Leitura: A História de Hepzibah, parte 4

Uma flecha cortou o nada em que se abrigava. Atingiu ao longe a aura que o prendia à terra e ele viu que ainda havia... Seu poder feiticeiro se libertou numa coluna de chamas vermelho-vivo abrasando o chão e tudo, e da certeza da morte ele despertou para a batalha.

O arqueiro vinha com guerreiros que berravam contra os pardos, golpeando com suas espadas em raios de aço e ar que atingiam ao longe. Antes que pudesse tentar se defender deles, pararam de atacar. Não queriam matá-lo. Pegaram os ivoreanos voltando de uma missão, isso sim, e a eles destruíram. Ficaram ao longe fitando-o à distância. Não tocaram os pardos: suas geomancias e flechas o fizeram.

Hepzibah se levantou e tentou falar a eles. Ouviram os dragões um guincho, como uma palavra de ódio, mas os olhos do meio-djin mostravam-se agradecidos. Aproximaram-se com cautela. Um colheu do chão uma pequena lis-de-Ivoire. Não pensariam em nada melhor. O jovem dragão ofereceu a lis a Hepzibah e ele a tomou em mãos trêmulas. Sorriu, se é que sabia sorrir.

Levantou-se de seu limbo e juntou-se aos dragões. Havia um entendimento irracional entre eles, uma aliança inconsciente. O arqueiro chamava-se Fiachra e era o líder de um grupo de dragões-da-República que ficaram ferrados e presos em território ivoreano. Terroristas e assassinos, uma vez uniram-se à XV para explodir uma usina em Hevelius. Hepzibah juntara-se a eles muito depois disso, quase cinco anos depois. Já havia findado a Décima Quinta e tudo que remetia a ela. Era o auge da guerra dos odenianos com os ivoreanos. Os dragões não estavam em lado algum e odiavam as duas partes, os ivoreanos mais do que os odenianos.

Hepzibah permaneceu unido a eles, lutando contra os odiados ivoreanos até que todos estavam mortos, quase dez anos depois. Viveram juntos todos os desfortúnios de quem batalha uma guerra que já havia sido perdida. Fiachra morreu inútil no meio do fogo, suas flechas caladas quando um dia cantavam livres antes de enterrarem-se em sangue pardo. Hepzibah o Improvável (como o chamavam) foi o último dos Dragões de Chumbo de Fiachra, e herdou a disciplina pálida e fria do ódio dos corações humas. Havia aprendido a luta dos homens. Sua força oculta de meio-djin o fazia poder carregar duas espadas quando todos levavam somente uma. E eram grandes espadas - espadas de Dragão. Hepzibah não podia parar de lutar, morreria se o fizesse. Aprendeu o ódio, e não mais viveria em paz sem exercer sua única satisfação. Tinha medo de destruir todos os ivoreanos: não sobraria ninguém para ele ganhar seu dia.

Rumou para Odenheim. Haveriam de aceitar duas espadas contra os pardos. Isso foi em 716 D.F., as fronteiras estavam tomadas, Capela ocupada e as tropas de assalto terrestres avançando duramente para Vercel.

Leitura: A História de Bácari e Trói

Haviam praias, haviam peixes, haviam pescadores. Haviam Bácari e Trói, desde muito. Os antigos acompanhavam os cardumes por terra e migravam pela costa leste da República. Levou muito tempo até que alguns pontos fossem descobertos como de convergências de vários tipos de peixe ao longo do ano. Na verdade, foram descobertos dois destes paraísos da pescaria: Bácari e Trói, obviamente.

Os nomes vieram das duas espécies de peixe que mais apareciam nas imediações, o Bacará Real – grande, cinza e lento – e o Totrói – com a protuberância óssea no focinho que mais parece uma espada.

Os pescadores ficavam metade do ano em Bácari, metade do ano em Trói. Muitos tinham uma namorada em cada cidade. Alguns tinham uma família em cada cidade. Muitos tinham pouca ou nenhuma idéia de quem era seu pai, mas as cidades prosperavam e todo mundo se conhecia. Fizeram escolas em Bácari, um pequeno teatro em Trói, e já vinha uma geração daqueles que estudaram fora, poetas, médicos, engenheiros, que voltavam para trabalhar nas suas cidades de origem.

Na época em que os ivoreanos investiram na madeira de Faris, o conselho em Belgrade decidiu que seria interessante para o futuro do país que existisse uma grande ferrovia ligando Glenária e Bácari.

O conde de Trói fez um escândalo. Alegou que Trói era muito mais tradicional, que a população era maior, que era completamente ilógico levar os trens para Bácari quando Trói estava ali, mais perto e mais interessante. A população fixa e simples não entendeu muito bem a história da ferrovia e no mais, eles queriam que os bacarenses se ferrassem, mesmo.

O barão de Bácari prontamente iria se defender dos argumentos do outro, mas aí ele soube que o plano da Estação Ferroviária Primeira de Bácari colocava o prédio bem no lugar onde atualmente ficava sua mansão com jardim de inverno. Entretanto, ele foi forçado a manter sua posição pelos intelectuais de Bácari, que queriam a ferrovia e ameaçavam amotinar-se sobre o barão.

Como tudo que acontece em Faris, os Dragões da República foram chamados para mediar o impasse. Descobriram que cada cidade tinha um conjunto diferente de virtudes e defeitos, mas nenhuma era melhor do que a outra em absoluto. Um Dragão jovem chegou a sugerir que decidissem o destino da ferrovia tirando a sorte nos dados, mas ninguém deu ouvidos a ele. Grande erro.

Ficou acertado (bem à moda dos Dragões) que haveria uma competição entre quatro espadachins – dois representando cada cidade. Quase todos os pescadores não tinham quase treinamento, em absoluto, com a espada, e se perguntaram se não seria mais interessante uma competição de pescaria. Depois alguém lembrou que ninguém realmente morava em um só lugar entre os pescadores e iria ficar difícil escolher que lado iriam representar. De fato, os pescadores nem foram consultados a respeito da tal ferrovia.

