. Depois, porque ele tinha certeza que nada inesperado partiria do homem que nunca vacilou em cumprir ordens em sua vida. Dário tinha certeza que com uma ordem, Aeolus enterraria sua espada em seu próprio coração.

Hoje, com setenta e poucos anos, Aeolus espera a volta de seu mestre com serenidade. Ele cuidará para que nenhum impuro suba novamente no trono. Ele já viu seu país sofrer com isso mais de uma vez, em sua própria concepção, e sua espada está mais pronta do que nunca. A idade desgastou seus ossos mas parece ter feito eclodir nele uma força demoníaca oriunda da sabedoria da vitória. Quem um dia enfrentou Aeolus e por acaso sobreviveu viu-se morto antes que Aeolus desferisse o primeiro golpe.

Aeolus, o Elmo Escarlate, é uma parte ativa da Quimera. Ele acredita que Else cuidará bem de Odenheim enquanto souber seu lugar, e não permitirá que ela assuma liberdades enquanto viver. Sobretudo, ele tem uma fé firme no retorno do Imperador e seu único temor é morrer sem ter tido a possibilidade de concluir seus serviços à mando de Meredith.

A idade tornou seus cabelos castanhos platinados, assim como seus olhos. Quando não precisa cumprir funções cerimoniais, Aeolus anda fardado com os punhos cerrados. Em guerra, veste uma armadura pesadíssima de placas de ferro e usa sua própria espada de cerâmica, um presente de Soren há muito tempo. Ele fala pelos olhos e detém uma inteligência severa e pungente, que não envelheceu com o tempo.

Então representamos perigo.

"Então quer dizer que o povo farisiense que trabalha em vossos orquidários lhes representa perigo."

"Representam perigo enquanto possuírem movimento e mentes. Perigo enquanto vivos, perigo ao sistema e aos outros. O que faz aqui?"

"Quero autorização para abandonar Rublo."

Ele me examinou longamente. Seus olhos transcorreram através de minha alma. Quando dei por mim estava sob um milagre, ele segurava o grande chapéu contra o vento místico que me perpetrava.

"Ivaness Rel Barlaam, Investigador Real. Precisava vir tão longe?"

"Saga", eu disse. Maldição!

Ele assertiu com a cabeça, divertindo-se. "Você tem sua autorização. Saia imediatamente. Não queremos gente como você aqui. Sua ventura está acabada."

Leitura: Nossa Dama Hierofante Else Gwen de Estelle, a Elmo Dourado

O conselho se tornou soberano mais uma vez sob o mando da Hierofante Else. Consta oficialmente que o imperador é Meredith, e acredito eu que continuará constando até que descubram que ele está morto, o que dificilmente acontecerá. É uma lei que existe desde a fundação e que prenuncia uma era teocrática em Odenheim. Meredith não teve filhos e a família real, em todas as suas dissindências, estava morrendo. Nada restavam senão filhos de impuros e barões distantes com um nada do dito 'sangue de santo'. Os aristocratas não estavam dispostos a coroar um ilegítimo novamente e possivelmente manifestariam repulsa se isso viesse a acontecer.

A Hierofante reduziu o Conselho do Palácio Oceânico a três pessoas: ela mesma, Aeolus dos Cães de Ferro, e Hepzibah dos Rebentos de Rachamarfim: os dois são até hoje líderes das duas maiores ordens militares de cavalaria odeniana. O povo chamava o conselho de Quimera de Três Elmos, ou simplesmente a Quimera. Else era um Elmo Dourado, Aeolus era o Elmo Escarlate e Hepzibah era o Elmo Cerúleo - as cores combinavam com os brasões de suas ordens.

A sala original do Conselho foi tombada como uma espécie de museu particular de Else, e ninguém mais entra lá a não ser os encarregados da limpeza do lugar. Nem os habitantes do Palácio Oceânico sabem, hoje em dia, se há um lugar oficial para a reunião do Conselho. Dizem que os três discutem o destino de milhões de pessoas enquanto andam pelos vastos corredores do palácio. Aliás, nada equipara-se à quantidade de histórias que as pessoas têm a contar sobre Else.

Nossa Dama Hierofante Else Gwen de Estelle, a Elmo Dourado, adepta prodigiosa, formou-se Mestra Celestial aos 22 anos, em História Maior aos 25, e tornou-se hierofante mostrando um controle absoluto e estranho sobre o avantesma de Lodis, superior aos mais antigos e experientes membros do clericato. Hoje, com vinte e nove anos, toma lições com um mestre-de-armas longiniano e já é reconhecida em torneios marciais como tendo um manejo poderoso das armas dos kishi. Sua espada Vergessenheit, uma daikatana pétrea esculpida em relevo chanteliano, é pesada e rápida como uma foice, mas nunca foi usada, somente em demonstrações, e em sua onipresença guardada na bainha às costas da Hierofante.

As pessoas que tratam com ela conhecem sua face atormentada pela insônia e por uma enxaqueca que a assola. O que ela sente muitas vezes parece se espalhar pelo ar e causar arrancos lancinantes de dor de cabeça nas pessoas ao redor, como uma maldição perpétua e maligna. Quando ela consegue dormir, é extremamente calma e amável, mas após três dias de insucesso na cama ninguém a procura. A ajuda de uma pequena comitiva de adeptos e médicos ocupa boa parte de seu tempo.

