Leitura: Os Idos de Odenheim

Negada à luz e lançada à guerra, Odenheim perdera Ifalna Palas, desposada e destronada. Ascendeu, a 701 anos da fundação, Dário Meredith, Rei Negro. O cetro do poder não lhe lavara o olhar feroz e após trinta e dois anos de guerra ele expulsou os ivoreanos da costa de Odenheim, pondo fim a um conflito calamitoso. Fez-se silêncio quando a guerra terminou: todos os soluços haviam sido calados. Torres de ferro erguiam-se em meio à neve em Lodis e a respiração das máquinas talvez fosse ouvida a milhas. Meredith retornou num momento de silêncio e com um esgar feroz cruzou a capital até o Palácio Oceânico. Os cabelos grisalhos não lhe deram a imagem do pai Soren, como todos imaginavam que o seria. A humanidade recuara em suas feições até se tornar uma presença surda e nuclear. O reino agora era regido pelo deus da morte.

Pouco mais de setenta cavaleiros armados voltaram das Ilhas Sagradas, onde estrelas se apagaram quando o incarna de Câncer, com asas que abraçariam o mundo em vermelho tremeluzente, chocou-se contra as fileiras dos vingadores de Iblis ivoreanos. Lembrariam de Dário andando através dos campos de batalha e massacrando, a golpes únicos com o machado Labrys, qualquer um que se aproximasse, inimigo ou aliado, trazendo sobre todo o corpo uma aura estranha e divina. Após o fim do conflito, o incarna, assim como tudo o que se referia àquela guerra, foi esquecido pelos odenianos. Diz-se que seu herdeiro, após manifestar seu poder máximo e retornar à forma humana, foi executado por um soldado ivoreano que tinha sobrevivido.

Naqueles anos, Meredith se aliou aos adeptos e parece ter adquirido um forte e estranho respeito pela Deusa. Suas virtudes invertidas foram disseminadas pelos seus cavaleiros, e muitos feiticeiros emergiram e foram destruídos naquela época – a maior parte, pelo próprio Meredith, pessoalmente. E apesar da Ordem dos Elmos Escarlates estar severamente debilitada pela guerra, aquele era, sem dúvida, seu apogeu, comprovadamente a maior força militar conhecida de Natal. Em trinta e dois anos o povo aprendeu a viver sob a bandeira vermelha de Meredith: talvez por isso poucos tenham vindo velar a Rainha Ifalna Palas quando ela morreu, ainda tão jovem, acometida pela amargura e levando consigo o herdeiro do trono que ainda estava em seu ventre.

A vida em Lodis nunca fora tão difícil. Homens eram convocados e até trazidos de outras cidades para trabalhar em turnos de mais de dez horas nas carvoarias e indústrias da capital. O advento das linhas de montagem tornou Odenheim a maior potência bélica no mundo. O trabalho era interrompido três vezes ao dia para orações escritas e pregadas por Else, Hierofante de Lodis e a braço-direito de Meredith. Ela subiria à sacada dos reis e, sob os céus escuros de Lodis, chamaria todo o povo para lhes falar de parábolas, tormentos e fé. E enquanto oravam, as sombras da cidade pareciam crescer.

Passados alguns anos, Meredith deixara de falar em público e, com mais algum tempo, deixara também de fazer aparições. A Hierofante Else lhe representava, junto com uma comitiva de Elmos Escarlates e regentes escolhidos por ele. E assim que terminou a guerra, foram dadas armas a quase cinqüenta brigadas de Elmos Escarlates que tornaram-se a referência de lei em todo o território. Meredith desapareceu dentro do palácio, recuando para se entregar a planos e devaneios. Muitos imaginam que ele esteve esperando ou preparando o momento certo para atacar novamente, mas todos os aristocratas ouvem seus passos insones e febris à noite. A Deusa não permitira que Pluma Isabelle lhe concedesse um herdeiro: os adeptos finalmente constataram que ela era estéril. Meredith a trouxe em seus braços, vestida em robes brancos e dormindo para sempre. Seu rosto puro e belo subitamente reganhara a juventude e o frescor. Foi dito que seu espírito ascendeu aos céus fazendo com que todos na cidade chorassem sem saber dizer o motivo, mas ninguém nunca descobriu o motivo pelo qual Pluma Isabelle morreu.

Após este fato Meredith abandonou o Palácio sem data definida para voltar. Foi visto em vários lugares em Odenheim, armado de seu machado e vestindo uma longa capa branca, faminto, furioso e parecendo procurar algo. Ele foi motivo de desespero em várias vilas ribeirinhas quando descobriram que ele estivera observando, com uma espécie de ira amarga e contida, todas as crianças enquanto brincavam fora de suas casas.

O fim da guerra não significou descanso ou prosperidade. As linhas de defesa de Odenheim foram mantidas tesas e rígidas, enquanto as cidades viveriam em um perpétuo estado de pânico. Else era pior do que o próprio Meredith. Templos foram reconstruídos em aço com o trabalho braçal forçado de todo o povo, grandes pedras foram arrancadas das montanhas e arrastadas para a cidade, e caravanas perpétuas atravessaram as regiões setentrionais de Odenheim, onde foram erguidos novos templos e cidades. Segundo ela, os odenianos envergonhavam Meredith com sua atitude lasciva perante a vida e a Deusa. Músicos e tanques ficaram eternamente prontos em uma parada de proporções titânicas que receberia Meredith quando este voltasse. Em 733 D.F., quase um terço da população de Lodis foi enviada em uma capitânia com destino ao mundo de Caliburnus (Calibur) com o objetivo de erguer uma nova Lodis naquelas terras e espalhar a palavra de St. Sharini aos ignorantes.

Foi o ano em que os odenianos entraram em contato com os primeiros caliburanos, cujos olhos estreitos trouxeram lembranças ancestrais ao único reptante que participava da caravana de colonização. Infelizmente, dificuldades na comunicação e a arrogância de alguns capitães da caravana fez com que a atitude dos habitantes do novo mundo rapidamente se tornasse hostil aos visitantes e eles rapidamente perderam a comunicação com a capital. Um dos últimos relatos recebidos mencionava um avantesma ou incarna de brilho incomensurável invocado por um líder espiritual caliburano contra os invasores odenianos.

No hiato e apesar do fogo cruzado, com a derrota dos ivoreanos, os movimentos separatistas do vice-reinado ivoreano da União do Mar Alvo rapidamente ganharam força e, no mesmo ano que a guerra terminou, uma parte da União do Mar Alvo conseguiu sua independência e passou a ser novamente chamada Faris: a República Nova de Faris. A conquista deveu-se a breve e decisiva atuação do dragão Keshal de Lorena, que, de posse de um poder inexplicável, limpou sozinho as falanges ivoreanas de toda a costa leste original de Faris. Muitos tiveram certeza que ele esteve possuído pelo poder de Iblis durante aquele tempo, mas, assim como o incarna de Câncer, pouco mais se ouviu falar do Dragão Redentor.

As fronteiras de Ivoire e do vice-reinado recuaram para quase metade do seu tamanho original. Ainda abrangiam o Almirantado de Hevelius, o Planalto de Lorena e a cadeia de montanhas Aesir, mas uma renovada ordem dos Dragões da República parece preparar uma marcha vitoriosa sobre os enfraquecidos ivoreanos.

Leitura: Os Idos de Longinus

Os trinta e tantos anos que se passaram não foram gentis com Longinus de maneira alguma. Por alguns momentos, o clã Fafnir cercou os longinianos em Margrave e houve a certeza de que o Império Sagrado seria destruído naquele momento. Mas o destino carteou uma surpresa decisiva quando o quarto incarna, Shu, foi descoberto e invocado pelo próprio Hierofante Ludgast, que já havia atravessado seus noventa anos. Tomado pelo poder divino, Ludgast confrontou Rama, líder incontestável dos Fafnires, numa batalha espiritual furiosa e espetacular que durou pouco mais do que alguns segundos e terminou com a morte de ambos, espadas cruzadas diante das multidões. Um grande choque de retorno e as lâminas dos últimos kishi extinguiram o restante do clã Fafnir numa única noite. Longinus inteira uniu-se em oração e a aurora do dia seguinte espalhou o sangue do clã Grendel e de muitos outros clãs reptantes sobre a terra longiniana em nome do grande hierofante, e as flores brotaram rubras quando despontou a primavera.

Ludgast foi sucedido pela kishi Neman, uma heroína de guerra de disposições e princípios desconhecidos. Sua selvageria se revelou quando, na cerimônia de sucessão e vestida com os ornamentos imperiais sagrados, ela assassinou a sangue frio e a um só golpe um reptante adepto que ousou a tocar para lhe abençoar.

Sob a guarda da Imperatriz Neman, porém, Longinus pôde prosperar e se reconstruir. Em pouco mais do que dois anos, o império recuperara o rubor que tinha antes do início das guerras contra os Fafnires, há quase um século. Muitos guerreiros abandonaram suas espadas para lutar pelo império, desta vez plantando, colhendo, reconstruindo e reconsagrando as terras maculadas pela feitiçaria maléfica dos reptantes.

O renascer do Império Sagrado de Longinus passou quase despercebido para os regentes dos outros países, mas não para Cédara. Tratados comerciais há muito esquecidos foram novamente levantados pelos aristocratas longinianos. Ivoire chegou a tentar uma aproximação, mas a Imperatriz Neman não havia esquecido, tampouco perdoado a ofensa de Verne há tantos anos.

Assim que teve recursos (fim de 734 D.F.), Neman lançou uma cruzada de kishi para perseguir e destruir os desertores de Longinus na guerra como exemplo. O infeliz ato resultou na morte de vários longinianos em terras farisienses, ivoreanas e cedarianas, muitos dos quais haviam já constituído famílias. Muitos cedarianos (e também a imprensa) ficaram aterrorizados com a total falta de clemência de Neman para com os fugitivos de guerra – a imperatriz passou de heroína a uma tirana em poucos meses. A cruzada obviamente não conseguiu desenterrar todos os traidores, e persiste até os dias de hoje.

Reconhecidamente, Longinus mantém uma aliança informal com Cédara e Rublo; entretanto, ninguém sabe o que se passa na cabeça de Neman e qual será o próximo passo na sua saga de orgulho e destruição.

Transcrição do Tomo das Eras, LI

Da terra, eis, veio um grande espírito
A todos lembrou a pedra da criança
Uma vez, o espírito tomou a forma das coisas
E ascendeu aos céus
O árbitro que virá pelas almas dos desencantados
Após as palavras lidas
E o mal feito.

A volta.

Retornei a nosso orquidário (os gentios o batizaram Mirventura) com os olhos tristes, nem a Viola pude ter um sorriso. A ausência de qualquer descoberta está acabando comigo e pela primeira vez pensei que esta escapada pode ter sido um grande problema.

Durante a noite Viola veio a mim e contei toda a verdade a ela. Estava desesperado e me sentindo no final das forças, sem condição de pensar em como escapar. A nobre dama prometeu que me ajudaria, para minha surpresa, e no dia seguinte, enquanto aprumava um buquê, falou baixo a mim através de uma parede de folhas.

'Há um caminho', ela disse, 'ao sul, que levará seus pés para um porto livre. Lá poderá convencer alguém a te levar por algumas rúpias. O adepto passa longe deste ponto em sua rota normal, mas já o vi passando lá algumas vezes. Vá com cuidado.'

'Eu ainda tenho interesses por aqui', respondi a ela. 'Fico ainda uma lua.'

'Não. Vai, aqui teu coração não pertence', ela disse. 'Antes que pertença a ti meu coração.'

Pude pronunciar o nome dela ainda uma vez antes dela sumir nas folhagens. Parti, chorando, naquela noite, carregando comigo o rosário que ela tinha deixado, profanando sua fé e fazendo um último mal a Viola, talvez a última mulher que eu tenha amado.

Leitura: A História de Hepzibah, parte 4

Uma flecha cortou o nada em que se abrigava. Atingiu ao longe a aura que o prendia à terra e ele viu que ainda havia... Seu poder feiticeiro se libertou numa coluna de chamas vermelho-vivo abrasando o chão e tudo, e da certeza da morte ele despertou para a batalha.

O arqueiro vinha com guerreiros que berravam contra os pardos, golpeando com suas espadas em raios de aço e ar que atingiam ao longe. Antes que pudesse tentar se defender deles, pararam de atacar. Não queriam matá-lo. Pegaram os ivoreanos voltando de uma missão, isso sim, e a eles destruíram. Ficaram ao longe fitando-o à distância. Não tocaram os pardos: suas geomancias e flechas o fizeram.

Hepzibah se levantou e tentou falar a eles. Ouviram os dragões um guincho, como uma palavra de ódio, mas os olhos do meio-djin mostravam-se agradecidos. Aproximaram-se com cautela. Um colheu do chão uma pequena lis-de-Ivoire. Não pensariam em nada melhor. O jovem dragão ofereceu a lis a Hepzibah e ele a tomou em mãos trêmulas. Sorriu, se é que sabia sorrir.

