A terra.

A terra. Senti aquele sentimento de casa em Rublo. Eu posso ter entendido com a mente que Odenheim se partiu em dois pedaços, mas meu espírito ainda não aceitou a idéia. Eu fui para um país estranho ao mesmo tempo que voltei para minha casa, vi meu povo, vi os céus de Odenheim. Aportamos próximos ao estreito na costa oeste, onde eu estive muitas vezes ainda jovem andando com meu bando de amigos em celados. Setenta anos atrás, talvez? Era um tempo, sem dúvida, melhor. Muita coisa que deixou o mundo pior ainda não tinha acontecido, e eu posso dizer isso de cima de tantos anos de vida porque posso mesmo. As pessoas hoje estão vivendo cento e dez, cento e vinte anos em média. Eu pretendo viver para completar um século e meio, se possível, e espero que a humanidade me surpreenda mais uma vez. Que surjam heróis, que surjam líderes, que surjam iluminados e filosofias que nos façam entender, de uma vez por todas, que competir com outras raças não tem muito a ver com viver melhor.

Estamos indo, numa condução quase improvisada puxada por celados velhos mas dignos, para nossas novas casas às beiras das plantações. As pessoas estão cheias de esperanças, falam e cantam alto, talvez para afastar velhos fantasmas. Comigo, eu apenas penso no que pode ser útil para grafar num livro, de preferência um que seja impresso cópias suficientes para ficar pra sempre. Pra sempre. Porque pouco sobra de um homem a não ser o que ele lega.

Artigo: Serretes

Uma grande ave, de plumagem púrpura nas asas e verde escura próximo às patas, com proeminentes garras em forma de meia-lua. Perigosa e agressiva, seus mergulhos em bando são conhecidos como uma das ameaças mais letais do Belvedere. Bandos de serretes atacam qualquer um que entre em seu território, que varia de acordo com a disponibilidade de caça. Eles se alimentam de pequenos répteis e de ovos de pássaros menores.

Serretes fazem espetáculos nos céus do Belvedere, brincando de fazer várias formas. O recomendado é manter-se longe. A forma mais fácil e mais imprudente de matar um serrete é golpeá-lo enquanto este mergulha. Se o golpe falhar, é provável que o serrete arranque fora o braço do infeliz. Meninas compromissadas são comparadas a eles nas cidades próximas: você pode olhar, mas não pode tocar.

A força do mergulho do serrete é prezada pelos dervixes, que já assistiram companheiros serem derrubados de encostas após receber o golpe no peito. Um ovo de serrete, pego no ninho, vale 400 rúpias nos mercados calcedonianos. Um serrete treinado colabora apenas com o seu dono e é extremamente tímido.

É incomum avistar serretes fora dos territórios do Belvedere, mas com a recente temporização (o processo de abertura da redoma e caos climático), eles vêm fugindo cada vez mais para áreas mais ao sul, causando o caos por onde têm passado. Curiosamente, os serretes fugitivos parecem ter formado um único bando coeso de mais de cem aves. É impressionante.

Artigo: Azdares

Tudo o que se diz sobre a natureza violenta e cruel dos azdares é mentira. Eu tenho experiência pessoal com todas as três raças que conhecemos e ao longo dos anos percebi que os azdares são sociáveis e gregários, além de extremamente úteis se estimulados das maneiras corretas. Os azdares se tornaram famosos no mundo inteiro por causa de seu uso como montaria para as Legiões Triunfantes de Meredith. Hoje desbancaremos este mito e mostraremos os azdares como eles são. Para este artigo tive ajuda do nobilíssimo Lorde Volos, ex-legionário e atual criador de coronas e diabos-verdes.

O corpo do azdar é semelhante a uma grande pipa, com prolongamentos visíveis nas asas e uma cauda chata e longa. A maioria dos azdares tem músculos aparentes e, muitas vezes, protusões ósseas visíveis através da pele - quando um azdar se fere, seus ossos crescem de maneira diferente para suprir a área maculada. A cabeça do azdar é como uma flâmula, um triângulo invertido com um vinco no meio, criando a ilusão de dois chifres em forma de V.

Existem três espécies de azdar: os coronas (Darzii coeur), os diabos-verdes (Darzii diablevert) e os alados-de-Axúria (Darzii axuriensis ou Darzii vulgaris), em ordem de raridade.

A má reputação dos azdares entre os cedarianos se deve possivelmente os alados-de-Axúria. De cor de granito e olhos verde-claros ou dourados, sua natureza é extremamente pacífica. Entretanto, o aroma da maioria dos compostos alquímicos (a poção Chiron inclusa) lhes excitam e muitas vezes eles se atiram violentamente contra o possuidor dos compostos na intenção de engolir os frascos inteiros. Abandonar os frascos raramente é uma opção; só serve para atrasar o azdar; ele pára para engolir os compostos e depois persegue o seu possuidor na intenção de conseguir mais.

Como o sangue dos alados-de-Axúria é um ingrediente alquímico útil na assimilação de alguns pós específicos, muitas vezes alquimistas cedarianos posicionam compostos distantes uns dos outros para cansar os azdares antes de atacá-los com virotes envenenados. Esta prática cruel vem sendo executada há bons vinte anos nas proximidades de Axúria. Existe uma lei proibindo o ato, mas, como muitas coisas em Cédara, não passa do papel pois na prática não há quase fiscalização e penas para os infratores.

Vale ressaltar que o vôo, apesar de ser a forma de locomoção natural dos azdares, os cansa rapidamente: para erguer seu corpo pesado eles precisam de muita energia. Após aproximadamente vinte minutos de vôo, são raros os azdares que conseguem prosseguir voando, sobretudo com um cavaleiro no lombo.

Enquanto os alados-de-Axúria são perigosos e agressivos quando excitados, os diabos-verdes são praticamente animais de gado. Enormes, passivos e reticentes, eles quase não têm capacidade de vôo. Os ovos das fêmeas são uma iguaria culinária cedariana; alguns criadores conseguem os raríssimos diabos-verdes machos (eles têm uma proporção de vinte fêmeas para um macho) e os tornam reprodutores. Além disso, os genes do diabo-verde são relativamente fracos; os filhotes híbridos de diabos-verdes com alados-de-Axúria, chamados 'jervís', são resistentes e relativamente domesticáveis, algumas poucas vezes podendo ser usados como animais de montaria.