Não se sabe sob quais circunstâncias Else se tornou tão estimada por Meredith a ponto de ela se tornar sua braço-direito. Aristocratas contam que Else esteve com Meredith todo o tempo em sua saga trágica tentando obter um herdeiro, o apoiando e consolando em seus insucessos frequentes. Más-línguas dizem que os dois foram amantes, mas isso dificilmente foi verdade dado o tipo físico de Else comparado ao de Pluma e Ifalna, as duas mulheres que supostamente o duque teria amado: enquanto Else é loira, alta e austera, Pluma e Ifalna, ambas, tinham cabelos vermelhos, estatura média para baixa, e portavam a beleza e fragilidade clássica da aristocracia odeniana.

Por outro lado, Else não manifestou surpresa (nem outra qualquer reação aparente) quando Meredith foi dado como desaparecido pela primeira vez. Talvez ela seja a única pessoa no mundo que conheça seu paradeiro e suas intenções verdadeiras com sua migração repentina. A verdade é que o Duque se tornou uma espécie de figura mitológica, um rei-fantasma vagante que vigia as crianças brincando e que ninguém sabe se é bom ou mau. Poderiam compilar-se um livro dos grossos se todas as histórias contadas sobre ele, das reais às absurdas, fossem reunidas.

A única pessoa da aristocracia que, até hoje, tem como missão pessoal encontrar Meredith é Lorde Fabian de Tércia, ex-líder dos Leões Brancos (hoje Rebentos de Rachamarfim). Ele move diariamente uma pequena comitiva de Investigadores Reais atrás de todas as histórias e pistas sobre o Rei-Fantasma.

Enquanto isso, Else conduz Odenheim na maior revolução industrial já vista no mundo, ampliando a capital Lodis a níveis absurdos, construindo habitações para fantasmas e levando as linhas férreas a elas, sem que haja sequer alguém para subir e descer salvo as pessoas encarregadas das construções. Quando ela ordenou a construção de Nova Eiselc o Primeiro Distrito Aéreo, os aristocratas acreditaram que ela estava completamente insana, por estar construindo sobre andaimes um bairro inteiro e por ter batizado-o Primeiro Distrito Aéreo, o que indica que haverão outros.

Não há gente para morar nesses lugares. Na verdade, há muita gente se empilhando de qualquer jeito nos distritos favelizados de Teale, mas obviamente não é a eles que Nova Eiselc se destina. Os intelectuais odenianos imaginam que a ampliação de Lodis tenha a ver com a exploração de Calibur por grandes navios e a recente missão cartográfica enviada pela Quimera contando com uma tripulação pequena, porém muito capaz, inclusive o bem-aventurado capitão Klaas e o marinheiro lendário Braden de Gratien y Lake, que, entre outras coisas, foi o primeiro a chegar na costa do Gâm Flutuante, mapeou, com uma comitiva, todo o lado norte de Velha Iorque e, foi o que mais penetrou no Cinturão de Fogo, recuando estritamente para voltar com informações que, talvez, ajudem os próximos planinautas a investir contra o Mundo Difícil (ou nunca mais voltar lá).

Supõe-se que uma grande população será trazida para trabalhar, ou fazer alguma outra coisa, por Else. Por isso a capital está estendendo-se sem parar em detrimento do crescimento da indústria de outros setores, considerada de importância primordial pelos lodianos.

Sobretudo, a administração de Else não fica devendo à do 'Eterno e Justo' Dálfon Palas (que fez Odenheim crescer a quase duas vezes sua economia original do começo ao fim de seu período de regência) e à de Meredith, da qual ela parece ter se inspirado para seu próprio mandato quase megalomaníaco.

De quê você nos protege?

Minha marcha maldita encontrou a estrada e as profundezas do céu quando não havia luz senão a das montanhas. Eu tinha comigo apenas uma sacola de couro (que eu carregava a tiracolo), que tinha uma boa quantia em dinheiro, algumas mudas de roupa, uma túnica, um agasalho grande e um revólver de fecho de roda, dos bons. Todas as vezes que eu rezei para não ter de usá-lo, acabei usando.

Dei de cara com o adepto. Não vi sua silhueta ao longe: quando dei por mim, ele estava na minha frente. Não era mais do que um rapazola. O archote que carregava fulgurava em seus mantos verde-claros e lançava luz em seu rosto sob o grande chapéu. Tinha uma bainha às costas para um cajado com a parte de cima ornada com um símbolo heráldico e folhas de cobre, andava com grandes botas de cano alto, próprias para a neve, lama ou qualquer coisa que ele visse pela frente naquelas terras.

Seus olhos pousaram em mim esperando uma explicação.

"Se me permite uma pergunta", disse, a que ele assertiu, "de quê você nos protege?"

"Eu não protejo vocês. Eu protejo os outros, de vocês."

Leitura: Os Idos de Odenheim

Negada à luz e lançada à guerra, Odenheim perdera Ifalna Palas, desposada e destronada. Ascendeu, a 701 anos da fundação, Dário Meredith, Rei Negro. O cetro do poder não lhe lavara o olhar feroz e após trinta e dois anos de guerra ele expulsou os ivoreanos da costa de Odenheim, pondo fim a um conflito calamitoso. Fez-se silêncio quando a guerra terminou: todos os soluços haviam sido calados. Torres de ferro erguiam-se em meio à neve em Lodis e a respiração das máquinas talvez fosse ouvida a milhas. Meredith retornou num momento de silêncio e com um esgar feroz cruzou a capital até o Palácio Oceânico. Os cabelos grisalhos não lhe deram a imagem do pai Soren, como todos imaginavam que o seria. A humanidade recuara em suas feições até se tornar uma presença surda e nuclear. O reino agora era regido pelo deus da morte.