Levantou-se de seu limbo e juntou-se aos dragões. Havia um entendimento irracional entre eles, uma aliança inconsciente. O arqueiro chamava-se Fiachra e era o líder de um grupo de dragões-da-República que ficaram ferrados e presos em território ivoreano. Terroristas e assassinos, uma vez uniram-se à XV para explodir uma usina em Hevelius. Hepzibah juntara-se a eles muito depois disso, quase cinco anos depois. Já havia findado a Décima Quinta e tudo que remetia a ela. Era o auge da guerra dos odenianos com os ivoreanos. Os dragões não estavam em lado algum e odiavam as duas partes, os ivoreanos mais do que os odenianos.

Hepzibah permaneceu unido a eles, lutando contra os odiados ivoreanos até que todos estavam mortos, quase dez anos depois. Viveram juntos todos os desfortúnios de quem batalha uma guerra que já havia sido perdida. Fiachra morreu inútil no meio do fogo, suas flechas caladas quando um dia cantavam livres antes de enterrarem-se em sangue pardo. Hepzibah o Improvável (como o chamavam) foi o último dos Dragões de Chumbo de Fiachra, e herdou a disciplina pálida e fria do ódio dos corações humas. Havia aprendido a luta dos homens. Sua força oculta de meio-djin o fazia poder carregar duas espadas quando todos levavam somente uma. E eram grandes espadas - espadas de Dragão. Hepzibah não podia parar de lutar, morreria se o fizesse. Aprendeu o ódio, e não mais viveria em paz sem exercer sua única satisfação. Tinha medo de destruir todos os ivoreanos: não sobraria ninguém para ele ganhar seu dia.

Rumou para Odenheim. Haveriam de aceitar duas espadas contra os pardos. Isso foi em 716 D.F., as fronteiras estavam tomadas, Capela ocupada e as tropas de assalto terrestres avançando duramente para Vercel.

Leitura: A História de Bácari e Trói

Haviam praias, haviam peixes, haviam pescadores. Haviam Bácari e Trói, desde muito. Os antigos acompanhavam os cardumes por terra e migravam pela costa leste da República. Levou muito tempo até que alguns pontos fossem descobertos como de convergências de vários tipos de peixe ao longo do ano. Na verdade, foram descobertos dois destes paraísos da pescaria: Bácari e Trói, obviamente.

Os nomes vieram das duas espécies de peixe que mais apareciam nas imediações, o Bacará Real – grande, cinza e lento – e o Totrói – com a protuberância óssea no focinho que mais parece uma espada.

Os pescadores ficavam metade do ano em Bácari, metade do ano em Trói. Muitos tinham uma namorada em cada cidade. Alguns tinham uma família em cada cidade. Muitos tinham pouca ou nenhuma idéia de quem era seu pai, mas as cidades prosperavam e todo mundo se conhecia. Fizeram escolas em Bácari, um pequeno teatro em Trói, e já vinha uma geração daqueles que estudaram fora, poetas, médicos, engenheiros, que voltavam para trabalhar nas suas cidades de origem.

Na época em que os ivoreanos investiram na madeira de Faris, o conselho em Belgrade decidiu que seria interessante para o futuro do país que existisse uma grande ferrovia ligando Glenária e Bácari.

O conde de Trói fez um escândalo. Alegou que Trói era muito mais tradicional, que a população era maior, que era completamente ilógico levar os trens para Bácari quando Trói estava ali, mais perto e mais interessante. A população fixa e simples não entendeu muito bem a história da ferrovia e no mais, eles queriam que os bacarenses se ferrassem, mesmo.

O barão de Bácari prontamente iria se defender dos argumentos do outro, mas aí ele soube que o plano da Estação Ferroviária Primeira de Bácari colocava o prédio bem no lugar onde atualmente ficava sua mansão com jardim de inverno. Entretanto, ele foi forçado a manter sua posição pelos intelectuais de Bácari, que queriam a ferrovia e ameaçavam amotinar-se sobre o barão.

Como tudo que acontece em Faris, os Dragões da República foram chamados para mediar o impasse. Descobriram que cada cidade tinha um conjunto diferente de virtudes e defeitos, mas nenhuma era melhor do que a outra em absoluto. Um Dragão jovem chegou a sugerir que decidissem o destino da ferrovia tirando a sorte nos dados, mas ninguém deu ouvidos a ele. Grande erro.

Ficou acertado (bem à moda dos Dragões) que haveria uma competição entre quatro espadachins – dois representando cada cidade. Quase todos os pescadores não tinham quase treinamento, em absoluto, com a espada, e se perguntaram se não seria mais interessante uma competição de pescaria. Depois alguém lembrou que ninguém realmente morava em um só lugar entre os pescadores e iria ficar difícil escolher que lado iriam representar. De fato, os pescadores nem foram consultados a respeito da tal ferrovia.

Surpreendentemente, os escolhidos para defender Bácari foram dois jovens filhos de um pescador que lá residia, enquanto os escolhidos de Trói foram o irmão do conde, Guntram de Trói, um aventureiro jovem e forte que bandeava com os dervixes do norte, e Nila, uma adepta estrangeira que fez de Trói seu lar.

Guntram e Nila destruíram os escolhidos de Bácari facilmente, primeiro a golpes calculados com as espadas de bambu, depois a pauladas mesmo, já que eles não se rendiam. Os filhos de pescador de Bácari foram arrastados, inconscientes, do ringue improvisado armado perto do Poço das Botas. Fazia um sol rachante.

No dia seguinte, festa em Trói. O conde anunciava ao populacho as melhoras que a ferrovia traria (e depois de um tempo, basicamente do quê se tratava, já que todos estavam interessados). A bebida corria solta, ninguém trabalhou, os peixes dentro d`água até estranharam o fato de não ter havido o genocídio diário. Todos os troianos ficaram animados com as obras, com os trens, e com a nova possibilidade: viajar.

Quando anoiteceu, um grupo compacto de Dragões e citadinos de Bácari chegou na cidade, para falar diretamente com o conde. Quem viu, das casinhas com as lamparinas acesas, viu que boa coisa, não era.

O conde voltou pra casa cheio de amargura no coração. O torneio havia sido considerado inválido, porque o barão de Bácari conspirou contra a própria cidade colocando filhos de um pescador no torneio ao invés dos grandes espadachins da Academia Real de Heilwig de Espada Odeniana, que, apesar de pequena e recém-chegada, contava com um bom número de esgrimistas talentosos. Como todo bom filho, Guntram tomou as dores do pai. Juntou seus amigos dervixes e num ato maligno de vingança, fizeram um arrastão na costa, no meio-caminho entre Trói e Bácari, justamente na época da reprodução dos bacarás.

Surpreendentemente, ninguém soube do crime a princípio. Mas sua conseqüência foi muito pior do que o esperado. A escassez atacou Bácari com violência e quase todas as famílias vieram para Trói. O preço do peixe inflacionou de uma maneira incrível, e ninguém queria passar fome; além do mais, muitas mulheres encontraram as “outras” e saiu porrada pela cidade inteira. Mais além do mais, Guntram, completamente bêbado, admitiu ter passado a rede nos bacarás e escapou por pouco de morrer na mesma noite. Depois que a notícia se espalhou, botaram fogo na casa do conde. O caos se espalhou pela cidade toda. A Guerra do Peixe durou três dias e duas noites.

Quando a poeira baixou, Trói estava em destroços. Quem não assumisse um lado da briga era considerado covarde e não era bem-vindo em nenhuma das cidades. Quem fosse de Trói, não entrava em Bácari, e vice-versa. Muitos pescadores tiveram que escolher entre dois amores e até hoje não sabem se fizeram a escolha certa. Outros têm certeza. Outros estão morrendo para voltar e não podem.

A ferrovia não foi construída e não se voltou a falar no assunto. Tiveram rumores de que nunca houve projeto de ferrovia alguma. Mas o problema de Bácari com Trói tornou-se folclórico e os moradores de uma cidade falam horrores dos moradores da outra.

Guntram e seu pai, depois do incêndio e ao que tudo indica, mudaram-se para Belgrade do Norte assim que a cidade foi construída. O garoto cresceu, e por fim se arrependeu do que fez, mas já era tarde.

Artigo: O Estilo Divisionista

A poesia veruniana do quinto século implorava por uma arte nova, uma arte vibrante, enérgica, e sobretudo, uma arte que não fosse óbvia e uma arte difícil, intrincada, que poucos pudessem dominar. Foi Seurat de Drift o inventor do divisionismo, um estilo de pintura técnica que envolvia o uso de pequenos pontos de pigmento colorido para formar uma imagem à distância. O estilo divisionista é caracterizado pela Névoa, um elemento onipresente em todas as suas artes. As coisas são vistas através do que parece ser uma camada espessa de nuvens: muitas vezes são o que não parecem ser à primeira vista; muitas vezes são duas ou três coisas ao mesmo tempo. Muitas vezes o artista não especifica o que pintou e hipóteses são levantadas até os dias de hoje.

A dúbia pintura divisionista foi usada como protesto no início do século por artistas dos dois pólos de Odenheim. Títulos sugestivos eram acompanhados de pinturas que mostravam duas faces, sendo uma delas uma crítica ou ridicularização de Meredith ou de um dos seus. Era como uma mensagem secreta, que poucos poderiam entender; como uma crítica ferina escondida que poupava a vida de seu criador. Muitos consideravam

É verdade que alguns divisionistas têm trabalhos considerados revolucionários até hoje. Figuras que despertam a imaginação e o subconsciente mudam ao longo das eras na concepção das pessoas. Muitos trabalhos que tornaram-se subversivos por esse processo foram destruídos pelos agentes da coroa.

Os campanários ainda não me abandonaram.

Nem em mente, nem em coração. Nossas orquídeas estavam os decorando, 'plantadas' em roseiras verticais nas quais pendiam por cima das pedras graníticas e nuas. Eu já via os raios descendo por sobre aquela capela, a luta dos adeptos contra o avantesma, a submissão e o poder. Por um momento um pensamento fulgurante e revelador sobre aquilo se apossou da minha cabeça, me fazendo ter uma compreensão inteira da situação segundo os planos de Maeve para nós. Mas como se proibido, aquele pensamento me fugiu por inteiro, deixando somente o espaço vazio atrás de si. Isso vem me acontecendo com assuntos menores há algum tempo, mas nunca uma compreensão esquecida me atingiu tanto quanto essa. Foram segundos de êxtase de entendimento nos quais eu não tive tempo para memorizar.

Os céus, brandos com as nuvens correntes de Rublo, queriam me dizer alguma coisa. Eu estava inútil para compreender, enxergando apenas o que estava dentro de mim. A viagem de volta passou em um suspiro.

Notas Acerca das Transcrições

Como bem se sabe, todos os Odes dos tomos escritos por St. Sharini foram manuscritos em titani, a língua primeva de Natal (provavelmente a mencionada na mítica história dos primeiros homens silenciosos e daqueles que aprenderam do titã de ferro), que deu origem ao dialeto comum que fala-se hoje em dia, o alvalli. A transcrição do titani para o alvalli reduz o tamanho do texto significativamente; sabe-se que no titani todas as palavras são acompanhadas de todos os seus sinônimos; a distância e a diferença da primeira e da última palavra dão ênfase ou não naquele termo. Poucas pessoas dedicam-se ao estudo do alvalli hoje em dia; aparentemente ele é impossível de se pronunciar, salvo longas orações que foram preservadas desde os Dias Antigos, provavelmente datando de menos de 2000 A.F.

Transcrição do Tomo das Eras, L


A luz veio sobre a alvorada
A alvorada veio sobre as estepes
As estepes rolaram sobre tudo que pacífico era
Em um só som majestoso e pacífico
Sobre um só tom, diapasão dos fanáticos
E em uma só luz, imutável e infalível.

Artigo: O Estilo Firrareano

Nos condados de Firrara próximos a Veruna, nas amplidões de Rublo, houve durante o quarto século um grande culto ao folclore gentio na literatura e nas artes. Fundou-se o estilo artístico de Firrara, que faz de tons escuros de verde, vermelho e negro milhares de desenhos poluídos, detalhados e estranhos, inspirados pelo subconsciente dos habitantes de um lado amplo e quase desabitado de Oden, Ayanan.

Hoje em dia o estilo firrareano está um pouco passado. Quase todo odeniano tem um quadro, um escudo ou uma cornija de lareira feito com as cores de Firrara. A época grande do estilo foi uma em que muita gente subitamente decidiu produzir peças de arte e o estilo foi um pouco banalizado. Em Rublo, hoje em dia, está havendo, contudo, uma revitalização do estilo feita por artistas verdadeiros, inspirados e imaginando cenas fabulosas, muitas vezes substituindo as cores negras pelas brancas numa licença poética ousada.