Os diabos-verdes são encontrados, em estado selvagem, em pradarias amplas onde conseguem se alimentar de vegetais e pequenos animais silvestres. Passam a maior parte do tempo hibernando; saem para alimentar-se durante as enchentes da Lua dos Cetros (quando muitos animais ficam encurralados pelas armadilhas das chuvas). São pacíficos e nem um pouco teimosos.

Finalmente, os coronas têm coloração vermelha-escura, garras cor-de-ferro e olhos castanhos expressivos. São maiores e mais musculosos que os alados-de-Axúria, apesar de ainda serem menores que os diabos-verdes. Voam rápido e praticamente não sentem dor. Estimulados com alguns elixires alquímicos específicos pelos quais têm muito apetite, são extremamente obedientes e territoriais, lutando ao lado de um cavaleiro humano com grande efetividade.

A característica mais interessante dos coronas é a capacidade natural deles de produzir uma descarga elétrica pelas patas. Esta descarga não é usada ofensivamente por eles; são usados de uma maneira muito mais fantástica: eles podem reviver seus cavaleiros usando o choque diretamente contra seus tóraxes, mesmo através da armadura. As vidas de muitos legionários já foram salvas pelos coronas.

Diferente da maioria das conjurações, a natureza mística dos coronas os permite absorver com facilidade qualquer concoção destinada a humanos e obter dela efeitos muito parecidos, senão iguais. Seu metabolismo absorve mais facilmente os princípios ativos das poções, compensando pela sua massa, que é muito maior que a de um humano.

Artigo: A Espada Zweihander da Legião Triunfante

A gigantesca espada Zweihander, prodígio da forja industrial, pode ser considerada uma invenção do Duque Negro. Em seus devaneios, o terrível aristocrata imaginou cavaleiros com armaduras de placas montando bestas voadoras e brandindo espadas titânicas. O advento das Legiões Triunfantes, enquanto capricho, introduziu um sentimento novo nos corações dos ivoreanos: o terror. A visão da sombra de dezenas de azdares erguendo-se no horizonte, para depois cair sobre os batalhões, num ataque derradeiro e suicida, marcou todos que sobreviveram à Guerra da Ilha Sagrada.

Tratando-se de características físicas, a Zweihander é uma espada feita para matar, de preferência de uma maneira genocida. Com mais de dois metros de lâmina e um cabo de quase um metro, a espada favorece golpes muito amplos e, apesar de poder ser usada em solo, é muito mais efetiva no dorso de uma grande besta voadora como os azdares e os coronas. Oferecendo pouca ou nenhuma capacidade defensiva, ela não possui uma guarda (apesar dos tantos golpes sucessivos acabarem por talhar dentes no comprimento da lâmina). Sua ponta possui uma perfuração mortal para ser usada em carga, como uma lança de justa, mas seu golpe principal é o de balanço.

Poucos modelos diferentes desta espada foram manufaturados, mas é grande a capacidade de modifiação de uma espada deste tamanho. Ela pode ser novamente talhada para tornar-se praticamente qualquer coisa com relativa facilidade. A espada Zweihander também entrou no imaginário coletivo os odenianos como símbolo de heroísmo. Não faltam jovens que se dedicam ao manejo desmontado destas espadas, ou de réplicas dela.

A representante primária da espada zweihander é a Hauteclaire. Estas espadas foram as primeiras forjadas para os cavaleiros da legião triunfante. Os primeiros azdares não conseguiam levantar vôo portando cavaleiro e espada – seu peso, desequilíbrio e volume atrapalhavam o movimento das asas da besta. Naquela época originou-se o costume em que o cavaleiro levanta vôo sem a Zweihander, depois passa em rasante sobre uma torre ou um lugar alto, onde um escudeiro lhe espera com a espada erguida; então o cavaleiro toma a espada e parte para a guerra, na direção do horizonte. Esta espécie de ritual prosseguiu até mesmo depois que os azdares adquiriram maior força, com o desenvolvimento da criação dos filhotes e a descoberta da raça dos Coronas, azdares com escamas de tonalidade vermelha escura.

Leitura: Rois

Por meio de uma troca com um outro viajante neste barco, tive acesso a esse texto. É uma narração, talvez um pouco fantasiosa, do que aconteceu na vila de Rois em 690 D.F., quando Ludgast ainda era um jovem governante e Ivoire tentava mediar os primeiros passos para uma aliança. Sem sucesso, como verão.


"... Rois. A pequena cidade nem estrela tinha, convergia numa velha mina esgotada, e havia sido considerada uma perda menor pelo Conselho, um movimento em falso, especialmente quando o cerco deu ao povo a oportunidade de fugir. Rois permaneceu abandonada por quase um ano lunar, esquecida em meio aos bramidos da guerra, alguns diriam que estava perdida para sempre, que naquele solo nada cresceria mais. Pobre e pequena Rois. O sol entrecoberto sobre suas pequenas casas de madeira tomava-lhe as cores, as flores. Mas a dor parecia inata àquele lugar. Qualquer um que ali chegasse sentiria o peso das lembranças que não puderam ser levadas com o êxodo. Qualquer um que olhasse através de uma janela veria que os espíritos das famílias não deixaram seus lares, que os pequenos templos para os altíssimos ainda estariam de pé, ainda que ninguém rezasse ali há muito.

Rois não tinha virtudes e abrigava-se na ignomínia, fora dos planos dos aliados, mas fora dos planos dos inimigos. Sobre seu solo, o céu é escuro como um manto de luto, e a primeira estrela ficava a milhas de distância. Algumas crianças, não suportando esperarem nos ventres de suas mães, nasciam em solo seco, no meio do caminho de mato alto, crianças da noite profunda, estranhas, reverentes, contemplativas, como que soubessem que o destino havia lhe negado um anjo que lhes protegesse. As crianças de Rois eram belas, belas como numa ironia à angústia de seus pais que temiam uma punição ou que um fantasma tomasse os corações de seus filhos. Eram todas belas, as crianças da noite profunda de Rois.

Longe da luz, motivada por uma velha mina esgotada, e ainda assim as gerações se sucediam e Rois atravessou séculos, sem crescer nem diminuir, sem que houvesse sequer uma razão para sua existência. Quando o moleque avistou os céus escurecendo e as hordas de feiticeiros ecoando detrás dos montes, não precisou de muito para toda a população partir de lá para sempre.