Pouco mais de setenta cavaleiros armados voltaram das Ilhas Sagradas, onde estrelas se apagaram quando o incarna de Câncer, com asas que abraçariam o mundo em vermelho tremeluzente, chocou-se contra as fileiras dos vingadores de Iblis ivoreanos. Lembrariam de Dário andando através dos campos de batalha e massacrando, a golpes únicos com o machado Labrys, qualquer um que se aproximasse, inimigo ou aliado, trazendo sobre todo o corpo uma aura estranha e divina. Após o fim do conflito, o incarna, assim como tudo o que se referia àquela guerra, foi esquecido pelos odenianos. Diz-se que seu herdeiro, após manifestar seu poder máximo e retornar à forma humana, foi executado por um soldado ivoreano que tinha sobrevivido.

Naqueles anos, Meredith se aliou aos adeptos e parece ter adquirido um forte e estranho respeito pela Deusa. Suas virtudes invertidas foram disseminadas pelos seus cavaleiros, e muitos feiticeiros emergiram e foram destruídos naquela época – a maior parte, pelo próprio Meredith, pessoalmente. E apesar da Ordem dos Elmos Escarlates estar severamente debilitada pela guerra, aquele era, sem dúvida, seu apogeu, comprovadamente a maior força militar conhecida de Natal. Em trinta e dois anos o povo aprendeu a viver sob a bandeira vermelha de Meredith: talvez por isso poucos tenham vindo velar a Rainha Ifalna Palas quando ela morreu, ainda tão jovem, acometida pela amargura e levando consigo o herdeiro do trono que ainda estava em seu ventre.

A vida em Lodis nunca fora tão difícil. Homens eram convocados e até trazidos de outras cidades para trabalhar em turnos de mais de dez horas nas carvoarias e indústrias da capital. O advento das linhas de montagem tornou Odenheim a maior potência bélica no mundo. O trabalho era interrompido três vezes ao dia para orações escritas e pregadas por Else, Hierofante de Lodis e a braço-direito de Meredith. Ela subiria à sacada dos reis e, sob os céus escuros de Lodis, chamaria todo o povo para lhes falar de parábolas, tormentos e fé. E enquanto oravam, as sombras da cidade pareciam crescer.

Passados alguns anos, Meredith deixara de falar em público e, com mais algum tempo, deixara também de fazer aparições. A Hierofante Else lhe representava, junto com uma comitiva de Elmos Escarlates e regentes escolhidos por ele. E assim que terminou a guerra, foram dadas armas a quase cinqüenta brigadas de Elmos Escarlates que tornaram-se a referência de lei em todo o território. Meredith desapareceu dentro do palácio, recuando para se entregar a planos e devaneios. Muitos imaginam que ele esteve esperando ou preparando o momento certo para atacar novamente, mas todos os aristocratas ouvem seus passos insones e febris à noite. A Deusa não permitira que Pluma Isabelle lhe concedesse um herdeiro: os adeptos finalmente constataram que ela era estéril. Meredith a trouxe em seus braços, vestida em robes brancos e dormindo para sempre. Seu rosto puro e belo subitamente reganhara a juventude e o frescor. Foi dito que seu espírito ascendeu aos céus fazendo com que todos na cidade chorassem sem saber dizer o motivo, mas ninguém nunca descobriu o motivo pelo qual Pluma Isabelle morreu.

Após este fato Meredith abandonou o Palácio sem data definida para voltar. Foi visto em vários lugares em Odenheim, armado de seu machado e vestindo uma longa capa branca, faminto, furioso e parecendo procurar algo. Ele foi motivo de desespero em várias vilas ribeirinhas quando descobriram que ele estivera observando, com uma espécie de ira amarga e contida, todas as crianças enquanto brincavam fora de suas casas.

O fim da guerra não significou descanso ou prosperidade. As linhas de defesa de Odenheim foram mantidas tesas e rígidas, enquanto as cidades viveriam em um perpétuo estado de pânico. Else era pior do que o próprio Meredith. Templos foram reconstruídos em aço com o trabalho braçal forçado de todo o povo, grandes pedras foram arrancadas das montanhas e arrastadas para a cidade, e caravanas perpétuas atravessaram as regiões setentrionais de Odenheim, onde foram erguidos novos templos e cidades. Segundo ela, os odenianos envergonhavam Meredith com sua atitude lasciva perante a vida e a Deusa. Músicos e tanques ficaram eternamente prontos em uma parada de proporções titânicas que receberia Meredith quando este voltasse. Em 733 D.F., quase um terço da população de Lodis foi enviada em uma capitânia com destino ao mundo de Caliburnus (Calibur) com o objetivo de erguer uma nova Lodis naquelas terras e espalhar a palavra de St. Sharini aos ignorantes.