A literatura firrareana é apressada e prolixa. Contos de anos de detalhes são feitos em parágrafos e às vezes uma página é usada para descrever uma cena em uma velocidade intensa e passional. A intenção original era reproduzir alguém que tenha visto algo fabuloso e queira contar tudo sem conseguir ter por onde começar... mas o estilo evoluiu para uma espécie de êxtase poético onde todas as palavras se unem para fazer uma descrição ou uma cena perfeita.

A música firrareana, se é que houve um estilo de música firrareana, era feita com bandoneons e violões. Era música de gentios, que foi explorada por um ou outro compositor erudito (notavelmente o Monsenhor Barclay, que deve ter composto ao menos cinco odes para cada conjuração que já pisou o solo de Natal). Explorava poesia como a da literatura, limitada pelo contexto melódico da música. Nada grave a dizer. Era música tocada por poucos e cantada por muitos, que hoje em dia quase não se executa salvo em áreas de ruralidade intocada pela urbanização e organização de Rublo.

Lothair.

A colheita desta semana foi a melhor desde nossa chegada. Insisti com meus camaradas de ir, desta vez. Quase não me deixaram ir - todos queriam ir a Lothair e mostrar serviço. Até parece que não sabem que a recompensa do nosso trabalho é o nosso trabalho e nossa sobrevivência, e que o fato de um de nós ter de ir a Lothair é uma obrigação, não uma espécie de passeio.

Imagino que deva começar a planejar minha saída deste lugar. Subestimei a vigilância dos rublenses. O pior de tudo é que este povo não está interessado em dinheiro, que nada vale nessas terras. Espero que a tal 'autorização' para abandonar as terras seja fácil de conseguir, ou estarei preso aqui. O que não é uma perspectiva tão desagradável, mas eu tenho um compromisso com minha obra.

Viola veio se despedir de mim no carro: era uma picape das antigas, que eles fingem nos convencer que funciona à díesel e nós fingimos acreditar. Na verdade é uma máquina Matra, movida a madrejaspe geomântico e encantamentos de feitiçaria. A fumaça que sai atrás denuncia: é azul-química, refugo de madrejaspe. Anda bem, pelo menos, cruzando as estepes que separam nosso orquidário de Lothair. Guardei na cabeça o caminho tomando como referência as placas que ultrapassamos: confusas, mas muitas, repletas de signos heráldicos para as cidades e construções, tudo estatizado e sinalizado para uso das autoridades. Não ensinam essas coisas para quem não precisa aprender. A vida aqui é planejada.

O motorista não era de muitas palavras. Perguntou das orquídeas ("Ótimas, em grande quantidade"), perguntou se estávamos felizes ("Claro"), perguntou se alguém estava mostrando intenção de sair ("Não, senhor, claro que não").

Eu não tenho cara de farisiense, Maeve sabe que eu não tenho. Pior, eu não tenho cara de quem tenha sofrido na vida, como de fato não sofri, Maeve foi generosa comigo e com minha família. Sempre fiz o que quis, sempre estive longe do perigo, sempre antevi revoluções e sempre estive a distâncias seguras de tudo que estava acontecendo. Cédara neste último século, principalmente o sul próximo de Axúria, foi a região mais pacífica e próspera para se viver. Houveram pequenos combates nas fronteiras do norte, mas muito poucas casualidades, lutaram os cedarianos mais com máquinas e barricadas do que com pessoas. Lutaram a boa batalha, tiraram campos de cultivo preciosos dos ivoreanos, não perderam quase ninguém. Só esqueceram de devolver o que pegaram pra Faris quando tudo terminou, mas nos dias de hoje creio que isso seja só um detalhe.

No sul, tudo foi calmo. Uns poucos jovens se despediram de suas famílias para conhecer as guerras no front para não voltar nunca mais. Foi triste, mas foi calmo. Principalmente perante o caos em que estava o resto do mundo - isto ainda antes dos adventos da Décima Quinta, pouco antes do início do nosso sétimo século da Fundação.

Permiti que meu pensamento voasse. Perdão.

Os muros de Lothair eram chantelianos, altos, pedra sobre pedra em uma nova cidade feita com muros com placas de metal curado, tratado e passado alquimicamente, com esculturas de aur, monstros e bestas de um folclore moderno ressurgindo em Rublo. Não foi-me permitido ver muito. Não era cidade, ninguém viveria ali. Era um templo sendo construído sabe-se lá com que metais e riquezas (porque é uma obra monumental em ouro, azul escuro e pedras negras). Era um templo alto com torres de granito, lanças de ouro, cinco campanários altos com sinos. A mandala estaria dentro para descer um puta avantesma.

Alguma coisa deve estar para mudar.

Artigo: A Tradição dos Corais em Odenheim

Sabe-se que do ócio acontece a criação; pois, de tantos anos de paz, surgiu em Odenheim uma invejável tradição. Além de receberem escolaridade completa, noções de matemática, teologia, náutica, astronomia e história, as crianças odenianas, quase sem exceção, aprendem a ler partituras e cantar em coros. Muitas carregam a habilidade com a voz para a idade adulta - a maioria dos grandes intérpretes de Natal é composta de odenianos. A marcha 'Vermelho de Triunfo', eleita o hino de guerra de Odenheim durante as guerras da Ilha Sagrada, contém uma grande parte feita em canto coral, cantada com emoção e beleza pelos odenianos. Obviamente pode-se dizer o mesmo dos povos de Rublo, apenas recentemente separados de Oden politicamente. Imagino que há uns bons vinte anos não se ouçam bons corais aqui. O país está ocupado demais para servir-se de música e prazeres terrenos agora, como estou percebendo com esta minha pequena experiência pessoal.

O maior compositor erudito de música coral odeniano com certeza foi Lorde Hymns de Asfaloth (401 D.F. - 526 D.F.), que durante sua vida compôs três óperas e mais de duzentas peças para solistas acompanhados de chembalo. O chembalo é um instrumento clássico de Oden, um primo antigo do cravo cedariano. Seu som é violonístico e limpo, sem ataques fortes e muitas variações em dinâmica de som.

Artigo: O Estilo Chanteliano

O estilo arquitetônico odeniano mais expressivo durante estes sete séculos desde a fundação do país foi o estilo chanteliano antigo. Desde o princípio de Oden, os peregrinos viajantes de Outros Mundos, principalmente os artistas, buscaram um retorno às memórias de seus lugares de origem, com monumentos enormes, grandes castelos, estátuas que levam eras para serem construídas e padrões intrincadíssimos esculpidos em metal, muitas vezes metais preciosos. Fascinados com a abundância de ouro em Natal, os ourives de Outros Mundos legaram muitas relíquias maravilhosas ao povo de hoje, muitas das quais guardadas em museus e palácios.

A palavra que resume o estilo chanteliano é 'grandioso e abundante'. É um estilo que celebra o apogeu de uma civilização, a fartura e a extravagância; formas sinuosas e primores esculturais são sua característica mais marcante, bem como o uso de metais preciosos para quase tudo, desde muralhas e paredes até estandartes e armas. Os artistas que seguem o antigo movimento chanteliano pensam sempre em impressionar com proporções.

O Palácio Oceânico, casa do Templo de Lodis e do Conselho Real Odeniano é um exemplo expressivo de arquitetura chanteliana, com torres gigantescas, um relógio que pode ser visto a quilômetros de distância, e um tamanho até hoje desconhecido por ter sido construído mar adentro. Boa parte de suas torres fora feita de prata; muitas de suas lanças e espigões têm pontas de diamante e prata. Todas as paredes internas são decoradas com pinturas harmoniosas que ocupam todo o espaço disponível. As paredes externas são, em sua maior parte, esculpidas em baixo-relevo com figuras míticas de heróis e monstros, reais ou imaginados.

As espadas de cerâmica da velha-guarda odeniana também são um exemplo de estilo chanteliano, na medida que procuram imitar padrões desenhados no metal com cerâmica alquímica e seguem, bem de perto, os padrões estéticos da época.

A música daquele tempo e de muitos compositores contemporâneos também pode ser considerada de estilo chanteliano. As músicas chantelianas usam harmonias simples e tocantes em formações orquestrais imensas. Muitas vezes essas músicas têm temas que se repetem e interlaçam. A maior parte das peças individuais é de grande duração - muitas atingem mais de quatro horas ininterruptas - e elas eram compostas sobretudo para celebrações como nascimentos de herdeiros, coroações, cerimônias de cavalaria e condecorações militares.

A ópera da Tragédia dos Djins, uma das mais encenadas nos teatros odenianos, pode ser considerada música chanteliana com suas pouco mais de duas horas de duração e seu dueto de cantores com temas próprios.

Sobretudo, o estilo chanteliano prospera através das eras e é muitas vezes imitados por artistas estrangeiros. Sobreviverá enquanto durar o Palácio Oceânico e todas as obras por ele inspiradas.

Artigo: A Cidade de Wolfram

Wolfram é uma das mais setentrionais cidades de Odenheim, no extremo norte junto com Paris, casa da maior parte dos nortistas, lar de uma aristocracia esquecida e tristonha, sustentada por taxas e completamente improdutiva salvo uma armoraria levada por um único armeiro centenário que vez ou outra presenteia a capital com uma espada superior. Wolfram luta para manter-se presente e atual num país onde os aristocratas cada vez mais perdem o valor perante a Quimera.

A aristocracia de Wolfram é formada pelas casas Hallein e Mauthausen, longas aliadas que hoje em dia são consideradas uma só família. Enquanto bons governantes, vários Mauthausen se tornaram feiticeiros durante a guerra. Conta-se que, após expulsarem os ivoreanos de suas terras, fundaram uma vila nas colinas nevadas de Isfeld onde pudessem viver em paz com seus pecados. O pavor contra os feiticeiros da Casa Mauthausen foi grande o suficiente para que o povo unisse forças para forjar uma espécie de gládio de proteção (O Gládio Místico de Fulram). Segue um extrato dos textos de Granville acerca do assunto.

"As forjas do Norte setentrional de Odenheim começaram a produzir estes gládios copiados dos originais lodianos quando houve (ao redor de 730 D.F.) um surgimento drástico de feiticeiros na casa Mauthausen, que começaram a ameaçar a segurança dos condados nobres. Naqueles anos, retirou-se muita prata das minas nevadas próximas a Páris e Wolfram, e quase todo o estoque foi gasto na composição das espadas Fulram (cujo nome foi tirado de uma prece antiga à deusa contra os feiticeiros, vere stratos fugit fulram).

De tamanho e peso pequenos, muitas destas espadas eram carregadas pelas filhas dos aristocratas, às quais eram ensinados os fundamentos da luta com espadas, para que elas pudessem se defender de raptos e ataques místicos. Como os feiticeiros muitas vezes atacavam a partir de uma posição oculta, firmou-se o hábito de atar uma lâmina de espada Fulram à uma das tranças da menina, para que a mágica pudesse ser defletida, mesmo pelas costas."


Dos textos de Granville conclui-se que os Mauthausen que não se exilaram caíram na criminalidade para sobreviver. De fato, houve um pedido de socorro feito de Wolfram em 714 D.F. que nunca foi respondido. Diz-se que os Mauthausen de Isfeld vieram em socorro do povo mais uma vez contra os seus, e destruíram ou levaram para a cidade deles todos os dissindentes. A casa Hallein hoje em dia detém todos os gládios Fulram.

Neva muito em Wolfram; durante a maior parte do ano, os mares ao redor de suas estepes ficam cobertos por gelo; o solo fica enregelado e a grama não nasce; por isso, qualquer atividade primária produtiva é desencorajada pelas autoridades. Os Mauthausen foram grandes joalheiros e caixeiros-viajantes no passado, mas a tradição está esquecida desde o início da guerra. Os Hallein são uma família grande e nobre de nascença, de uma etnia misturada com os ivoreanos, de cabelos escuros e lisos. Suas várias ramificações de famílias também têm cabelos pretos, indicando a prevalência dos genes ivoreanos.

Os odenianos de cabelos pretos são chamados 'nortistas' pela maioria das pessoas justamente por causa dos Hallein. Diz-se que a ascendência ivoreana deles vem da longa estada de aristocratas de Yansar durante um cerco de rebeldes ao redor do século 4. Os aristocratas ivoreanos abrigaram-se diplomaticamente em Wolfram por mais de 140 anos. Muitos casaram-se com as nobres locais e tiveram filhos mestiços. A cor parda da pele se dissipou ao longo das gerações, mas os cabelos negros permaneceram até hoje entre a maior parte da população nobre de Wolfram.

Leitura: Câncer em Capela

Isto é parte do relato de um adepto capelita que presenciou a retomada feita por Meredith na cidade com o prometido possuído de Câncer.

" (...) Os pardos têm um código que rege a maneira como eles guerreiam: eles matam civis. Não de maneira 'acidental' ou 'incidental'. Matam civis ordenadamente, oferecendo-lhes perseguição e morte rápida com tropas de solo, ou tiros e morte rápida com arilharia vinda da costa. Poupam os adeptos com medo de ofender Maeve quando os avistam e identificam. Interrompem os tiros e despacham tropas de solo para capturar, prender e desabilitar o sacerdote. Como eu. Privam-nos de morrer junto com nosso povo e fazem-nos vê-los matando a todos.

