Leitura: Os Idos de Rublo

Dezoito anos após sua proclamação de independência, elevações tenebrosas nos impostos e pequenos conflitos localizados entre as ordens de cavalaria verunianas e milícias mercenárias contratadas por aristocratas, Lady Iamni declarou a República Nova de Rublo um país comunista. A resistência por parte dos nobres foi imediata e terrível, e durante três noites, Rublo conheceu o caos na forma de ataques localizados e terrorismo. A própria Lady Iamni foi atacada em sua residência em Veruna e precisou ser hospitalizada. Maynard, homem de confiança de Iamni e um adepto pródigo, retribuiu o ataque a Iamni assassinando, com um sortilégio vermelho, Agilard Indeever, um dos líderes do movimento de resistência, meio-irmão do Marquês Wieland Indeever. Em resposta aos protestos e como retratação a Odenheim pela morte de Agilard Indeever, Iamni deu permissão aos aristocratas para que abandonassem Rublo antes da Grande Reforma e da distribuição dos bens. Muitos mudaram-se para Cédara e Odenheim. No final, a promessa de tantos anos atrás se cumpriu.

O Rei Meredith, ao contrário do esperado, não interferiu no processo. Apesar das tensões e de alguns ataques sanguinários na fronteira dos dois países que partiram de iniciativas não autorizadas tomadas por Lorde Fabian, capitão da brigada dos Leões Brancos, Meredith tratou Rublo com relativa indiferença, inclusive permitindo que alguns acordos fossem fechados pelos importantes dos dois lados.

Rublo almejava a auto-suficiência, e a teve em poucos anos, abençoada pelo clima e pela disposição do povo para a agricultura, que se tornou a atividade primária de renda em todo o país. Outros cargos atribuídos ao povo foram os de guardiões, andarilhos, mensageiros, comandantes de barcos, escritores e batedores. Rublo caminhava para uma utopia de paz e trabalho. O excedente em sua produção, ou seja, o que não era consumido imediatamente, para não criar esperanças de escambos no povo, era imediatamente confiscado e doado à famílias carentes em Faris. Junto vinha o convite de partir para Rublo e trabalhar nas lavouras, uma vida simples com recompensas simples. Funcionou para muita gente.

Em 728 D.F., foi eleito regente Terrance Valegris, um homem querido por seus amigos e um trabalhador incansável. Determinado a seguir o exemplo de Maynard e nunca deixar o ideal cair, Terrance queria dar conforto e qualidade de vida ao seu povo. Enquanto crescia ele viu muitos talentos sendo desperiçados no trabalho, músicos, idealistas, poetas sendo impedidos de fazer o que queriam e obrigados a trabalhar junto com todos. Ele queria permitir às pessoas trabalhar menos, para que pudessem perseguir mais seus próprios talentos, ler, aprender, descobrir coisas novas.

Em conselho, ele conseguiu autorização dos patriarcas de quase todas as regiões para vender o excedente agrícola para Cédara e começar a investir em pesquisa, fertilizantes, máquinas simples e mão-de-obra estrangeira contratada. Foi a primeira vez que Rublo teve algum contato oficial pacífico com o mundo externo (fora transmissões piratas de rádio) depois de 11 anos da declaração de portas-fechadas feita por Iamni. Terrance Valegris entrou num navio pela primeira vez na vida para se encontrar com os diplomatas cedarianos e negociar os preços.

Sentiu-se entre os lobos, encurralado por boas-maneiras e títulos. Era um homem muito simples e não tinha roupas para vestir além das que usava normalmente. Os diplomatas cedarianos inicialmente tomaram-no por um empregado. Viera sozinho, assim como voltou, com a cabeça cheia de promessas. Os cedarianos prometeram máquinas maravilhosas e compostos alquímicos que permitiriam a uma única lavoura de algumas quadras alimentar várias famílias. Todos eles conheciam muito mais de agronomia do que o próprio Terrance. Ele fechou um acordo de que entregaria cinco navios carregados de produtos agrícolas todo dia (que era um pouco menos que o excedente calculado por eles na última recontagem).

As famílias carentes de Faris teriam de esperar: o conforto que o povo de Rublo merecia viria primeiro. Terrance soube que Cédara parou de importar ervas de Longinus e verduras do sul de Faris, sendo que o fim dos negócios com Longinus quase significou tiroteio contra os kishis. Soube também que boa parte de Cédara passaria a depender dos produtos agrícolas rublenses.

Tudo corria maravilhosamente bem. Os compostos de fertilidade alquímica cedarianos, pós que vinham em grandes sacos e que foram espalhados sobre todas as lavouras, funcionavam maravilhas. No quinto mês e junto com a chegada de algumas máquinas de arado, Rublo pôde novamente voltar a doar excedentes para Faris. Terrance não poderia estar mais feliz pelo que tinha feito pelo seu povo. A jornada de trabalho nacional havia baixado de nove para sete horas diárias, depois novamente para seis e, nesse quinto mês, cinco horas com a chegada das grandes máquinas de arar.

Terrance viajou uma segunda vez para Cédara, para renegociar a quantidade de navios com produtos: desta vez fechou o acordo em doze navios, mantendo um carregamento especialmente para ser doado para Faris. Era uma realização. Novamente, Terrance soube que Cédara estava quebrando outros acordos com Ivoire, Longinus e Faris, para dar preferência aos produtos de Rublo.

Um inverno mais rigoroso que o normal trouxe alguns dias de geada sobre todo o território e os cedarianos foram muito compreensivos, mandando mais fertilizantes alquímicos de ótima qualidade.

Quando terminou a geada, Terrance viu quase todas as lavouras enregeladas. A terra estava anormalmente crestada, como se estivesse sob toneladas de gelo. Os navios cedarianos vieram recolher os produtos e encontraram os portos vazios. Pressões diplomáticas levaram Terrance a pedir ao povo que levassem parte dos suprimentos de consumo interno aos portos, bem como toda a reserva, e houve escassez de alimentos pela primeira vez na história de Rublo após a independência.

Os aldeões descobriram que o solo havia se congelado em boa parte de Rublo, várias braças para dentro da terra. Era inútil continuar tentando cultivar ali.

No mês seguinte foi a mesma coisa. As reservas haviam ido, e agora as pessoas estavam tendo que consumir menos. Os barcos não voltaram cheios. Como resposta, Cédara não mandou o carregamento de fertilizantes nem as novas máquinas que ajudariam os aldeões com o problema do congelamento do solo.

Já havia parado de gear há muito.

Leitura: A História de Hepzibah, parte 1

Hepzibah era um meio-djin que vivia incógnito no Monte Marena, em Ivoire. As centenas de anos de sua existência lhe tomaram as memórias de seus pais e das circunstâncias de seu nascimento. Sabia de suas fraquezas e que tinha vindo a um mundo que pertencia aos humas, não a ele. Sabia, também, que a visão de seu rosto despertava o terror nos pardos ivoreanos, quisesse ele ou não. Hepzibah tinha força em seu sangue djin, e era muito maior do que as pessoas normais, diferente da maioria dos meio-djins que era fraca e de baixa estatura.