Foi o ano em que os odenianos entraram em contato com os primeiros caliburanos, cujos olhos estreitos trouxeram lembranças ancestrais ao único reptante que participava da caravana de colonização. Infelizmente, dificuldades na comunicação e a arrogância de alguns capitães da caravana fez com que a atitude dos habitantes do novo mundo rapidamente se tornasse hostil aos visitantes e eles rapidamente perderam a comunicação com a capital. Um dos últimos relatos recebidos mencionava um avantesma ou incarna de brilho incomensurável invocado por um líder espiritual caliburano contra os invasores odenianos.

No hiato e apesar do fogo cruzado, com a derrota dos ivoreanos, os movimentos separatistas do vice-reinado ivoreano da União do Mar Alvo rapidamente ganharam força e, no mesmo ano que a guerra terminou, uma parte da União do Mar Alvo conseguiu sua independência e passou a ser novamente chamada Faris: a República Nova de Faris. A conquista deveu-se a breve e decisiva atuação do dragão Keshal de Lorena, que, de posse de um poder inexplicável, limpou sozinho as falanges ivoreanas de toda a costa leste original de Faris. Muitos tiveram certeza que ele esteve possuído pelo poder de Iblis durante aquele tempo, mas, assim como o incarna de Câncer, pouco mais se ouviu falar do Dragão Redentor.

As fronteiras de Ivoire e do vice-reinado recuaram para quase metade do seu tamanho original. Ainda abrangiam o Almirantado de Hevelius, o Planalto de Lorena e a cadeia de montanhas Aesir, mas uma renovada ordem dos Dragões da República parece preparar uma marcha vitoriosa sobre os enfraquecidos ivoreanos.

Leitura: Os Idos de Longinus

Os trinta e tantos anos que se passaram não foram gentis com Longinus de maneira alguma. Por alguns momentos, o clã Fafnir cercou os longinianos em Margrave e houve a certeza de que o Império Sagrado seria destruído naquele momento. Mas o destino carteou uma surpresa decisiva quando o quarto incarna, Shu, foi descoberto e invocado pelo próprio Hierofante Ludgast, que já havia atravessado seus noventa anos. Tomado pelo poder divino, Ludgast confrontou Rama, líder incontestável dos Fafnires, numa batalha espiritual furiosa e espetacular que durou pouco mais do que alguns segundos e terminou com a morte de ambos, espadas cruzadas diante das multidões. Um grande choque de retorno e as lâminas dos últimos kishi extinguiram o restante do clã Fafnir numa única noite. Longinus inteira uniu-se em oração e a aurora do dia seguinte espalhou o sangue do clã Grendel e de muitos outros clãs reptantes sobre a terra longiniana em nome do grande hierofante, e as flores brotaram rubras quando despontou a primavera.

Ludgast foi sucedido pela kishi Neman, uma heroína de guerra de disposições e princípios desconhecidos. Sua selvageria se revelou quando, na cerimônia de sucessão e vestida com os ornamentos imperiais sagrados, ela assassinou a sangue frio e a um só golpe um reptante adepto que ousou a tocar para lhe abençoar.

Sob a guarda da Imperatriz Neman, porém, Longinus pôde prosperar e se reconstruir. Em pouco mais do que dois anos, o império recuperara o rubor que tinha antes do início das guerras contra os Fafnires, há quase um século. Muitos guerreiros abandonaram suas espadas para lutar pelo império, desta vez plantando, colhendo, reconstruindo e reconsagrando as terras maculadas pela feitiçaria maléfica dos reptantes.

O renascer do Império Sagrado de Longinus passou quase despercebido para os regentes dos outros países, mas não para Cédara. Tratados comerciais há muito esquecidos foram novamente levantados pelos aristocratas longinianos. Ivoire chegou a tentar uma aproximação, mas a Imperatriz Neman não havia esquecido, tampouco perdoado a ofensa de Verne há tantos anos.

Assim que teve recursos (fim de 734 D.F.), Neman lançou uma cruzada de kishi para perseguir e destruir os desertores de Longinus na guerra como exemplo. O infeliz ato resultou na morte de vários longinianos em terras farisienses, ivoreanas e cedarianas, muitos dos quais haviam já constituído famílias. Muitos cedarianos (e também a imprensa) ficaram aterrorizados com a total falta de clemência de Neman para com os fugitivos de guerra – a imperatriz passou de heroína a uma tirana em poucos meses. A cruzada obviamente não conseguiu desenterrar todos os traidores, e persiste até os dias de hoje.

Reconhecidamente, Longinus mantém uma aliança informal com Cédara e Rublo; entretanto, ninguém sabe o que se passa na cabeça de Neman e qual será o próximo passo na sua saga de orgulho e destruição.

Transcrição do Tomo das Eras, LI

Da terra, eis, veio um grande espírito
A todos lembrou a pedra da criança
Uma vez, o espírito tomou a forma das coisas
E ascendeu aos céus
O árbitro que virá pelas almas dos desencantados
Após as palavras lidas
E o mal feito.

A volta.

Retornei a nosso orquidário (os gentios o batizaram Mirventura) com os olhos tristes, nem a Viola pude ter um sorriso. A ausência de qualquer descoberta está acabando comigo e pela primeira vez pensei que esta escapada pode ter sido um grande problema.