Surpreendentemente, os escolhidos para defender Bácari foram dois jovens filhos de um pescador que lá residia, enquanto os escolhidos de Trói foram o irmão do conde, Guntram de Trói, um aventureiro jovem e forte que bandeava com os dervixes do norte, e Nila, uma adepta estrangeira que fez de Trói seu lar.

Guntram e Nila destruíram os escolhidos de Bácari facilmente, primeiro a golpes calculados com as espadas de bambu, depois a pauladas mesmo, já que eles não se rendiam. Os filhos de pescador de Bácari foram arrastados, inconscientes, do ringue improvisado armado perto do Poço das Botas. Fazia um sol rachante.

No dia seguinte, festa em Trói. O conde anunciava ao populacho as melhoras que a ferrovia traria (e depois de um tempo, basicamente do quê se tratava, já que todos estavam interessados). A bebida corria solta, ninguém trabalhou, os peixes dentro d`água até estranharam o fato de não ter havido o genocídio diário. Todos os troianos ficaram animados com as obras, com os trens, e com a nova possibilidade: viajar.

Quando anoiteceu, um grupo compacto de Dragões e citadinos de Bácari chegou na cidade, para falar diretamente com o conde. Quem viu, das casinhas com as lamparinas acesas, viu que boa coisa, não era.

O conde voltou pra casa cheio de amargura no coração. O torneio havia sido considerado inválido, porque o barão de Bácari conspirou contra a própria cidade colocando filhos de um pescador no torneio ao invés dos grandes espadachins da Academia Real de Heilwig de Espada Odeniana, que, apesar de pequena e recém-chegada, contava com um bom número de esgrimistas talentosos. Como todo bom filho, Guntram tomou as dores do pai. Juntou seus amigos dervixes e num ato maligno de vingança, fizeram um arrastão na costa, no meio-caminho entre Trói e Bácari, justamente na época da reprodução dos bacarás.

Surpreendentemente, ninguém soube do crime a princípio. Mas sua conseqüência foi muito pior do que o esperado. A escassez atacou Bácari com violência e quase todas as famílias vieram para Trói. O preço do peixe inflacionou de uma maneira incrível, e ninguém queria passar fome; além do mais, muitas mulheres encontraram as “outras” e saiu porrada pela cidade inteira. Mais além do mais, Guntram, completamente bêbado, admitiu ter passado a rede nos bacarás e escapou por pouco de morrer na mesma noite. Depois que a notícia se espalhou, botaram fogo na casa do conde. O caos se espalhou pela cidade toda. A Guerra do Peixe durou três dias e duas noites.

Quando a poeira baixou, Trói estava em destroços. Quem não assumisse um lado da briga era considerado covarde e não era bem-vindo em nenhuma das cidades. Quem fosse de Trói, não entrava em Bácari, e vice-versa. Muitos pescadores tiveram que escolher entre dois amores e até hoje não sabem se fizeram a escolha certa. Outros têm certeza. Outros estão morrendo para voltar e não podem.

A ferrovia não foi construída e não se voltou a falar no assunto. Tiveram rumores de que nunca houve projeto de ferrovia alguma. Mas o problema de Bácari com Trói tornou-se folclórico e os moradores de uma cidade falam horrores dos moradores da outra.

Guntram e seu pai, depois do incêndio e ao que tudo indica, mudaram-se para Belgrade do Norte assim que a cidade foi construída. O garoto cresceu, e por fim se arrependeu do que fez, mas já era tarde.

Artigo: O Estilo Divisionista

A poesia veruniana do quinto século implorava por uma arte nova, uma arte vibrante, enérgica, e sobretudo, uma arte que não fosse óbvia e uma arte difícil, intrincada, que poucos pudessem dominar. Foi Seurat de Drift o inventor do divisionismo, um estilo de pintura técnica que envolvia o uso de pequenos pontos de pigmento colorido para formar uma imagem à distância. O estilo divisionista é caracterizado pela Névoa, um elemento onipresente em todas as suas artes. As coisas são vistas através do que parece ser uma camada espessa de nuvens: muitas vezes são o que não parecem ser à primeira vista; muitas vezes são duas ou três coisas ao mesmo tempo. Muitas vezes o artista não especifica o que pintou e hipóteses são levantadas até os dias de hoje.

A dúbia pintura divisionista foi usada como protesto no início do século por artistas dos dois pólos de Odenheim. Títulos sugestivos eram acompanhados de pinturas que mostravam duas faces, sendo uma delas uma crítica ou ridicularização de Meredith ou de um dos seus. Era como uma mensagem secreta, que poucos poderiam entender; como uma crítica ferina escondida que poupava a vida de seu criador. Muitos consideravam

É verdade que alguns divisionistas têm trabalhos considerados revolucionários até hoje. Figuras que despertam a imaginação e o subconsciente mudam ao longo das eras na concepção das pessoas. Muitos trabalhos que tornaram-se subversivos por esse processo foram destruídos pelos agentes da coroa.

Os campanários ainda não me abandonaram.

Nem em mente, nem em coração. Nossas orquídeas estavam os decorando, 'plantadas' em roseiras verticais nas quais pendiam por cima das pedras graníticas e nuas. Eu já via os raios descendo por sobre aquela capela, a luta dos adeptos contra o avantesma, a submissão e o poder. Por um momento um pensamento fulgurante e revelador sobre aquilo se apossou da minha cabeça, me fazendo ter uma compreensão inteira da situação segundo os planos de Maeve para nós. Mas como se proibido, aquele pensamento me fugiu por inteiro, deixando somente o espaço vazio atrás de si. Isso vem me acontecendo com assuntos menores há algum tempo, mas nunca uma compreensão esquecida me atingiu tanto quanto essa. Foram segundos de êxtase de entendimento nos quais eu não tive tempo para memorizar.

Os céus, brandos com as nuvens correntes de Rublo, queriam me dizer alguma coisa. Eu estava inútil para compreender, enxergando apenas o que estava dentro de mim. A viagem de volta passou em um suspiro.