Ludgast desceu do dragão e fitou o horizonte. Inspirou o vento de eras que bailava sobre a cidade e abriu o pequeno portão. Caminhou para o que lhe pareceu um matadouro, jaziam dezenas de fafnires em meio aos escombros, fora um lampejo, uma dor aguda o penetrou a cabeça, Ludgast voltou os olhos ao céu. Os rumores eram verdadeiros, e um bando de assassinos estrangeiros...

“Eminência... Verne deseja vossa amizade. Ele é poderoso e tem a Profecia em suas mãos”, disse o embaixador.

O hierofante caminhou por entre a destruição. “Verne mandou paladinos, ainda que eu houvesse lhe negado a aliança. A morte destes condenados pertencia a mim, e Verne me tomou este direito que me foi legado. Verne invadiu o Império Sagrado.”

Saul parecia transtornado, ele próprio era um ivoreano, destacado para jurar lealdade a Longinus para representar os interesses de seu país. “Eminência. Insisto que entendas. Ivoire é um país forte e os feiticeiros que assolam teu povo podem ser contidos facilmente pelo poder de nosso Palácio, de nossos canhões, de nossos sacerdotes.” O embaixador gesticulava furioso como quem tentasse passar uma mensagem muito simples para uma criança.

Ludgast finalmente dirigiu-se para Saul. “Voltai para tuas terras”. Expressava uma incrível fúria, contida pela barreira inexpugnável de seus olhos azuis. “Teu povo invadiu meu império! Voltai para tuas terras! Está tudo acabado, acabado!”. Seu corpo não se movia, mas chamas ardiam como que acesas por gás incandescente detrás de suas pupilas.

“És insano, ou... só podes ser insano!”, exclamou Saul. Ludgast golpeou-lhe com o diamante do cajado no rosto, atirando-o para trás. Saul agonizou brevemente, e morreu.

“Pagaste. Mas fora útil a teu modo. Servistes para alimentar meu espírito de tua morte”, disse Ludgast ao cadáver. Virou-se para seus comandados. “Persigam e destruam todos os paladinos ivoreanos que encontrarem. Até que não haja mais nenhum, todo homem que atacar um feiticeiro longiniano será castigado.”

Os primeiros pecadores seriam expiados primeiro pelas lâminas dos samurais de Ludgast."

Leitura: A Hégira dos Dragões da República

Com os últimos Dragões-da-República, em Faris, foi assim, ou assim me contaram.

"Ainda que uma máscara de sangue lhe cobrisse os olhos e fizesse o mundo como por um filtro vermelho-escarlate, ainda que a dor lhe queimasse as entranhas, a explosão, a luz, o incarna poderoso, ele gritou, maior que o mundo. "Saiam! Saiam todos vocês! Vamos embora daqui!"

Pouco a pouco, os dragões apareceram nas janelas, barricadas e armuradas do castelo arruinado que chamavam Último Forte. Julius estava devastado. Sem reação, eles contemplavam sua figura. Julius contorceu o rosto de dor. "Erebus nos entregou, vamos sair daqui, malditos!" Como se eles não ouvissem, Julius descarregou o tambor da pistola na parede do forte. "SAIAM!"

Os olhos brilhantes de um dragão mais jovem puseram-se a chorar. "Julius! Onde estão todos os outros? Onde tá o Bharrai?"

"Bharrai está morto, assim como o comandante, e Seiferth, e Blaise também."

"Julius!"

"E eu acho que morrerei breve! Tenho que tirá-los daqui!"

Abalados, os dragões firmaram os olhos no horizonte e foram, um por um, recolhendo os últimos recursos que lhes sobravam no forte, umas poucas armas... e suas esperanças, parcas, frágeis, espadas de vidro rachadas, orbes velhas, ombreiras gastas, braceletes. Muitos choravam pelos que perderam e pelos que ainda viriam a perder. Muitos consideravam sair, fugir, mas pra onde? Por quê? Muitos sentiam que algo havia se quebrado, algo havia se perdido, e ponderavam se algo não seria suas vidas. Tiraram as velhas asas de ferro e as escopetas de prata dos baús, e enrolaram suas longas capas de dragão.

"Não mais sejamos um. Sejamos muitos, e invisíveis, sejamos um enxame e não uma força única. Vamos atacar onde não somos aguardados. Vamos derrubar navios, sequestrar líderes! Vamos vingar o capitão!"

"Julius... vão matar muitos aldeões se começarmos a fazer vandalismos. Você sabe que eles matam gente quando não agimos de acordo."

"Eles matam gente de qualquer forma, aldeões, soldados, o próprio Mansa, eles não estão preocupados com honrarias ou boa política de guerra, vamos sair e atacar os corações de Ivoire!"

Naquela tarde, quase cinqüenta dragões ergueram-se em revoada. Dividiram-se no crespúsculo com claques surdos. Haveria fogo na noite. "

Artigo: A Cidade de Capela

Esquecida costa oeste, que tens a dizer? Estações de trem para as capitais, conduções para as capitais, estradas para as capitais, uma existência em função das capitais, como uma alternativa para as pessoas que não têm tempo ou recursos para dar a volta nas ilhas?

Também no oeste há flores. Como a bela cidade de Capela, noroeste de Nelbiand, Odenheim. Hackapel esteve sob ocupação ivoreana por onze anos. Os pardos foram respeitosos e ao invés de subjugar e maltratar os locais, os mataram. Então, o grande Meredith trouxe o machado da vingança junto com o Incarna de Câncer e enviou todos os ivoreanos para suas mortes. Os familiares e os que se salvaram da ocupação estão lentamente retornando à cidade, que está passando por um renascimento cívico e patriótico.

Depois de Vercel, Capela é a cidade em que mais neva em Odenheim. O fato de estar na costa oeste setentrional da ilha faz a temperatura sempre rodear o suficiente para o acúmulo de neve. Antes da ocupação, Capela prezava-se pela arquitetura em estilo chanteliano antigo - a construção da cidade data de pouco mais de 140 D.F., pelos contemporâneos do Imperador Kai Chantel, da terceira geração de governantes de Odenheim.

Hoje, Capela tem uma frota marítima de quase quarenta barcos de guerra e sedia uma ainda pequena, mas poderosa ordem local de cavaleiros, os capelitas. Ornando-se de armaduras azul-celestes e douradas e lutando com espadas e revólveres de impacto, eles têm a neve como elemento natural e provavelmente uma das cargas de exército mais efetivas de Natal, na qual atiram à média distância, à curta distância e depois partem para uma manobra de atropelamento terrível com celados que correm incrivelmente bem na neve.