Hepzibah odiava viver como um animal acuado, mas não conhecia escolhas. Permitia-se abandonar seu covil apenas nas noites mais escuras para tomar ar puro. Muitas vezes ele sentiu que estava sendo observado, e muitas vezes ele foi observado sem perceber nada. Sem que soubesse, as pessoas dos povoados próximos começaram a falar sobre um fantasma vermelho que vagava no Monte Marena.

Uma noite foi acordado por um estrondo. Seu covil fora invadido por adeptos ivoreanos em grandes números. Ele sentira o impulso de matá-los com as garras, mas ao ver suas expressões de terror, procurou acalmar-se e falar a eles. Os ivoreanos ouviram grunhidos e palavras rasgadas na língua profana dos djins. A face do inimigo parecia se retorcer de ódio. Os soldados começaram a disparar no djin, que berrava por clemência enquanto o fogo do seu próprio sangue saía para consumir seu corpo. Os ivoreanos ouviam só ódio, só esperavam ouvir ódio e só ouviram ódio. Hepzibah caiu inconsciente e morreria em poucos minutos.

Os ivoreanos não permitiram que ele morresse, no entanto. Levaram-no para Biblos onde ele passou por todo tipo de crueldade, exposição pública e ridículo. Sangrou fogo milhares de vezes diante de observadores entretidos. Um dia, furaram seus dois olhos. Hepzibah nunca mais viu as faces de seus captores mas sentia seus toques podres, socos e golpes de espada aos quais seguiam jorros das chamas de suas veias. Vivia sendo carregado dentro de uma cela, amarrado e algemado. Tentou encerrar sua própria vida muitas vezes, todas sem sucesso.

Um dia, ele pediu a Maeve para que o levasse, que o sanasse daquela existência eterna de sofrimento. Cego, aleijado e inútil, ele não poderia continuar nem que escapasse.

No dia seguinte, ele ouviu que os ivoreanos estavam pretendendo se livrar dele, porque um novo ministro achava que a exibição pública daquelas crueldades estava manchando a reputação das cidades. Lhe prepararam um último número. Parecia que sempre se perguntavam como um garuda comeria um meio-djin pegando fogo.

Uma arena lotada para sua despedida. Hepzibah foi largado no chão de areia áspera e a ave foi libertada. Uma grade protegia os observadores encantados com o espetáculo que viria. Os ivoreanos pareciam se deliciar com a idéia de um representante do segundo povo sendo subjugado por eles. Tomavam aquilo como uma vitória da civilização huma. Não eram adeptos de combates de arena daquele tipo, mas era certamente um caso especial. Uma execução de um criminoso de luxo, cujo único crime foi existir. Grande parte da nata da aristocracia ivoreana estava reunida no dia, inclusive algumas crianças que imploravam aos seus pais para ir embora.

Feixes de nuvens negras começaram a aparecer no céu azul-escuro, junto com uma calmaria que vinha do leste com suas luzes mudas. Hepzibah, com grande esforço, põs-se de pé, aterrorizando o público com seus olhos inexistentes em brasa.

"Faça com que seja rápido, Maeve."

Um pouco de pureza.

Despertamos com sinos educados do lado de fora. A maioria das pessoas saiu com pressa, temendo estarem atrasadas ou descumprindo alguma regra, mas não foi este ao caso. Um encarregado da República, que parecia estar cumprindo aquele ofício durante toda sua vida, vestindo um gibão vermelho e um chapéu com uma única pena, nos explicou que deveríamos manter o orquidário saudável e que um carro viria semanalmente buscar nossa produção e nos trazer mantimentos de acordo com os nossos próprios rendimentos. Nos explicou que, se passássemos por problemas, haviam duas estradas que levavam à lavouras próximas onde poderiam nos ajudar, e que se o problema fosse relativo a conjurações, que haveria um adepto veruniano de Idun vagando entre as lavouras e o orquidário todo dia.

Disse que poderíamos cunhar nossas próprias regras de trabalho, mas que não poderíamos abandonar o lugar sem autorização expressa da capital. Que estaria permitido a um de nós acompanhar o carro para a cidade murada de Lothair a leste, para onde as orquídeas estariam dirigidas. Que deveríamos enviar as orquídeas amarradas em buquês de cinco, postas em vasilhas d'água.

As interrogações ainda não abandonaram minha mente.

Artigo: A Espada de Aventurina

Criada nas regiões centrais de Odenheim no século VII, esta é uma das armas mais versáteis e equilibradas que já vi, apesar de nunca ter conhecido sequer um espadachim que a dominasse completamente. Quando a demanda por carvão cresceu na capital e as florestas odenianas começaram a ser desmatadas para fornecer lenha, Maeve respondeu com um ataque cruel de conjurações que durou para muitos anos além do arrependimento dos odenianos. Mesmo depois das árvores restituídas, felpi e outras conjurações em bandos terríveis assolavam as noites em vilas pequenas, e os cavaleiros da capital não podiam estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Muitas armas foram tiradas de seus baús naquela época. Muitas ainda conservavam o vigor, seus metais ainda reluziam. Muitas estavam inúteis, quebradas, repletas de ferrugem, prontas para serem quebradas com uma só agadanhada terrível dos felpi. Dizem que a idéia partiu dos jovens de Aventurina, uma vila montanhesa cuja existência é quase uma lenda para a maior parte da população odeniana. Os garotos peregrinaram de forja em forja mostrando aos velhos uma espada longa e leve, que poderia manter os felpi afastados e perfurar através de sua pele com facilidade. Dia após dia, as novas espadas foram forjadas. Seu uso era simples – mantinha-se o felpi afastado o ameaçando com a ponta. Seguido ao bote, um golpe de perfuração com as duas mãos dava conta do recado. Golpes amplos de corte também eram usados quando os felpi faziam emboscadas – a arma era perfeita. Quando o problema terminou, os odenianos estavam próximos de um novo estilo formal de luta com espadas.

Infelizmente poucas delas sobreviveram às décadas e hoje poucos ferreiros ainda conhecem as medidas e métodos para sua construção. Alguns dedicam-se exclusivamente a criar novas espadas de Aventurina, talvez num esforço pra reviver o espírito de Odenheim de antes da passagem do Duque Negro pelo trono.

Beálaras para vidas novas.

Tudo veio bastante diferente do que eu imaginava. É tarde da noite e chegamos em um orquidário. Fomos instruídos a descansar da viagem em casinhas de adobe erguidas expedientemente há pouco tempo atrás. Por dentro elas eram lautas, porém confortáveis. Me entregaram, depois de um tempo, roupas de cama, toalhas, e travesseiros (de penas!). Passei uma noite invejável sentindo pela janela o aroma das beálaras, um tipo de orquídea invernal que só cresce nessas regiões. Conheceremos nosso novo ofício pela manhã. Imaginava que trataríamos de terras difíceis e de sobreviver por nossos próprios meios: o cultivo de flores ornamentais estava fora das minhas suposições para um país comunista sem relações comerciais amigáveis com outros países. Veremos.

