Transcrição do Tomo das Eras, XLIX


Desfizeram-se entre as raízes e correram pela seiva
Cada movimento empurrou o mundo inteiro uma vez.

Desfizeram-se entre os torvelinhos e as folhas
Cada movimento empurrou o mundo inteiro outra vez.


Correram pelas águas e pela neve
Cada murmúrio soprou sobre o mundo inteiro por uma última vez.

Quatro vivas para o Oceano Alvo.

Posso dizer que estou contaminado por um daqueles detestáveis sentimentos de massa, tipo comoções e emoções de salvação e amor. A visão luminosa do Oceano Alvo depois de mais de uma semana daquele vento glacial me queimando os ossos foi uma coisa impressionante, quase divina. Para todos foi igual ou pior - o que tinha de gente chorando foi impressionante. Mais impressionante ainda foi o que festejaram depois. Tocaram violões no maior estilo farisiense, saltaram modinhas, eu... dancei um pouco com os caravaneiros também. Eu estava contaminado por um daqueles detestáveis sentimentos de massa.

Não foi ruim, no final das contas. Mas certamente não é o que escolásticos sérios como eu devem fazer todo dia. Acho que eu devo me permitir coisas dessas às vezes. Eu não mencionei que eu tinha bebido um pouco, também. Incrível o que essas pessoas conseguem carregar nesses sacos brancos de lona.

Em frente, para Rublo!

Leitura: O Almirantado de Hevelius

Eram tempos em que a República Livre de Faris não havia sido dominada, nem destruída. Francamente, ela mal havia sido construída; não importam o que dizem os papéis. Belgrade do Norte era um sonho para alguns. Calcedona era só o farol solitário olhando sobre o mar. Glenária já existia, e recebia às vezes um ou outro odeniano procurando paragens novas ou fugindo dos imperadores. Foi na mesma época em que o marquês Kachaturian pisou aqui pela primeira vez, exilado por Soren Meredith.

A baía de Velian era famosa entre os planinautas. Nem meteoros afundaram tantas capitânias promissoras quanto seus traiçoeiros corais, certos e letais como minas aquáticas. E ela era inevitável em muitas rotas. Bateram e afundaram tanto que dois malandrões instalaram um guincho lá.

Seus nomes eram Dea Luken e Sotiris de Asa Azul. Luken era um poeta desacreditado, recém-formado da Universidade de Lodis, que desistiu das letras porque acreditava que uma grande idéia como a sua podia ganhar uma vida melhor do que alguns livros. Abandonou tudo de seu passado para fazer sua viagem de negócios para a Baía de Velian. Sotiris era primo distante de Luken, um garoto esperto do campo. Desprezava livros e confiava na própria cabeça. Era bom de contas. Diz-se que sabia a tabuada completa até trinta.

O guincho, um dos primeiros de Faris, e com certeza era algo de dar medo, aquela torre de metal trançado contra a sombra da noite. A retirada do navio não era de graça. Como a batida quase sempre era feia e boa parte da mercadoria ia pro fundo do mar, Luken e Sotiris cobravam o que havia à mão. Díesel, timões, turbinas, esporões, estátuas, tudo tinha um valor. Eles revendiam mais caro para quem precisava e saíam com uma grana.

Havia quem dissesse que toda noite um dos dois tomava um trem, para depositar as cédulas em um banco em Belgrade. Havia quem dissesse que eles iam junto com a carga, pra poupar o dinheiro de passagem. Os garotos tinham espírito de empreendedores.

Houveram vários assaltos no Guincho de Velian, todos infrutíferos. A qualquer dado momento, só havia lá uns tratores, um ou outro barranco recém-escavado, vários planinautas acampados, e pilhas de tralha metálica. Os piratas, mais ou menos ousados, não levavam nada. Um ficou amigo de Sotiris e passou a trabalhar lá.

A sorte dos companheiros, porém, iria mudar. Quando eles começaram a se permitir noitadas mais longas, vieram os ivoreanos. Como diz o ditado, o chão que os ivoreanos pisam, vira merda. O Império Sagrado de Ivoire tinha interesse na madeira de Faris e exigiu ao conselho que dessem um jeito naquela rota, e por que não, naquele guincho. Ia rolar muito dinheiro, liberação, influxo de capital, era perfeito para que construíssem uma segunda Belgrade, para que dessem palacetes para mais umas duas dúzias de nobres. O conselho aprovou.

No dia seguinte, Luken, Sotiris, Madai – o pirata – e um séqüito de planinautas assistiu um trem descarregar, talvez, vinte trabalhadores. Dinamitaram os corais. Desmontaram o guincho sob protestos.

O Almirantado de Hevelius veio um mês depois quando chegaram alguns aristocratas cansados. No começo uma torre, mas a passagem dos navios e os impostos cobrados pelas passagens rendeu um castelinho e alamedas bonitas no centro da cidade. O barranco e o lugar aonde ficava o guincho ficaram desabitados da noite pro dia.

Sotiris era um garoto do interior, de uma das vilas sem estrela nas bases das montanhas de Aesir. Bem-nascido, tinha sua casa para voltar quando quisesse. E quis; pegou sua metade do dinheiro e nunca mais se ouviu falar dele.