Notas Acerca das Transcrições

Como bem se sabe, todos os Odes dos tomos escritos por St. Sharini foram manuscritos em titani, a língua primeva de Natal (provavelmente a mencionada na mítica história dos primeiros homens silenciosos e daqueles que aprenderam do titã de ferro), que deu origem ao dialeto comum que fala-se hoje em dia, o alvalli. A transcrição do titani para o alvalli reduz o tamanho do texto significativamente; sabe-se que no titani todas as palavras são acompanhadas de todos os seus sinônimos; a distância e a diferença da primeira e da última palavra dão ênfase ou não naquele termo. Poucas pessoas dedicam-se ao estudo do alvalli hoje em dia; aparentemente ele é impossível de se pronunciar, salvo longas orações que foram preservadas desde os Dias Antigos, provavelmente datando de menos de 2000 A.F.

Transcrição do Tomo das Eras, L


A luz veio sobre a alvorada
A alvorada veio sobre as estepes
As estepes rolaram sobre tudo que pacífico era
Em um só som majestoso e pacífico
Sobre um só tom, diapasão dos fanáticos
E em uma só luz, imutável e infalível.

Artigo: O Estilo Firrareano

Nos condados de Firrara próximos a Veruna, nas amplidões de Rublo, houve durante o quarto século um grande culto ao folclore gentio na literatura e nas artes. Fundou-se o estilo artístico de Firrara, que faz de tons escuros de verde, vermelho e negro milhares de desenhos poluídos, detalhados e estranhos, inspirados pelo subconsciente dos habitantes de um lado amplo e quase desabitado de Oden, Ayanan.

Hoje em dia o estilo firrareano está um pouco passado. Quase todo odeniano tem um quadro, um escudo ou uma cornija de lareira feito com as cores de Firrara. A época grande do estilo foi uma em que muita gente subitamente decidiu produzir peças de arte e o estilo foi um pouco banalizado. Em Rublo, hoje em dia, está havendo, contudo, uma revitalização do estilo feita por artistas verdadeiros, inspirados e imaginando cenas fabulosas, muitas vezes substituindo as cores negras pelas brancas numa licença poética ousada.

A literatura firrareana é apressada e prolixa. Contos de anos de detalhes são feitos em parágrafos e às vezes uma página é usada para descrever uma cena em uma velocidade intensa e passional. A intenção original era reproduzir alguém que tenha visto algo fabuloso e queira contar tudo sem conseguir ter por onde começar... mas o estilo evoluiu para uma espécie de êxtase poético onde todas as palavras se unem para fazer uma descrição ou uma cena perfeita.

A música firrareana, se é que houve um estilo de música firrareana, era feita com bandoneons e violões. Era música de gentios, que foi explorada por um ou outro compositor erudito (notavelmente o Monsenhor Barclay, que deve ter composto ao menos cinco odes para cada conjuração que já pisou o solo de Natal). Explorava poesia como a da literatura, limitada pelo contexto melódico da música. Nada grave a dizer. Era música tocada por poucos e cantada por muitos, que hoje em dia quase não se executa salvo em áreas de ruralidade intocada pela urbanização e organização de Rublo.

Lothair.

A colheita desta semana foi a melhor desde nossa chegada. Insisti com meus camaradas de ir, desta vez. Quase não me deixaram ir - todos queriam ir a Lothair e mostrar serviço. Até parece que não sabem que a recompensa do nosso trabalho é o nosso trabalho e nossa sobrevivência, e que o fato de um de nós ter de ir a Lothair é uma obrigação, não uma espécie de passeio.

Imagino que deva começar a planejar minha saída deste lugar. Subestimei a vigilância dos rublenses. O pior de tudo é que este povo não está interessado em dinheiro, que nada vale nessas terras. Espero que a tal 'autorização' para abandonar as terras seja fácil de conseguir, ou estarei preso aqui. O que não é uma perspectiva tão desagradável, mas eu tenho um compromisso com minha obra.

Viola veio se despedir de mim no carro: era uma picape das antigas, que eles fingem nos convencer que funciona à díesel e nós fingimos acreditar. Na verdade é uma máquina Matra, movida a madrejaspe geomântico e encantamentos de feitiçaria. A fumaça que sai atrás denuncia: é azul-química, refugo de madrejaspe. Anda bem, pelo menos, cruzando as estepes que separam nosso orquidário de Lothair. Guardei na cabeça o caminho tomando como referência as placas que ultrapassamos: confusas, mas muitas, repletas de signos heráldicos para as cidades e construções, tudo estatizado e sinalizado para uso das autoridades. Não ensinam essas coisas para quem não precisa aprender. A vida aqui é planejada.

O motorista não era de muitas palavras. Perguntou das orquídeas ("Ótimas, em grande quantidade"), perguntou se estávamos felizes ("Claro"), perguntou se alguém estava mostrando intenção de sair ("Não, senhor, claro que não").

Eu não tenho cara de farisiense, Maeve sabe que eu não tenho. Pior, eu não tenho cara de quem tenha sofrido na vida, como de fato não sofri, Maeve foi generosa comigo e com minha família. Sempre fiz o que quis, sempre estive longe do perigo, sempre antevi revoluções e sempre estive a distâncias seguras de tudo que estava acontecendo. Cédara neste último século, principalmente o sul próximo de Axúria, foi a região mais pacífica e próspera para se viver. Houveram pequenos combates nas fronteiras do norte, mas muito poucas casualidades, lutaram os cedarianos mais com máquinas e barricadas do que com pessoas. Lutaram a boa batalha, tiraram campos de cultivo preciosos dos ivoreanos, não perderam quase ninguém. Só esqueceram de devolver o que pegaram pra Faris quando tudo terminou, mas nos dias de hoje creio que isso seja só um detalhe.

No sul, tudo foi calmo. Uns poucos jovens se despediram de suas famílias para conhecer as guerras no front para não voltar nunca mais. Foi triste, mas foi calmo. Principalmente perante o caos em que estava o resto do mundo - isto ainda antes dos adventos da Décima Quinta, pouco antes do início do nosso sétimo século da Fundação.

Permiti que meu pensamento voasse. Perdão.