Leitura: Um Pequeno Conto de Keshal de Lorena

Isso seria a testemunha de um garoto farisiense que observava ao longe, que crescera e se tornara um escritor de alguma reputação na área em que vivia, contando com palavras o que vira ao longo dos anos.

" Foi até onde seus joelhos feridos puderam lhe levar e caiu por terra, finalmente. Antes tivesse feito melhor uso de suas forças! Viu-se cercado, em tão pouco tempo. Se pudesse levantar, derrotaria todos e voltaria a andar na sua jornada impossível até Odenheim. Mas não – e as marcas da última batalha agora começavam a arder violentamente.

“Levanta, dragão, e nos dá a honra de um combate belo”.

As palavras saíam com dor. “Cale-se, Rudeger...”

Inclinou a cabeça e ergueu as sobrancelhas. “Ao que me parece, não estás em posição de falar mais das tuas insolências... ainda assim parece alimentar-te do ódio... és um soldado admirável, sir Keshal de Lorena. Devo repetir-lhe que teríamos uma vaga para alguém como tu nas nossas fileiras...? Ou és determinado e tolo a ponto de não me ouvir mais? Eu me pergunto...”

Keshal fechou a mão sobre o punho da grande espada.

“A tua é uma cruzada sem esperanças. E os melhores soldados sabem a hora de trocar bandeiras...”. Como que dominado por sua própria oratória, permitiu-se virar de costas e contemplar o luar. Keshal analisou a situação cuidadosamente. Àquela emboscada, sobreviveria. Levantou-se de sopetão, pondo-se de joelhos e depois em pé, e cambaleou para trás. Um soldado reagiu e seu golpe de lança resvalou na placa de bronze. Seu infortúnio veio na forma da espada em balanço, quebrando o cerco. Ainda uma vez, Keshal cambaleou para trás, pondo-se fora do destino certo.

Rudeger andou lentamente até o soldado caído, e os outros soldados, pegos de surpresa pela determinação do dragão, prepararam as armas e vieram em sua direção. “Gostaria que morresse, Keshal... és uma dor-de-cabeça tão grande... mas insiste em seguir tua sobrevida, tua existência miserável atravessando esse deserto.” O hierofante ajoelhou-se e cantou um milagre para o soldado derrotado.

Os outros avançaram e lutaram com Keshal brevemente. À beira da morte, o dragão pouco raciocinava além do necessário para direcionar seus golpes aos olhos e aos torsos. Seu espírito se agarrava com cada vez mais força ao seu corpo, enquanto sua armadura imponente era destruída e as lanças perfuravam seu corpo. Eram quatro contra um, mas logo um ivoreano viu-se sozinho contra o dragão de olhos frios e rosto manchado. O pânico tomou seu coração e a espada o atravessou. Keshal enterrou a lâmina no chão e escorou o corpo.

“Admirável... realmente admirável. Tomaste a vida de alguns dos nossos melhores. Gostaria de ficar para lutar contra um homem tão poderoso, mas tenho um apontamento de mais importância do que sua captura”, disse Rudeger com sinceridade. “Creio que vá ter de encontrá-lo algumas vezes mais, mas quantos homens serão necessários para que eu possa lhe ver no chão, Keshal?”

Keshal cuspiu no chão. “Venha de uma vez, Rudeger. Vamos acabar com isso!”

“Ah, não... sinceramente não é de meu desejo enfrentar-lhe agora, não nestas condições. Você parece-me muito abatido e doente, e não deve comer há dias, pobre homem. Mais algumas horas e você seguramente irá desmaiar, e então os mantídeos irão arrancar seus braços... não acredito que possa ainda lutar sem braços, concorda...? Para que fazer o trabalho da própria natureza? Olhe para você, desgraçado.”

Keshal gritou um palavrão, girou a espada no ar e enviou uma lâmina grossa de energia verde brilhante em direção ao hierofante, que a aparou com uma pequena mandala do cajado. “Teu esforço é inútil”. Rudeger desapareceu num pilar de energia torpe e nuclear. Keshal fincou a espada no chão e levantou com força. Retomou o passo. A batalha o dera forças mais uma vez, para seguir sua travessia infindável.

“O que não me mata me faz ainda mais forte”. "

Artigo: O Baixo-Éter

Ou baixio, ou marola, ou remanso, dependendo de quem você pergunta. Apesar da conotação infantil, esses termos descrevem um lugar relativamente perigoso apesar da aparência reticente. Após transcrever a redoma, uma capitânia 'cai' em uma espécie de caixa-de-areia etérica onde desliza sobre o sólido por algum tempo antes que o seu comandante possa recuperar altura e navegar com os motores. Antigamente, acreditava-se que só existia essa região ao redor de Natal, mas existe um baixio semelhante em Calibur (a Lâmina Branca) e outro no Gâm Flutuante, revelando que, possivelmente, o fenômeno geográfico do baixo-éter seja comum ao redor dos mundos.

Entrando no assunto que interessa. Esta região é perigosíssima porque é por ela que os aríetes etéricos deslizam antes de atingir a redoma. Além disso, existe uma espécie de força de empuxo que pode desorientar um barco que esteja navegando em ponto-morto. Sabe-se que os raios que ultrapassam a redoma também refletem-se com potência maior através do éter, e não foram poucas as capitânias atingidas por esses raios, sobretudo as que saem nas regiões próximas à Longinus e ao sul de Ivoire.

A partir do baixo-éter, durante a maior parte do tempo, é possível contemplar uma visão relativamente plácida do universo em que vivemos. Estações montadas em capitânias largas o suficiente são estacionadas nessas áreas para os pesquisadores erguerem suas lunetas atrás de novos mundos (desta forma foi descoberto Calibur). Quando o barco recupera altura e ganha o alto-éter, começam os influxos e as imagens (tratarei dessas mais tarde), as miragens, os maravilhamentos, e, infelizmente, chusmas de asteróides, raios e as porras das bogardinas, cegas e mortais.

Dificilmente uma viagem pelo éter poderia ser considerada prazeirosa. Não participei de uma única em que não tivessem havido acidentes e eventos inesperados, além dos muitos acidentes esperados. Não participei de uma única viagem em que, em dado momento, eu pudesse esperar chegar vivo no outro lugar.

Ofício difícil o de planinauta.

Artigo: Da Natureza da Redoma e do Portal dos Nimbos

Foi provado pelos astrônomos que a redoma degenera em 'olhos', rombos em formato de gemas arredondadas com pontas que fazem ângulos agudos. A degeneração inicial cria um 'olho marinho', uma rombo profundamente azul-escuro (como o que se espalhou sobre os céus de Hevelius após o meteoro). O olho marinho é nada mais do que um agouro; ainda há Petra Alva - a matéria divina que forma a redoma - em quantidade suficiente para bloquear as investidas do aríete etérico. Entretanto, uma mácula maior da Palavra Divina pode romper mais Petra Alva e transformar o olho pálido para uma degeneração secundária.