Para os pardos, que têm uma cultura ancestral de guerra, combater é um aprendizado, tanto como ler livros. Não nos atacam idiotas armados tampouco aldeões amedrontados. Atacam-nos homens inteligentes que sabem o que estão fazendo e reagem a qualquer mudança.

Naquele dia estavam todos ansiosos. Não pelas próprias vidas, mas ansiosos com curiosidade quase acadêmica. Meredith viria com o incarna retomar Capela, e eles seriam os que estariam lá para defender o território. O primeiro ataque de incarna havia sido nas Ilhas Sagradas e obtivera resultados espetaculares, mas eles não sabiam disso. O Império Ivoreano havia impedido esta informação de se alastrar e restava neles uma dúvida: como iria vir (voando, pela água, por solo), e como poderia ser morto (com tiros, lanças, milagres).

Ocupando Capela estavam quase quinhentos homens densamente armados, com boas munições e lanças consagradas, além de duas naus encouraçadas ivoreanas, a Nau Obi e a Nau Biblos, mantendo nossa casa e fortaleza sob canhões e ainda terminando de derrubar o que nosso povo levantou ao longo de séculos. Nos prenderam como reféns nos postos de vigilância (hoje chamados Monte Vigílio) e nos deixaram com uma vista privilegiada do que estava acontecendo. Mal nos falávamos. Nossos olhos estavam presos em suas formações.

O ataque estava atrasado dias segundo o que a inteligência ivoreana previa. Quando virou uma fase da lua, a comunicação dos batedores e helicópteros estava cortada com os rádios dos ocupantes de Capela. Quando começaram a pensar em prosseguir, a terra começou a tremer.

Uma coluna de luz fez surgir um ser alado sobre a Nau Biblos, enquanto uma tempestade distante que se abriu revelou a frota odeniana chegando por mar. O ser repousou no ar evocando a efígie luminosa de Câncer, uma mandala que tomou os céus em luz. Não houve tempo para pânico na nau. Os ivoreanos em terra viram aquela luz descer do céu como uma coluna de fumaça e a tripulação já estava morta, consumida por luminosidade, por dentro de seus corpos. A luz jorrava para fora de suas bocas e olhos como se fossem djins feridos e retornava às asas do incarna. O corpo do prometido mal era visto no meio da torrente de luz que ia, tomava vidas em massacre, e voltava. Pior. Era luz, luz divina. Antes de prosseguir para a Nau Obi, o prometido fez de uma das asas uma espada de centenas de metros e golpeou transversalmente a Nau Biblos, a explodindo com um único impacto de som incrível que incinerou os mortos e levou as vidas das tropas que vinham em carga contra ele.

Imediatamente, a Nau Obi começou a recuar e o incarna voou para cima da cidade. Nesta altura já havia fogo aliado vindo da frota impedindo o avanço das fragatas de guerra ivoreanas, e a infantaria aliada com brigadas da Pristina invadia Capela por terra, aproveitando-se do terror dos ivoreanos para libertar os sobreviventes (como nós).

Não houve sequer um golpe de espada naquela noite, pois com um tremular de suas asas o incarna ceifou os soldados que já desejavam estar mortos há muito tempo. (...)"

Artigo: Sobre Prometidos e Incarnas

Tratarei aqui somente de fatos, e não abordarei histórias fantasiosas criadas por mentes oprimidas pela guerra, nem apoiarei discursos de governantes tomados pela soberba do poder, levantando idéias falsas. A profecia dos incarnas de 696 D.F. jogou os países uns contra os outros e está sendo nossa ruína até hoje. É possível que, se Rublo não tivesse atirado fronteiras afora suas riquezas, Odenheim moveria uma invasão em massa para 'recuperar o território perdido' com o auxílio de seus adeptos de Câncer.

São os incarnas conhecidos até hoje: Iblis, no Planalto de Lorena; Câncer, a norte de Céus Partidos; Ômega, próximo ao templo de Asperi; e Shu, quase diretamente sobre Margrave.

Não existe o processo de submissão para um incarna. Uma vez encontrado e chamado, o espírito deformado projeta sua Mandala Prima imediatamente - me disseram que parecem rodas dentadas ou rosas com espinhos. Ao que tudo indica, o incarna, a estrela argêntea, é uma estrela serva da guerra. Todos os domínios encontrados pelos adeptos que foram levados à sua luz provocavam a destruição, a desgraça, a miséria.

Os adeptos encontraram duas maneiras de usar o poder do incarna. A primeira delas é aprender suas orações como fariam com qualquer altíssimo. O poder dos milagres do incarna é claramente superior e mais perigoso, superando até mesmo a destruição provocada pela maioria dos feitiços a não ser aqueles lançados pela união de um grupo de hereges.

A segunda maneira, equivalente a invocar o avantesma de um altíssimo puro, é encontrar o 'prometido' do incarna. O prometido é uma pessoa que nasceu após a estrela surgir, que tenha sangue forte, e que tenha nascido fisicamente sob a estrela (como Keshal de Lorena, que nasceu num campo de batalha onde hoje é o Palácio de Iblis) ou em conjução astrológica com sua luz. O incarna foi uma das armas de guerra mais poderosas que o mundo já viu. O incarna de Câncer possibilitou a Dário Meredith alterar o destino de uma guerra que já estava praticamente perdida, e muitas vidas de jovens foram perdidas até que o prometido fosse finalmente achado pelos astrônomos odenianos.

O incarna pode manifestar-se em qualquer pessoa de sangue nobre quando invocado - basta que a pessoa engula um fragmento da estrela, facilmente invocado pelos adeptos que conhecem o procedimento. O incarna desperto em um corpo que não é o de seu prometido tem apenas uma parte pequena do poder total, que mesmo assim pode ser devastadora, como o cardeal Bran possuído por Câncer que incendiou o Palácio Oceânico, e como o hierofante Ludgast de Margrave que, possuído por Shu, derrotou Rama, líder do clã feiticeiro Fafnir. É comprovado que o fantasma do incarna sofre quando invocado em um corpo que não é o do prometido (principalmente quando a pessoa nasceu antes da Profecia), e por isso, que o incarna abandona o corpo da pessoa o destruindo pouco depois de possuí-lo, levando seu espírito junto.

A invocação do incarna empalidece qualquer avantesma. O prometido sobe nos ares, erguido por uma força fantasmagórica, e de seu corpo crescem asas vermelhas e translúcidas, maiores que o mundo, vistas de longe como colunas titânicas de fumaça. O céu parece cair quando o prometido se move e a terra treme quando ele grita; pessoas morrem, consumidas por dentro, quando ele as toca e muitas vezes, o prometido não precisa sequer tocá-las: seu olhar faz sair da terra aguilhões gigantescos de pedra, e suas mãos fazem cair dos céus relâmpagos maiores do que os de Buriash.

Artigo: A Universidade Roch de Karaouine

Lorde Roch foi um mestre celestial (um adepto e astrônomo) devoto de Karaouine que, depois de muito andar pelos templos do mundo e aprender com os povos e pelas suas próprias observações, escreveu um grande tomo sobre física, matemática e astronomia que denominou Alkaraouine, que ficou conhecido como "O Livro de Todas as Ciências". Cinco anos após sua morte, o Imperador Remus II mandou que fosse erguida, junto ao seu túmulo no templo do altíssimo que seguiu durante toda a vida, uma universidade que levasse seu nome e onde se estudassem as ciências que o estudioso tanto amava.

Galen Melville Roch viveu em tempos de paz, mas tempos duros, quando o frio extremo e a falta de madeira para aquecer as forjas e as casas castigavam Odenheim. Nasceu pobre nas periferias de Lodis. Seus pais passavam o dia fora, trabalhando e afora a escola, ele não tinha mais o que fazer. Naquela época, os meninos da idade dele interessavam-se em caçadas, poesia, livros de romance e o cultivo de flores (que na época era uma espécie de febre quando descobriram o pólen de manchestra). Ele espreitava tipógrafos, roubava jornais para ler escondido (ler jornais era impensável para meninos), e fazia pequenos serviços na Universidade Central de Lodis para poder ouvir, atrás de portas, as lições de matemática que eram dadas aos entediados e desinteressados aristocratas.

Quando fez quinze anos, Galen já tinha a simpatia de alguns professores na Central por sua perspicácia e por suas respostas rápidas. Um deles, Sr. Merril, decidiu levá-lo em uma excursão junto com seus alunos. Galen pôs seu melhor chapéu e um colete surrado que seu pai havia lhe dado, e foi. Visitaram o templo de Karaouine. Galen não ficou muito impressionado - achava que o altíssimo dos números e da exatidão estava mal representado por um templo que não tirava ninguém das ruas para ensinar coisa alguma.

Quando olhou para os céus do lado de fora, ele despertou para uma consciência nova, estranha, e analítica que lhe tirou a paz para o resto da sua vida. Virou o rosto uma última vez para o templo e voltou com os alunos de Merril. Era uma maldição. Olhava para qualquer coisa e sua cabeça começava a processar números e hipóteses. Por fim, descobriu que podia contar imediatamente e com precisão absoluta qualquer quantidade que pudesse enxergar.

Merril ficou fascinado com a nova habilidade de Galen, que contou a todos o que tinha pensado do templo e da dor que havia sentido quando saiu. Os ministros da época imediatamente destinaram fundos à ampliação da mandala de Karaouin temendo que o altíssimo estivesse insultado pela forma de seu templo. O poder de Galen foi usado várias vezes para divertir aristocratas, mas o mais importante: Merril lhe conseguiu uma bolsa para a Central e ele foi, por muito tempo, o recorde do estudante mais jovem que ingressou na faculdade, com quinze anos.

(esse recorde foi batido por Lorde Zurich de Reinfeld em 613 D.F., que ingressou na Central com quatorze anos para cursar teologia e filosofia. Odeio prodígios.)

A escalada acadêmica de Galen foi rápida após este fato. Diziam que seu intelecto era injusto porque não se dedicava como os outros e ele foi alvo de muitos truques cruéis e pequenas traições durante sua formação. Não teve amigos e nunca pôde confiar em ninguém. Seu benfeitor, o prof. Merril, morreu pouco depois de lhe conseguir a bolsa levando consigo a última esperança que Galen tinha na humanidade.

Sem ter criado laços, Galen viajou como investigador real. Interessou-se por astronomia por quase vinte anos e teve uma infusão da terra tardia aos quarenta, tornando-se um adepto misticamente fraco, porém dedicado, de Karaouine. Era um gênio científico e, no comando de uma pequena comitiva de investigadores reais, mapeou um grande número de estrelas em além-éter.

Escreveu o livro aos setenta anos, falando de ciências junto com relatos tristes de suas experiências pessoais. Morreu sozinho em Veruna em 366 D.F., com 89 anos de idade, vitimado pela pneumonia.

Artigo: A Cidade de Gradec

A noroeste de Vercel, Gradec é uma quieta cidade de porte médio da costa oeste de Oden. Seu cartão-postal é Hildesheim, um castelo de pedra ao redor do qual a cidade foi construída. Antigamente a moradia de nobres da época chanteliana, hoje o castelo é usado como uma espécie de hall da cidade, que vive dos seus herbários e de duas grandes forjas rivais. Neva pouco em Gradec, apesar de fazer muito frio. O povo supõe que Vercel chame toda a neve para si e agradece a Maeve por isso, pois nenhuma erva gosta de neve.

Gradec é formada por três distritos: Landes, Schauspiel e Graz, sendo Landes o mais externo, Schauspiel o distrito do castelo, e Graz um distrito mais ao sul, que foi recentemente ocupado por cavaleiros bandidos.

Landes é o distrito comercial de Gradec, tendo vários quarteirões diariamente abertos com lojas de perfumistas, vendedores de ervas, comerciantes de espadas, antiquários e marcenarias. Frente a frente na calçada principal de Landes ficam Murinsel e Kunsthaus, grandes forjas especializadas em motores com corpos feitos de ferro. Desde o início do reinado de Meredith, as duas forjas competem pelo domínio da produção e venda de carcaças para motores para a capital.

Em Schauspiel ficam a maior parte dos herbários, grandes grades de ferro onde são plantadas trepadeiras e ervas medicinais vendidas para os alquimistas de outras cidades. A constituição de ferro das grades é essencial: as ervas lentamente consomem o ferro para crescerem assustadoramente rápido. Muitas vezes, em uma semana, as trepadeiras recém-plantadas atingem o topo das grades e precisam ser colhidas. Anualmente todas as grades são trocadas em uma celebração que dura duas noites.

Graz foi um distrito residencial construído em píeres sobre um lago, sempre imerso em névoas. As casas lá eram feitas de tijolos e tinham janelas de vidro colorido, geralmente verde ou vermelho. Com a industrialização, a própria população abandonou suas casas para viver mais próximos da cidade. Quando a área começou a ser ocupada por cavaleiros bandidos, a aristocracia da cidade decidiu não interferir por temer uma retaliação, mas imediatamente começou a passar informações para a capital.