Os muros de Lothair eram chantelianos, altos, pedra sobre pedra em uma nova cidade feita com muros com placas de metal curado, tratado e passado alquimicamente, com esculturas de aur, monstros e bestas de um folclore moderno ressurgindo em Rublo. Não foi-me permitido ver muito. Não era cidade, ninguém viveria ali. Era um templo sendo construído sabe-se lá com que metais e riquezas (porque é uma obra monumental em ouro, azul escuro e pedras negras). Era um templo alto com torres de granito, lanças de ouro, cinco campanários altos com sinos. A mandala estaria dentro para descer um puta avantesma.

Alguma coisa deve estar para mudar.

Artigo: A Tradição dos Corais em Odenheim

Sabe-se que do ócio acontece a criação; pois, de tantos anos de paz, surgiu em Odenheim uma invejável tradição. Além de receberem escolaridade completa, noções de matemática, teologia, náutica, astronomia e história, as crianças odenianas, quase sem exceção, aprendem a ler partituras e cantar em coros. Muitas carregam a habilidade com a voz para a idade adulta - a maioria dos grandes intérpretes de Natal é composta de odenianos. A marcha 'Vermelho de Triunfo', eleita o hino de guerra de Odenheim durante as guerras da Ilha Sagrada, contém uma grande parte feita em canto coral, cantada com emoção e beleza pelos odenianos. Obviamente pode-se dizer o mesmo dos povos de Rublo, apenas recentemente separados de Oden politicamente. Imagino que há uns bons vinte anos não se ouçam bons corais aqui. O país está ocupado demais para servir-se de música e prazeres terrenos agora, como estou percebendo com esta minha pequena experiência pessoal.

O maior compositor erudito de música coral odeniano com certeza foi Lorde Hymns de Asfaloth (401 D.F. - 526 D.F.), que durante sua vida compôs três óperas e mais de duzentas peças para solistas acompanhados de chembalo. O chembalo é um instrumento clássico de Oden, um primo antigo do cravo cedariano. Seu som é violonístico e limpo, sem ataques fortes e muitas variações em dinâmica de som.

Artigo: O Estilo Chanteliano

O estilo arquitetônico odeniano mais expressivo durante estes sete séculos desde a fundação do país foi o estilo chanteliano antigo. Desde o princípio de Oden, os peregrinos viajantes de Outros Mundos, principalmente os artistas, buscaram um retorno às memórias de seus lugares de origem, com monumentos enormes, grandes castelos, estátuas que levam eras para serem construídas e padrões intrincadíssimos esculpidos em metal, muitas vezes metais preciosos. Fascinados com a abundância de ouro em Natal, os ourives de Outros Mundos legaram muitas relíquias maravilhosas ao povo de hoje, muitas das quais guardadas em museus e palácios.

A palavra que resume o estilo chanteliano é 'grandioso e abundante'. É um estilo que celebra o apogeu de uma civilização, a fartura e a extravagância; formas sinuosas e primores esculturais são sua característica mais marcante, bem como o uso de metais preciosos para quase tudo, desde muralhas e paredes até estandartes e armas. Os artistas que seguem o antigo movimento chanteliano pensam sempre em impressionar com proporções.

O Palácio Oceânico, casa do Templo de Lodis e do Conselho Real Odeniano é um exemplo expressivo de arquitetura chanteliana, com torres gigantescas, um relógio que pode ser visto a quilômetros de distância, e um tamanho até hoje desconhecido por ter sido construído mar adentro. Boa parte de suas torres fora feita de prata; muitas de suas lanças e espigões têm pontas de diamante e prata. Todas as paredes internas são decoradas com pinturas harmoniosas que ocupam todo o espaço disponível. As paredes externas são, em sua maior parte, esculpidas em baixo-relevo com figuras míticas de heróis e monstros, reais ou imaginados.

As espadas de cerâmica da velha-guarda odeniana também são um exemplo de estilo chanteliano, na medida que procuram imitar padrões desenhados no metal com cerâmica alquímica e seguem, bem de perto, os padrões estéticos da época.

A música daquele tempo e de muitos compositores contemporâneos também pode ser considerada de estilo chanteliano. As músicas chantelianas usam harmonias simples e tocantes em formações orquestrais imensas. Muitas vezes essas músicas têm temas que se repetem e interlaçam. A maior parte das peças individuais é de grande duração - muitas atingem mais de quatro horas ininterruptas - e elas eram compostas sobretudo para celebrações como nascimentos de herdeiros, coroações, cerimônias de cavalaria e condecorações militares.

A ópera da Tragédia dos Djins, uma das mais encenadas nos teatros odenianos, pode ser considerada música chanteliana com suas pouco mais de duas horas de duração e seu dueto de cantores com temas próprios.

Sobretudo, o estilo chanteliano prospera através das eras e é muitas vezes imitados por artistas estrangeiros. Sobreviverá enquanto durar o Palácio Oceânico e todas as obras por ele inspiradas.

Artigo: A Cidade de Wolfram

Wolfram é uma das mais setentrionais cidades de Odenheim, no extremo norte junto com Paris, casa da maior parte dos nortistas, lar de uma aristocracia esquecida e tristonha, sustentada por taxas e completamente improdutiva salvo uma armoraria levada por um único armeiro centenário que vez ou outra presenteia a capital com uma espada superior. Wolfram luta para manter-se presente e atual num país onde os aristocratas cada vez mais perdem o valor perante a Quimera.

A aristocracia de Wolfram é formada pelas casas Hallein e Mauthausen, longas aliadas que hoje em dia são consideradas uma só família. Enquanto bons governantes, vários Mauthausen se tornaram feiticeiros durante a guerra. Conta-se que, após expulsarem os ivoreanos de suas terras, fundaram uma vila nas colinas nevadas de Isfeld onde pudessem viver em paz com seus pecados. O pavor contra os feiticeiros da Casa Mauthausen foi grande o suficiente para que o povo unisse forças para forjar uma espécie de gládio de proteção (O Gládio Místico de Fulram). Segue um extrato dos textos de Granville acerca do assunto.

"As forjas do Norte setentrional de Odenheim começaram a produzir estes gládios copiados dos originais lodianos quando houve (ao redor de 730 D.F.) um surgimento drástico de feiticeiros na casa Mauthausen, que começaram a ameaçar a segurança dos condados nobres. Naqueles anos, retirou-se muita prata das minas nevadas próximas a Páris e Wolfram, e quase todo o estoque foi gasto na composição das espadas Fulram (cujo nome foi tirado de uma prece antiga à deusa contra os feiticeiros, vere stratos fugit fulram).