A degeneração secundária e mais profunda cria um 'olho monstruoso', que se espalha como tinta e tem uma coloração avermelhada (como o atual sobre os céus do Belvedere farisiense). Geralmente ocupa uma área muito maior, transformando o céu de uma área inteira em um degradê gigante. Neste nível, tempestades elétricas e catástrofes já são um pouco mais freqüentes à medida que quantidades relativamente pequenas de éter são absorvidas pela redoma e jogadas para dentro em forma de eletricidade.

A degeneração terciária, o 'olho pálido', é raríssima. Muitas vezes a redoma atravessa rapidamente este estágio (que indica uma película muito fina) para um buraco completo, uma 'arrebentação', causando uma inundação elétrica e mudanças no clima em escala mundial, bem como um reavivamento da Conjuração. O fenômeno da arrebentação redômica foi registrado cinco vezes na história, quatro vezes em Longinus e uma única vez em Ivoire, mas estima-se que tenha acontecido muitas outras vezes desde a habitação da terceira civilização e inúmeras vezes durante o apogeu do Segundo Povo, os djins.

Toda arrebentação cria uma reação redômica rapidíssima que evoca Petra Alva de várias partes do mundo para preencher o rombo, muitas vezes arrancando maiores quantidades de Petra Alva das partes mais distantes do rombo.

Infelizmente, está praticamente fora do controle dos homens a natureza da Petra Alva e da formação da redoma. Supõe-se que todos os estágios da formação e cristalização da redoma sejam de natureza divina, incompreensível para a ciência dos homens. Houveram tentativas de produzir Petra Alva em Ivoire em 344 D.F. e novamente em 510 D.F., a primeira resultando em uma catástrofe terrível, e a segunda obtendo uma parcela pequena de sucesso, porém secando permanentemente a terra ivoreana, tornando-a infértil para muitos tipos de vida vegetal, como se alguma espécie de quinta-essência houvesse sido arrancada da terra no processo. Os limites periféricos atuais de Faris também incluem um pouco desta terra seca ivoreana.

Odenheim, há quase meio-século e por influência de investidores cedarianos, investiu milhões de rúpias em uma frota de capitanias que, estacionados próximos ao limite do mundo, puderam estudar um raríssimo olho pálido estacionado próximo à altura do mar, no perímetro sudeste de Natal. Foi descoberto que capitanias poderiam atravessar o local com relativa facildade durante algumas épocas do ano, quando o olho pálido pode ser alcançado com a cheia das marés. Um pequeno número de capitânias pôde passar, muito lentamente, pelo olho pálido, sem estourar a película, mas o trânsito foi suspenso desde 722 D.F. por motivos de segurança. Estima-se que, se houver uma tempestade elétrica entrando em altitude tão baixa, os raios etéricos possam congelar um raio contínuo no mar, afundando uma estalagmite de gelo de quilômetros e causando catástrofes marítimas em todas as cidades portuárias, seguidas por uma queda considerável do nível do mar.

Este portal, chamado Portal dos Nimbos pela permanente névoa d'água erguida ao redor dele e pela fraca visibilidade, através da fumaça, dos obeliscos de pedra que delimitam o olho pálido, está interditado há muito tempo inclusive com relação ao trânsito paralelo de barcos pelo Cinturão; viajantes devem abandonar o Cinturão antes de passar pelo Portal ou entrar nele após seu comprimento. Este decreto odeniano vem instigando alguns poucos conflitos diplomáticos ao longo da história, já que muitos navios se avariam no processo de sair do Cinturão e depois voltar a ele. Alguns espertos ancoraram grandes barcos-oficinas próximos ao Portal, prontos a ajudar e cobrar os olhos da cara de todos que sofrerem acidentes de percurso.

Mudando convenientemente de assunto, vale explicar a terminologia 'aríete etérico'. Existe uma força constante de pressão que o éter exerce sob a redoma (que é, segundo os astrônomos, o motivo pelo qual ela é mantida em forma vagamente semi-esférica). Entretanto, por vezes o éter se avoluma em uma espécie de turbilhão grosso como uma tora, e investe, como se fosse senciente, contra a redoma. O golpe, quando é forte o suficiente, pode até penetrá-la em estado intacto, mas penetra mais facilmente redomas degeneradas com níveis a partir do secundário. A este golpe se dá o nome de 'aríete etérico', um fenômeno relativamente comum durante alguns meses do ano.

Artigo: As Mandalas

A maioria dos adeptos conhece uma prece simples, porém perigosa, que serve para convidar um Altíssimo à submissão. A maior parte dos Altíssimos pede testes de batalha e de fé, oferecendo combate ao adepto e aos seus prováveis aliados. Quando o Altíssimo considera-se derrotado e conclui que a humanidade merece seu poder, seu avantesma projeta com luz, pelos olhos, boca, peito ou de outra maneira, uma Mandala Prima no chão.

A Mandala Prima, então, deve ser construída, no mesmo lugar, com prata, feldspar, ferro, madeira nobre, ouro, aur ou outro material, sempre com exatidão de detalhes. Ali, também deverá ser construído um templo em honra do altíssimo. Só então, ele poderá oferecer seu poder em forma de milagres, e na forma brilhante do seu avantesma. A Mandala representa a consciência elevada do altíssimo e é a chave para seu controle. Portanto, um adepto pode usar-se de um altíssimo a partir do momento que conhece sua mandala (o que é um processo mais longo do que a maioria das pessoas supõe).

A invocação de milagres se dá com o uso figurado ou físico de variações mínimas na mandala do altíssimo. O repertório de milagres de cada um é supostamente ilimitado dentro de seu aspecto, mas para cada um existe um estudo escolástico definido e, apesar do poder do altíssimo beirar o infinito, a compreensão de um templo como um todo sobre ele define o limite de poder que seus adeptos podem alcançar.

Muitos milagres requerem Solo Consagrado. Eles, portanto, funcionarão apenas em um lugar onde esteja presente a sua mandala relativa, ou em um lugar que esteja cercado por ela. O adepto muitas vezes precisa cunhar a mandala do próprio punho neste caso, ou realizar o milagre dentro do templo.

A invocação do avantesma em si se dá com o talhamento da Mandala Prima com o máximo de perfeição possível (erros nesse processo podem irritar o avantesma) e com a prática dos ritos que o altíssimo exige.

Por motivos óbvios, muitas vezes adeptos que sejam abastados ou carismáticos o suficiente são seguidos por artistas iniciados na tradição sacra que, apesar de não terem passado pela Infusão, conhecem as formas das mandalas e podem as talhar para os adeptos.

A terra.