Durante a noite Viola veio a mim e contei toda a verdade a ela. Estava desesperado e me sentindo no final das forças, sem condição de pensar em como escapar. A nobre dama prometeu que me ajudaria, para minha surpresa, e no dia seguinte, enquanto aprumava um buquê, falou baixo a mim através de uma parede de folhas.

'Há um caminho', ela disse, 'ao sul, que levará seus pés para um porto livre. Lá poderá convencer alguém a te levar por algumas rúpias. O adepto passa longe deste ponto em sua rota normal, mas já o vi passando lá algumas vezes. Vá com cuidado.'

'Eu ainda tenho interesses por aqui', respondi a ela. 'Fico ainda uma lua.'

'Não. Vai, aqui teu coração não pertence', ela disse. 'Antes que pertença a ti meu coração.'

Pude pronunciar o nome dela ainda uma vez antes dela sumir nas folhagens. Parti, chorando, naquela noite, carregando comigo o rosário que ela tinha deixado, profanando sua fé e fazendo um último mal a Viola, talvez a última mulher que eu tenha amado.

Leitura: A História de Hepzibah, parte 4

Uma flecha cortou o nada em que se abrigava. Atingiu ao longe a aura que o prendia à terra e ele viu que ainda havia... Seu poder feiticeiro se libertou numa coluna de chamas vermelho-vivo abrasando o chão e tudo, e da certeza da morte ele despertou para a batalha.

O arqueiro vinha com guerreiros que berravam contra os pardos, golpeando com suas espadas em raios de aço e ar que atingiam ao longe. Antes que pudesse tentar se defender deles, pararam de atacar. Não queriam matá-lo. Pegaram os ivoreanos voltando de uma missão, isso sim, e a eles destruíram. Ficaram ao longe fitando-o à distância. Não tocaram os pardos: suas geomancias e flechas o fizeram.

Hepzibah se levantou e tentou falar a eles. Ouviram os dragões um guincho, como uma palavra de ódio, mas os olhos do meio-djin mostravam-se agradecidos. Aproximaram-se com cautela. Um colheu do chão uma pequena lis-de-Ivoire. Não pensariam em nada melhor. O jovem dragão ofereceu a lis a Hepzibah e ele a tomou em mãos trêmulas. Sorriu, se é que sabia sorrir.

Levantou-se de seu limbo e juntou-se aos dragões. Havia um entendimento irracional entre eles, uma aliança inconsciente. O arqueiro chamava-se Fiachra e era o líder de um grupo de dragões-da-República que ficaram ferrados e presos em território ivoreano. Terroristas e assassinos, uma vez uniram-se à XV para explodir uma usina em Hevelius. Hepzibah juntara-se a eles muito depois disso, quase cinco anos depois. Já havia findado a Décima Quinta e tudo que remetia a ela. Era o auge da guerra dos odenianos com os ivoreanos. Os dragões não estavam em lado algum e odiavam as duas partes, os ivoreanos mais do que os odenianos.

Hepzibah permaneceu unido a eles, lutando contra os odiados ivoreanos até que todos estavam mortos, quase dez anos depois. Viveram juntos todos os desfortúnios de quem batalha uma guerra que já havia sido perdida. Fiachra morreu inútil no meio do fogo, suas flechas caladas quando um dia cantavam livres antes de enterrarem-se em sangue pardo. Hepzibah o Improvável (como o chamavam) foi o último dos Dragões de Chumbo de Fiachra, e herdou a disciplina pálida e fria do ódio dos corações humas. Havia aprendido a luta dos homens. Sua força oculta de meio-djin o fazia poder carregar duas espadas quando todos levavam somente uma. E eram grandes espadas - espadas de Dragão. Hepzibah não podia parar de lutar, morreria se o fizesse. Aprendeu o ódio, e não mais viveria em paz sem exercer sua única satisfação. Tinha medo de destruir todos os ivoreanos: não sobraria ninguém para ele ganhar seu dia.

Rumou para Odenheim. Haveriam de aceitar duas espadas contra os pardos. Isso foi em 716 D.F., as fronteiras estavam tomadas, Capela ocupada e as tropas de assalto terrestres avançando duramente para Vercel.

Leitura: A História de Bácari e Trói

Haviam praias, haviam peixes, haviam pescadores. Haviam Bácari e Trói, desde muito. Os antigos acompanhavam os cardumes por terra e migravam pela costa leste da República. Levou muito tempo até que alguns pontos fossem descobertos como de convergências de vários tipos de peixe ao longo do ano. Na verdade, foram descobertos dois destes paraísos da pescaria: Bácari e Trói, obviamente.

Os nomes vieram das duas espécies de peixe que mais apareciam nas imediações, o Bacará Real – grande, cinza e lento – e o Totrói – com a protuberância óssea no focinho que mais parece uma espada.

Os pescadores ficavam metade do ano em Bácari, metade do ano em Trói. Muitos tinham uma namorada em cada cidade. Alguns tinham uma família em cada cidade. Muitos tinham pouca ou nenhuma idéia de quem era seu pai, mas as cidades prosperavam e todo mundo se conhecia. Fizeram escolas em Bácari, um pequeno teatro em Trói, e já vinha uma geração daqueles que estudaram fora, poetas, médicos, engenheiros, que voltavam para trabalhar nas suas cidades de origem.

Na época em que os ivoreanos investiram na madeira de Faris, o conselho em Belgrade decidiu que seria interessante para o futuro do país que existisse uma grande ferrovia ligando Glenária e Bácari.