De tamanho e peso pequenos, muitas destas espadas eram carregadas pelas filhas dos aristocratas, às quais eram ensinados os fundamentos da luta com espadas, para que elas pudessem se defender de raptos e ataques místicos. Como os feiticeiros muitas vezes atacavam a partir de uma posição oculta, firmou-se o hábito de atar uma lâmina de espada Fulram à uma das tranças da menina, para que a mágica pudesse ser defletida, mesmo pelas costas."


Dos textos de Granville conclui-se que os Mauthausen que não se exilaram caíram na criminalidade para sobreviver. De fato, houve um pedido de socorro feito de Wolfram em 714 D.F. que nunca foi respondido. Diz-se que os Mauthausen de Isfeld vieram em socorro do povo mais uma vez contra os seus, e destruíram ou levaram para a cidade deles todos os dissindentes. A casa Hallein hoje em dia detém todos os gládios Fulram.

Neva muito em Wolfram; durante a maior parte do ano, os mares ao redor de suas estepes ficam cobertos por gelo; o solo fica enregelado e a grama não nasce; por isso, qualquer atividade primária produtiva é desencorajada pelas autoridades. Os Mauthausen foram grandes joalheiros e caixeiros-viajantes no passado, mas a tradição está esquecida desde o início da guerra. Os Hallein são uma família grande e nobre de nascença, de uma etnia misturada com os ivoreanos, de cabelos escuros e lisos. Suas várias ramificações de famílias também têm cabelos pretos, indicando a prevalência dos genes ivoreanos.

Os odenianos de cabelos pretos são chamados 'nortistas' pela maioria das pessoas justamente por causa dos Hallein. Diz-se que a ascendência ivoreana deles vem da longa estada de aristocratas de Yansar durante um cerco de rebeldes ao redor do século 4. Os aristocratas ivoreanos abrigaram-se diplomaticamente em Wolfram por mais de 140 anos. Muitos casaram-se com as nobres locais e tiveram filhos mestiços. A cor parda da pele se dissipou ao longo das gerações, mas os cabelos negros permaneceram até hoje entre a maior parte da população nobre de Wolfram.

Leitura: Câncer em Capela

Isto é parte do relato de um adepto capelita que presenciou a retomada feita por Meredith na cidade com o prometido possuído de Câncer.

" (...) Os pardos têm um código que rege a maneira como eles guerreiam: eles matam civis. Não de maneira 'acidental' ou 'incidental'. Matam civis ordenadamente, oferecendo-lhes perseguição e morte rápida com tropas de solo, ou tiros e morte rápida com arilharia vinda da costa. Poupam os adeptos com medo de ofender Maeve quando os avistam e identificam. Interrompem os tiros e despacham tropas de solo para capturar, prender e desabilitar o sacerdote. Como eu. Privam-nos de morrer junto com nosso povo e fazem-nos vê-los matando a todos.

Para os pardos, que têm uma cultura ancestral de guerra, combater é um aprendizado, tanto como ler livros. Não nos atacam idiotas armados tampouco aldeões amedrontados. Atacam-nos homens inteligentes que sabem o que estão fazendo e reagem a qualquer mudança.

Naquele dia estavam todos ansiosos. Não pelas próprias vidas, mas ansiosos com curiosidade quase acadêmica. Meredith viria com o incarna retomar Capela, e eles seriam os que estariam lá para defender o território. O primeiro ataque de incarna havia sido nas Ilhas Sagradas e obtivera resultados espetaculares, mas eles não sabiam disso. O Império Ivoreano havia impedido esta informação de se alastrar e restava neles uma dúvida: como iria vir (voando, pela água, por solo), e como poderia ser morto (com tiros, lanças, milagres).

Ocupando Capela estavam quase quinhentos homens densamente armados, com boas munições e lanças consagradas, além de duas naus encouraçadas ivoreanas, a Nau Obi e a Nau Biblos, mantendo nossa casa e fortaleza sob canhões e ainda terminando de derrubar o que nosso povo levantou ao longo de séculos. Nos prenderam como reféns nos postos de vigilância (hoje chamados Monte Vigílio) e nos deixaram com uma vista privilegiada do que estava acontecendo. Mal nos falávamos. Nossos olhos estavam presos em suas formações.

O ataque estava atrasado dias segundo o que a inteligência ivoreana previa. Quando virou uma fase da lua, a comunicação dos batedores e helicópteros estava cortada com os rádios dos ocupantes de Capela. Quando começaram a pensar em prosseguir, a terra começou a tremer.

Uma coluna de luz fez surgir um ser alado sobre a Nau Biblos, enquanto uma tempestade distante que se abriu revelou a frota odeniana chegando por mar. O ser repousou no ar evocando a efígie luminosa de Câncer, uma mandala que tomou os céus em luz. Não houve tempo para pânico na nau. Os ivoreanos em terra viram aquela luz descer do céu como uma coluna de fumaça e a tripulação já estava morta, consumida por luminosidade, por dentro de seus corpos. A luz jorrava para fora de suas bocas e olhos como se fossem djins feridos e retornava às asas do incarna. O corpo do prometido mal era visto no meio da torrente de luz que ia, tomava vidas em massacre, e voltava. Pior. Era luz, luz divina. Antes de prosseguir para a Nau Obi, o prometido fez de uma das asas uma espada de centenas de metros e golpeou transversalmente a Nau Biblos, a explodindo com um único impacto de som incrível que incinerou os mortos e levou as vidas das tropas que vinham em carga contra ele.

Imediatamente, a Nau Obi começou a recuar e o incarna voou para cima da cidade. Nesta altura já havia fogo aliado vindo da frota impedindo o avanço das fragatas de guerra ivoreanas, e a infantaria aliada com brigadas da Pristina invadia Capela por terra, aproveitando-se do terror dos ivoreanos para libertar os sobreviventes (como nós).

Não houve sequer um golpe de espada naquela noite, pois com um tremular de suas asas o incarna ceifou os soldados que já desejavam estar mortos há muito tempo. (...)"