A terra. Senti aquele sentimento de casa em Rublo. Eu posso ter entendido com a mente que Odenheim se partiu em dois pedaços, mas meu espírito ainda não aceitou a idéia. Eu fui para um país estranho ao mesmo tempo que voltei para minha casa, vi meu povo, vi os céus de Odenheim. Aportamos próximos ao estreito na costa oeste, onde eu estive muitas vezes ainda jovem andando com meu bando de amigos em celados. Setenta anos atrás, talvez? Era um tempo, sem dúvida, melhor. Muita coisa que deixou o mundo pior ainda não tinha acontecido, e eu posso dizer isso de cima de tantos anos de vida porque posso mesmo. As pessoas hoje estão vivendo cento e dez, cento e vinte anos em média. Eu pretendo viver para completar um século e meio, se possível, e espero que a humanidade me surpreenda mais uma vez. Que surjam heróis, que surjam líderes, que surjam iluminados e filosofias que nos façam entender, de uma vez por todas, que competir com outras raças não tem muito a ver com viver melhor.

Estamos indo, numa condução quase improvisada puxada por celados velhos mas dignos, para nossas novas casas às beiras das plantações. As pessoas estão cheias de esperanças, falam e cantam alto, talvez para afastar velhos fantasmas. Comigo, eu apenas penso no que pode ser útil para grafar num livro, de preferência um que seja impresso cópias suficientes para ficar pra sempre. Pra sempre. Porque pouco sobra de um homem a não ser o que ele lega.

Artigo: Serretes

Uma grande ave, de plumagem púrpura nas asas e verde escura próximo às patas, com proeminentes garras em forma de meia-lua. Perigosa e agressiva, seus mergulhos em bando são conhecidos como uma das ameaças mais letais do Belvedere. Bandos de serretes atacam qualquer um que entre em seu território, que varia de acordo com a disponibilidade de caça. Eles se alimentam de pequenos répteis e de ovos de pássaros menores.

Serretes fazem espetáculos nos céus do Belvedere, brincando de fazer várias formas. O recomendado é manter-se longe. A forma mais fácil e mais imprudente de matar um serrete é golpeá-lo enquanto este mergulha. Se o golpe falhar, é provável que o serrete arranque fora o braço do infeliz. Meninas compromissadas são comparadas a eles nas cidades próximas: você pode olhar, mas não pode tocar.

A força do mergulho do serrete é prezada pelos dervixes, que já assistiram companheiros serem derrubados de encostas após receber o golpe no peito. Um ovo de serrete, pego no ninho, vale 400 rúpias nos mercados calcedonianos. Um serrete treinado colabora apenas com o seu dono e é extremamente tímido.

É incomum avistar serretes fora dos territórios do Belvedere, mas com a recente temporização (o processo de abertura da redoma e caos climático), eles vêm fugindo cada vez mais para áreas mais ao sul, causando o caos por onde têm passado. Curiosamente, os serretes fugitivos parecem ter formado um único bando coeso de mais de cem aves. É impressionante.

Artigo: Azdares

Tudo o que se diz sobre a natureza violenta e cruel dos azdares é mentira. Eu tenho experiência pessoal com todas as três raças que conhecemos e ao longo dos anos percebi que os azdares são sociáveis e gregários, além de extremamente úteis se estimulados das maneiras corretas. Os azdares se tornaram famosos no mundo inteiro por causa de seu uso como montaria para as Legiões Triunfantes de Meredith. Hoje desbancaremos este mito e mostraremos os azdares como eles são. Para este artigo tive ajuda do nobilíssimo Lorde Volos, ex-legionário e atual criador de coronas e diabos-verdes.

O corpo do azdar é semelhante a uma grande pipa, com prolongamentos visíveis nas asas e uma cauda chata e longa. A maioria dos azdares tem músculos aparentes e, muitas vezes, protusões ósseas visíveis através da pele - quando um azdar se fere, seus ossos crescem de maneira diferente para suprir a área maculada. A cabeça do azdar é como uma flâmula, um triângulo invertido com um vinco no meio, criando a ilusão de dois chifres em forma de V.

Existem três espécies de azdar: os coronas (Darzii coeur), os diabos-verdes (Darzii diablevert) e os alados-de-Axúria (Darzii axuriensis ou Darzii vulgaris), em ordem de raridade.

A má reputação dos azdares entre os cedarianos se deve possivelmente os alados-de-Axúria. De cor de granito e olhos verde-claros ou dourados, sua natureza é extremamente pacífica. Entretanto, o aroma da maioria dos compostos alquímicos (a poção Chiron inclusa) lhes excitam e muitas vezes eles se atiram violentamente contra o possuidor dos compostos na intenção de engolir os frascos inteiros. Abandonar os frascos raramente é uma opção; só serve para atrasar o azdar; ele pára para engolir os compostos e depois persegue o seu possuidor na intenção de conseguir mais.

Como o sangue dos alados-de-Axúria é um ingrediente alquímico útil na assimilação de alguns pós específicos, muitas vezes alquimistas cedarianos posicionam compostos distantes uns dos outros para cansar os azdares antes de atacá-los com virotes envenenados. Esta prática cruel vem sendo executada há bons vinte anos nas proximidades de Axúria. Existe uma lei proibindo o ato, mas, como muitas coisas em Cédara, não passa do papel pois na prática não há quase fiscalização e penas para os infratores.

Vale ressaltar que o vôo, apesar de ser a forma de locomoção natural dos azdares, os cansa rapidamente: para erguer seu corpo pesado eles precisam de muita energia. Após aproximadamente vinte minutos de vôo, são raros os azdares que conseguem prosseguir voando, sobretudo com um cavaleiro no lombo.

Enquanto os alados-de-Axúria são perigosos e agressivos quando excitados, os diabos-verdes são praticamente animais de gado. Enormes, passivos e reticentes, eles quase não têm capacidade de vôo. Os ovos das fêmeas são uma iguaria culinária cedariana; alguns criadores conseguem os raríssimos diabos-verdes machos (eles têm uma proporção de vinte fêmeas para um macho) e os tornam reprodutores. Além disso, os genes do diabo-verde são relativamente fracos; os filhotes híbridos de diabos-verdes com alados-de-Axúria, chamados 'jervís', são resistentes e relativamente domesticáveis, algumas poucas vezes podendo ser usados como animais de montaria.

Os diabos-verdes são encontrados, em estado selvagem, em pradarias amplas onde conseguem se alimentar de vegetais e pequenos animais silvestres. Passam a maior parte do tempo hibernando; saem para alimentar-se durante as enchentes da Lua dos Cetros (quando muitos animais ficam encurralados pelas armadilhas das chuvas). São pacíficos e nem um pouco teimosos.

Finalmente, os coronas têm coloração vermelha-escura, garras cor-de-ferro e olhos castanhos expressivos. São maiores e mais musculosos que os alados-de-Axúria, apesar de ainda serem menores que os diabos-verdes. Voam rápido e praticamente não sentem dor. Estimulados com alguns elixires alquímicos específicos pelos quais têm muito apetite, são extremamente obedientes e territoriais, lutando ao lado de um cavaleiro humano com grande efetividade.

A característica mais interessante dos coronas é a capacidade natural deles de produzir uma descarga elétrica pelas patas. Esta descarga não é usada ofensivamente por eles; são usados de uma maneira muito mais fantástica: eles podem reviver seus cavaleiros usando o choque diretamente contra seus tóraxes, mesmo através da armadura. As vidas de muitos legionários já foram salvas pelos coronas.