O conde de Trói fez um escândalo. Alegou que Trói era muito mais tradicional, que a população era maior, que era completamente ilógico levar os trens para Bácari quando Trói estava ali, mais perto e mais interessante. A população fixa e simples não entendeu muito bem a história da ferrovia e no mais, eles queriam que os bacarenses se ferrassem, mesmo.

O barão de Bácari prontamente iria se defender dos argumentos do outro, mas aí ele soube que o plano da Estação Ferroviária Primeira de Bácari colocava o prédio bem no lugar onde atualmente ficava sua mansão com jardim de inverno. Entretanto, ele foi forçado a manter sua posição pelos intelectuais de Bácari, que queriam a ferrovia e ameaçavam amotinar-se sobre o barão.

Como tudo que acontece em Faris, os Dragões da República foram chamados para mediar o impasse. Descobriram que cada cidade tinha um conjunto diferente de virtudes e defeitos, mas nenhuma era melhor do que a outra em absoluto. Um Dragão jovem chegou a sugerir que decidissem o destino da ferrovia tirando a sorte nos dados, mas ninguém deu ouvidos a ele. Grande erro.

Ficou acertado (bem à moda dos Dragões) que haveria uma competição entre quatro espadachins – dois representando cada cidade. Quase todos os pescadores não tinham quase treinamento, em absoluto, com a espada, e se perguntaram se não seria mais interessante uma competição de pescaria. Depois alguém lembrou que ninguém realmente morava em um só lugar entre os pescadores e iria ficar difícil escolher que lado iriam representar. De fato, os pescadores nem foram consultados a respeito da tal ferrovia.

Surpreendentemente, os escolhidos para defender Bácari foram dois jovens filhos de um pescador que lá residia, enquanto os escolhidos de Trói foram o irmão do conde, Guntram de Trói, um aventureiro jovem e forte que bandeava com os dervixes do norte, e Nila, uma adepta estrangeira que fez de Trói seu lar.

Guntram e Nila destruíram os escolhidos de Bácari facilmente, primeiro a golpes calculados com as espadas de bambu, depois a pauladas mesmo, já que eles não se rendiam. Os filhos de pescador de Bácari foram arrastados, inconscientes, do ringue improvisado armado perto do Poço das Botas. Fazia um sol rachante.

No dia seguinte, festa em Trói. O conde anunciava ao populacho as melhoras que a ferrovia traria (e depois de um tempo, basicamente do quê se tratava, já que todos estavam interessados). A bebida corria solta, ninguém trabalhou, os peixes dentro d`água até estranharam o fato de não ter havido o genocídio diário. Todos os troianos ficaram animados com as obras, com os trens, e com a nova possibilidade: viajar.

Quando anoiteceu, um grupo compacto de Dragões e citadinos de Bácari chegou na cidade, para falar diretamente com o conde. Quem viu, das casinhas com as lamparinas acesas, viu que boa coisa, não era.

O conde voltou pra casa cheio de amargura no coração. O torneio havia sido considerado inválido, porque o barão de Bácari conspirou contra a própria cidade colocando filhos de um pescador no torneio ao invés dos grandes espadachins da Academia Real de Heilwig de Espada Odeniana, que, apesar de pequena e recém-chegada, contava com um bom número de esgrimistas talentosos. Como todo bom filho, Guntram tomou as dores do pai. Juntou seus amigos dervixes e num ato maligno de vingança, fizeram um arrastão na costa, no meio-caminho entre Trói e Bácari, justamente na época da reprodução dos bacarás.

Surpreendentemente, ninguém soube do crime a princípio. Mas sua conseqüência foi muito pior do que o esperado. A escassez atacou Bácari com violência e quase todas as famílias vieram para Trói. O preço do peixe inflacionou de uma maneira incrível, e ninguém queria passar fome; além do mais, muitas mulheres encontraram as “outras” e saiu porrada pela cidade inteira. Mais além do mais, Guntram, completamente bêbado, admitiu ter passado a rede nos bacarás e escapou por pouco de morrer na mesma noite. Depois que a notícia se espalhou, botaram fogo na casa do conde. O caos se espalhou pela cidade toda. A Guerra do Peixe durou três dias e duas noites.

Quando a poeira baixou, Trói estava em destroços. Quem não assumisse um lado da briga era considerado covarde e não era bem-vindo em nenhuma das cidades. Quem fosse de Trói, não entrava em Bácari, e vice-versa. Muitos pescadores tiveram que escolher entre dois amores e até hoje não sabem se fizeram a escolha certa. Outros têm certeza. Outros estão morrendo para voltar e não podem.

A ferrovia não foi construída e não se voltou a falar no assunto. Tiveram rumores de que nunca houve projeto de ferrovia alguma. Mas o problema de Bácari com Trói tornou-se folclórico e os moradores de uma cidade falam horrores dos moradores da outra.

Guntram e seu pai, depois do incêndio e ao que tudo indica, mudaram-se para Belgrade do Norte assim que a cidade foi construída. O garoto cresceu, e por fim se arrependeu do que fez, mas já era tarde.