Artigo: Sobre Prometidos e Incarnas

Tratarei aqui somente de fatos, e não abordarei histórias fantasiosas criadas por mentes oprimidas pela guerra, nem apoiarei discursos de governantes tomados pela soberba do poder, levantando idéias falsas. A profecia dos incarnas de 696 D.F. jogou os países uns contra os outros e está sendo nossa ruína até hoje. É possível que, se Rublo não tivesse atirado fronteiras afora suas riquezas, Odenheim moveria uma invasão em massa para 'recuperar o território perdido' com o auxílio de seus adeptos de Câncer.

São os incarnas conhecidos até hoje: Iblis, no Planalto de Lorena; Câncer, a norte de Céus Partidos; Ômega, próximo ao templo de Asperi; e Shu, quase diretamente sobre Margrave.

Não existe o processo de submissão para um incarna. Uma vez encontrado e chamado, o espírito deformado projeta sua Mandala Prima imediatamente - me disseram que parecem rodas dentadas ou rosas com espinhos. Ao que tudo indica, o incarna, a estrela argêntea, é uma estrela serva da guerra. Todos os domínios encontrados pelos adeptos que foram levados à sua luz provocavam a destruição, a desgraça, a miséria.

Os adeptos encontraram duas maneiras de usar o poder do incarna. A primeira delas é aprender suas orações como fariam com qualquer altíssimo. O poder dos milagres do incarna é claramente superior e mais perigoso, superando até mesmo a destruição provocada pela maioria dos feitiços a não ser aqueles lançados pela união de um grupo de hereges.

A segunda maneira, equivalente a invocar o avantesma de um altíssimo puro, é encontrar o 'prometido' do incarna. O prometido é uma pessoa que nasceu após a estrela surgir, que tenha sangue forte, e que tenha nascido fisicamente sob a estrela (como Keshal de Lorena, que nasceu num campo de batalha onde hoje é o Palácio de Iblis) ou em conjução astrológica com sua luz. O incarna foi uma das armas de guerra mais poderosas que o mundo já viu. O incarna de Câncer possibilitou a Dário Meredith alterar o destino de uma guerra que já estava praticamente perdida, e muitas vidas de jovens foram perdidas até que o prometido fosse finalmente achado pelos astrônomos odenianos.

O incarna pode manifestar-se em qualquer pessoa de sangue nobre quando invocado - basta que a pessoa engula um fragmento da estrela, facilmente invocado pelos adeptos que conhecem o procedimento. O incarna desperto em um corpo que não é o de seu prometido tem apenas uma parte pequena do poder total, que mesmo assim pode ser devastadora, como o cardeal Bran possuído por Câncer que incendiou o Palácio Oceânico, e como o hierofante Ludgast de Margrave que, possuído por Shu, derrotou Rama, líder do clã feiticeiro Fafnir. É comprovado que o fantasma do incarna sofre quando invocado em um corpo que não é o do prometido (principalmente quando a pessoa nasceu antes da Profecia), e por isso, que o incarna abandona o corpo da pessoa o destruindo pouco depois de possuí-lo, levando seu espírito junto.

A invocação do incarna empalidece qualquer avantesma. O prometido sobe nos ares, erguido por uma força fantasmagórica, e de seu corpo crescem asas vermelhas e translúcidas, maiores que o mundo, vistas de longe como colunas titânicas de fumaça. O céu parece cair quando o prometido se move e a terra treme quando ele grita; pessoas morrem, consumidas por dentro, quando ele as toca e muitas vezes, o prometido não precisa sequer tocá-las: seu olhar faz sair da terra aguilhões gigantescos de pedra, e suas mãos fazem cair dos céus relâmpagos maiores do que os de Buriash.

Artigo: A Universidade Roch de Karaouine

Lorde Roch foi um mestre celestial (um adepto e astrônomo) devoto de Karaouine que, depois de muito andar pelos templos do mundo e aprender com os povos e pelas suas próprias observações, escreveu um grande tomo sobre física, matemática e astronomia que denominou Alkaraouine, que ficou conhecido como "O Livro de Todas as Ciências". Cinco anos após sua morte, o Imperador Remus II mandou que fosse erguida, junto ao seu túmulo no templo do altíssimo que seguiu durante toda a vida, uma universidade que levasse seu nome e onde se estudassem as ciências que o estudioso tanto amava.

Galen Melville Roch viveu em tempos de paz, mas tempos duros, quando o frio extremo e a falta de madeira para aquecer as forjas e as casas castigavam Odenheim. Nasceu pobre nas periferias de Lodis. Seus pais passavam o dia fora, trabalhando e afora a escola, ele não tinha mais o que fazer. Naquela época, os meninos da idade dele interessavam-se em caçadas, poesia, livros de romance e o cultivo de flores (que na época era uma espécie de febre quando descobriram o pólen de manchestra). Ele espreitava tipógrafos, roubava jornais para ler escondido (ler jornais era impensável para meninos), e fazia pequenos serviços na Universidade Central de Lodis para poder ouvir, atrás de portas, as lições de matemática que eram dadas aos entediados e desinteressados aristocratas.

Quando fez quinze anos, Galen já tinha a simpatia de alguns professores na Central por sua perspicácia e por suas respostas rápidas. Um deles, Sr. Merril, decidiu levá-lo em uma excursão junto com seus alunos. Galen pôs seu melhor chapéu e um colete surrado que seu pai havia lhe dado, e foi. Visitaram o templo de Karaouine. Galen não ficou muito impressionado - achava que o altíssimo dos números e da exatidão estava mal representado por um templo que não tirava ninguém das ruas para ensinar coisa alguma.

Quando olhou para os céus do lado de fora, ele despertou para uma consciência nova, estranha, e analítica que lhe tirou a paz para o resto da sua vida. Virou o rosto uma última vez para o templo e voltou com os alunos de Merril. Era uma maldição. Olhava para qualquer coisa e sua cabeça começava a processar números e hipóteses. Por fim, descobriu que podia contar imediatamente e com precisão absoluta qualquer quantidade que pudesse enxergar.