Diferente da maioria das conjurações, a natureza mística dos coronas os permite absorver com facilidade qualquer concoção destinada a humanos e obter dela efeitos muito parecidos, senão iguais. Seu metabolismo absorve mais facilmente os princípios ativos das poções, compensando pela sua massa, que é muito maior que a de um humano.

Artigo: A Espada Zweihander da Legião Triunfante

A gigantesca espada Zweihander, prodígio da forja industrial, pode ser considerada uma invenção do Duque Negro. Em seus devaneios, o terrível aristocrata imaginou cavaleiros com armaduras de placas montando bestas voadoras e brandindo espadas titânicas. O advento das Legiões Triunfantes, enquanto capricho, introduziu um sentimento novo nos corações dos ivoreanos: o terror. A visão da sombra de dezenas de azdares erguendo-se no horizonte, para depois cair sobre os batalhões, num ataque derradeiro e suicida, marcou todos que sobreviveram à Guerra da Ilha Sagrada.

Tratando-se de características físicas, a Zweihander é uma espada feita para matar, de preferência de uma maneira genocida. Com mais de dois metros de lâmina e um cabo de quase um metro, a espada favorece golpes muito amplos e, apesar de poder ser usada em solo, é muito mais efetiva no dorso de uma grande besta voadora como os azdares e os coronas. Oferecendo pouca ou nenhuma capacidade defensiva, ela não possui uma guarda (apesar dos tantos golpes sucessivos acabarem por talhar dentes no comprimento da lâmina). Sua ponta possui uma perfuração mortal para ser usada em carga, como uma lança de justa, mas seu golpe principal é o de balanço.

Poucos modelos diferentes desta espada foram manufaturados, mas é grande a capacidade de modifiação de uma espada deste tamanho. Ela pode ser novamente talhada para tornar-se praticamente qualquer coisa com relativa facilidade. A espada Zweihander também entrou no imaginário coletivo os odenianos como símbolo de heroísmo. Não faltam jovens que se dedicam ao manejo desmontado destas espadas, ou de réplicas dela.

A representante primária da espada zweihander é a Hauteclaire. Estas espadas foram as primeiras forjadas para os cavaleiros da legião triunfante. Os primeiros azdares não conseguiam levantar vôo portando cavaleiro e espada – seu peso, desequilíbrio e volume atrapalhavam o movimento das asas da besta. Naquela época originou-se o costume em que o cavaleiro levanta vôo sem a Zweihander, depois passa em rasante sobre uma torre ou um lugar alto, onde um escudeiro lhe espera com a espada erguida; então o cavaleiro toma a espada e parte para a guerra, na direção do horizonte. Esta espécie de ritual prosseguiu até mesmo depois que os azdares adquiriram maior força, com o desenvolvimento da criação dos filhotes e a descoberta da raça dos Coronas, azdares com escamas de tonalidade vermelha escura.

Leitura: Rois

Por meio de uma troca com um outro viajante neste barco, tive acesso a esse texto. É uma narração, talvez um pouco fantasiosa, do que aconteceu na vila de Rois em 690 D.F., quando Ludgast ainda era um jovem governante e Ivoire tentava mediar os primeiros passos para uma aliança. Sem sucesso, como verão.


"... Rois. A pequena cidade nem estrela tinha, convergia numa velha mina esgotada, e havia sido considerada uma perda menor pelo Conselho, um movimento em falso, especialmente quando o cerco deu ao povo a oportunidade de fugir. Rois permaneceu abandonada por quase um ano lunar, esquecida em meio aos bramidos da guerra, alguns diriam que estava perdida para sempre, que naquele solo nada cresceria mais. Pobre e pequena Rois. O sol entrecoberto sobre suas pequenas casas de madeira tomava-lhe as cores, as flores. Mas a dor parecia inata àquele lugar. Qualquer um que ali chegasse sentiria o peso das lembranças que não puderam ser levadas com o êxodo. Qualquer um que olhasse através de uma janela veria que os espíritos das famílias não deixaram seus lares, que os pequenos templos para os altíssimos ainda estariam de pé, ainda que ninguém rezasse ali há muito.

Rois não tinha virtudes e abrigava-se na ignomínia, fora dos planos dos aliados, mas fora dos planos dos inimigos. Sobre seu solo, o céu é escuro como um manto de luto, e a primeira estrela ficava a milhas de distância. Algumas crianças, não suportando esperarem nos ventres de suas mães, nasciam em solo seco, no meio do caminho de mato alto, crianças da noite profunda, estranhas, reverentes, contemplativas, como que soubessem que o destino havia lhe negado um anjo que lhes protegesse. As crianças de Rois eram belas, belas como numa ironia à angústia de seus pais que temiam uma punição ou que um fantasma tomasse os corações de seus filhos. Eram todas belas, as crianças da noite profunda de Rois.

Longe da luz, motivada por uma velha mina esgotada, e ainda assim as gerações se sucediam e Rois atravessou séculos, sem crescer nem diminuir, sem que houvesse sequer uma razão para sua existência. Quando o moleque avistou os céus escurecendo e as hordas de feiticeiros ecoando detrás dos montes, não precisou de muito para toda a população partir de lá para sempre.

Ludgast desceu do dragão e fitou o horizonte. Inspirou o vento de eras que bailava sobre a cidade e abriu o pequeno portão. Caminhou para o que lhe pareceu um matadouro, jaziam dezenas de fafnires em meio aos escombros, fora um lampejo, uma dor aguda o penetrou a cabeça, Ludgast voltou os olhos ao céu. Os rumores eram verdadeiros, e um bando de assassinos estrangeiros...

“Eminência... Verne deseja vossa amizade. Ele é poderoso e tem a Profecia em suas mãos”, disse o embaixador.

O hierofante caminhou por entre a destruição. “Verne mandou paladinos, ainda que eu houvesse lhe negado a aliança. A morte destes condenados pertencia a mim, e Verne me tomou este direito que me foi legado. Verne invadiu o Império Sagrado.”

Saul parecia transtornado, ele próprio era um ivoreano, destacado para jurar lealdade a Longinus para representar os interesses de seu país. “Eminência. Insisto que entendas. Ivoire é um país forte e os feiticeiros que assolam teu povo podem ser contidos facilmente pelo poder de nosso Palácio, de nossos canhões, de nossos sacerdotes.” O embaixador gesticulava furioso como quem tentasse passar uma mensagem muito simples para uma criança.

Ludgast finalmente dirigiu-se para Saul. “Voltai para tuas terras”. Expressava uma incrível fúria, contida pela barreira inexpugnável de seus olhos azuis. “Teu povo invadiu meu império! Voltai para tuas terras! Está tudo acabado, acabado!”. Seu corpo não se movia, mas chamas ardiam como que acesas por gás incandescente detrás de suas pupilas.

“És insano, ou... só podes ser insano!”, exclamou Saul. Ludgast golpeou-lhe com o diamante do cajado no rosto, atirando-o para trás. Saul agonizou brevemente, e morreu.