Luken não tinha para onde voltar. Brigou com os pais, com a noiva, com a Deusa e o mundo por causa de seu sonho de metal trançado, tão rapidamente arruinado. Tinha metade de uma pequena fortuna em mãos e nenhuma perspectiva pela frente. Apesar da inesperada reprovação de Madai, montou um cassino luxuoso que foi à bancarrota mais rápido do que uma roleta poderia girar. Mandou tudo à merda e foi beber e jogar pelos bares da República. Sem Sotiris, era só ímpeto e idéia – lhe faltavam a racionalidade e o planejamento inteligente do amigo.

Morria de medo de morrer e ter que justificar para a Deusa ter ficado torcendo pra tantos barcos afundarem.

Leitura: Belgrade do Norte

Meu amigo de longa data, Dr. Natanael, médico real de Odenheim e um conjurado de Outros Mundos, há muito escreveu esta pequena história sobre sua aventura diplomática em Belgrade do Norte, há quase quarenta anos atrás. Vale ler.

"Em tempo: fui conjurado, não sou daqui. Se você me perguntasse há precisamente seis anos atrás, eu diria que toda essa história de Maeve, altíssimos e povos de luz, fogo e terra é completamente nova para mim. O mais interessante é que pouco a pouco esqueço da minha existência anterior e parece enraizada no meu coração a idéia de que nasci sob uma estrela, em um país em que neva durante a maior parte do ano. Poderia discorrer longamente sobre o que aconteceu comigo, e como aconteceu comigo, mas isso talvez seja assunto para outra hora.

Alguns anos após minha chegada, eu havia angariado uma soma grande em rúpias como médico no Palácio Oceânico, em Odenheim. Resolvi viajar o mundo de trem, talvez cansado de ouvir as pessoas falarem sobre coisas que eu não conhecia. Conheci os lagos mais belos de Cédara, e os lagos mais serenos de Longinus. Conheci as savanas e cheguei a ver um garuda de perto em Ivoire. Vi as máquinas rebumbando no Almirantado de Hevelius e conheci o deslumbre de Belgrade, a metrópole. Encontrei pessoas que conhecia de outras paragens (na verdade, Outros Mundos) e, por força da amizade, em Belgrade fiquei, ao menos por um tempo.

Minha presença não demorou para ser notada. Como médico real de Odenheim, fui chamado como convidado ilustre para assistir à inauguração do chamado “Sonho Farisiense”: Belgrade do Norte e suas torres de ouro. Para tanto, pediram-me que me hospedasse e esperasse duas semanas no Chateau Leonius, o melhor hotel da cidade. Enviei um telegrama ao agora saudoso Rei Dálfon Palas, Eterno e Justo, avisando de minha demora. Em resposta, um pedido para que ficasse e representasse Odenheim diplomaticamente na inauguração. Fiquei.

Na abóbada do salão principal do hotel, havia uma gigantesca pintura a óleo das torres de Belgrade do Norte, como eram, seriam, ou deveriam ser. Sobre várias mesas compravam-se e vendiam-se terras em Belgrade do Norte, homens ricos pensando em filhos e netos. E todo dia, da janela do quinto andar do hotel, eu via saindo as caravanas com tudo que os trabalhadores precisavam para lá. Foram duas semanas em que tudo que se falava tinha relação com Belgrade do Norte. Aproveitei para permanecer mais tempo com meus amigos, talvez a única coisa que me ligasse ainda às minhas origens. Entretanto, findaram as duas semanas e meu trem partiria para o “Sonho Farisiense”.

Despedi-me, prometendo voltar a encontrá-los. As luas mostravam o caminho por entre árvores e cascatas, negras na noite. Vi o Hierofante Ludgast impaciente, vi os ministros ivoreanos levando o pequeno rei Azi, vi a estupenda, a belíssima Natasa Musa sendo cantada pelo Kyriakos, vi Iamni de Veruna, Rudelger de Biblos, vi a jovem Ifalna, linda filha de Dálfon, vi astrônomos cedarianos discutindo com adeptos odenianos, entre outras visões não menos admiráveis, tudo dentro de um único trem. Lembro que imaginei o tamanho da perda que Natal teria se um garuda subitamente abalroasse aquela máquina de ferro. Hoje sei que não existem mais garudas em Faris, mas no dia posso jurar que tive receio.

Belgrade do Norte, o Sonho Farisiense.

A uma hora e meia de trem de Belgrade.

Uma decepção. Olhei pra trás e vi gente esfregando os olhos. Nossa anfitriã, Marquesa Isolda, estava à beira de chorar. A nata dos reinos estuporada diante de um colossal buraco no chão, com andaimes aqui e ali. Fomos recebidos por uma comitiva encabulada de engenheiros com capacetes de lanterna. Isolda parecia querer se atirar no buraco. Eles garantiram a ela que dali a mais duas semanas o projeto estaria pronto, e ela olhou para nós todos, com os olhos marejados de lágrimas.

Suponho que eu não fosse, ao menos no momento, tão importante para o Palácio Oceânico. O Rei Dálfon não somente permitiu, como também insistiu para que eu ficasse mais duas semanas e visse Belgrade do Norte. Fui instruído, também, a acompanhar a jovem Ifalna. Alguns astrônomos também ficaram, e também alguns adeptos. Mas todos os ivoreanos, à notável exceção da Madame Natasa, voltaram para seu império.