Merril ficou fascinado com a nova habilidade de Galen, que contou a todos o que tinha pensado do templo e da dor que havia sentido quando saiu. Os ministros da época imediatamente destinaram fundos à ampliação da mandala de Karaouin temendo que o altíssimo estivesse insultado pela forma de seu templo. O poder de Galen foi usado várias vezes para divertir aristocratas, mas o mais importante: Merril lhe conseguiu uma bolsa para a Central e ele foi, por muito tempo, o recorde do estudante mais jovem que ingressou na faculdade, com quinze anos.

(esse recorde foi batido por Lorde Zurich de Reinfeld em 613 D.F., que ingressou na Central com quatorze anos para cursar teologia e filosofia. Odeio prodígios.)

A escalada acadêmica de Galen foi rápida após este fato. Diziam que seu intelecto era injusto porque não se dedicava como os outros e ele foi alvo de muitos truques cruéis e pequenas traições durante sua formação. Não teve amigos e nunca pôde confiar em ninguém. Seu benfeitor, o prof. Merril, morreu pouco depois de lhe conseguir a bolsa levando consigo a última esperança que Galen tinha na humanidade.

Sem ter criado laços, Galen viajou como investigador real. Interessou-se por astronomia por quase vinte anos e teve uma infusão da terra tardia aos quarenta, tornando-se um adepto misticamente fraco, porém dedicado, de Karaouine. Era um gênio científico e, no comando de uma pequena comitiva de investigadores reais, mapeou um grande número de estrelas em além-éter.

Escreveu o livro aos setenta anos, falando de ciências junto com relatos tristes de suas experiências pessoais. Morreu sozinho em Veruna em 366 D.F., com 89 anos de idade, vitimado pela pneumonia.

Artigo: A Cidade de Gradec

A noroeste de Vercel, Gradec é uma quieta cidade de porte médio da costa oeste de Oden. Seu cartão-postal é Hildesheim, um castelo de pedra ao redor do qual a cidade foi construída. Antigamente a moradia de nobres da época chanteliana, hoje o castelo é usado como uma espécie de hall da cidade, que vive dos seus herbários e de duas grandes forjas rivais. Neva pouco em Gradec, apesar de fazer muito frio. O povo supõe que Vercel chame toda a neve para si e agradece a Maeve por isso, pois nenhuma erva gosta de neve.

Gradec é formada por três distritos: Landes, Schauspiel e Graz, sendo Landes o mais externo, Schauspiel o distrito do castelo, e Graz um distrito mais ao sul, que foi recentemente ocupado por cavaleiros bandidos.

Landes é o distrito comercial de Gradec, tendo vários quarteirões diariamente abertos com lojas de perfumistas, vendedores de ervas, comerciantes de espadas, antiquários e marcenarias. Frente a frente na calçada principal de Landes ficam Murinsel e Kunsthaus, grandes forjas especializadas em motores com corpos feitos de ferro. Desde o início do reinado de Meredith, as duas forjas competem pelo domínio da produção e venda de carcaças para motores para a capital.

Em Schauspiel ficam a maior parte dos herbários, grandes grades de ferro onde são plantadas trepadeiras e ervas medicinais vendidas para os alquimistas de outras cidades. A constituição de ferro das grades é essencial: as ervas lentamente consomem o ferro para crescerem assustadoramente rápido. Muitas vezes, em uma semana, as trepadeiras recém-plantadas atingem o topo das grades e precisam ser colhidas. Anualmente todas as grades são trocadas em uma celebração que dura duas noites.

Graz foi um distrito residencial construído em píeres sobre um lago, sempre imerso em névoas. As casas lá eram feitas de tijolos e tinham janelas de vidro colorido, geralmente verde ou vermelho. Com a industrialização, a própria população abandonou suas casas para viver mais próximos da cidade. Quando a área começou a ser ocupada por cavaleiros bandidos, a aristocracia da cidade decidiu não interferir por temer uma retaliação, mas imediatamente começou a passar informações para a capital.

A torre do relógio de Hildesheim abriga a capela para Spire, um altíssimo quase inexplorado cujos domínios confluem em misticismos arcanos complicados. Seus adeptos são capazes de invocar torrentes de frio, aromas que afetam milagres, refletir e retribuir mágicas e cunhar incensos de efeito moral.

Artigo: Nínives

Os nínives, Nineveh argania, são pequenos roedores brancos de pelos longos e olhos perspicazes. Eles se caracterizam por suas longas caudas ornadas com uma única pluma na ponta, que exibe cores como magenta escuro, verde e negro dependendo da região de onde o níneve provêm. Alimentam-se de frutas, as quais conseguem escalando as árvores com agilidade. O nínive vive bem nos climas frios de Rublo, mas migra eventualmente para o sul em tempos invernais, quando a temperatura fica baixa demais para as frutas e, conseqüentemente, pra ele.

Os parentes maiores dos nínives, os ulmos, Nineveh ulmus, vivem nas árvores maiores que crescem em climas temperados como os de Cédara e sul de Faris. De apetite voraz, com a eventual destruição de seus habitats naturais para a construção de cidades, são forçados a se tornarem uma espécie de salteadores urbanos. Os ulmos são escuros, de coloração marrom ou cinzenta (sempre cinza após saírem em bando de uma chaminé para o terror do dono da casa), e suas plumas normalmente são pretas ou cinzentas. Seus dentes são muito mais desenvolvidos do que os de seus primos menores, e eles atacam despensas e armazéns em bando. Se interessam unicamente por comida mas têm um hábito peculiar de seqüestrar itens que julgam valiosos. É sabido que quando uma 'oferenda' de nozes e frutas é feita aos ulmos, sendo deixada no mesmo lugar em que o item foi roubado, eles devolvem o item seqüestrado ao seu dono e abandonam o lugar para sempre.

Artigo: A Acácia Branca de Rublo

Existe uma espécie de árvore predominante nesse lugar. Ela se chama acácia branca, canan ou longas-folhas, como é conhecida em Cédara. É uma árvore alta e espinhenta que dá as flores mais brancas que eu já vi. Contra a neve, a flor ganha por pouco na brancura por mais incrível que isso possa parecer. Dentro das flores há uma espécie de suco transparente e grosso, dulcíssimo e semelhante em gosto à baunilha, que pode ser tomado com leite ou usado em concoções alquímicas para deixá-las tragáveis. Se não crescessem também em Cédara, os alquimistas de lá estariam falidos porque ninguém conseguiria beber aquelas químicas brabas sem botar tudo pra fora depois.