Maeve sobre nós!

Finalmente os céus se abriram para o bom Ivaness. Vemos a costa ensolarada de Rublo. Mal posso esperar para entender o que, afinal, está acontecendo. Que Maeve guarde meu vigor para que eu suporte essa provação em nome da luz do conhecimento!

Artigo: O Elmo do Incógnito e o Escudo-Mangual

Hoje falarei sobre duas peças peculiares de equipamento que todo aventureiro bem-informado deve conhecer: o elmo do incógnito e o escudo-mangual de Wyven-Dalien.

Antigamente existiam poucas manufaturas de elmos. A mais conhecida era a Armoraria Deirdre, conhecida pelo brasão do D duplo, que - pasmem - dava conta de todos os pedidos de elmos de Natal inteira!! Explico. Trata-se de aproximadamente 200 D.F., então estamos falando de uma época que os odenianos mal conheciam os ivoreanos e vice-versa. As armas, quando eram usadas, eram usadas contra conjurações, e sempre mais como ameaça do que como ferramenta para matar. Então um elmo que era comprado por um país ficava por gerações.

Exatamente por este fato, a armoraria Deirdre patenteou uma espécie de elmo fechado, com barbatanas pontudas para trás, um bevor e uma viseira sisuda em forma de T. A parte de trás dele, ajustável com dois pinos, faz com que ele possa ser usado por praticamente qualquer pessoa. A manufatura do aço ainda engatinhava em Odenheim, e o elmo era feito do mais puro e belo ferro. Resultado: eles existem até hoje em quantidades indecentes.

Vamos ao terceiro ponto, e ao mais importante deles. O Elmo do Incógnito é chamado Elmo do Incógnito porque é perfeitamente normal ver um soldado de qualquer país vestindo um deles. Se você tem uma armadura minimamente parecida com a padrão e está usando um desses elmos, você se mistura como água a qualquer grupo grande de soldados.

Repito. Qualquer.

Então, amigos defensores da liberdade que não respeitam leis nem porcaria nenhuma e que têm que entrar naquele lugar especial sem serem notados, esperem a próxima troca de turno, façam movimentos sutis e entrem junto com os milicianos ou qualquer que seja a tropa de defesa. Com um desses elmos na cara você vira um suspiro e, de repente, ninguém ouviu falar de você.

A próxima peça que vamos abordar é o escudo-mangual. Ouvi falar que ele voltou a ser usado, infelizmente por cavaleiros abandonados por suas ordens, e bandidos. O escudo-mangual é uma peça interessantíssima que cobre tanto a função de proteger um aliado quanto a função de deslanchar ataques destruidores e desesperados. Tudo isso por causa de um pequeno detalhe no formato do escudo: ele é bem mais longo pra esquerda do que deveria.

Segurando ele como arma principal, ou seja, na mão direita, e segurando uma providencial corrente pela mão esquerda, o escudo-mangual é um escudo de corpo poderoso que cobre você e um colega de importância que esteja à sua esquerda. Se ele precisar se concentrar pra fazer alguma coisa, essa é a hora de você estar lá para defendê-lo.

E se seu adversário for um daqueles bem-treinados e irritantes retranqueiros com a espada (eu tive minhas aulas de esgrima com o gládio odeniano, para sua informação eu não sou só um escolástico desses que passaram a vida admirando olmos e lendo tomos caindo aos pedaços), você pode soltar o escudo da mão direita e virar um bom golpe de balanço usando-o como um poderoso mangual. Pra voltar ele no braço depois demora um tempo, mas se você tem uma arma secundária ou o combate está pra terminar, é sempre uma boa escolha.

Pense nesse escudo como uma daquelas velhas garruchas. Um tiro, uma queda.

É só por hoje.

Artigo: A Adaga Cedariana

As caravanas que cruzam as terras baixas cedarianas sempre foram um alvo potencial para salteadores e bandoleiros: muitas vezes a necessidade de segredo ou rapidez não permitia que os mercadores contratassem mercenários para fazer as guardas. Somada à mentalidade auto-suficiente dos homens cedarianos de sangue quente, esse fato fez com que surgisse progressivamente um estilo de auto-defesa e ataques rápidos: o estilo da adaga de ferro cedariana.

A origem da adaga em si está intrinsicamente ligada à história da família Agnese, um clã de mercadores militarizado e envolvido com o governo cedariano. O desenho da adaga era usado nos lacres de cera dos documentos oficiais da família: mais tarde, foi produzida uma adaga de prata cravejada de pedras preciosas azuis como uma peça decorativa que se provou uma arma efetiva nas mãos de Ercole de Agnese quando houve uma tentativa de incêndio e assalto na mansão dos Agnese.

Hoje o clã tem poucos descendentes. Uma vendeta secular com outra família tradicional, os Gianluca, foi eliminando pouco a pouco as famílias dos dois lados. A adaga, porém, foi legada a outras famílias tradicionais como os Fedele, os de Merle e os Baldassare, todas com laços com os Agnese.

A adaga cedariana tem uma guarda com duas pontas viradas para cima, otimizada para defesa, e uma lâmina com um trecho cilíndrico, um trecho cortante e uma ponta mortífera. É usada por boa parte dos militares cedarianos em outros países, e é carregada como arma secundária pelos fuzileiros que fazem a defesa das fronteiras de Cédara quando assim é necessário. Nos enfrentamentos na fronteira sul de Faris, quando Cédara ganhou alguns quilômetros para dentro do continente, a adaga cedariana foi usada com grande efetividade como arma de campo e suporte.

Leitura: As Desventuras de Cecília de Merle

Cecília de Merle, filha de Merivéter Merle, foi duquesa de Nerinsburgo, leste de Axúria. Seus cabelos negros a fizeram famosa nos círculos da burguesia cedariana: além de ser filha de quem era, era graciosa e uma romancista invejável. Suas obras incluiram O balde de maçãs, Estuans e O ode, grandes sucessos dos livros e dos teatros.

Apaixonou-se a infeliz por Dea Luken, recém-chegado da derrubada do famoso guincho da baía de Velian. Luken havia investido sua pequena fortuna em um cassino (chamado Ca$$$ino, originalíssimo) que foi inagurado poucos dias depois da abertura de Nova Belgrade, do qual seu pai tornou-se um grande freqüentador e apostador. Ruim de jogo e ansioso para apostar, Merivéter sustentou quase sozinho o cassino por muito tempo. Quando descobriram que era fácil ganhar nas máquinas eletrônicas, brilhantes e previsíveis que Luken havia adquirido em Ivoire, um grande público começou a freqüentar o cassino. E as contabilidades começaram a pender para o vermelho.