A Marquesa Isolda ausentou-se completamentre do Chateau Leonius durante as duas semanas seguintes. Fui a teatros, bibliotecas, e conferenciei um tanto mais com meus velhos conhecidos. Apresentei a jovem Ifalna a alguns deles e mostrei a cidade a ela. Acredito que ela tinha quinze anos na época.

Era o penúltimo dia e jantávamos na sala de conferência do Leonius quando Isolda irrompeu pelas portas, com ar cansado e triunfante. Dirigiu-nos um olhar de aprovação, suspirou e, sem palavras, subiu as escadas para dormir o sono sem sonhos dos mártires.

O trem partiu com muito menos animação do que o anterior, um dia antes do previsto. Odenianos, só éramos “eu”, Ifalna e dois adeptos. A jovem princesa adormeceu no banco do trem, a cabeça jogada para trás, espalhando os cabelos muito vermelhos sobre o veludo verde-escuro dos bancos. Viria a ser uma mulher linda, pensei. Hoje não tenho vergonha de dizê-lo a ela.

Desembarcamos e era quase meia-noite. Vimos de longe a cidade toda iluminada. E desta vez, foi fantástico. Havia música, dançarinas com plumas, grandes letreiros luminosos, e realmente haviam torres de ouro, cassinos, palacetes. Um picadeiro ao ar livre no centro da cidade, e um espetáculo de balé com orquestra para receber-nos. A melhor hospedagem que já tive o prazer de desfrutar, a melhor comida, pensei em voltar à essa cidade três vezes ao ano, quatro talvez. Ifalna lutava para manter-se acordada apesar da música alta, e tentava prestar atenção em tudo. Minhas palavras não podem descrever o momento e a beleza que a cidade estava.

Nos próximos dias, a rotina se repetiu. A música não parava por um segundo sequer. Guitarras elétricas, orquestras sinfônicas, o tal do jazz nas esquinas, os concertos, tantos concertos. Acho que havia pelo menos duas companhias encenando cada peça que já foi escrita desde o início dos tempos em Natal, todo dia. Uma fábula. Mas claro, depois de três dias me senti completamente exausto e decidi voltar, independente das ordens de Dálfon.

Deixei uma carta de parabéns para Isolda e desejei-lhe “sucesso absoluto e eterno”. Se me lembro bem, foram essas mesmo as palavras que usei. A Princesa Ifalna reclamou um pouco de ir embora, mas no fundo, também estava com saudades de Odenheim, depois de um mês inteiro longe de casa. "

Artigo: As Cordilheiras de Turim

Antigamente, nos tempos em que Odenheim ocupava as duas ilhas, Nelbiand e Ayanan, o estreito de Rix dividia as duas ilhas. Hoje, os nomes das ilhas caíram em desuso, já que Ayanan inteira pertence à República de Rublo.

As Cordilheiras de Turim tinha caminhos internos usados pelos viajantes que não usavam barcos para cruzar as distâncias entre Lodis e Veruna. Nos tempos do imperador Kaiser Meredith, muitos viajantes estavam sendo pegos de surpresa por emboscadas preparadas pelos mantídeos escuros, quase impossíveis de matar, ferozes e fortíssimos.

Kaiser então ordenou a construção de uma grande passarela de pedra-sabão ladeando a cordilheira inteira e descendo na cidade de Terminus, a primeira que hoje é território de Rublo. Bandeiras vermelhas e archotes marcam o caminho dos viajantes sobre a pedra nua.

A fulgurância do céu nos horizontes próximos ao mar faz auroras boreais durante a Lua dos Cetros. Esse período coincide com o maior tráfego do ano de viajantes e turistas na passarela, que ficou conhecida como "Passo das Visões". Em Terminus, fotógrafos e pintores especializaram-se em conseguir as melhores figuras e gravá-las pra sempre com fotografias e tintas.

As nuvens correm rápido nos céus de Rublo; os ventos de altitude no país são os mais fortes de Natal. As cordilheiras páram esses ventos, contudo, deixando o ar no estreito de Rix relativamente parado e os céus quase completamente limpos. Nas pedras nuas e lisas do estreito, por vezes o clima fica até um pouco abafado ao mesmo tempo que se vêem os picos azulados e nevados do norte de Oden.

Pouca ou nenhuma vegetação cresce no estreito; apesar disso, vez ou outra são avistados celados, ainda em estado selvagem, fugitivos dos cativeiros reais em Bialt. Esses celados passam os dias andando sobre as pedras atrás de comida e acabam se tornando rápidos e resistentes, apesar de difíceis de domesticar.

Artigo: Mantídeos

O mantídeo vermelho belvederiano, chamado nos círculos acadêmicos de Mantis vulgaris, é um parente gigantesco e perigosíssimo dos louvadores terrestres comuns. Territorial e perigoso, anda em bandos de quatro ou cinco e é onívoro, se alimentando principalmente de serretes (que ele captura enquanto mergulham) e algumas variedades específicas de flores. Coberto por uma carapaça densa vermelha, é um inseto gigantesco com quatro patas em forma de foices assassinas. Ele anda ereto sob as patas inferiores, e pode atingir grandes velocidades locomovendo-se sobre as seis patas.