“Pagaste. Mas fora útil a teu modo. Servistes para alimentar meu espírito de tua morte”, disse Ludgast ao cadáver. Virou-se para seus comandados. “Persigam e destruam todos os paladinos ivoreanos que encontrarem. Até que não haja mais nenhum, todo homem que atacar um feiticeiro longiniano será castigado.”

Os primeiros pecadores seriam expiados primeiro pelas lâminas dos samurais de Ludgast."

Leitura: A Hégira dos Dragões da República

Com os últimos Dragões-da-República, em Faris, foi assim, ou assim me contaram.

"Ainda que uma máscara de sangue lhe cobrisse os olhos e fizesse o mundo como por um filtro vermelho-escarlate, ainda que a dor lhe queimasse as entranhas, a explosão, a luz, o incarna poderoso, ele gritou, maior que o mundo. "Saiam! Saiam todos vocês! Vamos embora daqui!"

Pouco a pouco, os dragões apareceram nas janelas, barricadas e armuradas do castelo arruinado que chamavam Último Forte. Julius estava devastado. Sem reação, eles contemplavam sua figura. Julius contorceu o rosto de dor. "Erebus nos entregou, vamos sair daqui, malditos!" Como se eles não ouvissem, Julius descarregou o tambor da pistola na parede do forte. "SAIAM!"

Os olhos brilhantes de um dragão mais jovem puseram-se a chorar. "Julius! Onde estão todos os outros? Onde tá o Bharrai?"

"Bharrai está morto, assim como o comandante, e Seiferth, e Blaise também."

"Julius!"

"E eu acho que morrerei breve! Tenho que tirá-los daqui!"

Abalados, os dragões firmaram os olhos no horizonte e foram, um por um, recolhendo os últimos recursos que lhes sobravam no forte, umas poucas armas... e suas esperanças, parcas, frágeis, espadas de vidro rachadas, orbes velhas, ombreiras gastas, braceletes. Muitos choravam pelos que perderam e pelos que ainda viriam a perder. Muitos consideravam sair, fugir, mas pra onde? Por quê? Muitos sentiam que algo havia se quebrado, algo havia se perdido, e ponderavam se algo não seria suas vidas. Tiraram as velhas asas de ferro e as escopetas de prata dos baús, e enrolaram suas longas capas de dragão.

"Não mais sejamos um. Sejamos muitos, e invisíveis, sejamos um enxame e não uma força única. Vamos atacar onde não somos aguardados. Vamos derrubar navios, sequestrar líderes! Vamos vingar o capitão!"

"Julius... vão matar muitos aldeões se começarmos a fazer vandalismos. Você sabe que eles matam gente quando não agimos de acordo."

"Eles matam gente de qualquer forma, aldeões, soldados, o próprio Mansa, eles não estão preocupados com honrarias ou boa política de guerra, vamos sair e atacar os corações de Ivoire!"

Naquela tarde, quase cinqüenta dragões ergueram-se em revoada. Dividiram-se no crespúsculo com claques surdos. Haveria fogo na noite. "

Artigo: A Cidade de Capela

Esquecida costa oeste, que tens a dizer? Estações de trem para as capitais, conduções para as capitais, estradas para as capitais, uma existência em função das capitais, como uma alternativa para as pessoas que não têm tempo ou recursos para dar a volta nas ilhas?

Também no oeste há flores. Como a bela cidade de Capela, noroeste de Nelbiand, Odenheim. Hackapel esteve sob ocupação ivoreana por onze anos. Os pardos foram respeitosos e ao invés de subjugar e maltratar os locais, os mataram. Então, o grande Meredith trouxe o machado da vingança junto com o Incarna de Câncer e enviou todos os ivoreanos para suas mortes. Os familiares e os que se salvaram da ocupação estão lentamente retornando à cidade, que está passando por um renascimento cívico e patriótico.

Depois de Vercel, Capela é a cidade em que mais neva em Odenheim. O fato de estar na costa oeste setentrional da ilha faz a temperatura sempre rodear o suficiente para o acúmulo de neve. Antes da ocupação, Capela prezava-se pela arquitetura em estilo chanteliano antigo - a construção da cidade data de pouco mais de 140 D.F., pelos contemporâneos do Imperador Kai Chantel, da terceira geração de governantes de Odenheim.

Hoje, Capela tem uma frota marítima de quase quarenta barcos de guerra e sedia uma ainda pequena, mas poderosa ordem local de cavaleiros, os capelitas. Ornando-se de armaduras azul-celestes e douradas e lutando com espadas e revólveres de impacto, eles têm a neve como elemento natural e provavelmente uma das cargas de exército mais efetivas de Natal, na qual atiram à média distância, à curta distância e depois partem para uma manobra de atropelamento terrível com celados que correm incrivelmente bem na neve.

Maeve sobre nós!

Finalmente os céus se abriram para o bom Ivaness. Vemos a costa ensolarada de Rublo. Mal posso esperar para entender o que, afinal, está acontecendo. Que Maeve guarde meu vigor para que eu suporte essa provação em nome da luz do conhecimento!

Artigo: O Elmo do Incógnito e o Escudo-Mangual

Hoje falarei sobre duas peças peculiares de equipamento que todo aventureiro bem-informado deve conhecer: o elmo do incógnito e o escudo-mangual de Wyven-Dalien.

Antigamente existiam poucas manufaturas de elmos. A mais conhecida era a Armoraria Deirdre, conhecida pelo brasão do D duplo, que - pasmem - dava conta de todos os pedidos de elmos de Natal inteira!! Explico. Trata-se de aproximadamente 200 D.F., então estamos falando de uma época que os odenianos mal conheciam os ivoreanos e vice-versa. As armas, quando eram usadas, eram usadas contra conjurações, e sempre mais como ameaça do que como ferramenta para matar. Então um elmo que era comprado por um país ficava por gerações.

Exatamente por este fato, a armoraria Deirdre patenteou uma espécie de elmo fechado, com barbatanas pontudas para trás, um bevor e uma viseira sisuda em forma de T. A parte de trás dele, ajustável com dois pinos, faz com que ele possa ser usado por praticamente qualquer pessoa. A manufatura do aço ainda engatinhava em Odenheim, e o elmo era feito do mais puro e belo ferro. Resultado: eles existem até hoje em quantidades indecentes.

Vamos ao terceiro ponto, e ao mais importante deles. O Elmo do Incógnito é chamado Elmo do Incógnito porque é perfeitamente normal ver um soldado de qualquer país vestindo um deles. Se você tem uma armadura minimamente parecida com a padrão e está usando um desses elmos, você se mistura como água a qualquer grupo grande de soldados.

Repito. Qualquer.

Então, amigos defensores da liberdade que não respeitam leis nem porcaria nenhuma e que têm que entrar naquele lugar especial sem serem notados, esperem a próxima troca de turno, façam movimentos sutis e entrem junto com os milicianos ou qualquer que seja a tropa de defesa. Com um desses elmos na cara você vira um suspiro e, de repente, ninguém ouviu falar de você.