Artigo: O Estilo Divisionista

A poesia veruniana do quinto século implorava por uma arte nova, uma arte vibrante, enérgica, e sobretudo, uma arte que não fosse óbvia e uma arte difícil, intrincada, que poucos pudessem dominar. Foi Seurat de Drift o inventor do divisionismo, um estilo de pintura técnica que envolvia o uso de pequenos pontos de pigmento colorido para formar uma imagem à distância. O estilo divisionista é caracterizado pela Névoa, um elemento onipresente em todas as suas artes. As coisas são vistas através do que parece ser uma camada espessa de nuvens: muitas vezes são o que não parecem ser à primeira vista; muitas vezes são duas ou três coisas ao mesmo tempo. Muitas vezes o artista não especifica o que pintou e hipóteses são levantadas até os dias de hoje.

A dúbia pintura divisionista foi usada como protesto no início do século por artistas dos dois pólos de Odenheim. Títulos sugestivos eram acompanhados de pinturas que mostravam duas faces, sendo uma delas uma crítica ou ridicularização de Meredith ou de um dos seus. Era como uma mensagem secreta, que poucos poderiam entender; como uma crítica ferina escondida que poupava a vida de seu criador. Muitos consideravam

É verdade que alguns divisionistas têm trabalhos considerados revolucionários até hoje. Figuras que despertam a imaginação e o subconsciente mudam ao longo das eras na concepção das pessoas. Muitos trabalhos que tornaram-se subversivos por esse processo foram destruídos pelos agentes da coroa.

Os campanários ainda não me abandonaram.

Nem em mente, nem em coração. Nossas orquídeas estavam os decorando, 'plantadas' em roseiras verticais nas quais pendiam por cima das pedras graníticas e nuas. Eu já via os raios descendo por sobre aquela capela, a luta dos adeptos contra o avantesma, a submissão e o poder. Por um momento um pensamento fulgurante e revelador sobre aquilo se apossou da minha cabeça, me fazendo ter uma compreensão inteira da situação segundo os planos de Maeve para nós. Mas como se proibido, aquele pensamento me fugiu por inteiro, deixando somente o espaço vazio atrás de si. Isso vem me acontecendo com assuntos menores há algum tempo, mas nunca uma compreensão esquecida me atingiu tanto quanto essa. Foram segundos de êxtase de entendimento nos quais eu não tive tempo para memorizar.

Os céus, brandos com as nuvens correntes de Rublo, queriam me dizer alguma coisa. Eu estava inútil para compreender, enxergando apenas o que estava dentro de mim. A viagem de volta passou em um suspiro.

Notas Acerca das Transcrições

Como bem se sabe, todos os Odes dos tomos escritos por St. Sharini foram manuscritos em titani, a língua primeva de Natal (provavelmente a mencionada na mítica história dos primeiros homens silenciosos e daqueles que aprenderam do titã de ferro), que deu origem ao dialeto comum que fala-se hoje em dia, o alvalli. A transcrição do titani para o alvalli reduz o tamanho do texto significativamente; sabe-se que no titani todas as palavras são acompanhadas de todos os seus sinônimos; a distância e a diferença da primeira e da última palavra dão ênfase ou não naquele termo. Poucas pessoas dedicam-se ao estudo do alvalli hoje em dia; aparentemente ele é impossível de se pronunciar, salvo longas orações que foram preservadas desde os Dias Antigos, provavelmente datando de menos de 2000 A.F.

Transcrição do Tomo das Eras, L


A luz veio sobre a alvorada
A alvorada veio sobre as estepes
As estepes rolaram sobre tudo que pacífico era
Em um só som majestoso e pacífico
Sobre um só tom, diapasão dos fanáticos
E em uma só luz, imutável e infalível.

Artigo: O Estilo Firrareano

Nos condados de Firrara próximos a Veruna, nas amplidões de Rublo, houve durante o quarto século um grande culto ao folclore gentio na literatura e nas artes. Fundou-se o estilo artístico de Firrara, que faz de tons escuros de verde, vermelho e negro milhares de desenhos poluídos, detalhados e estranhos, inspirados pelo subconsciente dos habitantes de um lado amplo e quase desabitado de Oden, Ayanan.

Hoje em dia o estilo firrareano está um pouco passado. Quase todo odeniano tem um quadro, um escudo ou uma cornija de lareira feito com as cores de Firrara. A época grande do estilo foi uma em que muita gente subitamente decidiu produzir peças de arte e o estilo foi um pouco banalizado. Em Rublo, hoje em dia, está havendo, contudo, uma revitalização do estilo feita por artistas verdadeiros, inspirados e imaginando cenas fabulosas, muitas vezes substituindo as cores negras pelas brancas numa licença poética ousada.

A literatura firrareana é apressada e prolixa. Contos de anos de detalhes são feitos em parágrafos e às vezes uma página é usada para descrever uma cena em uma velocidade intensa e passional. A intenção original era reproduzir alguém que tenha visto algo fabuloso e queira contar tudo sem conseguir ter por onde começar... mas o estilo evoluiu para uma espécie de êxtase poético onde todas as palavras se unem para fazer uma descrição ou uma cena perfeita.

A música firrareana, se é que houve um estilo de música firrareana, era feita com bandoneons e violões. Era música de gentios, que foi explorada por um ou outro compositor erudito (notavelmente o Monsenhor Barclay, que deve ter composto ao menos cinco odes para cada conjuração que já pisou o solo de Natal). Explorava poesia como a da literatura, limitada pelo contexto melódico da música. Nada grave a dizer. Era música tocada por poucos e cantada por muitos, que hoje em dia quase não se executa salvo em áreas de ruralidade intocada pela urbanização e organização de Rublo.