Grande parte da cultura dervixe envolve os mantídeos. O trinado de suas patas emite um som musical que afasta os serretes; por causa disso, os dervixes cunharam flautas de osso com três furos que, alternados rapidamente, produzem a seqüência de três sons agudos, idêntica ao trinado do mantídeo.

Além disso, os dervixes dizem que um mantídeo enfurecido ataca e se defende exatamente como quatro espadachins humanos. Eles muitas vezes mantém mantídeos cativos com as patas desafiadas e os provocam com pólvoras aromáticas que eles odeiam para praticar.

O mantídeo que habita as áreas subterrâneas abafadas no Estreito de Rix é maior e mais escuro que o mantídeo belvederiano. Seu nome científico é mantis turinensis, por causa de sua principal habitação, as Cordilheiras de Turim. Ele possui apenas duas patas adaptadas para a sobrevivência sob a terra. Eles secretam uma espécie de saliva que endurece rápido e se solidifica. Com essa saliva eles juntam pedaços grandes de rocha, que usam para empurrar sobre qualquer coisa maior que eles que venham a invadir seu território.

Bombordo! Estibordo!

Danem-se todos, este navio será nossa sepultura! Cinco dias sob esse vento e completamente no escuro, e ainda dizem que estamos em condições climáticas naturais para essa área! Tem alguém tentando nos derrubar aqui! Que Maeve nos ajude!!!

Leitura: A Aristocracia de Gartcross

Um amigo meu, já muito idoso, costuma dizer que, justamente quando você pensa que já viu de tudo, aí que as coisas mais fantásticas começam a acontecer. Quem iria supor que, há pouco menos de cinco anos, existia um condado cravado no coração de Faris, ali, bem perto do famoso Poço das Botas? Ali, onde a água é farta e o Barum desce caudaloso, uma brava dama de Odenheim um dia teve um sonho e decidiu ter seu próprio castelo.

Separada de seu amante pela guerra e trazendo pelas mãos um filho ainda criança, Fedra, a Mística era uma mulher dissimulada, soturna e mestra nas artes de enganar e seduzir. Usou todos esses talentos para reunir uma comitiva de jovens dervixes para limpar e preparar sua área.

Contaram-me que ela era a musa e a inspiração dos dervixes, e que os mais seletos e esforçados poderiam ganhar o seu amor. Seu filho, Adrien de Gartcross, tendo aprendido com os mais velhos e experientes, aos dez anos já era um caçador e um espadachim excepcional, muitas vezes dando ordens aos dervixes, que Fedra insistia em que eles cumprissem. O garoto era um líder e um ídolo entre as crianças do condado. Aos quinze anos ele já golpeava como um homem e conseguia derrubar serretes enquanto eles mergulhavam. Sua coragem e força eram invejáveis, assim como seu tato e elegância. Tinha o hábito de desafiar estranhos para duelos, e quase sempre vencia. Sua mãe não poderia ser mais orgulhosa. Adrien imaginava que, para passar o resto da vida no condado, teria que ser o deus do condado. Por muito tempo, ele foi.

Talvez nem Fedra mesma saiba disso, mas seu filho prodígio foi o responsável por enterrar seu sonho. Seus hábitos dândis o levaram a desafiar Harish de Immaculata, um dervixe bandana-vermelha que havia desacatado uma garota do condado. A batalha foi à noite, sob a luz de archotes, e todos assistiram Adrien humilhar nobremente e derrotar o experiente dervixe, com agilidade fantasmagórica, empurrões e uns poucos golpes, todos decisivos.

A derrota e as vaias e chacotas do povo do condado tiraram completamente Harish do sério. Possesso e enlouquecido de fúria, o dervixe incendiou um matagal próximo à uma encosta, que no dia seguinte começou a desmoronar.

Fedra, Adrien, os dervixes e todo o povo viram uma luta de quase uma década ruir sob as pedras que desciam dos montes próximos ao Barum. Assistiram, de longe, à noite, as últimas rochas soterradoras descerem sobre suas casas, sobre suas hortas, sobre o poço.

O povo debandou em caravana, apesar dos apelos de Fedra. Culpavam os dervixes, a quem acusavam de usar feitiçaria e profanar as palavras de Maeve. Os dervixes, propriamente, partiram atrás da cabeça de Harish. Arrasada, Fedra enviou Adrien para encontrar-se com o pai em Odenheim. Não sei qual destino ela teve, largada sozinha em meio aos destroços do seu sonho.

Leitura: Os Filhos do Canhão

Pouca gente sabe disso, mas no mar, existem rotas fixas para ir praticamente de qualquer lugar a qualquer lugar sem deixar de, periodicamente, passar sob uma estrela. Estas rotas foram traçadas pelos cedarianos há muito tempo atrás para que, durante as longas viagens de antigamente, crianças pudessem nascer sem privar-se das bênçãos divinas.

Quando os altíssimos escolheram seus lugares na abóbada celeste, eles não pensaram que viríamos depois. Não sabiam se andaríamos em dois pés, não sabiam se viveríamos na água, na terra ou voando. Muitas estrelas têm seus lugares brilhando muito acima das ondas, e talvez nunca tenham um templo para si, poderes desconhecidos e inacessíveis.