A torre do relógio de Hildesheim abriga a capela para Spire, um altíssimo quase inexplorado cujos domínios confluem em misticismos arcanos complicados. Seus adeptos são capazes de invocar torrentes de frio, aromas que afetam milagres, refletir e retribuir mágicas e cunhar incensos de efeito moral.

Artigo: Nínives

Os nínives, Nineveh argania, são pequenos roedores brancos de pelos longos e olhos perspicazes. Eles se caracterizam por suas longas caudas ornadas com uma única pluma na ponta, que exibe cores como magenta escuro, verde e negro dependendo da região de onde o níneve provêm. Alimentam-se de frutas, as quais conseguem escalando as árvores com agilidade. O nínive vive bem nos climas frios de Rublo, mas migra eventualmente para o sul em tempos invernais, quando a temperatura fica baixa demais para as frutas e, conseqüentemente, pra ele.

Os parentes maiores dos nínives, os ulmos, Nineveh ulmus, vivem nas árvores maiores que crescem em climas temperados como os de Cédara e sul de Faris. De apetite voraz, com a eventual destruição de seus habitats naturais para a construção de cidades, são forçados a se tornarem uma espécie de salteadores urbanos. Os ulmos são escuros, de coloração marrom ou cinzenta (sempre cinza após saírem em bando de uma chaminé para o terror do dono da casa), e suas plumas normalmente são pretas ou cinzentas. Seus dentes são muito mais desenvolvidos do que os de seus primos menores, e eles atacam despensas e armazéns em bando. Se interessam unicamente por comida mas têm um hábito peculiar de seqüestrar itens que julgam valiosos. É sabido que quando uma 'oferenda' de nozes e frutas é feita aos ulmos, sendo deixada no mesmo lugar em que o item foi roubado, eles devolvem o item seqüestrado ao seu dono e abandonam o lugar para sempre.

Artigo: A Acácia Branca de Rublo

Existe uma espécie de árvore predominante nesse lugar. Ela se chama acácia branca, canan ou longas-folhas, como é conhecida em Cédara. É uma árvore alta e espinhenta que dá as flores mais brancas que eu já vi. Contra a neve, a flor ganha por pouco na brancura por mais incrível que isso possa parecer. Dentro das flores há uma espécie de suco transparente e grosso, dulcíssimo e semelhante em gosto à baunilha, que pode ser tomado com leite ou usado em concoções alquímicas para deixá-las tragáveis. Se não crescessem também em Cédara, os alquimistas de lá estariam falidos porque ninguém conseguiria beber aquelas químicas brabas sem botar tudo pra fora depois.

Costumava andar de bicicleta entre essas árvores. Hoje eu vejo que eu corria um belo risco de bater nas raízes e me estoporar no chão. Quando se é jovem, parece que alguns problemas simplesmente não existem. Hoje em dia eu não conseguiria sequer me equilibrar numa bicicleta... quando era jovem, eu andava de bicicleta, brigava e esgrimia, tudo muito bem. E pensar que me tornei o que me tornei, um senhor grande e sorridente devotado aos meus escritos.

Hoje, Viola colheu algumas destas flores e as secou para fazer uma guirlanda como as que se fazem em Faris, o país dela. Andou até bem longe de nosso assentamento, parecendo prestar uma homenagem ao ex-marido, talvez a última delas. Desconfio que Viola olha para mim enquanto medito e escrevo minhas memórias. Este velho senhor ainda tem seu encanto!

Artigo: A Flora

Imediatamente depois dos anjos, Maeve fez os mundos para que vissem, e permeou-o com seres de iluminação e serenidade que sofreriam junto com os povos ou floresceriam com eles. Estes seres assumiram formas naturais e se tornaram raízes que se cravaram no solo de todos os universos, tornando-se galhos, casca, frutas, grama, grandes árvores, troncos, flores e tudo o mais: flora.

Nos círculos escolásticos elas são chamadas de 'seres de vazio'. Suas consciências formam o espírito dos mundos e elas refletem, sofrendo ou florescendo, as ações da civilização. A flora é grandiosa quando os homens a fazem assim, e triste e mirrada quando decepcionamos nossos propósitos. Os longinianos descobriram isto antes de todos nós. Maeve para eles também é uma árvore, imutável e eterna.

Não existem conjurações em forma vegetal, ao contrário do que se acredita. Também não existem árvores que se movem, que pensam, odeiam e assombram viajantes. A natureza não se vinga de nós quando a insultamos; ela sofre conosco, e nos faz sofrer completamente sem esta intenção. Ela não precisa sentir vingança para que sejamos punidos. Ela está em nós e nós a somos.

Primeiros dias.

Nos organizamos da seguinte maneira:

As crianças colhem as orquídeas boas. Boas são as que apresentam as cores púrpura e verde simultâneas, ou as orquídeas azuis brilhantes. As outras ainda têm de maturar.

As moças preparam os buquês com esmero.

Os homens (somos em maior número) cuidam das ervas daninhas e mantém as orquídeas saudáveis, as regando quando necessário e as protegendo do sol excessivo trazendo toldos.

Na primeira semana conseguimos carregar dois carros razoavelmente cheios com os buquês. O aroma parece ter agarrado na minha pele e cabelos e imagino que nunca mais vai me abandonar. Tornei-me destro o suficiente com uma tesoura para não cortar acidentalemente as orquídeas durante minhas distraídas elucubrações.

Vimos o adepto veruniano passando ao longe duas vezes neste tempo. Ele usa um robe castanho e um grande chapéu que torna a sua silhueta inconfundível no morno sol da tarde. Anda despreocupado com a certeza que nada requerirá sua ação imediata, ainda que sua presença a todos tranquilize. Dizem que ele é capaz de invocar o avantesma de Idun e curar as feridas mais graves fazendo seu altíssimo derramar uma lágrima, e dizem que suas palavras são serenas como a noite mais cálida. Nunca tivemos oportunidade de falar a ele apesar da maioria dos aldeões querer suas bênçãos. Ele sempre passa longe o suficiente para que nós não nos aproximemos, e perto o suficiente para sabermos que está nos protegendo.

Outra personagem que conheci foi Viola, uma viúva, mãe de cinco crianças adoráveis. Ela faz buquês belos como si mesma, os enfeitando com flores silvestres que colhe por conta própria do chão. Foi a última a subir no carro para Lothair e voltou com histórias de uma cidade de muros esculpidos com grandes bandeiras azuis bem escuras, uma cidade nova e magnífica.

No próximo carro, eu serei quem irá para Lothair acompanhar o curso dos buquês. Também pretendo falar com nosso guardião adepto, e da próxima vez ele não me escapa.

Leitura: A História de Hepzibah, parte 3

Hepzibah seguiu a direção em que Nila nascia. Ele não esperava prosseguir sem ter de lutar por muito tempo e estava certo. Felizmente havia agarrado duas boas cimitarras em sua saída expedita e considerava-se pronto para fugir ou morrer lutando. Não seria capturado novamente, não se pudesse impedir, não se sua própria espada pudesse alcançar seu cinerário coração antes que ele fosse preso ou nocauteado. Tinha aquilo como um mantra constante na mente.

E muitos sóis viram seus passos antes que finalmente desfalecesse de cansaço. Andou eras de mente sob os céus dourados de Ivoire, cortando caminho por dentro de matagais altos à golpes com as lâminas, mas por fim deitou-se sem que mais pudesse prosseguir. O poder cobrava seu tributo e ele se sentia vazio de energias, drenado.

Seguida à sua força, sua visão e consciência se esvaíram num sono letárgico que durou dias. Despertou na sombra da noite e com frio. Agora...

Não conseguiu se levantar.

Seus músculos eram pedra. Estava permeado com uma maldição. Capturado dentro de seu próprio corpo. Hepzibah fechou os olhos para gritar contra as estrelas e contra seu destino. O som que urgia era mudo, um silvo inaudível, e ele chorou marcando o rosto com lágrimas. A aura vermelha e verde ergueu chamas espirituais de metros sobre ele. Aquele poder não era seu. Sinalizava sua carcaça. Em minutos chegaram, cavalgando celados.

Hepzibah desejou estar morto, desejou muito estar morto. As cimitarras, inúteis, não serviriam seu propósito agora. Seu corpo foi recolhido sem resistência e em algum tempo, sua consciência foi se recolhendo à escuridão na cavalgada noturna que o levava de volta para seu inferno.

Artigo: A Espada da Velha Guarda

A chamada Espada da Velha Guarda, usada com duas mãos, com um único fio, larga, leve e poderosa, surgiu quase cem anos após o Gládio Odeniano a pedido de Remus Meredith II, que foi imperador de Odenheim de 377 D.F. a 459 D.F., constituindo um dos maiores períodos de regência ininterrupta da história do país. Inicialmente, estas armas eram feitas exclusivamente para os Elmos Escarlates, em medidas e formato específico pedido por eles; com o tempo, no entanto, artesãos independentes começaram a produzir réplicas das espadas mais famosas para aventureiros e para venda em outros países, de qualidade quase sempre tão boa ou melhor do que as forjas imperiais.

A Espada da Velha Guarda era feita de cerâmica alquimicamente tratada, esculpida em formatos alegóricos segundo as vontades do cavaleiro e (segundo registros históricos) enviada a Longinus, onde reptantes feiticeiros lhe talhavam um glifo que lhe conferia um efeito mágico. Remus nunca tolerou a feitiçaria – mas permitia que os efeitos fossem usados fora dos limites de Odenheim.

Com o aumento da vigilância internacional contra a feitiçaria e a recente extinção do clã Fafnir em Longinus, é possível que não hajam Velhas-Guardas contemporâneas que tenham sido objeto dos glifos feiticeiros. Ferreiros menos escrupulosos incluem imitações toscas dos glifos originais nas lâminas quando eles têm o desenho à disposição. Já vi muitas delas com glifos simplesmente inventados e completamente não-funcionais.

É possível que a nova sagração dos Elmos Escarlates e de outras brigadas antigas venha a requerer uma nova coleção de Velhas-Guardas; por enquanto, as ótimas armas de cerâmica ainda não perderam fio ou funcionalidade.

Artigo: O Gládio Odeniano

O gládio odeniano é uma espada pesada, curta e levemente desbalanceada, usada com as duas mãos; de cabo longo, guarda praticamente inexistente (ausente na maioria das espadas), e fio dos dois lados; ela foi, muito provavelmente, uma das primeiras armas criadas em Odenheim, para sustentar um contingente de jovens aristocratas ávidos por um esporte marcial emocionante. Os primeiros gládios odenianos datam de aproximadamente 430 D.F., no reinado da Imperatriz Michaela Chantel.

A fama de ineficácia do gládio odeniano deve-se à arte pobre e mecânica que foi ensinada aos cavaleiros da Ordem Pristina (que era uma ordem de elite na época), na verdade a única que dedicava-se ao manejo desta arma. Acredita-se que o estilo tenha sido a primeira escola nacional de esgrima; esta afirmação, vigente em muitos livros e ensinada a muitas pessoas, é falsa. Investidores particulares financiaram a viagem de Ganix, um lendário mestre-de-armas longiniano da época, para que ele criasse um manejo poderoso para a nova arma. Tenho minhas suspeitas que os kishis reuniram-se em conselho e orientaram Ganix para que ele criasse o estilo menos efetivo possível, retardando por séculos o progresso marcial de Odenheim.

Anos não bastaram para provar aos obstinados militares odenianos que o estilo era pouco eficiente. O estilo do gládio curto odeniano foi enterrado junto com o fim da Ordem Pristina, quando Dário Meredith, o Duque Negro de Lodis assumiu o trono de Odenheim e enviou quase todos os cavaleiros restantes às guerras nas fronteiras das Ilhas Sagradas, os perdendo rapidamente para os batalhões ivoreanos.

Imagino que seja pouco provável que haja um renascimento do gládio odeniano, a não ser em outro estilo terminantemente diferente. Mesmo os cavaleiros-bandidos, órfãos da Pristina, não fizeram renascer este estilo, usando, em sua maioria, Espadas de Aventurina (de manejo natural, prático, efetivo) ao invés dos Gládios.

Leitura: A História de Hepzibah, parte 2

Este fato nunca foi registrado, mas tenho indícios de que tenha sido verdadeiro, além de obviamente ser a única explicação lógica para os fatos que dispomos como reais.

Hepzibah então ergueu os olhos para o céu e um relâmpago único e maravilhoso caiu para se congelar como um clarão por cima da arena; fumaça negra começou a emanar do corpo de Hepzibah e a primeira onda feiticeira que partiu dele arrebentou as grades da arena, jogando-as em cima do público em desespero. O garuda partiu voando imediatamente.

A segunda onda de feitiçaria arrebentou o solo, seus grilhões e encheu de energia seus braços.