Costumava andar de bicicleta entre essas árvores. Hoje eu vejo que eu corria um belo risco de bater nas raízes e me estoporar no chão. Quando se é jovem, parece que alguns problemas simplesmente não existem. Hoje em dia eu não conseguiria sequer me equilibrar numa bicicleta... quando era jovem, eu andava de bicicleta, brigava e esgrimia, tudo muito bem. E pensar que me tornei o que me tornei, um senhor grande e sorridente devotado aos meus escritos.

Hoje, Viola colheu algumas destas flores e as secou para fazer uma guirlanda como as que se fazem em Faris, o país dela. Andou até bem longe de nosso assentamento, parecendo prestar uma homenagem ao ex-marido, talvez a última delas. Desconfio que Viola olha para mim enquanto medito e escrevo minhas memórias. Este velho senhor ainda tem seu encanto!

Artigo: A Flora

Imediatamente depois dos anjos, Maeve fez os mundos para que vissem, e permeou-o com seres de iluminação e serenidade que sofreriam junto com os povos ou floresceriam com eles. Estes seres assumiram formas naturais e se tornaram raízes que se cravaram no solo de todos os universos, tornando-se galhos, casca, frutas, grama, grandes árvores, troncos, flores e tudo o mais: flora.

Nos círculos escolásticos elas são chamadas de 'seres de vazio'. Suas consciências formam o espírito dos mundos e elas refletem, sofrendo ou florescendo, as ações da civilização. A flora é grandiosa quando os homens a fazem assim, e triste e mirrada quando decepcionamos nossos propósitos. Os longinianos descobriram isto antes de todos nós. Maeve para eles também é uma árvore, imutável e eterna.

Não existem conjurações em forma vegetal, ao contrário do que se acredita. Também não existem árvores que se movem, que pensam, odeiam e assombram viajantes. A natureza não se vinga de nós quando a insultamos; ela sofre conosco, e nos faz sofrer completamente sem esta intenção. Ela não precisa sentir vingança para que sejamos punidos. Ela está em nós e nós a somos.

Primeiros dias.

Nos organizamos da seguinte maneira:

As crianças colhem as orquídeas boas. Boas são as que apresentam as cores púrpura e verde simultâneas, ou as orquídeas azuis brilhantes. As outras ainda têm de maturar.

As moças preparam os buquês com esmero.

Os homens (somos em maior número) cuidam das ervas daninhas e mantém as orquídeas saudáveis, as regando quando necessário e as protegendo do sol excessivo trazendo toldos.

Na primeira semana conseguimos carregar dois carros razoavelmente cheios com os buquês. O aroma parece ter agarrado na minha pele e cabelos e imagino que nunca mais vai me abandonar. Tornei-me destro o suficiente com uma tesoura para não cortar acidentalemente as orquídeas durante minhas distraídas elucubrações.

Vimos o adepto veruniano passando ao longe duas vezes neste tempo. Ele usa um robe castanho e um grande chapéu que torna a sua silhueta inconfundível no morno sol da tarde. Anda despreocupado com a certeza que nada requerirá sua ação imediata, ainda que sua presença a todos tranquilize. Dizem que ele é capaz de invocar o avantesma de Idun e curar as feridas mais graves fazendo seu altíssimo derramar uma lágrima, e dizem que suas palavras são serenas como a noite mais cálida. Nunca tivemos oportunidade de falar a ele apesar da maioria dos aldeões querer suas bênçãos. Ele sempre passa longe o suficiente para que nós não nos aproximemos, e perto o suficiente para sabermos que está nos protegendo.

Outra personagem que conheci foi Viola, uma viúva, mãe de cinco crianças adoráveis. Ela faz buquês belos como si mesma, os enfeitando com flores silvestres que colhe por conta própria do chão. Foi a última a subir no carro para Lothair e voltou com histórias de uma cidade de muros esculpidos com grandes bandeiras azuis bem escuras, uma cidade nova e magnífica.

No próximo carro, eu serei quem irá para Lothair acompanhar o curso dos buquês. Também pretendo falar com nosso guardião adepto, e da próxima vez ele não me escapa.

Leitura: A História de Hepzibah, parte 3

Hepzibah seguiu a direção em que Nila nascia. Ele não esperava prosseguir sem ter de lutar por muito tempo e estava certo. Felizmente havia agarrado duas boas cimitarras em sua saída expedita e considerava-se pronto para fugir ou morrer lutando. Não seria capturado novamente, não se pudesse impedir, não se sua própria espada pudesse alcançar seu cinerário coração antes que ele fosse preso ou nocauteado. Tinha aquilo como um mantra constante na mente.

E muitos sóis viram seus passos antes que finalmente desfalecesse de cansaço. Andou eras de mente sob os céus dourados de Ivoire, cortando caminho por dentro de matagais altos à golpes com as lâminas, mas por fim deitou-se sem que mais pudesse prosseguir. O poder cobrava seu tributo e ele se sentia vazio de energias, drenado.

Seguida à sua força, sua visão e consciência se esvaíram num sono letárgico que durou dias. Despertou na sombra da noite e com frio. Agora...

Não conseguiu se levantar.

Seus músculos eram pedra. Estava permeado com uma maldição. Capturado dentro de seu próprio corpo. Hepzibah fechou os olhos para gritar contra as estrelas e contra seu destino. O som que urgia era mudo, um silvo inaudível, e ele chorou marcando o rosto com lágrimas. A aura vermelha e verde ergueu chamas espirituais de metros sobre ele. Aquele poder não era seu. Sinalizava sua carcaça. Em minutos chegaram, cavalgando celados.

Hepzibah desejou estar morto, desejou muito estar morto. As cimitarras, inúteis, não serviriam seu propósito agora. Seu corpo foi recolhido sem resistência e em algum tempo, sua consciência foi se recolhendo à escuridão na cavalgada noturna que o levava de volta para seu inferno.