Das estrelas que brilham sobre o mar, a mais conhecida, com certeza, é Buriash. Para o poderoso altíssimo da justiça foi erguida uma torre, Céus Partidos (oficialmente, o Castelo Sagrado da Cerração), no meio do oceano, uma obra monumental que levou mais de um século e várias gerações. Com andares de bronze, andares de pedra e andares de ferro puro, foram necessárias novas técnicas de forja submarina e pelo menos um par de feitiços para colocar pedra sobre pedra.

Os astrônomos já identificaram vários outros altíssimos de grande poder, esquecidos sobre as águas. A monumental construção do Castelo Sagrado nunca poderia ser repetida nos dias de hoje. Uma obra como essa precisa da união dos povos, de irmandade entre regentes, de paz. Não primamos nestas áreas nos dias de hoje.

Nasceu há algumas horas neste navio uma criança. Estávamos sob Gauri, altíssimo regente da visão e do entendimento. Um adepto falou à mãe da criança sobre a Alma Mater de seu filho: era um anjo de onisciência, uma estrela do bem e da pureza, capaz de enxergar através das dificuldades e das ilusões. Uma criança fez um desenho do seu avantesma como um ciclope angélico e radiante que emanava luz.

Esperei ver resolução na face do recém-nascido, mas acho que será mais um a sofrer neste mundo injusto. Torço pra que encontre um lugar onde possa crescer com paz, e que nunca caia vítima das mentiras que ouvimos todos os dias.

Chamam essas crianças nascidas em navios de "filhos de canhão", porque geralmente, na pressa, os partos são feitos nas salas de artilharia, que costumam estar cheias de feno.

Pequeno canhão sob Gauri, espero que sua vida seja longa e radiante.

Transcrição do Tomo das Eras, XLVIII


Dias passaram e houve quem não tivesse temor
Quem pertencesse à noite, incólume ao Poder
Invulnerável ao julgamento, dias contados de existência
Sem dor
Sem consciência
Da noite, as crianças não podiam ser punidas.


Artigo: Batizando Águas

Parece que a maioria das pessoas não sabe explicar a diferença entre um oceano e um mar. Explico. Um oceano é necessariamente um pedaço de água enorme, e um mar é um pedaço de água relativamente grande, em contato com um oceano, sem forma requerida e apenas largo e movente o suficiente para não ser um rio. É subjetivo: sim. Mas tão claro quanto distinguir uma ilha de um continente.

Existem três oceanos em Natal: o Alvo, ao leste, que banha a costa leste de Faris, Odenheim e Rublo inteiras; o Boreal, a norte-oeste, que banha a costa norte de Faris, Ivoire e um pouco de Longinus; e, finalmente, o Infra, que banha o lado sul de Longinus e as cordilheiras cedarianas. Por acaso, é neste último que este barco está navegando.

O oceano Alvo é o mais plácido; seu solo também é o mais profundo, recoberto por profundas selvas submarinas. É o melhor oceano para a navegação e para as atividades extrativistas como a pesca e a colheita; sob o sol da manhã, durante alguns minutos em que as plantas liberam uma espécie de albumina na água, o oceano brilha com uma cor muito branca em alguns trechos, daí vindo seu nome.

O oceano Boreal, agitado e povoado por barreiras imensas de corais, navidorsos e conjurações agressivas, é um desafio constante para os planinautas e navegadores de Hevelius. Desde que o meteoro atingiu a baía que hoje tem seu nome, o oceano Boreal têm tido zonas de águas muito quentes, zonas de muita correnteza e projeção de pedras pelas ondas.

O oceano Infra tem sua maior parte congelada no sul setentrional de Natal. Conjurações maiores que os navidorsos às vezes são vistas aqui, muitas vezes enterradas sob séculos de gelo. A redoma deste lado divide sua matéria com uma torrente de gelo farpado. Muitas vezes, o movimento dos barcos atira grandes placas de gelo contra a redoma, produzindo um espetáculo branco de fumaça.

Passam-se dias sem luz.

Passam-se dias sem luz enquanto contornamos Rublo pela cordilheira sul de Cédara. Aqui quase não há sol, estamos praticamente num túnel de pedra seguindo inexoravelmente a oeste. Existem pelo menos cinco planinautas responsáveis neste barco e nenhum sequer parece ter cogitado a idéia de usarmos o Cinturão para alcançarmos Rublo com mais rapidez.

O Cinturão Externo, ou Cinturão de Maeve, ou simplesmente 'Cinturão' é uma faixa de ventos alísios imediatamente após a redoma que propulsiona tudo em seu caminho em sentido anti-horário ao redor de Natal. Quando os planinautas decidem que vale a pena passar o pescoço na redoma, o Cinturão pode ser usado para encurtar bastante as viagens. Durante as fases próximas à Lua dos Cetros, o Cinturão gira rápido o suficiente para permitir a uma boa capitânia fazer uma volta completa em Natal em menos de três dias.

Ou ao menos foi o que eu ouvi dizer.

Em Odenheim faz bastante frio, mas este lugar é insuportável. Imprensado entre o mar bravio e uma montanha escarpada e negra, tendo que proteger os ouvidos do vento, sentindo o barco sacolejar e debilmente seguir em frente, posso afirmar que, sem sombra de dúvida, já tive dias melhores. E como faz frio aqui. Não propriamente frio de temperatura, mas o vento glacial contra nós está me congelando os ossos. A única coisa que posso ver são filetes de luz contra a montanha negra. Gente? Aves? Cálciferes?