A terceira o reavivou completamente e destruiu os muros de contenção da arena. Nessa altura a platéia estava em fuga frenética. Em meio a destruição, Hepzibah brilhava com uma aura fraca que nunca se soube se provia de alguma divindade, mas seus olhos, eles sim, emanavam um jorro de chamas brancas, como lágrimas, como sangue, finalmente, tanto tempo depois de terem sido perfurados.

A quarta onda feiticeira abriu-se como uma flor de seu corpo e arrebentou os ossos dos guardas que vieram atrás dele (com coragem tirada sabe-se lá de onde).

A quinta purificou seu corpo e lhe deixou completamente sem poder ou força além do que ele sempre teve. Hepzibah ergueu os olhos e viu somente sua fuga lhe esperando, apesar de saber que seu destino nunca mais seria solitário e pacífico como sua vida uma vez fora.

Então Hepzibah fugiu. Fugiu da arena e da metrópole apesar dos guardas correndo em todos os cantos. Quando chegou na saída da cidade, quase não acreditou que estava intacto. Estava enxergando - em lampejos, em vermelho. Mas estava enxergando.

Por dias e noites Hepzibah cruzou Ivoire evitando as pessoas e passando longe das cidades. Enfiou-se através de uma savana árida onde imaginava que não poderia ser achado. Ele só queria... ele não sabia o que queria. Antes de querer qualquer coisa, ele precisava sobreviver. Também não sabia o porquê. Não havia nada em seu coração.

Leitura: Os Idos de Rublo

Dezoito anos após sua proclamação de independência, elevações tenebrosas nos impostos e pequenos conflitos localizados entre as ordens de cavalaria verunianas e milícias mercenárias contratadas por aristocratas, Lady Iamni declarou a República Nova de Rublo um país comunista. A resistência por parte dos nobres foi imediata e terrível, e durante três noites, Rublo conheceu o caos na forma de ataques localizados e terrorismo. A própria Lady Iamni foi atacada em sua residência em Veruna e precisou ser hospitalizada. Maynard, homem de confiança de Iamni e um adepto pródigo, retribuiu o ataque a Iamni assassinando, com um sortilégio vermelho, Agilard Indeever, um dos líderes do movimento de resistência, meio-irmão do Marquês Wieland Indeever. Em resposta aos protestos e como retratação a Odenheim pela morte de Agilard Indeever, Iamni deu permissão aos aristocratas para que abandonassem Rublo antes da Grande Reforma e da distribuição dos bens. Muitos mudaram-se para Cédara e Odenheim. No final, a promessa de tantos anos atrás se cumpriu.

O Rei Meredith, ao contrário do esperado, não interferiu no processo. Apesar das tensões e de alguns ataques sanguinários na fronteira dos dois países que partiram de iniciativas não autorizadas tomadas por Lorde Fabian, capitão da brigada dos Leões Brancos, Meredith tratou Rublo com relativa indiferença, inclusive permitindo que alguns acordos fossem fechados pelos importantes dos dois lados.

Rublo almejava a auto-suficiência, e a teve em poucos anos, abençoada pelo clima e pela disposição do povo para a agricultura, que se tornou a atividade primária de renda em todo o país. Outros cargos atribuídos ao povo foram os de guardiões, andarilhos, mensageiros, comandantes de barcos, escritores e batedores. Rublo caminhava para uma utopia de paz e trabalho. O excedente em sua produção, ou seja, o que não era consumido imediatamente, para não criar esperanças de escambos no povo, era imediatamente confiscado e doado à famílias carentes em Faris. Junto vinha o convite de partir para Rublo e trabalhar nas lavouras, uma vida simples com recompensas simples. Funcionou para muita gente.

Em 728 D.F., foi eleito regente Terrance Valegris, um homem querido por seus amigos e um trabalhador incansável. Determinado a seguir o exemplo de Maynard e nunca deixar o ideal cair, Terrance queria dar conforto e qualidade de vida ao seu povo. Enquanto crescia ele viu muitos talentos sendo desperiçados no trabalho, músicos, idealistas, poetas sendo impedidos de fazer o que queriam e obrigados a trabalhar junto com todos. Ele queria permitir às pessoas trabalhar menos, para que pudessem perseguir mais seus próprios talentos, ler, aprender, descobrir coisas novas.

Em conselho, ele conseguiu autorização dos patriarcas de quase todas as regiões para vender o excedente agrícola para Cédara e começar a investir em pesquisa, fertilizantes, máquinas simples e mão-de-obra estrangeira contratada. Foi a primeira vez que Rublo teve algum contato oficial pacífico com o mundo externo (fora transmissões piratas de rádio) depois de 11 anos da declaração de portas-fechadas feita por Iamni. Terrance Valegris entrou num navio pela primeira vez na vida para se encontrar com os diplomatas cedarianos e negociar os preços.

Sentiu-se entre os lobos, encurralado por boas-maneiras e títulos. Era um homem muito simples e não tinha roupas para vestir além das que usava normalmente. Os diplomatas cedarianos inicialmente tomaram-no por um empregado. Viera sozinho, assim como voltou, com a cabeça cheia de promessas. Os cedarianos prometeram máquinas maravilhosas e compostos alquímicos que permitiriam a uma única lavoura de algumas quadras alimentar várias famílias. Todos eles conheciam muito mais de agronomia do que o próprio Terrance. Ele fechou um acordo de que entregaria cinco navios carregados de produtos agrícolas todo dia (que era um pouco menos que o excedente calculado por eles na última recontagem).

As famílias carentes de Faris teriam de esperar: o conforto que o povo de Rublo merecia viria primeiro. Terrance soube que Cédara parou de importar ervas de Longinus e verduras do sul de Faris, sendo que o fim dos negócios com Longinus quase significou tiroteio contra os kishis. Soube também que boa parte de Cédara passaria a depender dos produtos agrícolas rublenses.

Tudo corria maravilhosamente bem. Os compostos de fertilidade alquímica cedarianos, pós que vinham em grandes sacos e que foram espalhados sobre todas as lavouras, funcionavam maravilhas. No quinto mês e junto com a chegada de algumas máquinas de arado, Rublo pôde novamente voltar a doar excedentes para Faris. Terrance não poderia estar mais feliz pelo que tinha feito pelo seu povo. A jornada de trabalho nacional havia baixado de nove para sete horas diárias, depois novamente para seis e, nesse quinto mês, cinco horas com a chegada das grandes máquinas de arar.

Terrance viajou uma segunda vez para Cédara, para renegociar a quantidade de navios com produtos: desta vez fechou o acordo em doze navios, mantendo um carregamento especialmente para ser doado para Faris. Era uma realização. Novamente, Terrance soube que Cédara estava quebrando outros acordos com Ivoire, Longinus e Faris, para dar preferência aos produtos de Rublo.

Um inverno mais rigoroso que o normal trouxe alguns dias de geada sobre todo o território e os cedarianos foram muito compreensivos, mandando mais fertilizantes alquímicos de ótima qualidade.

Quando terminou a geada, Terrance viu quase todas as lavouras enregeladas. A terra estava anormalmente crestada, como se estivesse sob toneladas de gelo. Os navios cedarianos vieram recolher os produtos e encontraram os portos vazios. Pressões diplomáticas levaram Terrance a pedir ao povo que levassem parte dos suprimentos de consumo interno aos portos, bem como toda a reserva, e houve escassez de alimentos pela primeira vez na história de Rublo após a independência.

Os aldeões descobriram que o solo havia se congelado em boa parte de Rublo, várias braças para dentro da terra. Era inútil continuar tentando cultivar ali.

No mês seguinte foi a mesma coisa. As reservas haviam ido, e agora as pessoas estavam tendo que consumir menos. Os barcos não voltaram cheios. Como resposta, Cédara não mandou o carregamento de fertilizantes nem as novas máquinas que ajudariam os aldeões com o problema do congelamento do solo.

Já havia parado de gear há muito.

Leitura: A História de Hepzibah, parte 1

Hepzibah era um meio-djin que vivia incógnito no Monte Marena, em Ivoire. As centenas de anos de sua existência lhe tomaram as memórias de seus pais e das circunstâncias de seu nascimento. Sabia de suas fraquezas e que tinha vindo a um mundo que pertencia aos humas, não a ele. Sabia, também, que a visão de seu rosto despertava o terror nos pardos ivoreanos, quisesse ele ou não. Hepzibah tinha força em seu sangue djin, e era muito maior do que as pessoas normais, diferente da maioria dos meio-djins que era fraca e de baixa estatura.

Hepzibah odiava viver como um animal acuado, mas não conhecia escolhas. Permitia-se abandonar seu covil apenas nas noites mais escuras para tomar ar puro. Muitas vezes ele sentiu que estava sendo observado, e muitas vezes ele foi observado sem perceber nada. Sem que soubesse, as pessoas dos povoados próximos começaram a falar sobre um fantasma vermelho que vagava no Monte Marena.

Uma noite foi acordado por um estrondo. Seu covil fora invadido por adeptos ivoreanos em grandes números. Ele sentira o impulso de matá-los com as garras, mas ao ver suas expressões de terror, procurou acalmar-se e falar a eles. Os ivoreanos ouviram grunhidos e palavras rasgadas na língua profana dos djins. A face do inimigo parecia se retorcer de ódio. Os soldados começaram a disparar no djin, que berrava por clemência enquanto o fogo do seu próprio sangue saía para consumir seu corpo. Os ivoreanos ouviam só ódio, só esperavam ouvir ódio e só ouviram ódio. Hepzibah caiu inconsciente e morreria em poucos minutos.

Os ivoreanos não permitiram que ele morresse, no entanto. Levaram-no para Biblos onde ele passou por todo tipo de crueldade, exposição pública e ridículo. Sangrou fogo milhares de vezes diante de observadores entretidos. Um dia, furaram seus dois olhos. Hepzibah nunca mais viu as faces de seus captores mas sentia seus toques podres, socos e golpes de espada aos quais seguiam jorros das chamas de suas veias. Vivia sendo carregado dentro de uma cela, amarrado e algemado. Tentou encerrar sua própria vida muitas vezes, todas sem sucesso.

Um dia, ele pediu a Maeve para que o levasse, que o sanasse daquela existência eterna de sofrimento. Cego, aleijado e inútil, ele não poderia continuar nem que escapasse.

No dia seguinte, ele ouviu que os ivoreanos estavam pretendendo se livrar dele, porque um novo ministro achava que a exibição pública daquelas crueldades estava manchando a reputação das cidades. Lhe prepararam um último número. Parecia que sempre se perguntavam como um garuda comeria um meio-djin pegando fogo.

Uma arena lotada para sua despedida. Hepzibah foi largado no chão de areia áspera e a ave foi libertada. Uma grade protegia os observadores encantados com o espetáculo que viria. Os ivoreanos pareciam se deliciar com a idéia de um representante do segundo povo sendo subjugado por eles. Tomavam aquilo como uma vitória da civilização huma. Não eram adeptos de combates de arena daquele tipo, mas era certamente um caso especial. Uma execução de um criminoso de luxo, cujo único crime foi existir. Grande parte da nata da aristocracia ivoreana estava reunida no dia, inclusive algumas crianças que imploravam aos seus pais para ir embora.

Feixes de nuvens negras começaram a aparecer no céu azul-escuro, junto com uma calmaria que vinha do leste com suas luzes mudas. Hepzibah, com grande esforço, põs-se de pé, aterrorizando o público com seus olhos inexistentes em brasa.

"Faça com que seja rápido, Maeve."

Um pouco de pureza.

Despertamos com sinos educados do lado de fora. A maioria das pessoas saiu com pressa, temendo estarem atrasadas ou descumprindo alguma regra, mas não foi este ao caso. Um encarregado da República, que parecia estar cumprindo aquele ofício durante toda sua vida, vestindo um gibão vermelho e um chapéu com uma única pena, nos explicou que deveríamos manter o orquidário saudável e que um carro viria semanalmente buscar nossa produção e nos trazer mantimentos de acordo com os nossos próprios rendimentos. Nos explicou que, se passássemos por problemas, haviam duas estradas que levavam à lavouras próximas onde poderiam nos ajudar, e que se o problema fosse relativo a conjurações, que haveria um adepto veruniano de Idun vagando entre as lavouras e o orquidário todo dia.

Disse que poderíamos cunhar nossas próprias regras de trabalho, mas que não poderíamos abandonar o lugar sem autorização expressa da capital. Que estaria permitido a um de nós acompanhar o carro para a cidade murada de Lothair a leste, para onde as orquídeas estariam dirigidas. Que deveríamos enviar as orquídeas amarradas em buquês de cinco, postas em vasilhas d'água.

As interrogações ainda não abandonaram minha mente.