Neste meio tempo, Luken estava namorando Cecília, secretamente. Faziam isso pela emoção de ter um caso secreto e porque Luken tinha horror a casamento. Pouco depois das coisas começarem a piorar no cassino, Cecília descobriu que estava grávida. Escondeu enquanto podia. Logo as criadas já comentavam que a menina teria um filho. Cecília não quis perder o respeito de seu pai, mas também não queria perder o amor de Luken.

Então Luken raptou Cecília. Um dia ela acordou no meio do Oceano Boreal, num pequeno barco de madeiras claras, um bom barco à velas, sozinha com Luken. Ela ficou assustada, mas não desaprovou de todo a idéia. Os primeiros meses pareciam ter saído de um sonho. Planejavam ter o filho no Templo dos Grandes Deuses em Veruna, sob Idun, mas uma seqüência de pequenas complicações fez Luken ter de desviar a rota do barco rapidamente para baixo de Fakhri, uma estrela a nordeste de Faris, que regia os ventos quentes e as areias.

Nasceu Cecil Luken, batizado em homenagem à mãe, uma criança introspectiva e curiosa.

Passadas algumas semanas, Luken descobriu que Merivéter tinha posto capitães e piratas atrás do casal. Em pouco tempo as coisas estavam ficando difíceis para os dois e o pequeno Cecil. A sensata Cecília não queria criar a criança naquelas condições. Luken tinha um sonho de ir de capitânia para Calibur ("Eu conheço um caminho!") e criar Cecil lá e em paz, mas Cecília sonhava em ter um filho elegante e viajado, não um selvagem simples.

Luken e Cecília se desentenderam por algum tempo, mas não havia muito espaço pra se distanciarem dentro do barco (ficava, no máximo, um na popa e outro na proa).

Num ato de amor, decidiram então se separar. Cecília voltaria à sua vida, e Luken criaria Cecil em paz dentro de barcos, fazendo-o aprender a ser um mercador e um navegador de grandes proezas. Prometendo voltar para encontrá-la quando Cecil fosse um homem, Luken despediu-se dela no porto de Axúria. Pouco tempo depois, ela já estava de volta sob as asas do pai.

A proposta de Madai veio logo depois; o ex-pirata havia estabelecido contato com a República; Luken trabalharia como um consultor experiente para as navegações. Pouco depois, Cecil já tinha seu próprio barco.

Cecília esperou por muito tempo além dos vinte anos que imaginava que levaria para que seu filho se tornasse homem. Luken nunca voltou. Foi encontrado morto depois que recusou oferecer seus trabalhos para Ivoire. Cecil e um amigo desconfiavam de um ex-sócio que era a favor do negócio... mas isto é uma história para outro dia.

Transcrição do Tomo das Eras, XLIX


Desfizeram-se entre as raízes e correram pela seiva
Cada movimento empurrou o mundo inteiro uma vez.

Desfizeram-se entre os torvelinhos e as folhas
Cada movimento empurrou o mundo inteiro outra vez.


Correram pelas águas e pela neve
Cada murmúrio soprou sobre o mundo inteiro por uma última vez.

Quatro vivas para o Oceano Alvo.

Posso dizer que estou contaminado por um daqueles detestáveis sentimentos de massa, tipo comoções e emoções de salvação e amor. A visão luminosa do Oceano Alvo depois de mais de uma semana daquele vento glacial me queimando os ossos foi uma coisa impressionante, quase divina. Para todos foi igual ou pior - o que tinha de gente chorando foi impressionante. Mais impressionante ainda foi o que festejaram depois. Tocaram violões no maior estilo farisiense, saltaram modinhas, eu... dancei um pouco com os caravaneiros também. Eu estava contaminado por um daqueles detestáveis sentimentos de massa.

Não foi ruim, no final das contas. Mas certamente não é o que escolásticos sérios como eu devem fazer todo dia. Acho que eu devo me permitir coisas dessas às vezes. Eu não mencionei que eu tinha bebido um pouco, também. Incrível o que essas pessoas conseguem carregar nesses sacos brancos de lona.

Em frente, para Rublo!

Leitura: O Almirantado de Hevelius

Eram tempos em que a República Livre de Faris não havia sido dominada, nem destruída. Francamente, ela mal havia sido construída; não importam o que dizem os papéis. Belgrade do Norte era um sonho para alguns. Calcedona era só o farol solitário olhando sobre o mar. Glenária já existia, e recebia às vezes um ou outro odeniano procurando paragens novas ou fugindo dos imperadores. Foi na mesma época em que o marquês Kachaturian pisou aqui pela primeira vez, exilado por Soren Meredith.

A baía de Velian era famosa entre os planinautas. Nem meteoros afundaram tantas capitânias promissoras quanto seus traiçoeiros corais, certos e letais como minas aquáticas. E ela era inevitável em muitas rotas. Bateram e afundaram tanto que dois malandrões instalaram um guincho lá.

Seus nomes eram Dea Luken e Sotiris de Asa Azul. Luken era um poeta desacreditado, recém-formado da Universidade de Lodis, que desistiu das letras porque acreditava que uma grande idéia como a sua podia ganhar uma vida melhor do que alguns livros. Abandonou tudo de seu passado para fazer sua viagem de negócios para a Baía de Velian. Sotiris era primo distante de Luken, um garoto esperto do campo. Desprezava livros e confiava na própria cabeça. Era bom de contas. Diz-se que sabia a tabuada completa até trinta.

O guincho, um dos primeiros de Faris, e com certeza era algo de dar medo, aquela torre de metal trançado contra a sombra da noite. A retirada do navio não era de graça. Como a batida quase sempre era feia e boa parte da mercadoria ia pro fundo do mar, Luken e Sotiris cobravam o que havia à mão. Díesel, timões, turbinas, esporões, estátuas, tudo tinha um valor. Eles revendiam mais caro para quem precisava e saíam com uma grana.

Havia quem dissesse que toda noite um dos dois tomava um trem, para depositar as cédulas em um banco em Belgrade. Havia quem dissesse que eles iam junto com a carga, pra poupar o dinheiro de passagem. Os garotos tinham espírito de empreendedores.