Muitas das pessoas junto a mim parecem rezar e pedir clemência a altíssimos que desconheço. Estamos há uma semana neste inferno escuro, mal-dormidos e mal-alimentados. Vamos ver como é o resto de Rublo. Começou bem mal.

Artigo: Os Cálciferes

Duzentos anos atrás, imagine. A feitiçaria não era proibida quase por hipocrisia: quase todo mundo sabia alguma coisa por trás dos panos que viria a ajudar em algum aperto. Imaginava-se que haveria compreensão divina por uma coisa tão pequena. A proibição voltou a acontecer quando caiu o meteoro.

O meteoro! O meteoro foi o maior acontecimento desde a fundação. O mais incrível é o quanto ele demorou, o quanto ele ficou olhando do céu o desespero de todos, descendo lento e infalível rumo ao solo de Natal.

Os astrônomos apontaram que cairia no mar. Grandes feitiços e orações foram feitas para segurá-lo nos ares, que só adiantaram para arrancar-lhe lascas que viriam, dias mais tarde, a cravar-se no chão em lugares inacreditáveis, como lanças eternas e marcas de lembrança.

Quando caiu, a água levantou metros no litoral, e por quase um dia inteiro, fumaça e vapor cobriram o céu. Os templos estavam lotados, todos se arrependendo de terem aprendido ou feito aquilo ou isso. A negra mancha líquida impressa na redoma parecia um soco e todos achavam que seriam soterrados no gás e na poeira.

Tudo terminou quando os primeiros corajosos puseram os pés para fora dos templos. O mundo ainda estava inteiro, mas os céus estremeciam como um aviso. Até hoje, na direção dos céus de Hevelius, o céu tem uma mancha escura. Uma semana depois, todos os países já haviam proibido constitucionalmente a feitiçaria; uma geração depois, ser feiticeiro era um pecado mortal. E duas ou três gerações depois, surgiram uma miríade de paladinos para retornar à caça-e-suicídio.

Uma centena de anos se passaram e as tempestades não se foram. Ivoire começou a construir máquinas que supostamente restaurariam a redoma, construtos imensos e resfolegantes que arrancavam forças do solo para enviar lá pra cima. O resultado foi que em meses não nascia quase nada mais no chão de Ivoire e o país ficou mais seco e quente, como se tivesse perdido força vital. As carcaças da maquinaria foram abandonadas em cemitérios e ferros-velhos (como é costume dos ivoreanos) e lá estão enterradas até hoje.

A segunda solução veio de Céus Partidos, naquela época alcançando as nuvens e vibrante com centenas de adeptos iniciando-se a cada ano.

Num ritual que levou três meses, uma única alma foi trazida de Além-Vis e guardada em uma orbe de vidro. Para ela, foi feita um corpo de luz, sedento. Solta no ar, ela flutuou por segundos antes de começar a voar, com velocidade para Longinus.

Testemunhas oculares reportaram que a alma, uma bolinha de fogo graciosa, entrara numa tempestade de vento feiticeira e se tornara um colossal gigante elemental antes de atirar-se para fora da redoma, levando consigo a fúria da tempestade, acalmando os ares.

O experimento foi considerado um sucesso incrível. A partir de uma segunda alminha arrastada foi solto outro pequeno ser, que desta vez partiu-se em sete para procurar outras energias.

Foram arrastadas algumas centenas de almas ao longo dos anos e até hoje elas mantém a redoma inteira quando nossos feiticeiros saem da linha (Maeve, perdão pela minha vulgaridade). Infelizmente, os cálciferes são muito vulneráveis ao ambiente e à hostilidade. Se absorvem um feitiço feito para matar, existem chances que o cálcifer resolva cumprir o destino da mágica antes de jogar-se para o infinito.

Parece que os cálciferes também são influenciados pela força da terra em si. No Belvedere, eles têm infestado as noites como vaga-lumes desorientados, engolindo ventos naturais e os expelindo, absorvendo eletricidade, tentando expulsar-se da redoma e não conseguindo. Calculo que um único feitiço que seja lançado neste lugar possa causar uma catástrofe monumental se os cálciferes decidirem competir pela maléfica energia.

Diferente das conjurações, os cálciferes aparentemente não são sencientes. Todas as tentativas de comunicar-se com um foram, até agora, infrutíferas. Se capturados em garrafas ou tonéis eles assumem aparências peculiares, como formas geométricas e curvas de luz. É uma prática perigosa, que envolve o risco do cálcifer arrebentar o vidro e se tornar, por alguns momentos, uma espiral assassina rodopiante de cacos afiados ou algo pior se houver qualquer energia da qual ele possa se alimentar por perto.

A saber, um cálcifer pode engolir energia de feitiçaria bruta, fogo, ventos fortes, eletricidade, areia, vidro, aço, magma e pólvora trazidas de Calibur, carvão e água muito quente; ele se torna imediatamente uma espécie de elemental de o que quer que ele tenha engolido, muitas vezes podendo moldar sua forma e evocar mais do elemento em sua posse.