Artigo: A Espada de Aventurina

Criada nas regiões centrais de Odenheim no século VII, esta é uma das armas mais versáteis e equilibradas que já vi, apesar de nunca ter conhecido sequer um espadachim que a dominasse completamente. Quando a demanda por carvão cresceu na capital e as florestas odenianas começaram a ser desmatadas para fornecer lenha, Maeve respondeu com um ataque cruel de conjurações que durou para muitos anos além do arrependimento dos odenianos. Mesmo depois das árvores restituídas, felpi e outras conjurações em bandos terríveis assolavam as noites em vilas pequenas, e os cavaleiros da capital não podiam estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Muitas armas foram tiradas de seus baús naquela época. Muitas ainda conservavam o vigor, seus metais ainda reluziam. Muitas estavam inúteis, quebradas, repletas de ferrugem, prontas para serem quebradas com uma só agadanhada terrível dos felpi. Dizem que a idéia partiu dos jovens de Aventurina, uma vila montanhesa cuja existência é quase uma lenda para a maior parte da população odeniana. Os garotos peregrinaram de forja em forja mostrando aos velhos uma espada longa e leve, que poderia manter os felpi afastados e perfurar através de sua pele com facilidade. Dia após dia, as novas espadas foram forjadas. Seu uso era simples – mantinha-se o felpi afastado o ameaçando com a ponta. Seguido ao bote, um golpe de perfuração com as duas mãos dava conta do recado. Golpes amplos de corte também eram usados quando os felpi faziam emboscadas – a arma era perfeita. Quando o problema terminou, os odenianos estavam próximos de um novo estilo formal de luta com espadas.

Infelizmente poucas delas sobreviveram às décadas e hoje poucos ferreiros ainda conhecem as medidas e métodos para sua construção. Alguns dedicam-se exclusivamente a criar novas espadas de Aventurina, talvez num esforço pra reviver o espírito de Odenheim de antes da passagem do Duque Negro pelo trono.

Beálaras para vidas novas.

Tudo veio bastante diferente do que eu imaginava. É tarde da noite e chegamos em um orquidário. Fomos instruídos a descansar da viagem em casinhas de adobe erguidas expedientemente há pouco tempo atrás. Por dentro elas eram lautas, porém confortáveis. Me entregaram, depois de um tempo, roupas de cama, toalhas, e travesseiros (de penas!). Passei uma noite invejável sentindo pela janela o aroma das beálaras, um tipo de orquídea invernal que só cresce nessas regiões. Conheceremos nosso novo ofício pela manhã. Imaginava que trataríamos de terras difíceis e de sobreviver por nossos próprios meios: o cultivo de flores ornamentais estava fora das minhas suposições para um país comunista sem relações comerciais amigáveis com outros países. Veremos.

Leitura: Um Pequeno Conto de Keshal de Lorena

Isso seria a testemunha de um garoto farisiense que observava ao longe, que crescera e se tornara um escritor de alguma reputação na área em que vivia, contando com palavras o que vira ao longo dos anos.

" Foi até onde seus joelhos feridos puderam lhe levar e caiu por terra, finalmente. Antes tivesse feito melhor uso de suas forças! Viu-se cercado, em tão pouco tempo. Se pudesse levantar, derrotaria todos e voltaria a andar na sua jornada impossível até Odenheim. Mas não – e as marcas da última batalha agora começavam a arder violentamente.

“Levanta, dragão, e nos dá a honra de um combate belo”.

As palavras saíam com dor. “Cale-se, Rudeger...”

Inclinou a cabeça e ergueu as sobrancelhas. “Ao que me parece, não estás em posição de falar mais das tuas insolências... ainda assim parece alimentar-te do ódio... és um soldado admirável, sir Keshal de Lorena. Devo repetir-lhe que teríamos uma vaga para alguém como tu nas nossas fileiras...? Ou és determinado e tolo a ponto de não me ouvir mais? Eu me pergunto...”

Keshal fechou a mão sobre o punho da grande espada.

“A tua é uma cruzada sem esperanças. E os melhores soldados sabem a hora de trocar bandeiras...”. Como que dominado por sua própria oratória, permitiu-se virar de costas e contemplar o luar. Keshal analisou a situação cuidadosamente. Àquela emboscada, sobreviveria. Levantou-se de sopetão, pondo-se de joelhos e depois em pé, e cambaleou para trás. Um soldado reagiu e seu golpe de lança resvalou na placa de bronze. Seu infortúnio veio na forma da espada em balanço, quebrando o cerco. Ainda uma vez, Keshal cambaleou para trás, pondo-se fora do destino certo.

Rudeger andou lentamente até o soldado caído, e os outros soldados, pegos de surpresa pela determinação do dragão, prepararam as armas e vieram em sua direção. “Gostaria que morresse, Keshal... és uma dor-de-cabeça tão grande... mas insiste em seguir tua sobrevida, tua existência miserável atravessando esse deserto.” O hierofante ajoelhou-se e cantou um milagre para o soldado derrotado.

Os outros avançaram e lutaram com Keshal brevemente. À beira da morte, o dragão pouco raciocinava além do necessário para direcionar seus golpes aos olhos e aos torsos. Seu espírito se agarrava com cada vez mais força ao seu corpo, enquanto sua armadura imponente era destruída e as lanças perfuravam seu corpo. Eram quatro contra um, mas logo um ivoreano viu-se sozinho contra o dragão de olhos frios e rosto manchado. O pânico tomou seu coração e a espada o atravessou. Keshal enterrou a lâmina no chão e escorou o corpo.

“Admirável... realmente admirável. Tomaste a vida de alguns dos nossos melhores. Gostaria de ficar para lutar contra um homem tão poderoso, mas tenho um apontamento de mais importância do que sua captura”, disse Rudeger com sinceridade. “Creio que vá ter de encontrá-lo algumas vezes mais, mas quantos homens serão necessários para que eu possa lhe ver no chão, Keshal?”

Keshal cuspiu no chão. “Venha de uma vez, Rudeger. Vamos acabar com isso!”

“Ah, não... sinceramente não é de meu desejo enfrentar-lhe agora, não nestas condições. Você parece-me muito abatido e doente, e não deve comer há dias, pobre homem. Mais algumas horas e você seguramente irá desmaiar, e então os mantídeos irão arrancar seus braços... não acredito que possa ainda lutar sem braços, concorda...? Para que fazer o trabalho da própria natureza? Olhe para você, desgraçado.”

Keshal gritou um palavrão, girou a espada no ar e enviou uma lâmina grossa de energia verde brilhante em direção ao hierofante, que a aparou com uma pequena mandala do cajado. “Teu esforço é inútil”. Rudeger desapareceu num pilar de energia torpe e nuclear. Keshal fincou a espada no chão e levantou com força. Retomou o passo. A batalha o dera forças mais uma vez, para seguir sua travessia infindável.

“O que não me mata me faz ainda mais forte”. "

Artigo: O Baixo-Éter

Ou baixio, ou marola, ou remanso, dependendo de quem você pergunta. Apesar da conotação infantil, esses termos descrevem um lugar relativamente perigoso apesar da aparência reticente. Após transcrever a redoma, uma capitânia 'cai' em uma espécie de caixa-de-areia etérica onde desliza sobre o sólido por algum tempo antes que o seu comandante possa recuperar altura e navegar com os motores. Antigamente, acreditava-se que só existia essa região ao redor de Natal, mas existe um baixio semelhante em Calibur (a Lâmina Branca) e outro no Gâm Flutuante, revelando que, possivelmente, o fenômeno geográfico do baixo-éter seja comum ao redor dos mundos.

Entrando no assunto que interessa. Esta região é perigosíssima porque é por ela que os aríetes etéricos deslizam antes de atingir a redoma. Além disso, existe uma espécie de força de empuxo que pode desorientar um barco que esteja navegando em ponto-morto. Sabe-se que os raios que ultrapassam a redoma também refletem-se com potência maior através do éter, e não foram poucas as capitânias atingidas por esses raios, sobretudo as que saem nas regiões próximas à Longinus e ao sul de Ivoire.

A partir do baixo-éter, durante a maior parte do tempo, é possível contemplar uma visão relativamente plácida do universo em que vivemos. Estações montadas em capitânias largas o suficiente são estacionadas nessas áreas para os pesquisadores erguerem suas lunetas atrás de novos mundos (desta forma foi descoberto Calibur). Quando o barco recupera altura e ganha o alto-éter, começam os influxos e as imagens (tratarei dessas mais tarde), as miragens, os maravilhamentos, e, infelizmente, chusmas de asteróides, raios e as porras das bogardinas, cegas e mortais.

Dificilmente uma viagem pelo éter poderia ser considerada prazeirosa. Não participei de uma única em que não tivessem havido acidentes e eventos inesperados, além dos muitos acidentes esperados. Não participei de uma única viagem em que, em dado momento, eu pudesse esperar chegar vivo no outro lugar.

Ofício difícil o de planinauta.

Artigo: Da Natureza da Redoma e do Portal dos Nimbos

Foi provado pelos astrônomos que a redoma degenera em 'olhos', rombos em formato de gemas arredondadas com pontas que fazem ângulos agudos. A degeneração inicial cria um 'olho marinho', uma rombo profundamente azul-escuro (como o que se espalhou sobre os céus de Hevelius após o meteoro). O olho marinho é nada mais do que um agouro; ainda há Petra Alva - a matéria divina que forma a redoma - em quantidade suficiente para bloquear as investidas do aríete etérico. Entretanto, uma mácula maior da Palavra Divina pode romper mais Petra Alva e transformar o olho pálido para uma degeneração secundária.

A degeneração secundária e mais profunda cria um 'olho monstruoso', que se espalha como tinta e tem uma coloração avermelhada (como o atual sobre os céus do Belvedere farisiense). Geralmente ocupa uma área muito maior, transformando o céu de uma área inteira em um degradê gigante. Neste nível, tempestades elétricas e catástrofes já são um pouco mais freqüentes à medida que quantidades relativamente pequenas de éter são absorvidas pela redoma e jogadas para dentro em forma de eletricidade.

A degeneração terciária, o 'olho pálido', é raríssima. Muitas vezes a redoma atravessa rapidamente este estágio (que indica uma película muito fina) para um buraco completo, uma 'arrebentação', causando uma inundação elétrica e mudanças no clima em escala mundial, bem como um reavivamento da Conjuração. O fenômeno da arrebentação redômica foi registrado cinco vezes na história, quatro vezes em Longinus e uma única vez em Ivoire, mas estima-se que tenha acontecido muitas outras vezes desde a habitação da terceira civilização e inúmeras vezes durante o apogeu do Segundo Povo, os djins.

Toda arrebentação cria uma reação redômica rapidíssima que evoca Petra Alva de várias partes do mundo para preencher o rombo, muitas vezes arrancando maiores quantidades de Petra Alva das partes mais distantes do rombo.

Infelizmente, está praticamente fora do controle dos homens a natureza da Petra Alva e da formação da redoma. Supõe-se que todos os estágios da formação e cristalização da redoma sejam de natureza divina, incompreensível para a ciência dos homens. Houveram tentativas de produzir Petra Alva em Ivoire em 344 D.F. e novamente em 510 D.F., a primeira resultando em uma catástrofe terrível, e a segunda obtendo uma parcela pequena de sucesso, porém secando permanentemente a terra ivoreana, tornando-a infértil para muitos tipos de vida vegetal, como se alguma espécie de quinta-essência houvesse sido arrancada da terra no processo. Os limites periféricos atuais de Faris também incluem um pouco desta terra seca ivoreana.

Odenheim, há quase meio-século e por influência de investidores cedarianos, investiu milhões de rúpias em uma frota de capitanias que, estacionados próximos ao limite do mundo, puderam estudar um raríssimo olho pálido estacionado próximo à altura do mar, no perímetro sudeste de Natal. Foi descoberto que capitanias poderiam atravessar o local com relativa facildade durante algumas épocas do ano, quando o olho pálido pode ser alcançado com a cheia das marés. Um pequeno número de capitânias pôde passar, muito lentamente, pelo olho pálido, sem estourar a película, mas o trânsito foi suspenso desde 722 D.F. por motivos de segurança. Estima-se que, se houver uma tempestade elétrica entrando em altitude tão baixa, os raios etéricos possam congelar um raio contínuo no mar, afundando uma estalagmite de gelo de quilômetros e causando catástrofes marítimas em todas as cidades portuárias, seguidas por uma queda considerável do nível do mar.

Este portal, chamado Portal dos Nimbos pela permanente névoa d'água erguida ao redor dele e pela fraca visibilidade, através da fumaça, dos obeliscos de pedra que delimitam o olho pálido, está interditado há muito tempo inclusive com relação ao trânsito paralelo de barcos pelo Cinturão; viajantes devem abandonar o Cinturão antes de passar pelo Portal ou entrar nele após seu comprimento. Este decreto odeniano vem instigando alguns poucos conflitos diplomáticos ao longo da história, já que muitos navios se avariam no processo de sair do Cinturão e depois voltar a ele. Alguns espertos ancoraram grandes barcos-oficinas próximos ao Portal, prontos a ajudar e cobrar os olhos da cara de todos que sofrerem acidentes de percurso.