Houveram vários assaltos no Guincho de Velian, todos infrutíferos. A qualquer dado momento, só havia lá uns tratores, um ou outro barranco recém-escavado, vários planinautas acampados, e pilhas de tralha metálica. Os piratas, mais ou menos ousados, não levavam nada. Um ficou amigo de Sotiris e passou a trabalhar lá.

A sorte dos companheiros, porém, iria mudar. Quando eles começaram a se permitir noitadas mais longas, vieram os ivoreanos. Como diz o ditado, o chão que os ivoreanos pisam, vira merda. O Império Sagrado de Ivoire tinha interesse na madeira de Faris e exigiu ao conselho que dessem um jeito naquela rota, e por que não, naquele guincho. Ia rolar muito dinheiro, liberação, influxo de capital, era perfeito para que construíssem uma segunda Belgrade, para que dessem palacetes para mais umas duas dúzias de nobres. O conselho aprovou.

No dia seguinte, Luken, Sotiris, Madai – o pirata – e um séqüito de planinautas assistiu um trem descarregar, talvez, vinte trabalhadores. Dinamitaram os corais. Desmontaram o guincho sob protestos.

O Almirantado de Hevelius veio um mês depois quando chegaram alguns aristocratas cansados. No começo uma torre, mas a passagem dos navios e os impostos cobrados pelas passagens rendeu um castelinho e alamedas bonitas no centro da cidade. O barranco e o lugar aonde ficava o guincho ficaram desabitados da noite pro dia.

Sotiris era um garoto do interior, de uma das vilas sem estrela nas bases das montanhas de Aesir. Bem-nascido, tinha sua casa para voltar quando quisesse. E quis; pegou sua metade do dinheiro e nunca mais se ouviu falar dele.

Luken não tinha para onde voltar. Brigou com os pais, com a noiva, com a Deusa e o mundo por causa de seu sonho de metal trançado, tão rapidamente arruinado. Tinha metade de uma pequena fortuna em mãos e nenhuma perspectiva pela frente. Apesar da inesperada reprovação de Madai, montou um cassino luxuoso que foi à bancarrota mais rápido do que uma roleta poderia girar. Mandou tudo à merda e foi beber e jogar pelos bares da República. Sem Sotiris, era só ímpeto e idéia – lhe faltavam a racionalidade e o planejamento inteligente do amigo.

Morria de medo de morrer e ter que justificar para a Deusa ter ficado torcendo pra tantos barcos afundarem.

Leitura: Belgrade do Norte

Meu amigo de longa data, Dr. Natanael, médico real de Odenheim e um conjurado de Outros Mundos, há muito escreveu esta pequena história sobre sua aventura diplomática em Belgrade do Norte, há quase quarenta anos atrás. Vale ler.

"Em tempo: fui conjurado, não sou daqui. Se você me perguntasse há precisamente seis anos atrás, eu diria que toda essa história de Maeve, altíssimos e povos de luz, fogo e terra é completamente nova para mim. O mais interessante é que pouco a pouco esqueço da minha existência anterior e parece enraizada no meu coração a idéia de que nasci sob uma estrela, em um país em que neva durante a maior parte do ano. Poderia discorrer longamente sobre o que aconteceu comigo, e como aconteceu comigo, mas isso talvez seja assunto para outra hora.

Alguns anos após minha chegada, eu havia angariado uma soma grande em rúpias como médico no Palácio Oceânico, em Odenheim. Resolvi viajar o mundo de trem, talvez cansado de ouvir as pessoas falarem sobre coisas que eu não conhecia. Conheci os lagos mais belos de Cédara, e os lagos mais serenos de Longinus. Conheci as savanas e cheguei a ver um garuda de perto em Ivoire. Vi as máquinas rebumbando no Almirantado de Hevelius e conheci o deslumbre de Belgrade, a metrópole. Encontrei pessoas que conhecia de outras paragens (na verdade, Outros Mundos) e, por força da amizade, em Belgrade fiquei, ao menos por um tempo.

Minha presença não demorou para ser notada. Como médico real de Odenheim, fui chamado como convidado ilustre para assistir à inauguração do chamado “Sonho Farisiense”: Belgrade do Norte e suas torres de ouro. Para tanto, pediram-me que me hospedasse e esperasse duas semanas no Chateau Leonius, o melhor hotel da cidade. Enviei um telegrama ao agora saudoso Rei Dálfon Palas, Eterno e Justo, avisando de minha demora. Em resposta, um pedido para que ficasse e representasse Odenheim diplomaticamente na inauguração. Fiquei.

Na abóbada do salão principal do hotel, havia uma gigantesca pintura a óleo das torres de Belgrade do Norte, como eram, seriam, ou deveriam ser. Sobre várias mesas compravam-se e vendiam-se terras em Belgrade do Norte, homens ricos pensando em filhos e netos. E todo dia, da janela do quinto andar do hotel, eu via saindo as caravanas com tudo que os trabalhadores precisavam para lá. Foram duas semanas em que tudo que se falava tinha relação com Belgrade do Norte. Aproveitei para permanecer mais tempo com meus amigos, talvez a única coisa que me ligasse ainda às minhas origens. Entretanto, findaram as duas semanas e meu trem partiria para o “Sonho Farisiense”.

Despedi-me, prometendo voltar a encontrá-los. As luas mostravam o caminho por entre árvores e cascatas, negras na noite. Vi o Hierofante Ludgast impaciente, vi os ministros ivoreanos levando o pequeno rei Azi, vi a estupenda, a belíssima Natasa Musa sendo cantada pelo Kyriakos, vi Iamni de Veruna, Rudelger de Biblos, vi a jovem Ifalna, linda filha de Dálfon, vi astrônomos cedarianos discutindo com adeptos odenianos, entre outras visões não menos admiráveis, tudo dentro de um único trem. Lembro que imaginei o tamanho da perda que Natal teria se um garuda subitamente abalroasse aquela máquina de ferro. Hoje sei que não existem mais garudas em Faris, mas no dia posso jurar que tive receio.

Belgrade do Norte, o Sonho Farisiense.

A uma hora e meia de trem de Belgrade.