Capturar cálciferes, apesar de proibido, é uma prática comum entre crianças de rua odenianas, que muitas vezes são seguidas pelo pequeno bichinho.

A partida.

Procurei por dias pelos portos ao longo do Barum e não descobri o navio prometido. Durante minha expedição, juntei-me a uma pequena caravana que tinha a mesma finalidade que eu. Todos estranharam que um senhor bem-vestido como eu estivesse abandonando tudo que tinha para ir trabalhar no campo. Olharam-me com um certo desprezo, como se eu estivesse querendo pegar também uma única parte da suposta melhor chance que eles teriam na vida.

Os sentimentos de desgosto para com minha pessoa duraram até que enfiei as mãos no bolso e paguei a vários vigias de posto para que nos avisassem urgentemente se vissem o navio passando. Rapidamente o localizamos, na verdade muito atrasado com relação ao que estava escrito na carta.

O S. S. Vindouro estava apinhado de gente. Alguns festejavam enquanto outros já choravam, despedindo-se da terra onde tentaram, e não conseguiram viver. Vi filhos se separando de pais, homens partindo para nunca mais verem suas amadas, crianças embarcando sozinhas e dervixes abandonando as armas e a obrigação para juntarem-se à expedição. Se houvesse algum governo organizado em Faris agora, isto seria motivo para guerra e retaliação. Na verdade, ainda acredito que este quase-sequestro em massa vá ter repercurssões em Glenária e Belgrade, repercussões ruins para Rublo.

Como um estudioso, eu estava interessado no sentimento das pessoas. Como um estudioso, minha responsabilidade era estar envolto naquele momento como qualquer um e possibilitar a qualquer um que viesse a ler meus escritos, sentir, ver, escutar o que está acontecendo agora.

O navio parte, rapidamente abandonando as fronteiras farisienses, e logo estamos em terras cedarianas, sempre navegando a sul.

As amplas margens do rio não permitem a eles enxergarem o que há atrás do horizonte.

Um convite de Rublo!

Chegou-me hoje uma carta assinada pelo Terceiro Conselho de Rublo. O conteúdo é dos mais curiosos: aqui há uma proposta de vida simples num rancho comunitário a sul de Veruna, longe dos conflitos armados e dos 'povos ignorantes', onde diz-se que eu terei um pedaço de terra para mim e minha família se eu embarcar imediatamente em um navio que está, suponho, atravessando o Rio Barum neste momento. Anexadas estão duas fotos em preto-e-branco de cenários intocados onde eu supostamente faria minha horta. Também está escrito que eu posso 'presentear' qualquer família com este convite caso eu não possa aceitá-lo.

Se eles precisam de gente pra ajudar, então é porque as coisas não estão indo bem lá.

Talvez interesse a um bom Olho do Céu como eu viajar incógnito e capinar uns campos enquanto eu observo as coisas...

Transcrição do Tomo das Eras, XLVII


Em sua primeira vinda
Ganhou os ares como luz
A palavra proferida
O trouxe para um brando e gélido lago
Em meio a um bosque de chão vermelho
De pétalas e raízes perfumadas.

Seu reflexo pálido
Cresceu com poder
Inpronunciável.

Uma criança de olhos cheios, então
Atirou pequena pedra ao lago

O segundo Sharini fez-se em mil
E estes mil fizeram-se em outros mil.
(...)

Leitura: Idos de Nova Faris, Parte 2

Houve algo que não mudou ao longo das Guerras de Iblis e nos conflitos de Ivoire contra Oden em solo farisiense, e que não mudou apesar da mortalização do Belvedere e da ameaça constante dos cálciferes vagando entre os ventos. Sessenta anos de chamas não tiraram os adeptos de Fantasos da sua eterna romaria de lado a lado dos cânions arenosos que circundam Belvedere. Talvez ninguém tenha sequer sabido que eles estavam lá.

O soterramento de 698 D.F. em Calcedona atingiu parte dos cânions, mas foi confirmado pelos astrônomos de Axúria que a área sob o gigante branco continua erguida. A Torre Secreta fora preservada.

Os ritos de madrugada mantidos há mais de dois séculos pelos jovens artistas e pelos adeptos vagabundos de Fantasos - eles preferem ser chamados assim - envolvem a captura mística de um sonho vagante, da demarcação de um lugar com tochas de chamas púrpuras à álcool, da guarda dos dervixes e, finalmente, nas primeiras horas dos lumes da manhã, da encenação do sonho, envolvendo poderes de ilusão e de vôo.

Épocas luminosas geraram sonhadores poderosos, que eram buscados pelos adeptos para juntar-se à Torre Secreta.

As trupes vagabundas de Fantasos puderam ajudar decisivamente as caravanas que passavam pelo Belvedere, erguendo uma cidadela temporária com barracas coloridas e um grande monumento levado sobre uma besta de carga. Este carnaval móvel foi chamado 'A Sublime', e pode-se dizer que os adeptos salvaram muitas vidas da perdição completa desta maneira.

Se depender do povo, é provável que, assim que houver uma tentativa formal e efetiva de reorganizar e centralizar novamente o governo de Faris, haja uma parte que caiba aos adeptos-redentores de Fantasos. Mas acredito que, dificilmente, as mesmas pessoas que viajam por entre sonhos possam tocar em vão dinheiro e papéis.