A próxima peça que vamos abordar é o escudo-mangual. Ouvi falar que ele voltou a ser usado, infelizmente por cavaleiros abandonados por suas ordens, e bandidos. O escudo-mangual é uma peça interessantíssima que cobre tanto a função de proteger um aliado quanto a função de deslanchar ataques destruidores e desesperados. Tudo isso por causa de um pequeno detalhe no formato do escudo: ele é bem mais longo pra esquerda do que deveria.

Segurando ele como arma principal, ou seja, na mão direita, e segurando uma providencial corrente pela mão esquerda, o escudo-mangual é um escudo de corpo poderoso que cobre você e um colega de importância que esteja à sua esquerda. Se ele precisar se concentrar pra fazer alguma coisa, essa é a hora de você estar lá para defendê-lo.

E se seu adversário for um daqueles bem-treinados e irritantes retranqueiros com a espada (eu tive minhas aulas de esgrima com o gládio odeniano, para sua informação eu não sou só um escolástico desses que passaram a vida admirando olmos e lendo tomos caindo aos pedaços), você pode soltar o escudo da mão direita e virar um bom golpe de balanço usando-o como um poderoso mangual. Pra voltar ele no braço depois demora um tempo, mas se você tem uma arma secundária ou o combate está pra terminar, é sempre uma boa escolha.

Pense nesse escudo como uma daquelas velhas garruchas. Um tiro, uma queda.

É só por hoje.

Artigo: A Adaga Cedariana

As caravanas que cruzam as terras baixas cedarianas sempre foram um alvo potencial para salteadores e bandoleiros: muitas vezes a necessidade de segredo ou rapidez não permitia que os mercadores contratassem mercenários para fazer as guardas. Somada à mentalidade auto-suficiente dos homens cedarianos de sangue quente, esse fato fez com que surgisse progressivamente um estilo de auto-defesa e ataques rápidos: o estilo da adaga de ferro cedariana.

A origem da adaga em si está intrinsicamente ligada à história da família Agnese, um clã de mercadores militarizado e envolvido com o governo cedariano. O desenho da adaga era usado nos lacres de cera dos documentos oficiais da família: mais tarde, foi produzida uma adaga de prata cravejada de pedras preciosas azuis como uma peça decorativa que se provou uma arma efetiva nas mãos de Ercole de Agnese quando houve uma tentativa de incêndio e assalto na mansão dos Agnese.

Hoje o clã tem poucos descendentes. Uma vendeta secular com outra família tradicional, os Gianluca, foi eliminando pouco a pouco as famílias dos dois lados. A adaga, porém, foi legada a outras famílias tradicionais como os Fedele, os de Merle e os Baldassare, todas com laços com os Agnese.

A adaga cedariana tem uma guarda com duas pontas viradas para cima, otimizada para defesa, e uma lâmina com um trecho cilíndrico, um trecho cortante e uma ponta mortífera. É usada por boa parte dos militares cedarianos em outros países, e é carregada como arma secundária pelos fuzileiros que fazem a defesa das fronteiras de Cédara quando assim é necessário. Nos enfrentamentos na fronteira sul de Faris, quando Cédara ganhou alguns quilômetros para dentro do continente, a adaga cedariana foi usada com grande efetividade como arma de campo e suporte.

Leitura: As Desventuras de Cecília de Merle

Cecília de Merle, filha de Merivéter Merle, foi duquesa de Nerinsburgo, leste de Axúria. Seus cabelos negros a fizeram famosa nos círculos da burguesia cedariana: além de ser filha de quem era, era graciosa e uma romancista invejável. Suas obras incluiram O balde de maçãs, Estuans e O ode, grandes sucessos dos livros e dos teatros.

Apaixonou-se a infeliz por Dea Luken, recém-chegado da derrubada do famoso guincho da baía de Velian. Luken havia investido sua pequena fortuna em um cassino (chamado Ca$$$ino, originalíssimo) que foi inagurado poucos dias depois da abertura de Nova Belgrade, do qual seu pai tornou-se um grande freqüentador e apostador. Ruim de jogo e ansioso para apostar, Merivéter sustentou quase sozinho o cassino por muito tempo. Quando descobriram que era fácil ganhar nas máquinas eletrônicas, brilhantes e previsíveis que Luken havia adquirido em Ivoire, um grande público começou a freqüentar o cassino. E as contabilidades começaram a pender para o vermelho.

Neste meio tempo, Luken estava namorando Cecília, secretamente. Faziam isso pela emoção de ter um caso secreto e porque Luken tinha horror a casamento. Pouco depois das coisas começarem a piorar no cassino, Cecília descobriu que estava grávida. Escondeu enquanto podia. Logo as criadas já comentavam que a menina teria um filho. Cecília não quis perder o respeito de seu pai, mas também não queria perder o amor de Luken.

Então Luken raptou Cecília. Um dia ela acordou no meio do Oceano Boreal, num pequeno barco de madeiras claras, um bom barco à velas, sozinha com Luken. Ela ficou assustada, mas não desaprovou de todo a idéia. Os primeiros meses pareciam ter saído de um sonho. Planejavam ter o filho no Templo dos Grandes Deuses em Veruna, sob Idun, mas uma seqüência de pequenas complicações fez Luken ter de desviar a rota do barco rapidamente para baixo de Fakhri, uma estrela a nordeste de Faris, que regia os ventos quentes e as areias.

Nasceu Cecil Luken, batizado em homenagem à mãe, uma criança introspectiva e curiosa.

Passadas algumas semanas, Luken descobriu que Merivéter tinha posto capitães e piratas atrás do casal. Em pouco tempo as coisas estavam ficando difíceis para os dois e o pequeno Cecil. A sensata Cecília não queria criar a criança naquelas condições. Luken tinha um sonho de ir de capitânia para Calibur ("Eu conheço um caminho!") e criar Cecil lá e em paz, mas Cecília sonhava em ter um filho elegante e viajado, não um selvagem simples.

Luken e Cecília se desentenderam por algum tempo, mas não havia muito espaço pra se distanciarem dentro do barco (ficava, no máximo, um na popa e outro na proa).

Num ato de amor, decidiram então se separar. Cecília voltaria à sua vida, e Luken criaria Cecil em paz dentro de barcos, fazendo-o aprender a ser um mercador e um navegador de grandes proezas. Prometendo voltar para encontrá-la quando Cecil fosse um homem, Luken despediu-se dela no porto de Axúria. Pouco tempo depois, ela já estava de volta sob as asas do pai.

A proposta de Madai veio logo depois; o ex-pirata havia estabelecido contato com a República; Luken trabalharia como um consultor experiente para as navegações. Pouco depois, Cecil já tinha seu próprio barco.

Cecília esperou por muito tempo além dos vinte anos que imaginava que levaria para que seu filho se tornasse homem. Luken nunca voltou. Foi encontrado morto depois que recusou oferecer seus trabalhos para Ivoire. Cecil e um amigo desconfiavam de um ex-sócio que era a favor do negócio... mas isto é uma história para outro dia.