Mudando convenientemente de assunto, vale explicar a terminologia 'aríete etérico'. Existe uma força constante de pressão que o éter exerce sob a redoma (que é, segundo os astrônomos, o motivo pelo qual ela é mantida em forma vagamente semi-esférica). Entretanto, por vezes o éter se avoluma em uma espécie de turbilhão grosso como uma tora, e investe, como se fosse senciente, contra a redoma. O golpe, quando é forte o suficiente, pode até penetrá-la em estado intacto, mas penetra mais facilmente redomas degeneradas com níveis a partir do secundário. A este golpe se dá o nome de 'aríete etérico', um fenômeno relativamente comum durante alguns meses do ano.

Artigo: As Mandalas

A maioria dos adeptos conhece uma prece simples, porém perigosa, que serve para convidar um Altíssimo à submissão. A maior parte dos Altíssimos pede testes de batalha e de fé, oferecendo combate ao adepto e aos seus prováveis aliados. Quando o Altíssimo considera-se derrotado e conclui que a humanidade merece seu poder, seu avantesma projeta com luz, pelos olhos, boca, peito ou de outra maneira, uma Mandala Prima no chão.

A Mandala Prima, então, deve ser construída, no mesmo lugar, com prata, feldspar, ferro, madeira nobre, ouro, aur ou outro material, sempre com exatidão de detalhes. Ali, também deverá ser construído um templo em honra do altíssimo. Só então, ele poderá oferecer seu poder em forma de milagres, e na forma brilhante do seu avantesma. A Mandala representa a consciência elevada do altíssimo e é a chave para seu controle. Portanto, um adepto pode usar-se de um altíssimo a partir do momento que conhece sua mandala (o que é um processo mais longo do que a maioria das pessoas supõe).

A invocação de milagres se dá com o uso figurado ou físico de variações mínimas na mandala do altíssimo. O repertório de milagres de cada um é supostamente ilimitado dentro de seu aspecto, mas para cada um existe um estudo escolástico definido e, apesar do poder do altíssimo beirar o infinito, a compreensão de um templo como um todo sobre ele define o limite de poder que seus adeptos podem alcançar.

Muitos milagres requerem Solo Consagrado. Eles, portanto, funcionarão apenas em um lugar onde esteja presente a sua mandala relativa, ou em um lugar que esteja cercado por ela. O adepto muitas vezes precisa cunhar a mandala do próprio punho neste caso, ou realizar o milagre dentro do templo.

A invocação do avantesma em si se dá com o talhamento da Mandala Prima com o máximo de perfeição possível (erros nesse processo podem irritar o avantesma) e com a prática dos ritos que o altíssimo exige.

Por motivos óbvios, muitas vezes adeptos que sejam abastados ou carismáticos o suficiente são seguidos por artistas iniciados na tradição sacra que, apesar de não terem passado pela Infusão, conhecem as formas das mandalas e podem as talhar para os adeptos.

A terra.

A terra. Senti aquele sentimento de casa em Rublo. Eu posso ter entendido com a mente que Odenheim se partiu em dois pedaços, mas meu espírito ainda não aceitou a idéia. Eu fui para um país estranho ao mesmo tempo que voltei para minha casa, vi meu povo, vi os céus de Odenheim. Aportamos próximos ao estreito na costa oeste, onde eu estive muitas vezes ainda jovem andando com meu bando de amigos em celados. Setenta anos atrás, talvez? Era um tempo, sem dúvida, melhor. Muita coisa que deixou o mundo pior ainda não tinha acontecido, e eu posso dizer isso de cima de tantos anos de vida porque posso mesmo. As pessoas hoje estão vivendo cento e dez, cento e vinte anos em média. Eu pretendo viver para completar um século e meio, se possível, e espero que a humanidade me surpreenda mais uma vez. Que surjam heróis, que surjam líderes, que surjam iluminados e filosofias que nos façam entender, de uma vez por todas, que competir com outras raças não tem muito a ver com viver melhor.

Estamos indo, numa condução quase improvisada puxada por celados velhos mas dignos, para nossas novas casas às beiras das plantações. As pessoas estão cheias de esperanças, falam e cantam alto, talvez para afastar velhos fantasmas. Comigo, eu apenas penso no que pode ser útil para grafar num livro, de preferência um que seja impresso cópias suficientes para ficar pra sempre. Pra sempre. Porque pouco sobra de um homem a não ser o que ele lega.

Artigo: Serretes

Uma grande ave, de plumagem púrpura nas asas e verde escura próximo às patas, com proeminentes garras em forma de meia-lua. Perigosa e agressiva, seus mergulhos em bando são conhecidos como uma das ameaças mais letais do Belvedere. Bandos de serretes atacam qualquer um que entre em seu território, que varia de acordo com a disponibilidade de caça. Eles se alimentam de pequenos répteis e de ovos de pássaros menores.

Serretes fazem espetáculos nos céus do Belvedere, brincando de fazer várias formas. O recomendado é manter-se longe. A forma mais fácil e mais imprudente de matar um serrete é golpeá-lo enquanto este mergulha. Se o golpe falhar, é provável que o serrete arranque fora o braço do infeliz. Meninas compromissadas são comparadas a eles nas cidades próximas: você pode olhar, mas não pode tocar.

A força do mergulho do serrete é prezada pelos dervixes, que já assistiram companheiros serem derrubados de encostas após receber o golpe no peito. Um ovo de serrete, pego no ninho, vale 400 rúpias nos mercados calcedonianos. Um serrete treinado colabora apenas com o seu dono e é extremamente tímido.

É incomum avistar serretes fora dos territórios do Belvedere, mas com a recente temporização (o processo de abertura da redoma e caos climático), eles vêm fugindo cada vez mais para áreas mais ao sul, causando o caos por onde têm passado. Curiosamente, os serretes fugitivos parecem ter formado um único bando coeso de mais de cem aves. É impressionante.

Artigo: Azdares

Tudo o que se diz sobre a natureza violenta e cruel dos azdares é mentira. Eu tenho experiência pessoal com todas as três raças que conhecemos e ao longo dos anos percebi que os azdares são sociáveis e gregários, além de extremamente úteis se estimulados das maneiras corretas. Os azdares se tornaram famosos no mundo inteiro por causa de seu uso como montaria para as Legiões Triunfantes de Meredith. Hoje desbancaremos este mito e mostraremos os azdares como eles são. Para este artigo tive ajuda do nobilíssimo Lorde Volos, ex-legionário e atual criador de coronas e diabos-verdes.

O corpo do azdar é semelhante a uma grande pipa, com prolongamentos visíveis nas asas e uma cauda chata e longa. A maioria dos azdares tem músculos aparentes e, muitas vezes, protusões ósseas visíveis através da pele - quando um azdar se fere, seus ossos crescem de maneira diferente para suprir a área maculada. A cabeça do azdar é como uma flâmula, um triângulo invertido com um vinco no meio, criando a ilusão de dois chifres em forma de V.

Existem três espécies de azdar: os coronas (Darzii coeur), os diabos-verdes (Darzii diablevert) e os alados-de-Axúria (Darzii axuriensis ou Darzii vulgaris), em ordem de raridade.

A má reputação dos azdares entre os cedarianos se deve possivelmente os alados-de-Axúria. De cor de granito e olhos verde-claros ou dourados, sua natureza é extremamente pacífica. Entretanto, o aroma da maioria dos compostos alquímicos (a poção Chiron inclusa) lhes excitam e muitas vezes eles se atiram violentamente contra o possuidor dos compostos na intenção de engolir os frascos inteiros. Abandonar os frascos raramente é uma opção; só serve para atrasar o azdar; ele pára para engolir os compostos e depois persegue o seu possuidor na intenção de conseguir mais.

Como o sangue dos alados-de-Axúria é um ingrediente alquímico útil na assimilação de alguns pós específicos, muitas vezes alquimistas cedarianos posicionam compostos distantes uns dos outros para cansar os azdares antes de atacá-los com virotes envenenados. Esta prática cruel vem sendo executada há bons vinte anos nas proximidades de Axúria. Existe uma lei proibindo o ato, mas, como muitas coisas em Cédara, não passa do papel pois na prática não há quase fiscalização e penas para os infratores.

Vale ressaltar que o vôo, apesar de ser a forma de locomoção natural dos azdares, os cansa rapidamente: para erguer seu corpo pesado eles precisam de muita energia. Após aproximadamente vinte minutos de vôo, são raros os azdares que conseguem prosseguir voando, sobretudo com um cavaleiro no lombo.

Enquanto os alados-de-Axúria são perigosos e agressivos quando excitados, os diabos-verdes são praticamente animais de gado. Enormes, passivos e reticentes, eles quase não têm capacidade de vôo. Os ovos das fêmeas são uma iguaria culinária cedariana; alguns criadores conseguem os raríssimos diabos-verdes machos (eles têm uma proporção de vinte fêmeas para um macho) e os tornam reprodutores. Além disso, os genes do diabo-verde são relativamente fracos; os filhotes híbridos de diabos-verdes com alados-de-Axúria, chamados 'jervís', são resistentes e relativamente domesticáveis, algumas poucas vezes podendo ser usados como animais de montaria.

Os diabos-verdes são encontrados, em estado selvagem, em pradarias amplas onde conseguem se alimentar de vegetais e pequenos animais silvestres. Passam a maior parte do tempo hibernando; saem para alimentar-se durante as enchentes da Lua dos Cetros (quando muitos animais ficam encurralados pelas armadilhas das chuvas). São pacíficos e nem um pouco teimosos.

Finalmente, os coronas têm coloração vermelha-escura, garras cor-de-ferro e olhos castanhos expressivos. São maiores e mais musculosos que os alados-de-Axúria, apesar de ainda serem menores que os diabos-verdes. Voam rápido e praticamente não sentem dor. Estimulados com alguns elixires alquímicos específicos pelos quais têm muito apetite, são extremamente obedientes e territoriais, lutando ao lado de um cavaleiro humano com grande efetividade.

A característica mais interessante dos coronas é a capacidade natural deles de produzir uma descarga elétrica pelas patas. Esta descarga não é usada ofensivamente por eles; são usados de uma maneira muito mais fantástica: eles podem reviver seus cavaleiros usando o choque diretamente contra seus tóraxes, mesmo através da armadura. As vidas de muitos legionários já foram salvas pelos coronas.

Diferente da maioria das conjurações, a natureza mística dos coronas os permite absorver com facilidade qualquer concoção destinada a humanos e obter dela efeitos muito parecidos, senão iguais. Seu metabolismo absorve mais facilmente os princípios ativos das poções, compensando pela sua massa, que é muito maior que a de um humano.

Artigo: A Espada Zweihander da Legião Triunfante

A gigantesca espada Zweihander, prodígio da forja industrial, pode ser considerada uma invenção do Duque Negro. Em seus devaneios, o terrível aristocrata imaginou cavaleiros com armaduras de placas montando bestas voadoras e brandindo espadas titânicas. O advento das Legiões Triunfantes, enquanto capricho, introduziu um sentimento novo nos corações dos ivoreanos: o terror. A visão da sombra de dezenas de azdares erguendo-se no horizonte, para depois cair sobre os batalhões, num ataque derradeiro e suicida, marcou todos que sobreviveram à Guerra da Ilha Sagrada.

Tratando-se de características físicas, a Zweihander é uma espada feita para matar, de preferência de uma maneira genocida. Com mais de dois metros de lâmina e um cabo de quase um metro, a espada favorece golpes muito amplos e, apesar de poder ser usada em solo, é muito mais efetiva no dorso de uma grande besta voadora como os azdares e os coronas. Oferecendo pouca ou nenhuma capacidade defensiva, ela não possui uma guarda (apesar dos tantos golpes sucessivos acabarem por talhar dentes no comprimento da lâmina). Sua ponta possui uma perfuração mortal para ser usada em carga, como uma lança de justa, mas seu golpe principal é o de balanço.

Poucos modelos diferentes desta espada foram manufaturados, mas é grande a capacidade de modifiação de uma espada deste tamanho. Ela pode ser novamente talhada para tornar-se praticamente qualquer coisa com relativa facilidade. A espada Zweihander também entrou no imaginário coletivo os odenianos como símbolo de heroísmo. Não faltam jovens que se dedicam ao manejo desmontado destas espadas, ou de réplicas dela.

A representante primária da espada zweihander é a Hauteclaire. Estas espadas foram as primeiras forjadas para os cavaleiros da legião triunfante. Os primeiros azdares não conseguiam levantar vôo portando cavaleiro e espada – seu peso, desequilíbrio e volume atrapalhavam o movimento das asas da besta. Naquela época originou-se o costume em que o cavaleiro levanta vôo sem a Zweihander, depois passa em rasante sobre uma torre ou um lugar alto, onde um escudeiro lhe espera com a espada erguida; então o cavaleiro toma a espada e parte para a guerra, na direção do horizonte. Esta espécie de ritual prosseguiu até mesmo depois que os azdares adquiriram maior força, com o desenvolvimento da criação dos filhotes e a descoberta da raça dos Coronas, azdares com escamas de tonalidade vermelha escura.