Que assim seja, para sempre.

Leitura: Idos de Nova Faris

No fogo cruzado entre Odenheim e Ivoire pelos últimos trinta anos, o movimento separatista farisiense conseguiu finalmente limpar as falanges ivoreanas da costa leste original do país. Hoje em dia, Faris tem dois terços do seu território original, tendo perdido limites à oeste para Ivoire e algumas poucas centenas de quilômetros a sul para Cédara enquanto colônia. Para os nativos, é quase como um milagre depois de anos de sofrimento sob a bandeira dos pardos.

A 'Nova' Faris hoje encontra-se arrasada pela guerra, mas o povo respira outros ares. Grandes caravanas peregrinam o solo do enorme país em busca de um lugar para erguer novas cidades, lideradas por jovens aventureiros e crianças da noite. As duas Belgrades já deram bons passos em seu caminho para voltarem a ser o que eram e Glenária quase não mudou. Bácari, Trói e Calcedona jazem abandonadas, tendo o Belvedere se tornado um inferno com três falhas mortais na redoma, ciclones e tempestades que duram meses, maquinária cedariana de restauração e verdadeiros exércitos de conjurações e cálciferes enlouquecidos. Sobretudo, o país está destruído e precisa ser refeito de um ponto que nunca foi visto, o ponto da desolação.

De onde estou, em Belgrade do Norte, eu vejo que a próxima cheia dos rios trará novas esperanças às pessoas. Por enquanto, uns poucos abastados como eu conseguem um mínimo de conforto, mas a maioria das pessoas está tendo que trabalhar duro, uma realidade que o povo farisiense nunca conheceu mas com a qual está lidando muito bem.

Orgulho-me de estar onde estou.

Não posso terminar sem mencionar, com algum protesto, a nobilíssima Aristocracia de Gartcross, uma das maiores tentativas de civilizar o coração decadente de Faris. Fundada por dervixes liderados por Fedra, a Mística, o pequeno condado durou pouco mais de dez anos, sem apoio nem respaldo das generosas regentes de Odenheim e de Rublo. É uma irmã do nosso povo lá, tentando reerguer a bandeira de um aliado nobremente e literalmente levantar um castelo no meio do deserto. O que fizemos? Nada.

Leitura: A História de Marquês Kachaturian

Kachaturian hoje pode estar próximo dos seus 80 anos, se estiver vivo. Não o vejo desde os dias do casamento de Ifalna e Dário. Faz bem em não dar as caras, porque acredito que Else tenha herdado a rinha que Dário Meredith tinha do marquês e de toda a sua espécie. Eram inimigos mortais na época do Conselho do Palácio Oceânico, enquanto Dário ainda era um aspirante a conspirador e Kachaturian ainda andava queimado do sol de Faris, de seu exílio.

O Marquês Cavaleiro está vivendo a época mais ferrenha da história de Odenheim. Viu, de seus próprios olhos e não ouvindo falar, levantarem-se e caírem quatro reis e imperadores; um deles, Kachaturian tombou com sua própria espada.

Particularmente o considero um símbolo de nobreza e heroísmo odenianos da velha guarda, enquanto todos pensam que todos os herdeiros da tradição dos Elmos Escarlates não prestam. Ele aceitou seu destino, apoiou Ifalna até onde pôde, aceitou seu exílio e voltou quando o povo mais precisava, não temendo o futuro quando invadiu em insurreição o Palácio Oceânico para destronar Soren, armado da sua fé e acompanhado de estrangeiros que estavam arriscando-se e morrendo ali por lealdade e amizade ao ex-Dragão.

Kachaturian ainda andou ao lado da Décima Quinta, pelejou até Ivoire para caçar o Investigador Real traidor Mikalis Musa e socou mais de uma vez a mesa em defesa da acuada e assustadiça Ifalna Palas. Suportou o rancor de Dário e teve a dignidade de aceitar todas as suas derrotas.

Por momentos, quando olho para o céu pouco antes do entardecer, quando uma cor vermelha toma um gole do horizonte, tenho certeza que seu espírito fulgurante está vivo em algum lugar, preparando um retorno triunfante antes que tenha que abandonar este mundo. Espero que sim. Quando olho para os rostos dos mais jovens militares, hoje com dezesseis, dezessete anos, vejo que, mais do que nunca, os velhos heróis são necessários para fazerem crescer os novos heróis à sua sombra.

Artigo: O Espírito-Sol

Fico triste em saber que muitas pessoas não sabem a resposta quando uma criança aponta o espírito-sol com o dedo e pergunta que poder é aquele que brilha por todos e traz a luz. Algumas pessoas sabem que chama-se Nila. Outras sabem da lenda.

Definitivamente aquela bola de fogo que emerge do éter e carrega a claridade é um avantesma. Um avantesma com um grau de poder único, sentido por todos como portador de coragem, esperança e resolução. Resta um corpore de terra para orar por ele e chamá-lo.

Então teremos o culto mais injustiçado e esquecido do mundo. Um culto que, reza a lenda, é de um único homem santo que suporta o mundo sobre os ombros invocando Nila pela manhã e comandando-a em sua passagem triunfal pelos céus, até que ele decide que irá repousar, e manda todos no mundo para a noite.

Maeve é criança, mas é sábia.