Lothair.

A colheita desta semana foi a melhor desde nossa chegada. Insisti com meus camaradas de ir, desta vez. Quase não me deixaram ir - todos queriam ir a Lothair e mostrar serviço. Até parece que não sabem que a recompensa do nosso trabalho é o nosso trabalho e nossa sobrevivência, e que o fato de um de nós ter de ir a Lothair é uma obrigação, não uma espécie de passeio.

Imagino que deva começar a planejar minha saída deste lugar. Subestimei a vigilância dos rublenses. O pior de tudo é que este povo não está interessado em dinheiro, que nada vale nessas terras. Espero que a tal 'autorização' para abandonar as terras seja fácil de conseguir, ou estarei preso aqui. O que não é uma perspectiva tão desagradável, mas eu tenho um compromisso com minha obra.

Viola veio se despedir de mim no carro: era uma picape das antigas, que eles fingem nos convencer que funciona à díesel e nós fingimos acreditar. Na verdade é uma máquina Matra, movida a madrejaspe geomântico e encantamentos de feitiçaria. A fumaça que sai atrás denuncia: é azul-química, refugo de madrejaspe. Anda bem, pelo menos, cruzando as estepes que separam nosso orquidário de Lothair. Guardei na cabeça o caminho tomando como referência as placas que ultrapassamos: confusas, mas muitas, repletas de signos heráldicos para as cidades e construções, tudo estatizado e sinalizado para uso das autoridades. Não ensinam essas coisas para quem não precisa aprender. A vida aqui é planejada.

O motorista não era de muitas palavras. Perguntou das orquídeas ("Ótimas, em grande quantidade"), perguntou se estávamos felizes ("Claro"), perguntou se alguém estava mostrando intenção de sair ("Não, senhor, claro que não").

Eu não tenho cara de farisiense, Maeve sabe que eu não tenho. Pior, eu não tenho cara de quem tenha sofrido na vida, como de fato não sofri, Maeve foi generosa comigo e com minha família. Sempre fiz o que quis, sempre estive longe do perigo, sempre antevi revoluções e sempre estive a distâncias seguras de tudo que estava acontecendo. Cédara neste último século, principalmente o sul próximo de Axúria, foi a região mais pacífica e próspera para se viver. Houveram pequenos combates nas fronteiras do norte, mas muito poucas casualidades, lutaram os cedarianos mais com máquinas e barricadas do que com pessoas. Lutaram a boa batalha, tiraram campos de cultivo preciosos dos ivoreanos, não perderam quase ninguém. Só esqueceram de devolver o que pegaram pra Faris quando tudo terminou, mas nos dias de hoje creio que isso seja só um detalhe.

No sul, tudo foi calmo. Uns poucos jovens se despediram de suas famílias para conhecer as guerras no front para não voltar nunca mais. Foi triste, mas foi calmo. Principalmente perante o caos em que estava o resto do mundo - isto ainda antes dos adventos da Décima Quinta, pouco antes do início do nosso sétimo século da Fundação.

Permiti que meu pensamento voasse. Perdão.

Os muros de Lothair eram chantelianos, altos, pedra sobre pedra em uma nova cidade feita com muros com placas de metal curado, tratado e passado alquimicamente, com esculturas de aur, monstros e bestas de um folclore moderno ressurgindo em Rublo. Não foi-me permitido ver muito. Não era cidade, ninguém viveria ali. Era um templo sendo construído sabe-se lá com que metais e riquezas (porque é uma obra monumental em ouro, azul escuro e pedras negras). Era um templo alto com torres de granito, lanças de ouro, cinco campanários altos com sinos. A mandala estaria dentro para descer um puta avantesma.

Alguma coisa deve estar para mudar.

Artigo: A Tradição dos Corais em Odenheim

Sabe-se que do ócio acontece a criação; pois, de tantos anos de paz, surgiu em Odenheim uma invejável tradição. Além de receberem escolaridade completa, noções de matemática, teologia, náutica, astronomia e história, as crianças odenianas, quase sem exceção, aprendem a ler partituras e cantar em coros. Muitas carregam a habilidade com a voz para a idade adulta - a maioria dos grandes intérpretes de Natal é composta de odenianos. A marcha 'Vermelho de Triunfo', eleita o hino de guerra de Odenheim durante as guerras da Ilha Sagrada, contém uma grande parte feita em canto coral, cantada com emoção e beleza pelos odenianos. Obviamente pode-se dizer o mesmo dos povos de Rublo, apenas recentemente separados de Oden politicamente. Imagino que há uns bons vinte anos não se ouçam bons corais aqui. O país está ocupado demais para servir-se de música e prazeres terrenos agora, como estou percebendo com esta minha pequena experiência pessoal.

O maior compositor erudito de música coral odeniano com certeza foi Lorde Hymns de Asfaloth (401 D.F. - 526 D.F.), que durante sua vida compôs três óperas e mais de duzentas peças para solistas acompanhados de chembalo. O chembalo é um instrumento clássico de Oden, um primo antigo do cravo cedariano. Seu som é violonístico e limpo, sem ataques fortes e muitas variações em dinâmica de som.