Uma decepção. Olhei pra trás e vi gente esfregando os olhos. Nossa anfitriã, Marquesa Isolda, estava à beira de chorar. A nata dos reinos estuporada diante de um colossal buraco no chão, com andaimes aqui e ali. Fomos recebidos por uma comitiva encabulada de engenheiros com capacetes de lanterna. Isolda parecia querer se atirar no buraco. Eles garantiram a ela que dali a mais duas semanas o projeto estaria pronto, e ela olhou para nós todos, com os olhos marejados de lágrimas.

Suponho que eu não fosse, ao menos no momento, tão importante para o Palácio Oceânico. O Rei Dálfon não somente permitiu, como também insistiu para que eu ficasse mais duas semanas e visse Belgrade do Norte. Fui instruído, também, a acompanhar a jovem Ifalna. Alguns astrônomos também ficaram, e também alguns adeptos. Mas todos os ivoreanos, à notável exceção da Madame Natasa, voltaram para seu império.

A Marquesa Isolda ausentou-se completamentre do Chateau Leonius durante as duas semanas seguintes. Fui a teatros, bibliotecas, e conferenciei um tanto mais com meus velhos conhecidos. Apresentei a jovem Ifalna a alguns deles e mostrei a cidade a ela. Acredito que ela tinha quinze anos na época.

Era o penúltimo dia e jantávamos na sala de conferência do Leonius quando Isolda irrompeu pelas portas, com ar cansado e triunfante. Dirigiu-nos um olhar de aprovação, suspirou e, sem palavras, subiu as escadas para dormir o sono sem sonhos dos mártires.

O trem partiu com muito menos animação do que o anterior, um dia antes do previsto. Odenianos, só éramos “eu”, Ifalna e dois adeptos. A jovem princesa adormeceu no banco do trem, a cabeça jogada para trás, espalhando os cabelos muito vermelhos sobre o veludo verde-escuro dos bancos. Viria a ser uma mulher linda, pensei. Hoje não tenho vergonha de dizê-lo a ela.

Desembarcamos e era quase meia-noite. Vimos de longe a cidade toda iluminada. E desta vez, foi fantástico. Havia música, dançarinas com plumas, grandes letreiros luminosos, e realmente haviam torres de ouro, cassinos, palacetes. Um picadeiro ao ar livre no centro da cidade, e um espetáculo de balé com orquestra para receber-nos. A melhor hospedagem que já tive o prazer de desfrutar, a melhor comida, pensei em voltar à essa cidade três vezes ao ano, quatro talvez. Ifalna lutava para manter-se acordada apesar da música alta, e tentava prestar atenção em tudo. Minhas palavras não podem descrever o momento e a beleza que a cidade estava.

Nos próximos dias, a rotina se repetiu. A música não parava por um segundo sequer. Guitarras elétricas, orquestras sinfônicas, o tal do jazz nas esquinas, os concertos, tantos concertos. Acho que havia pelo menos duas companhias encenando cada peça que já foi escrita desde o início dos tempos em Natal, todo dia. Uma fábula. Mas claro, depois de três dias me senti completamente exausto e decidi voltar, independente das ordens de Dálfon.

Deixei uma carta de parabéns para Isolda e desejei-lhe “sucesso absoluto e eterno”. Se me lembro bem, foram essas mesmo as palavras que usei. A Princesa Ifalna reclamou um pouco de ir embora, mas no fundo, também estava com saudades de Odenheim, depois de um mês inteiro longe de casa. "

Artigo: As Cordilheiras de Turim

Antigamente, nos tempos em que Odenheim ocupava as duas ilhas, Nelbiand e Ayanan, o estreito de Rix dividia as duas ilhas. Hoje, os nomes das ilhas caíram em desuso, já que Ayanan inteira pertence à República de Rublo.

As Cordilheiras de Turim tinha caminhos internos usados pelos viajantes que não usavam barcos para cruzar as distâncias entre Lodis e Veruna. Nos tempos do imperador Kaiser Meredith, muitos viajantes estavam sendo pegos de surpresa por emboscadas preparadas pelos mantídeos escuros, quase impossíveis de matar, ferozes e fortíssimos.

Kaiser então ordenou a construção de uma grande passarela de pedra-sabão ladeando a cordilheira inteira e descendo na cidade de Terminus, a primeira que hoje é território de Rublo. Bandeiras vermelhas e archotes marcam o caminho dos viajantes sobre a pedra nua.

A fulgurância do céu nos horizontes próximos ao mar faz auroras boreais durante a Lua dos Cetros. Esse período coincide com o maior tráfego do ano de viajantes e turistas na passarela, que ficou conhecida como "Passo das Visões". Em Terminus, fotógrafos e pintores especializaram-se em conseguir as melhores figuras e gravá-las pra sempre com fotografias e tintas.

As nuvens correm rápido nos céus de Rublo; os ventos de altitude no país são os mais fortes de Natal. As cordilheiras páram esses ventos, contudo, deixando o ar no estreito de Rix relativamente parado e os céus quase completamente limpos. Nas pedras nuas e lisas do estreito, por vezes o clima fica até um pouco abafado ao mesmo tempo que se vêem os picos azulados e nevados do norte de Oden.

Pouca ou nenhuma vegetação cresce no estreito; apesar disso, vez ou outra são avistados celados, ainda em estado selvagem, fugitivos dos cativeiros reais em Bialt. Esses celados passam os dias andando sobre as pedras atrás de comida e acabam se tornando rápidos e resistentes, apesar de difíceis de domesticar.

Artigo: Mantídeos

O mantídeo vermelho belvederiano, chamado nos círculos acadêmicos de Mantis vulgaris, é um parente gigantesco e perigosíssimo dos louvadores terrestres comuns. Territorial e perigoso, anda em bandos de quatro ou cinco e é onívoro, se alimentando principalmente de serretes (que ele captura enquanto mergulham) e algumas variedades específicas de flores. Coberto por uma carapaça densa vermelha, é um inseto gigantesco com quatro patas em forma de foices assassinas. Ele anda ereto sob as patas inferiores, e pode atingir grandes velocidades locomovendo-se sobre as seis patas.

Grande parte da cultura dervixe envolve os mantídeos. O trinado de suas patas emite um som musical que afasta os serretes; por causa disso, os dervixes cunharam flautas de osso com três furos que, alternados rapidamente, produzem a seqüência de três sons agudos, idêntica ao trinado do mantídeo.

Além disso, os dervixes dizem que um mantídeo enfurecido ataca e se defende exatamente como quatro espadachins humanos. Eles muitas vezes mantém mantídeos cativos com as patas desafiadas e os provocam com pólvoras aromáticas que eles odeiam para praticar.

O mantídeo que habita as áreas subterrâneas abafadas no Estreito de Rix é maior e mais escuro que o mantídeo belvederiano. Seu nome científico é mantis turinensis, por causa de sua principal habitação, as Cordilheiras de Turim. Ele possui apenas duas patas adaptadas para a sobrevivência sob a terra. Eles secretam uma espécie de saliva que endurece rápido e se solidifica. Com essa saliva eles juntam pedaços grandes de rocha, que usam para empurrar sobre qualquer coisa maior que eles que venham a invadir seu território.

Bombordo! Estibordo!

Danem-se todos, este navio será nossa sepultura! Cinco dias sob esse vento e completamente no escuro, e ainda dizem que estamos em condições climáticas naturais para essa área! Tem alguém tentando nos derrubar aqui! Que Maeve nos ajude!!!

Leitura: A Aristocracia de Gartcross

Um amigo meu, já muito idoso, costuma dizer que, justamente quando você pensa que já viu de tudo, aí que as coisas mais fantásticas começam a acontecer. Quem iria supor que, há pouco menos de cinco anos, existia um condado cravado no coração de Faris, ali, bem perto do famoso Poço das Botas? Ali, onde a água é farta e o Barum desce caudaloso, uma brava dama de Odenheim um dia teve um sonho e decidiu ter seu próprio castelo.

Separada de seu amante pela guerra e trazendo pelas mãos um filho ainda criança, Fedra, a Mística era uma mulher dissimulada, soturna e mestra nas artes de enganar e seduzir. Usou todos esses talentos para reunir uma comitiva de jovens dervixes para limpar e preparar sua área.

Contaram-me que ela era a musa e a inspiração dos dervixes, e que os mais seletos e esforçados poderiam ganhar o seu amor. Seu filho, Adrien de Gartcross, tendo aprendido com os mais velhos e experientes, aos dez anos já era um caçador e um espadachim excepcional, muitas vezes dando ordens aos dervixes, que Fedra insistia em que eles cumprissem. O garoto era um líder e um ídolo entre as crianças do condado. Aos quinze anos ele já golpeava como um homem e conseguia derrubar serretes enquanto eles mergulhavam. Sua coragem e força eram invejáveis, assim como seu tato e elegância. Tinha o hábito de desafiar estranhos para duelos, e quase sempre vencia. Sua mãe não poderia ser mais orgulhosa. Adrien imaginava que, para passar o resto da vida no condado, teria que ser o deus do condado. Por muito tempo, ele foi.

Talvez nem Fedra mesma saiba disso, mas seu filho prodígio foi o responsável por enterrar seu sonho. Seus hábitos dândis o levaram a desafiar Harish de Immaculata, um dervixe bandana-vermelha que havia desacatado uma garota do condado. A batalha foi à noite, sob a luz de archotes, e todos assistiram Adrien humilhar nobremente e derrotar o experiente dervixe, com agilidade fantasmagórica, empurrões e uns poucos golpes, todos decisivos.

A derrota e as vaias e chacotas do povo do condado tiraram completamente Harish do sério. Possesso e enlouquecido de fúria, o dervixe incendiou um matagal próximo à uma encosta, que no dia seguinte começou a desmoronar.

Fedra, Adrien, os dervixes e todo o povo viram uma luta de quase uma década ruir sob as pedras que desciam dos montes próximos ao Barum. Assistiram, de longe, à noite, as últimas rochas soterradoras descerem sobre suas casas, sobre suas hortas, sobre o poço.

O povo debandou em caravana, apesar dos apelos de Fedra. Culpavam os dervixes, a quem acusavam de usar feitiçaria e profanar as palavras de Maeve. Os dervixes, propriamente, partiram atrás da cabeça de Harish. Arrasada, Fedra enviou Adrien para encontrar-se com o pai em Odenheim. Não sei qual destino ela teve, largada sozinha em meio aos destroços do seu sonho.

Leitura: Os Filhos do Canhão

Pouca gente sabe disso, mas no mar, existem rotas fixas para ir praticamente de qualquer lugar a qualquer lugar sem deixar de, periodicamente, passar sob uma estrela. Estas rotas foram traçadas pelos cedarianos há muito tempo atrás para que, durante as longas viagens de antigamente, crianças pudessem nascer sem privar-se das bênçãos divinas.

Quando os altíssimos escolheram seus lugares na abóbada celeste, eles não pensaram que viríamos depois. Não sabiam se andaríamos em dois pés, não sabiam se viveríamos na água, na terra ou voando. Muitas estrelas têm seus lugares brilhando muito acima das ondas, e talvez nunca tenham um templo para si, poderes desconhecidos e inacessíveis.

Das estrelas que brilham sobre o mar, a mais conhecida, com certeza, é Buriash. Para o poderoso altíssimo da justiça foi erguida uma torre, Céus Partidos (oficialmente, o Castelo Sagrado da Cerração), no meio do oceano, uma obra monumental que levou mais de um século e várias gerações. Com andares de bronze, andares de pedra e andares de ferro puro, foram necessárias novas técnicas de forja submarina e pelo menos um par de feitiços para colocar pedra sobre pedra.

Os astrônomos já identificaram vários outros altíssimos de grande poder, esquecidos sobre as águas. A monumental construção do Castelo Sagrado nunca poderia ser repetida nos dias de hoje. Uma obra como essa precisa da união dos povos, de irmandade entre regentes, de paz. Não primamos nestas áreas nos dias de hoje.

Nasceu há algumas horas neste navio uma criança. Estávamos sob Gauri, altíssimo regente da visão e do entendimento. Um adepto falou à mãe da criança sobre a Alma Mater de seu filho: era um anjo de onisciência, uma estrela do bem e da pureza, capaz de enxergar através das dificuldades e das ilusões. Uma criança fez um desenho do seu avantesma como um ciclope angélico e radiante que emanava luz.

Esperei ver resolução na face do recém-nascido, mas acho que será mais um a sofrer neste mundo injusto. Torço pra que encontre um lugar onde possa crescer com paz, e que nunca caia vítima das mentiras que ouvimos todos os dias.

Chamam essas crianças nascidas em navios de "filhos de canhão", porque geralmente, na pressa, os partos são feitos nas salas de artilharia, que costumam estar cheias de feno.

Pequeno canhão sob Gauri, espero que sua vida seja longa e radiante.